Renato Casimiro
Não lhes dou uma boa notícia se lhes asseguro que está em curso mais uma perversa e, talvez, definitiva ação contra a gráfica de literatura de cordel de Juazeiro do Norte, a Lira Nordestina. Ao atravessar diversas estações de sua via crucis, a Lira vem sofrendo enormes perdas, o que a levará, indubitavelmente, por tais manobras, à sua extinção. Os que se envolveram com a sua necessidade premente de existir como núcleo importante de nossa cultura, de algum modo, como os gestores da universidade, após o reitorado do prof. Teodoro, sabem muito bem como isto pode ser atingido facilmente. É algo como ler Maquiavel pelas madrugadas. Estou me propondo, nesse instante, a fazer uma breve reflexão sobre os destinos da Lira, se possível respeitoso e contundente, com o objetivo imediato e, dirão - pretensioso, de fazer alguma coisa que o futuro não me acuse de omissão. A Lira veio da família de José Bernardo da Silva e era uma empresa bem sucedida. Por muitos anos existiu com a fama de ser a maior e mais expressiva gráfica de folhetos deste país. Já não é pouca coisa. O Governo do Estado a comprou e a transferiu para o controle da Academia Brasileira de Cordel (ABC). Depois de algum tempo, mercê das pressões que foram exercidas pela comunidade, a Lira passou ao comando da universidade. No início, boas e auspiciosas ações, dando-lhe localização definitiva e acenando concretamente com algumas coisas fundamentais para a sua indigente sustentabilidade (minguadas verbas de custeio, um salário mínimo para um dos encarregados e algumas e modestas encomendas de folhetos e xilogravuras). Nada disso fazia jus ao papel relevante da Lira, depositária de uma produção de centenas de folhetos, um acervo importantíssimo, vindo de poetas que ainda viveram o século 19. Mesmo assim, a duras penas, a Lira continuou sendo o espaço legítimo da reunião e do trabalho de poetas e xilógrafos, aos montes. Nesses anos, entra administração, sai administração, cada uma ao seu estilo, a Lira figurou no discurso falacioso dos gestores, alguns com pose de intelectuais de ocasião, alguns beirando a mediocridade, pouco sabedores da valia do negócio. A Lira continuou, ainda que modestamente, editando poucos dos seus folhetos e algo mais que vinha dos novos valores e tendências da literatura de cordel na região. Nesse meio tempo, o valor maior da Lira, pela propriedade de clássicos da literatura, sofreu barbaramente com a apropriação indevida de seus títulos, impressos por quem desejou fazê-lo, sem ao menos se perguntar a quem, ou como um deles, que ainda pede licença à ABC. Agora, parece que estamos diante da famosa e derradeira pá de cal. Quem visita a Lira por estes dias vai sair de lá desolado. Nada do que por ali transita na sua administração tem o aval do bom senso. Escolheram, bem a propósito assim nos parece, um gerente que não se cansa de repetir que não gosta de cordel e não gosta de xilogravura. E, como tal, só se revela que está ocupando o local errado, a não ser que esteja definitivamente tomado por esta missão valiosa de interditar e inviabilizar, definitivamente, a Lira Nordestina. Descrente de que seria possível contar com alguma sensibilidade da instituição, mesmo assim conclamo, neste penúltimo sofrimento, a adesão de segmentos que ainda acreditam que a Lira pode continuar existindo para o fomento de parte expressiva de nossa cultura popular, sendo departamento imprescindível para o que a instituição ainda nem ousou iniciar. Mesmo reconhecendo a autonomia desta universidade, não é possível creditar-lhe qualquer confiança diante do que tem sido este testemunho de má vontade, de má fé e de falta de zelo para com um equipamento de tão grande importância. Mas, seguramente, este valor não é sentido pela administração, pois ele toca, especialmente, o nosso orgulho pessoal de gente caririense, por ter uma história rica através destes valores que foram construídos ao longo de muitos anos. Acho que todos entendemos que é da universidade a responsabilidade de inserir a Lira em seus programas de desenvolvimento cultural, muito antes que um sentimento menor a enquadre em duradouras e perniciosas questões paroquiais adormecidas. Como a questão é grave, e não devemos facilitar diante desta perversidade que se deseja perpetrar, apelamos para um gesto elevado da instituição, revelando-nos a sua verdadeira atitude com respeito aos planos de melhorias e a dinamização das suas ações, pois o Cariri ainda será um pouco menor se não puder contar com a Lira Nordestina na afirmação de seu universo cultural.
Artigo publicado na edição de 27 de maio de 2008 (ontem) do Jornal do Cariri.
Renato faz uma excelente análise da decadência da Lira Nordestina como negócio e como instituição cultural do cariri. Mas vai além: levanta a questão de como o Estado (através de sua Universidade) poderia interromper este curso. Pelo que escreve o papel da Universidade não foi e não é suficiente para tal. Onde estaria o problema? Ouso levantar algumas questões para contribuir com a boa ocasião criada pelo Renato.
ResponderExcluira) Na verdade não estaria a literatura de cordel como um todo entrando num gueto cultural e perdendo o peso relativo que tinha em relação a outras manifestações?
b) A cadeia de produção, formação de público (divulgação)e leitura não estaria comprometida com a própria modificação do comércio regional, principalmente das feiras que era o grande momento desta cadeia?
c) O perfil da URCA não parece ser o de negócio. Nem a própria unidade de engenharia de produção parece ter uma incubadora de empresas. Isso levanto pois a literaruta de cordel, a par de ser um bem intangivel da cultura regional, como gráfica era um negócio produtivo e comercial.
d) A URCA teria que desenvolver um programa completo de perfil universitário: 1) criação de pós-graduação, na graduação e outras modalidade de ensino da literatura de cordel; 2) criado programas de financiamento de pesquisa em literatura de cordel, sua cadeia cultural e sua subsistência como valor econômico; 3) criado uma atividade de extensão universitária para atrair empreendedores, artesãos e poetas de cordel para o negócio da gráfica e divugação da literatura, aí se usufruindo das pesquisas realizadas. Acrescento que nestas atividades de extensão estariam incluídas a formação de público, principalmente popular, através da busca de financiamento nos órgãos que atuam na região (Centro Cultural do BNB; SESC etc.)
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Renato faz uma excelente análise da decadência da Lira Nordestina como negócio e como instituição cultural do cariri. Mas vai além: levanta a questão de como o Estado (através de sua Universidade) poderia interromper este curso. Pelo que escreve o papel da Universidade não foi e não é suficiente para tal. Onde estaria o problema? Ouso levantar algumas questões para contribuir com a boa ocasião criada pelo Renato.
ResponderExcluira) Na verdade não estaria a literatura de cordel como um todo entrando num gueto cultural e perdendo o peso relativo que tinha em relação a outras manifestações?
b) A cadeia de produção, formação de público (divulgação)e leitura não estaria comprometida com a própria modificação do comércio regional, principalmente das feiras que era o grande momento desta cadeia?
c) O perfil da URCA não parece ser o de negócio. Nem a própria unidade de engenharia de produção parece ter uma incubadora de empresas. Isso levanto pois a literaruta de cordel, a par de ser um bem intangivel da cultura regional, como gráfica era um negócio produtivo e comercial.
d) A URCA teria que desenvolver um programa completo de perfil universitário: 1) criação de pós-graduação, na graduação e outras modalidade de ensino da literatura de cordel; 2) criado programas de financiamento de pesquisa em literatura de cordel, sua cadeia cultural e sua subsistência como valor econômico; 3) criado uma atividade de extensão universitária para atrair empreendedores, artesãos e poetas de cordel para o negócio da gráfica e divugação da literatura, aí se usufruindo das pesquisas realizadas. Acrescento que nestas atividades de extensão estariam incluídas a formação de público, principalmente popular, através da busca de financiamento nos órgãos que atuam na região (Centro Cultural do BNB; SESC etc.)
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