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segunda-feira, 21 de junho de 2010

Sociedade Violenta – Por Magali de Figueiredo Esmeraldo

A cidade de Fortaleza quanto mais cresce, mais violenta se torna. O medo toma conta das pessoas, principalmente quando o fato ocorre num lugar bem próximo de nós. Choca muito mais! Há alguns dias, na missa, o padre estava convocando a comunidade paroquial da Piedade para se reunir na praça que se localiza de frente para a igreja. Todos de branco, para rezarem pela paz, pois na semana passada, nessa mesma praça, um jovem foi baleado. Segundo depoimentos de pessoas que moram no bairro, foi vingança de um componente de outra gangue, porque esse jovem tinha atirado nele, no mesmo local, sem, contudo acertar.

São tantos problemas dessa nossa sociedade violenta: drogas, que é o mais grave dos problemas, desamor, exclusão social, famílias destruídas, violência doméstica, materialismo, acumulação de riquezas, falta de fé e muitos outros fatores que causam toda essa violência no mundo.

Antes a violência era mais nas grandes metrópoles. Entretanto hoje está impregnada até nas cidades pequenas. É um problema que atinge a todos nós. E cada um pode fazer a sua parte para reverter esse quadro. O Estado faz a dele, que é procurando diminuir as desigualdades sociais, dando melhores condições de vida para a população gerando empregos, combatendo as drogas, saúde, educação, moradia e tudo que for preciso para as pessoas viverem com dignidade.

Alguns grupos trabalham para promover a paz, na recuperação de drogados, como o “Desafio Jovem”, a “Comunidade Shalon” e outros. Tem grupos que atuam resgatando a dignidade dos moradores de rua, como “A Toca de Assis.” Tanto os grupos católicos, como os evangélicos ou de outras religiões desenvolvem ações sociais no combate a violência, e isso é que faz a diferença. São nesses atos de solidariedade que sentimos a presença de Deus impulsionando as pessoas a não cruzarem os braços diante dos problemas do mundo.

Na Paróquia da Piedade existe um grupo da Renovação Carismática da Igreja Católica, a “Comunidade Missionária Dom Bosco”, que faz um trabalho de prevenção às drogas, congregando muitos jovens. Estes participam de ministérios de música, de danças, peças teatrais e formação bíblica. Através dessas atividades eles ocupam o tempo, se evangelizam e divulgam o evangelho para outros jovens. Dessa forma eles não têm contato com drogas, nem bebida, nem qualquer vício. Outro trabalho bonito dessa paróquia, é o “Projeto Dom Bosco”, que se dedica às crianças carentes dando alimentação, reforço escolar, recreação, formação e evangelização.

O padre da Piedade tem razão em querer rezar pela paz, pois toda a mensagem e prática de Jesus são de amor e paz. Todos juntos devemos pedir a Deus pela paz, por essa sociedade que está muito afastada do Plano de Deus, que é um projeto onde existe amor, solidariedade, paz, fraternidade e justiça social.

A comunidade em que ocorreu esse fato ficou com medo. Essa situação levou o padre a tomar essa atitude de juntos rezarem pela paz. Foi um ato louvável, mas além dessas iniciativas outras devem ser tomadas por cada um de nós, para que o mundo tenha paz. Paz que não é somente a ausência de guerra, mas, sobretudo a presença do amor. Se no mundo as pessoas quisessem praticar mais a mensagem de Jesus, tudo seria melhor, pois o amor de Deus gera vida para todos. Imagine um mundo em que não exista guerra, nem fome, nem brigas, nem agressões a natureza. Um mundo onde possamos ter convivência fraterna, respeito, partilha e amor. Será Utopia? Podemos até imaginar que pelo menos poderia diminuir a violência se todos se unissem com essa finalidade.

Por Magali de Figueiredo Esmeraldo

Torcendo com o Inimigo – por Carlos Eduardo Esmeraldo

Futebol sempre desperta paixões. Desde 1958, quando o Brasil conquistou sua primeira Copa do Mundo, eu comecei a me interessar por esse esporte. A partir daí, acompanhava os jogos do Rio, São Paulo e Bahia pelas rádios. E imaginava o futebol deles como uma coisa irreal, sobrenatural até, bem diferente do que eu costumava ver no nosso campo do Esporte, na Rua Carolina Sucupira. Até os lances exibidos pelo Canal 100 no Cine-Moderno e Cassino nos davam a impressão de algo extraordinário.

Em 1964, em Salvador, o Ceará foi jogar contra o Bahia. Eu e meus primos resolvemos ir ao estádio e torcer pelo Ceará. Era a primeira vez que eu iria ver um jogo de futebol num grande estádio. A Fonte Nova me impressionou. Por fora se via apenas um muro bastante alto. Mas quando entramos, verificamos que estávamos na encosta de um alto e o campo de jogo era em baixo, circundado por uma enorme escadaria em forma de ferradura. Escolhemos um lugar onde havia sombra. Era no meio da torcida do Bahia. Quando nosso grupo se acomodou, imediatamente ouvimos um torcedor baiano gritar: “Esses bichos aí têm caras de cearenses e vão sair daqui debaixo de porrada.” Então um dos primos acalmou os baianos, dizendo que também torcíamos pelo Bahia e que não éramos cearenses coisa nenhuma. Uns dez minutos depois de iniciado o jogo, o Ceará já perdia por dois a zero, e com o coração dilacerado, tivemos de pular a cada gol dos baianos. Para mim, aquele jogo foi decepcionante. Não via nada diferente do joguinho que o nosso Anduiá, Enoque, Bebeto e Doce de Leite faziam pela seleção do Crato no campo do Esporte.

As nossas ações no meio da torcida baiana foram muito divertidas, apesar de sofridas. No segundo tempo, o Ceará voltou bem melhor e dominava claramente o jogo. Eu estava ao lado de um baiano e lhe disse: “O nosso time está muito acovardado, acho que eu vou torcer pelo Ceará!” “E eu também!” Respondeu o baiano, sem muita convicção. Nesse momento, Gildo marca um belo gol para o Ceará. Um dos primos pulou para comemorar, quando eu o puxei pelo braço sufocando o seu grito de “gôôôôl... que começava a dar. Então, ele se lembrou de onde estava e das promessas dos baianos. Depois da minha advertência, balançou os braços para o alto, em sinal de protesto e lavando a alma soltou um sonoro palavrão que substituiu o grito de “gôôô... para o pôôôô....a.”

Depois dessa, esperei nunca mais ir ver jogo no meio das torcidas adversárias. Mas passados quinze anos, eu e Magali chegamos ao Rio de Janeiro, num sábado à noite. Na recepção do hotel, um carioca muito animado, nos disse: “Amanhã tem Flamengo e Vasco no Maracanã. Se quiserem ir, temos os ingressos e ônibus na porta do hotel”. Recusei, pois gostaria de passar a manhã visitando os pontos turísticos do Rio. Fomos ao Maracanã num taxi e chegamos quase na hora do jogo, compramos ingresso para as cadeiras. Não havia mais nenhum lugar disponível. Ficamos nos degraus, onde já havia muita gente acomodada. Na cadeira ao lado, um senhor, educadamente, cedeu seu lugar a Magali e, sentou-se no cimento da escadaria ao meu lado. Era um torcedor do Flamengo. No meu imaginário de vascaíno, jamais poderia esperar uma atitude tão educada quanto aquela partindo de um torcedor do “urubu”. Olhei ao redor e só via torcedores com a camisa rubro-negra. Época do Zico, e um monte de estrelas que faziam do Flamengo um time invencível. Com poucos minutos de jogo, o Flamengo fez três gols e eu sofria com a derrota do meu Vasco, abraçando o amigo flamenguista, a cada gol. Era uma espinhada muito profunda no meu coração vascaíno. No segundo tempo, ocorreu o mesmo daquele jogo da Bahia. O Vasco começou a reagir, fez um e dois gols e estava já para empatar, quando o Flamengo fez o quarto gol. Eu fazia tudo para não desgostar aquele novo amigo carioca e flamenguista. Quando o jogo terminou, eu o abracei e agradeci. E ele, muito brincalhão, como todo carioca, disse: “É, mas eu notei que você é vascaíno. Se eu tivesse adivinhado antes, não teria dado meu lugar à sua mulher.”

Por Carlos Eduardo Esmeraldo

Pensamento para o Dia 21/06/2010


“Mesmo o oceano sem limites pode ser bebido com facilidade por alguém. Enormes montanhas podem ser arrancadas da face da terra com grande facilidade. As chamas de um enorme incêndio podem ser contidas com grande facilidade. Mas controlar a mente é muito mais difícil que todas essas coisas. Portanto, se alguém tem êxito em subjugar a mente, alcança a consciência da alma. Esse sucesso só pode surgir quando se sofrem muitas provações e negações. A bem-aventurança, que é o resultado desse esforço, é o mais elevado tipo de felicidade.”
Sathya Sai Baba

UM ATO DE AMOR AO CRATO - Por Jorge Carvalho

Olá, Crato, minha terra, meu berço, amanheceste mais linda, mais charmosa, mais sorridente. Uma beleza. Crato da Rua da Vala, mecânicos a trabalhar..., Rua da Laranjeira, Rabo da Gata, Beco do Padre Lauro, Rua Grande, Beco do Cachimbo, Travessa da Califórnia, Rua do Fogo, Rua Formosa, Nelson Alencar, Rua da Saudade.

Infância no Alto da Penha, de onde avistava toda a cidade, naquele tempo pequenina. Adolescência na Nelson Alencar - Rua da Saudade.

Crato da pioneira: Radio Araripe - ZYH 20 - A voz do Cariri. “Campo do Esporte”, “Mercado Redondo”, Quadra Bi-Centenário - Festivais da Canção, o Votoran, a Drasa, a AABB, Crato Tênis Clube, a “Grota”: Zé Murrinha, Seu Leandro...

Barro Vermelho! Oh! Igrejinha da São Francisco... Chico Viana! E o “Gesso”? Homens, mulheres, orgias, ilusões, fantasias... Maria Alice, Glorinha, Manezim... Chico Curto na bateria... Cantina 1.100, Gurilândia, Elói, Algo Mais, Pau-do-Guarda, Cilué, Igrejinha de São Miguel: Padre Frederico, João do Crato, São Pedro do SESI, a bandinha comandada pelo “maestro” Correinha, Véi do Caldo... Brejo do Brigadeiro. Grande e populoso bairro da Vila Alta. Ah! Chico “Boa Sorte” A matança: Zé de Matos, Luiz Matos, Colégio Sagrada Família, Recreio, Bairro Batateiras: Dona Edite e o coco, quanta descontração nessas bravas mulheres. Nossa Senhora Aparecida. Antigo Colégio Agrícola: Meu pai, Zé Lúcio, Carlos Alencar, Tio Osvaldo, Doutor Hermano Teles, Vicente de Maroca... Seminário. Ah! Como cresceu... Cacimbas, Misericórdia, Conjunto Novo Crato... Tu abençoas, tu velas, tu observas silenciosamente do teu alto toda a cidade na benção do teu padroeiro São José. E tuas procissões... quanta gente, quanta beleza... Ladeiras de vinda e ida de teus moradores, trabalhadores, trabalhadoras que fazem a cidade “viver” dia-a-dia com o suor do seu trabalho. Vocês desevolvem o meu Crato, Cratinho de luta.

Rua Pedro Segundo... Ah! Pedro Segundo? Não! “Pedra Lavrada”, Almir Carvalho, símbolo maior de boa gente cratense. Boêmio, carismático, desportista... Olha o rebelde aí, gente! Beco de Padre Lauro: Beco da Mijada... O simbólico e aromático pezinho de Sapoti... Cine Moderno: José Petrola, Dezim, Macário... Cine Educadora.

Osvaldo, Raimundo Siebra, Antônio Berredo, Cassino: Seu Mário, Antônio Siebra, Otacílio, o Café Crato: Seu Orestes, Thomaz Osterne, Ernani Silva, Brigadeiro Macedo, Luiz Barreto, Tália Márcia, Zé Nilo, Alagoano, Doutor Leônidas, Gutemberg Sobreira, Valtim – o prefeito – Alcides – seu irmão – Zé Landim, Valdir Leite, Zé Valdevino, Antônio Luiz, Júlio Saraiva, Zé Horácio, Pedro Felício, Abidoral, Moacir Dantas, Espedito Dantas, Zeba, Zabé, Virginia, Colo, Dr. Ribamar, Zé Maia, Dedé de Zeba, Bandinha Rosa Guedes, Correinha, o jeep de Maru, Luis Sarmento, Chico Soares, a festa do Bi-Centenário, Os Extras, Musisom, Ases do Ritmo, Bar Ideal, Seu Deodoro, Mazinho, “espinhos e rosas” com eles... Juca e Jeremias, Bazar de Músicas – uma festa em cada lar caririense – Maestro Azul, Jornalista Huberto Cabral, a humanidade de Humberto Macário.

Doutor Maurício Teles, Doutor Macário, Doutor Gesteira, Casa Eurico, Farmácia Teodorico, Cloves Carvalho, Mestre Lucas, Jorge Lucas, Mercearia Beija-Flor, Waldemar Garcia, Salviano Saraiva, Anduiá, Tico de Binda, Prefeito Ariovaldo Carvalho, Prefeito Alexandre Arraes, Seu Teunas, Miguel Soares, Luis Soares, Geraldo Maia, Dr. Raimundo Bezerra, Dr. Jósio Araripe, Mons. Rocha – consultório da família – “Organic Publicidade”, Revista Região, o Circo Nerino, o Café de João Gualberto, Misael, Zé Maia – eterno carnavalesco – a 1ª Feira de Amostras, retretas da Banda de Música, as lapinhas do Natal, o GRUTAC com seus espetáculos teatrais... Coronel Filemon – tio Filé –, Menandro, Mais ou Menos, Sá Barreto, as serestas na Praça da Sé, o Bar Central de Zé Eurico, Dr. Rolim, J. de Figueiredo Filho, Dr. Nelson, do hospital, Dona Ceicinha, Enfermeira Bernadete, Salvina Lucena, Vanda Lúcia – Miss Ceará – a Casa Abraão e seu “queima”, Zé Bedeu, a Babilônia e o Artigo da Semana... Pimenta: Juarez Caçula, Crato Tênis Clube... teus carnavais, como esquecê-los? Nunca! Lameiro – Seu Nelson e os engenheiros de rapadura adoçando a cidade. Caixa d’água: Marcelo Piancó, Chave de Fenda, Casé, São Sebastião – Realmente é o Alto da Alegria: Unidos de São Sebastião. Alto da Penha: Operários do Samba; realmente és uma população operária, uma gente trabalhadora. E o Vasco? O mais antigo em atividade no nosso futebol. Luisim, Dola, Dunga, Menoca, Pedim, Ticola, Esmeraldo, Francisco Maguim: Desportista com “D” maiúsculo. Campo do Cariri: Chico Curto, Pirrol, Peba, Sibito, Pangaré, Frutapão – campo, também do Sport. Bar Social: Seu Chiquim, Praça Cristo Rei, Estação Ferroviária: quanta saudade, quanta recordação! Praça da Sé: Bar do Alagoano: sem comentário. Uma Pérola de Saudade, uma relíquia do Crato, cidade alegre, Crato boêmio, Crato moleque. Os leilões de N. Sra. da Penha, Monsenhor Rubens: carisma sem igual. Um líder. A Feira da Rapadura, Feira da Farinha... O carro de Pedro Maia, a criatividade de Elói com a “Festa da casa grande”, Rádio Educadora do Cariri. Vicelmo. Ah! Hoje é sábado, dia da besteira... é o próprio cratense boa vida, “malandro”, brincalhão, divertido... quem já não se acostumou a ouvir: “Aqui, Rádio Educadora do Cariri... e, Crato 12 horas e 30 minutos”... Doutor Gesteira, Pedro Maia, Sorriso, Chupetinha, Antoin Cornim, Capela, Joquinha, Canena, Maria Caboré, Célio Silva, Baixeirinha, Tandô, Feira da Rapadura, o Rebelde, o Penarol, o Satélite – alô Netinho – o Sport, o Palmeiras: Seu Osmar, Elói, Chapeado Noventa, Zé Gato – O poeta maior – Nascente, Grangeiro, Serrano, Itaytera, Poço da Escada, Boate Colibri, Café Crato, Praça São Vicente, Posto Crato, Posto Ceará, Chico da Cascata, Zé Pajé, Padre Ágio.

Crato: aqui nasci, aqui vivo. Solo em que piso dia-a-dia, água que bebo de tuas fontes serranas, ruas por onde passo em tuas noites enluaradas, boêmias, saudosas, eternas. Crato: eu te amo!

Prof. Jorge Carvalho

domingo, 20 de junho de 2010

A revelação de uma outra realidade

Antonio Gonçalves Filho - O Estado de S.Paulo

Retratos Pintados, de Titus Riedl e Martin Parr, recupera a ameaçada arte dos bonequeiros do Nordeste do País, que transformam o negativo da vida de pessoas simples em imagens que as ajudam a suportar a própria história

Família. Crianças em fotorretratos, no Ceará: relação entre vivos e mortos. Foto: reprodução

Foi preciso que um sociólogo alemão e um fotógrafo inglês cruzassem seus caminhos no sopé da chapada do Araripe - mais exatamente no município cearense de Crato - para que saíssem desse encontro com um livro curioso sobre o universo estético do sertanejo nordestino. Titus Riedl, autor de uma tese sobre fotorretratos pintados - tão populares no interior do País -, conheceu Martin Parr durante um fórum latino-americano de fotografia realizado há três anos em Crato. Sabendo da importância do fotógrafo, representado pela agência Magnum, Riedl, que há 15 anos mora na microrregião do Cariri, apresentou a Parr uma série de fotografias pintadas que deixaram o profissional esfuziante. Compreensível: Parr é um fotógrafo que acompanha com particular interesse a estética dos países emergentes - é dele o livro Luxury, que documenta o gosto duvidoso dos novos-ricos do mundo globalizado, tema de sua primeira exposição individual na Galeria de Babel, que o representa, em São Paulo, em outubro próximo.

Antes, na próxima quarta-feira, Martin Parr, atualmente peregrinando por Cingapura, abre uma exposição na Yossi Milo Gallery de Nova York e lança o livro sobre "bonequeiros" nordestinos, Retratos Pintados (Nazraeli Press, capa dura, 68 páginas e 61 fotos). Ele diz, que mesmo familiarizado com a fotografia vernacular, nunca havia sentido o que sentiu ao ver as imagens da coleção de Titus Riedl, reunidas para uma tese de mestrado defendida há 12 anos pelo sociólogo. Há, de fato, poucos estudos acadêmicos ? um deles da socióloga Cristiane de Souza ? sobre o ofício dos "bonequeiros" ou "puxadores" de telas, aqueles vendedores ambulantes que saem pelo interior do Brasil convencendo viúvas a colorizar antigas fotos do marido morto ou mães de natimortos a guardar a última imagem do anjinho no caixão (alguns retocados com olhos bem abertos para que essa lembrança fique menos mórbida).

Representantes de um ofício em extinção após o advento do photoshop - capaz de "milagres" como reunir com perfeição pessoas vivas e mortas numa mesma foto ?, os bonequeiros desempenharam no passado o mesmo papel dessa ferramenta digital. De que maneira? Ora registrando numa mesma imagem o improvável encontro do padre Cícero com seu sucessor frei Damião, ora retocando defeitos físicos dos retratados ou simplesmente incorporando elementos de prestígio social aos deserdados sociais - são comuns as fotos em que um sertanejo sem recursos aparece vestido como um executivo ou coberto de joias. Também não são raras as imagens de mulheres solteironas vestidas de noiva.

Desafio profissional. Apenas um décimo das fotos recolhidas por Titus Riedl durante todos estes anos de estudo entrou no livro de Parr. As que mais impressionam, sem dúvida, são as que transformam defuntos em seres vivos de olhos arregalados. Elas, porém, não causam espanto aos "puxadores de tela". Segundo Riedl, os pintores que retocam as fotos parecem gostar da ideia de ressuscitar o morto, desafio profissional que coloca em jogo sua habilidade e versatilidade artística. Mal comparando, eles usam a mesma estratégia do badalado fotógrafo norte-americano Joel-Peter Witkin, que, por inveja do irmão gêmeo pintor, Jerome, monta naturezas-mortas com corpos de indigentes dissecados em faculdades de medicina ? ele chegou a transformar a cabeça de um deles num bizarro vaso de flores.

Os bonequeiros nordestinos não chegam a ser desrespeitosos como Witkin, cujo fascínio mórbido pela deformação física já o levou ao extremo de montagens quase teatrais com mutilados. No caso dos fotorretratos brasileiros prevalece um sentimento ingênuo: os bonequeiros apenas seguem as orientações dos clientes. "Na zona rural, as imagens fotográficas ainda são escassas e, como último recurso para manter viva a lembrança do morto, os familiares recorrem às vezes a um retrato apagado ou desgastado do falecido, que tem de ser concluído pelo bonequeiro", conta Riedl. Ele cita o caso de uma viúva que pediu para ser retratada ao lado do marido, cuja única foto remanescente era a de sua carteira de trabalho. O resultado foi a reunião artificial ? e engraçada ? de uma senhora de 80 anos com um homem de 40 que bem poderia ser seu filho.

As técnicas de retoque da imagem fotográfica e da pintura sobre fotografia não começaram, obviamente, com os puxadores de tela nordestino. Elas existem desde meados do século 19, mas o pintor-retocador, segundo Riedl, "tornou-se uma peça fundamental para dar verossimilhança ao retrato em preto e branco", demasiadamente triste para os sertanejos que vivem num cenário agreste e tentam superar sua miséria com a euforia cromática garantida por essas pinturas de cores berrantes ? vivas como as fachadas e platibandas das casinhas do Nordeste, tão bem retratadas nas fotos de Anna Mariani (em exposição no Instituto Moreira Salles de São Paulo). Sua função estética tampouco é diferente: trata-se de ornamentação. A exemplo das fachadas e platibandas enfeitadas, encaradas como "pinturas" pelo nordestino, o fotorretrato acaba sendo às vezes o único objeto de decoração no interior despojado dessas pequenas casas sem eira nem beira castigadas pelo sol.

A diferença é que o encontro visual de Martin Parr com o sertão não passou, como no caso de Anna Mariani, por Euclides da Cunha e Ariano Suassuna. O approach do inglês não é literário e muito menos sentimental ? Parr é irônico demais para isso -, mas antropológico. Se as fachadas pintadas a cal pigmentada das moradas nordestinas fizeram parte da infância da fotógrafa brasileira, Parr só recentemente conheceu o Crato. "Os fotorretratos constituem uma maneira de garantir status aos membros da família de sertanejos, dando a eles um aspecto santificado, icônico", arrisca Parr. Os bonequeiros serviriam como agentes do sonho brasileiro, ao concretizar em imagem o delírio de ascensão social dos nordestinos, garantido por roupas caras e joias a que os modelos dos retratos pintados jamais teriam acesso.

Retoque. Hoje, essa verossimilhança é garantida pelo photoshop. Riedl apresentou a Martin Parr um bonequeiro, Júlio de Santos, que antes mantinha uma oficina com uma dúzia de pintores e hoje usa um computador para "retocar" a realidade nordestina. Instalado em Fortaleza, ele mantém - agora sem assistentes - a tradição de recuperar originais desgastados pelo tempo e embelezar os modelos , inclusive o próprio Martin Parr, que ganhou de presente seu retrato, deliciando-se com a fotografia vernacular do mestre-pintor.

Sobre essa função, o sociólogo Titus Riedl não recua ao comparar a arte dos bonequeiros nordestinos à criação dos artistas pop que retrabalharam retratos de celebridades, dos quais o mais famoso foi o norte-americano Andy Warhol (1928-1997). O nome da brasileira Rosângela Rennó, que vai participar da próxima Bienal, pode ser igualmente evocado não só por seguir a escola da recriação fotográfica como por ter sido pioneira na valorização do trabalho dos bonequeiros nordestinos, reconhecendo-o como pintura. "Como os clientes às vezes pedem para o bonequeiro tirar as sombras da fotografia, ocorre que o resultado acaba beirando o hiper-realismo", observa Riedl, concluindo que os rostos assumem com frequência o aspecto de uma máscara do belga James Ensor (1860-1949) ou de uma caricatura do alemão Otto Dix (1891-1969).

´Talvez seja conveniente não esquecer que Dix, um dos expoentes da pintura expressionista germânica, usou fotografias de soldados desfigurados nas trincheiras da 1.ª Guerra como modelos de sua pinturas antibélicas. Dix era um ótimo retratista, mas preferiu reduzir seu mundo à caricatura justamente por acreditar que a realidade - de tão horrível - é inimitável. Ensor não foi muito diferente. Transformou bípedes racionais em bandos de esqueletos ambulantes, portadores de bizarras máscaras carnavalescas. Involuntariamente, os bonequeiros nordestinos acabam fazendo parte dessa turma de expressionistas, embora agindo na contramão. Explicando: eles não fazem crítica social. Ao contrário, tentam atrair o freguês com promessas de um mundo melhor, em que uma cara feia pode virar um rosto aceitável e defuntos caminham como Lázaros pelo sertão.

"Há frequentemente entre o bonequeiro e o cliente um jogo dissimulado de sedução, em que o primeiro tenta sugerir alterações em fotos mostradas pelo segundo, indicando mudanças de estilo nas roupas, cores e adereços", observa Riedl, contando casos engraçados de espertos fotorretratistas que viajaram pelos grotões afastados em busca do lucro fácil. "Nesses lugares eles ganham até mais que nas regiões próximas das cidades, pois podem ficar hospedados de graça e comer na casa do cliente, ampliando a oferta de produtos além das fotos, como quadros de santos, etc." É como eles sobrevivem em tempos de laboratórios que revelam filmes em uma hora e fazem retoques digitalizados. Nem sempre um bonequeiro, lembra Riedl, tem conhecimento qualificado da técnica fotográfica ou de pintura, o que explica os erros frequentes nas proporções, nos contrastes e na composição da imagem.

Quietude. Imagem da garota ao lado do vaso foi colorizada por Riedl. Foto: Reprodução

Idiomas. De certo modo, foi isso o que atraiu o olhar de Martin Parr, atento para essas distorções que acabam dando à fotografia um aspecto mais pictórico. Vale frisar que o grande mestre contemporâneo da pintura hiper-realista, o alemão Gerhard Richter, chega ao outro extremo partindo também de fotos. Ele "aperfeiçoa" a realidade, fazendo com que a retórica da pintura, antes avessa ao idioma da fotografia, se confunda de tal modo com ele que o espectador seja incapaz de dizer onde começa uma tela e acaba uma foto. Nessa oblíqua referência à mídia fotográfica, Richter questiona a "veracidade" da imagem fotográfica.

Richter começou a trabalhar com imagens fotográficas nos anos 1960, usando antigos retratos e paisagens de amadores, distorcidos por largas pinceladas que eliminavam seu foco. Parece evidente nesses primeiros trabalhos a influência de artistas pop como Andy Warhol e Lichtenstein, que operavam no mesmo registro, alterando rostos ou ambientes. Richter, porém, foi além da estética pictórica pós-conceitual. Sua atitude negativa diante do objeto fotográfico tem a ver com a desconfiança numa imagem banal que só se torna interessante por meio do olhar do artista ? o que justamente chama a atenção quando se vê o trabalho de um bonequeiro tentando "mudar" o que lhe parece errado ou desagradável na realidade. Imagens banais possibilitam a Richter que ele se concentre no problema da representação ? seu grande tema ?, no lugar de se ocupar do conteúdo da obra. Exemplo disso é sua série 48 retratos (1971-72), que, aparentemente, busca a semelhança entre o modelo real e o pintado. Para Richter, este é justamente o aspecto que menos importa em sua pintura. A arte, para ele, perdeu essa função mimética, fazendo justamente com que aumente a distância entre o modelo concreto e sua reprodução. Venceu o simulacro, como nos fotorretratos pintados dos bonequeiros nordestinos.

Como eles usam fotos antigas, dos tempos em que os recursos para ampliação e revelação eram precários, os fotorretratos acabam se parecendo mais com o modelo que esses profissionais imaginam do que com o real. Os clientes, por vezes insatisfeitos, reclamam da falta de verossimilhança. Em Juazeiro do Norte, o sociólogo Titus Riedl encontrou uma verdadeira empresa familiar comanda pelo pintor Abdon, ele mesmo especializado em retocar rostos e cabelos. O resto do corpo ele deixa para um ajudante, o filho e o sobrinho. Abdon gosta de cores fortes e usa cola brilhante para "realçar" os traços dos fregueses. Os bonequeiros concorrentes não gostam. Dizem que seus retratos apenas mantêm leve semelhança com os originais. No entanto, ele é rápido e entrega os retratos dentro do prazo combinado, coisa seriíssima no Nordeste. Riedl já ouviu de um mestre pintor que foi obrigado a concluir um trabalho atrasado sob ameaças de morte. E morte é outro negócio sério na região. Mas já foi mais. Os bonequeiros hoje recebem poucas encomendas para transformar retratos de defuntos em vivos.

Sem rugas. As encomendas mais frequentes são de natureza cosmética. Os clientes pedem para embelezar a imagem dos parentes, nem sempre favorecidos pela natureza. Segundo Riedl, os bonequeiros devem seguir algumas regras para corresponder aos seus padrões estéticos, especialmente dos fregueses idosos: tirar todas as rugas do rosto; nunca pintar de branco os cabelos; evitar sombras, pois elas dão ao retratado um aspecto sinistro; "ajeitar" roupas que pareçam exageradamente sensuais. Outras regras: as crianças devem se parecer com o Menino Jesus dos folhetos distribuídos nas missas; mulheres devem usar blusas monocromáticas ou estampas de flores e homens, invariavelmente, devem aparecer de terno e gravata. Os bonequeiros mais experientes, conta Riedl, "sabem explorar melhor os desejos dos seus clientes", permitindo-se sugestões baseadas na simples observação do gosto do freguês.

Martin Parr diz que as delícias dessa fotografia vernacular são mais apreciadas hoje do que eram no passado exatamente por sua simplicidade de propósito. A esse respeito, Titus Riedl lembra que as fotopinturas são populares não só no Brasil como em países de cultura germânica, que desde o século 19 utilizam a técnica para preservar a memória familiar, sobretudo em lugares onde a tradição da autoridade é rigorosamente respeitada. "Os bonequeiros sabem disso e hoje buscam seus clientes em lugares de romaria." O cineasta cearense Joe Pimentel realizou há três anos o documentário Câmera Viajante, que retrata o trabalho dos fotógrafos populares atuantes em festas, feiras e romarias do interior nordestino.

Num balanço final, o sociólogo Titus Riedl avalia: "O livro de Parr é mais irônico, enquanto minha fundamentação é antropológica." Em sua opinião, os bonequeiros nordestinos não têm a ambição artística que a publicação pode eventualmente sugerir ao olhar estrangeiro, mas o livro, segundo ele, deve ajudar na revalorização de uma arte hoje ameaçada de extinção.

Desde que o francês Louis Arthur Ducos du Hauron (1837-1920) colorizou a primeira paisagem, em 1877, muita água rolou no Cariri. Mesmo tendo chegado com certo atraso ao sertão nordestino, a fotografia colorizada ganhou a adesão de artistas intuitivos. Eles nunca ouviram falar da Bauhaus e ainda assim criaram platibandas com lindas formas geométricas. Também não sabem quem foi Cartier-Bresson, mas reinventaram rostos com indiscutível talento. Pode ser que seus fotorretratos não sejam considerados arte, mas eles constituem documentos preciosos de interpretação da realidade nordestina. Em todo o caso, também os críticos estrangeiros terão um prazo de quatro meses para descobrir o que Riedl e Parr já descobriram. A exposição Retratos Pintados na Yossi Milo de Nova York, com 150 retratos originais, fica em cartaz até dia 18 de setembro.

Fonte: Jornal O Estado de S. Paulo

Nota de falecimento

Faleceu ontem em Fortaleza, Clailson Alves Paiva. O sepultamento ocorrerá hoje, 19 de julho, às 18 horas no cemitério Nossa Senhora da Piedade, em Crato, onde o corpo será velado a partir das 15 horas.

sábado, 19 de junho de 2010

Coisas da caserna – Por Carlos Eduardo Esmeraldo

O Tiro de Guerra, como todos sabem, é uma unidade do Exército Brasileiro instalada em algumas cidades do interior, com a cooperação das prefeituras. Tem como objetivo a formação de reservistas para a defesa do território nacional. Essa unidade atende à instrução militar dos nossos jovens, conciliando a formação com o estudo e o trabalho. Sobre o TG já ouvi muitos “causos” interessantes.

Havia no TG 205 do Crato um atirador conhecido por Janjão da Mata, um jovem da nossa zona rural, muito desinibido e brincalhão. Apesar de completamente analfabeto, Janjão demonstrava ser bastante vivo. Uma turma do Colégio Diocesano ao perceber a inteligência e espontaneidade desse jovem, colocava em sua boca muitas coisas engraçadas para quebrar a dureza do preparo físico e das constantes broncas do sargento. Aos dias de domingo, a jornada era maior e, os atiradores eram obrigados a percorrem em marcha uma distância mínima de vinte quilômetros. Entretanto, o sargento instrutor normalmente não observava tal requisito. Próximo do final do ano era realizada uma correição pelo comando da 10a Região Militar. Então o sargento instruiu a turma: “Se o coronel perguntar a vocês quantos quilômetros vocês marcham por semana, vocês respondam: vinte.” Alguém ao lado do nosso Janjão soprou em seu ouvido. E ele imediatamente interrompeu o instrutor: “Sargento, nós num vai dizer isso não!” “Por que, posso saber?” Perguntou-lhe o sargento. E Janjão emendou: “O senhor disse que nós num deve mentir.” A essa insinuação, o sargento não perdeu tempo: “Muito bem TG, em forma! Vamos agora marchar até a Ponta da Serra e voltar de lá correndo!” E Janjão não perdeu tempo: “Precisa não sargento: nós diz, nós diz.”

Certa vez, eu li em algum lugar que, no TG de certa cidade, a mãe de um atirador sofreu um ataque cardíaco, vindo a falecer numa manhã de domingo, justamente na hora em que todos os atiradores estavam reunidos na instrução dominical. Alguém da família pediu ao capitão comandante do TG para que ele desse a notícia ao jovem atirador. Este não tendo jeito para dar esse tipo de notícia, convocou o sargento e pediu que ele desse a notícia com muito jeito. O sargento disse ao seu superior que sabia como fazer e não se fez de rogado. Imediatamente deu as ordens: “TG, sentido!” Todos ficaram de pé em posição de sentido voltados para o sargento. Então o sargentão falou: “Quem tiver a mãe viva dê um passo à frente!”. Todos deram um passo à frente. “Você não, atirador 56!” “Que é isso, sargento, a minha mãe é viva!” Protestou o jovem. E o sargento emendou: “Era! acabou de morrer!

Por Carlos Eduardo Esmeraldo

ANTI-CRATENSES – DESTRUIDORES DA CIDADE

Pedro Esmeraldo

Certo dia, ouvi de um senhor as seguintes palavras: seu Pedro, admiro muito o senhor em lutar ferrenhamente em defesa do Crato, mas não vejo nenhuma prosperidade porque o senhor luta sozinho. Quisera que houvesse mais ajuda de pessoas interessadas em adquirir com lutas mais desenvolvimento e que todos tivessem união em benefício da terrinha. Se houvesse mais gente disponível, o Crato estaria bem diferente e não seria tão desprezado como se encontra agora.

Convém notar que alguns desses políticos, ou melhor, quase todos os políticos cratenses não reagem diante das dificuldades sombrias. O que ocorre é que a maioria deles é acomodada, fica inerte, dormente e não se esforça para que venham melhores coisas para a cidade.

Veja o descaso da Ponta da Serra, querendo se elevar sem ter condições. Isto é desdenho para com o Crato. Não posso entender como um pequeno Distrito quer subir onde não lhe cabe, principalmente não tem voz ativa para manejar com sabedoria seu potencial econômico, pois não sabe onde tem as ventas, e quer se elevar às custas do suor alheio. Com que roupa vai poder manter suas despesas a fim de prevalecer seus esforços enfrentados com altruísmo e sabedoria e mostrar boas qualidades técnicas no projeto econômico?

Dizendo isso se despediu e saiu. Também fiquei perplexo e, ao mesmo tempo, matutando com os dizeres desse senhor que deseja o bem estar do Crato.

Certa vez, estando sozinho em uma das praças da cidade, apareceu um cidadão de tez morena falando que não compreendia o comodismo dos políticos cratenses. Pois não teem vontade ferrenha de lutar pela cidade. Reparo que o senhor é diferente deles, tem força de vontade, é lutador e considera semelhante ao tribuno e político grego Demostene (384 – 322 a.C.), pois, sozinho, lutou contra Filipe, Rei da Macedônia, que invadiu a Grécia, vencendo os gregos em batalhas sangrentas, devido a corrupção, a Grécia perdeu a guerra, mas Demostene, embora sozinho, lutou até o fim, e o senhor é o exemplo dessa figura notável, pois não esmorece em suas pretensões.

Um ingênuo de Altaneira, vem com apoio zombeteiro, bufando, contaminando o ambiente de tolices, querendo aparecer e desaprovar esse movimento contrário em lutar pela defesa de minha cidade. Tenho pensamento sadio e não ando com palavras loucas, apregoando fracasso, mas seria melhor deixar que os outros lutem ao bem estar da sociedade.

Nem pense que vou esmorecer. Andarei sempre de cabeça erguida, pois sempre tive a idéia de lutar e, ao mesmo tempo, peço a Deus que me dê força, altruísmo e sabedoria e ainda peço a Deus que as águas do Crato sejam contempladas pela sua bênção, contemplando-a como cidade de grande porte.

Também peço para livrar o Crato desses abutres que andam assombrando a terra sem dó e piedade, que esperam a hora de abocanhar o seu quinhão. A melhor coisa seria viver numa união duradoura e o pensamento atrelado ao bom companheirismo.

Acabem com essa mania de desagregação, já que esse Distrito foi o mais bem contemplado desta cidade e ao mesmo tempo, peço que afaste a religião desse meio porque o lugar de religioso é na igreja.

Rir com animação - Emerson Monteiro

Outro dia, assistindo ao programa Ceará DiVerso, do poeta Vandinho Pereira, na TV Verde Vale, me deparei com o personagem Tranquilino Ripuxado narrando uma de suas histórias engraçadas, que repasso aos leitores do jeito que pude guardar:
Dois compadres que se reencontravam e um deles perguntou ao outro:
- Manoel, você soube da morte de seu Joãozinho do Brejo?
- Soube, sim, compadre. Fui até no enterro dele.
- Pois é, compadre. Eu estava viajando e nem pude comparecer nas despedidas do amigo velho. Mas, compadre, diga como foi lá. Na ocasião, tinha muita gente?
- Ora, compadre, gente, tinha um tanto de gente. Só que nunca vi povo tão sem entusiasmo.
Bom, com esta rápida introdução, quero para falar um pouco da urgência do riso franco, verdadeiro, aberto, nas pessoas dos tempos atuais. Riso mesmo, cheio desse entusiasmo que, por vezes, invade todos os lugares. A história, modelo de irreverência, demonstra que o ato de existir pede alguma participação, vibração, interesse, inclusive na hora das exéquias dos rituais comunitários.
É isso que falta nestes dias de muito compromisso e pouca esportividade, gosto de viver e se animar nas celebrações da existência. Um povo frio, técnico, sisudo, dotado de grandes habilidades no volante dos automóveis, cumpridor das normas e obediências formais, no entanto exausto só de correr atrás da sobrevivência desenfreada.
Numa fase de esforço e preocupação com o dia de amanhã, para si e os seus familiares, patrimônio, fama, trajes e viagens apressadas, festas reservadas, salões atapetados, conjunturas e expectativas, quase nada se nota das cenas de cumplicidade, da leveza de ânimo, do companheirismo...
O riso perdeu aquele elã vital, como que sumiu do rádio, da televisão; os ditos programas humorísticos viraram programas chatos, artificiais, num país de excepcional história de humoristas que marcaram época; em poucas décadas sumiram da cena, e fazer graças virou tarefa, a bem dizer, impossível de voltar a acontecer.
Mais atrás, no calendário, havia os circos nas praças e seus felizes picadeiros, doses cavalares de gargalhas povoadas de palhaços espirituosos, algo típico de um tempo esperançado; linguagem das ruas, dos botequins, alcovas, numa festa inigualável de um Brasil de música inteligente, festas de largo preenchidas de foguetes e felicidade popular.
Quero crer, em face das mudanças climáticas que sacodem o Planeta em bases inesperadas, nisso venha nova safra de animação pelo ar, lembrando os sonhos mágicos da tecnologia nos três séculos transcorridos da Revolução Industrial, que chegou prometendo a democracia dos frutos do trabalho deste mundo.
E para conhecer mesmos os índices de desenvolvimento humano de um povo, observe-se a espontaneidade do riso e das suas comemorações nas conquistas sociais. Pois, no dizer do escritor Oswald de Andrade, a alegria é a prova dos nove.

Esse é o hino – por José Roberto Guzzo


"A letra do Hino Nacional talvez nem seja pior que a média das letras dos hinos de outros países, em geral obcecadas por sangue, morte, canhões, tiranias e outros horrores"

Se quatro em quatro anos, por ocasião das Copas do Mundo de futebol, milhões de pessoas pelo planeta afora têm a oportunidade de entrar em contato com uma das melhores realizações que o Brasil já foi capaz de pôr em pé – o Hino Nacional Brasileiro, tocado e transmitido globalmente antes do começo de cada jogo. É sempre um momento de sucesso garantido junto ao público. O time, no campo, pode ir melhor ou pior, mas o hino não falha nunca. Seus primeiros acordes já deixam claro para a plateia presente aos estádios que ela vai ouvir, nos instantes que se seguem, música de primeira qualidade no gênero; dali para a frente as coisas só melhoram.

Ao se executar a última nota, todos os que prestaram atenção ao que estavam ouvindo ficam com a impressão de ter recebido um brinde inesperado antes do jogo: em vez da monotonia habitual dos hinos nacionais, em geral áridas arrumações de movimentos marciais que têm como característica mais notável o fato de parecerem todas iguais umas às outras, o que se ouve é uma das melodias mais vibrantes, calorosas e inspiradas que se podem escutar numa cerimônia oficial.

Não há um momento sequer de tédio no Hino Nacional; tudo ali é energia, emoção e vigor. Com quase 200 anos de vida, a peça composta por Francisco Manuel da Silva em 1822 mantém intactas até hoje todas as qualidades que fizeram dela uma das composições mais bem-sucedidas na história da música brasileira. Escrita originalmente em homenagem à Independência, e oficializada como Hino Nacional Brasileiro após a proclamação da República, a obra de Francisco Manuel tem um longo histórico de aplausos. Louis Gottschalk, o grande compositor americano do século XIX, que morreu no Brasil em 1869 e tinha entre seus admiradores Chopin, Liszt e Berlioz, considerava-a um dos melhores momentos da criação musical de sua época; em sua homenagem, escreveu a celebrada Fantasia Triunfal sobre o Hino Nacional Brasileiro.

É bom notar, também, que nas Copas do Mundo o Hino Nacional costuma ter competidores de primeiríssima linha, como agora – a começar, por exemplo, pelo extraordinário Deutschland Über Alles, o hino nacional da Alemanha, composto por ninguém menos que Joseph Haydn. Concorre, também, com grandes clássicos como o God Save the Queen, o hino não oficial da Inglaterra, e outros sucessos habituais como os hinos da Itália e dos Estados Unidos – isso sem falar na Marselhesa, da França, provavelmente o hino nacional mais conhecido do mundo. Não é fácil brilhar nessa companhia.

Mas e a letra? Já se falou mal o suficiente da letra do Hino Nacional para que se ganhe alguma coisa insistindo no assunto. Sua linguagem, provavelmente, já era antiquada na época em que foi escrita, 101 anos atrás; é confusa, às vezes absurda, e muito pouca gente consegue decorá-la direito, mesmo porque muito pouca gente entende o que ela está dizendo. Mas isso não afeta a melodia nem embaça o gênio de Francisco Manuel – que, por sinal, já estava morto quase meio século antes de colocarem palavras em sua música. Além do mais, a letra do Hino Nacional nunca causou prejuízo a ninguém – e, francamente, talvez nem seja pior que a média das letras presentes em hinos de outros países, em geral obcecadas por sangue, morte, canhões, tiranias e outros horrores.

O mais prático, portanto, é deixar tudo como está, antes que venha a ideia de adotar uma nova letra através de concurso público. Com certeza teríamos muita saudade, aí, do lábaro estrelado e dos raios fúlgidos.

Artigo publicado na VEJA que começa a circular hoje
Postado por Armando Lopes Rafael

sexta-feira, 18 de junho de 2010

José Saramago - por José do Vale Pinheiro Feitosa

José Saramago,

Sabe aquela escuridão, mofada, entremeada de teias de aranha, que entupia os tubos pelos quais se respira, foi ela que te transportou para as paredes vulcânicas das Ilhas Canárias. Tu, carregado pelo braço leve de Pilar del Rio, fostes além daquele adro católico que enterra a alma portuguesa como um manto a sufocar o broto de novas flores. Sal amargo, salamargo, salamandra das pedras das Canárias.

Membro do partido comunista em solo português, como este da terra brasilis, senha para ser perseguido, acusado, demitido, culpado de tudo, até da fúria dos poderosos que, violenta, lanha tua pele em chagas. Pois quisestes muito,“participar em acções reivindicativas da dignificação dos seres humanos e do cumprimento da Declaração dos Direitos Humanos pela consecução de uma sociedade mais justa, onde a pessoa seja prioridade absoluta, e não o comércio ou as lutas por um poder hegemónico, sempre destrutivas.”

Aquela hierarquia das cinzas, tumular dos espíritos obrigados a nascer. Tão pálida de luz e de olhos fundos, refestelada nas adegas de conventos, nos anéis cardinalícios, junto ao coração da piedosa esposa do Sr. Ministro. Ali, ao pé do ouvido, no silêncio de corredores, na ausência de testemunhas, todo um povo pobre e sofrido perdeu o progresso do século, sofreu o abandono da nova jornada interrompida num lamaçal que atolou a todos por quase um século.

E quando tua família sai pelas brechas incontidas do regime de contenção, tornaste-se, tu, Saramago, hoje reverenciado pelos cínicos que te atraiçoaram, pelo mesmo Cavaco Silva do teu exílio nas Canárias quando ousastes ser um evangelista com as marcas do tempo de agora. E teu relato autobiográfico revela a falência do ensino técnico dos tempos “americanhalhados” da indigência pedagógica do Brasil. Do ensino, tornado aborto do espírito humano, de porcas, parafusos e arruelas.

Como dizes: “meus pais haviam chegado à conclusão de que, por falta de meios, não poderiam continuar a manter-me no liceu. A única alternativa que se apresentava seria entrar para uma escola de ensino profissional, e assim se fez: durante cinco anos aprendi o ofício de serralheiro mecânico. O mais surpreendente era que o plano de estudos da escola, naquele tempo, embora obviamente orientado para formações profissionais técnicas, incluía, além do Francês, uma disciplina de Literatura.”

Sabe Zé, quando falastes da morte sem medo, falavas da vida. Ficou uma sensação de que o contrário da vida não é a morte, esta instituição lendária. O contrário da vida é o medo, o apego ao inseguro como se rocha fosse e tal apego não passa de um bem material em processo de liquefação. Como todos os bens e riquezas, que servem mais para causar dor no outro, do que dar coragem a quem os possui. E tudo, Zé, para demonstrar a burrice de alcaides, prefeitos e vereadores, bibliotecas para a juventude não existem. Como tu, no teu atrasado e espezinhado Portugal ainda pudeste freqüentar: “frequentar, nos períodos nocturnos de funcionamento, uma biblioteca pública de Lisboa. E foi aí, sem ajudas nem conselhos, apenas guiado pela curiosidade e pela vontade de aprender, que o meu gosto pela leitura se desenvolveu e apurou.”

Zé, o mundo é outro mesmo! Os livros se tornaram produtos comerciais. Os escritores meros anéis de ligação na máquina de produção, distribuição e consumo. Bem sabes que teu mundo se tornou universal pelo Prêmio Nobel, sem o qual, talvez, ninguém te escutasse tanto quanto se escutou e hoje, condoídos, repetem o quanto tinhas para dizer. Se não fosse o prêmio, bem menos.

Outro dia, Zé, olhando o calendário das tuas publicações outro sentimento me roubou da mortalidade. Não eras aquele tipinho de mídia, precoce, veloz, que se torna personalidade como Lady Gaga, assim como uma espuma de shampoo. Escorre pela pele e se vai pelo ralo da próxima atração. Tuas publicações é a senha para que todo escritor, todo poeta, todo artista vá muito além dos limites de si mesmo e daqueles externos que existem para te confundir.

Se tinhas 24 anos quando de tua primeira publicação, tanto tempo não viram letras impressas dos teus poemas. Somente aos 43 anos retornastes às publicações com teus poemas. O primeiro romance aos 55, outro aos 57, levaste uma década escrevendo mesmo romance. Eis a marca de que não é no sucesso, na idade e nem no produto que “todo artista tem ir onde o povo estar”.

José Saramago, um humano como nós. Um ateu que escreveu um evangelho. Um comunista que viveu a perseguição de sê-lo.

Pensamento para o Dia 18/06/2010


“Todo ser vivo anseia por felicidade. Ele não deseja miséria. Alguns desejam obtenção de riquezas, alguns acreditam que ouro pode fazê-los felizes. Alguns acumulam artigos de luxo, alguns colecionam veículos, mas todos são compelidos a obter coisas que acreditam lhes dar alegria. Mas aqueles que sabem onde conseguir a verdadeira felicidade são muito poucos. Felicidade sátvica é de natureza tal que parece ser tóxica no começo, mas depois se transforma em néctar. Essa felicidade é conseguida através da consciência do Eu Superior usando práticas espirituais (Sadhana) preliminares como controle da mente (Sama), controle dos sentidos (Dama) etc., pelos quais é necessário passar inicialmente e que parecem difíceis e desagradáveis. Trata-se de luta e esforço. Assim, a reação pode ser amarga. Mas a bem-aventurança que se conquista depois é o mais elevado tipo de felicidade.”
SATHYA SAI BABA

Obstáculos da Vida!!! Tenha Fé!!

(É bem pequenininho... Vale a pena ler)

Um rapaz pediu a Jesus um emprego, e uma mulher que o amasse muito.
No dia seguinte, abriu o jornal e tinha um anúncio de emprego.
Ele foi, viu a fila muito grande e disse: eles são melhores do que eu, e foi embora.
No caminho, um garoto lhe deu uma rosa... no ônibus ele, chateado, jogou a rosa fora.
Ao chegar em casa, o rapaz briga com Jesus:
...É assim que me tratas?
...É assim que me amas?
E vai dormir. Em sonho Jesus lhe diz: O emprego era seu, mas você não confiou e desistiu antes mesmo de lutar; aquela rosa foi eu que te dei... inspirei aquela criança a lhe dar!!! O amor da sua vida, estava sentada ao seu lado... em vez de você dar a rosa a ela, você a jogou fora.
Você entendeu como Jesus age na sua vida?
Ele abre as portas e te mostra o caminho, mas a tua fé é tão pouca que
desiste no primeiro obstáculo. Não desista... confie que Jesus pode agir na sua vida.
Os obstáculos existem para ver até onde vai a tua fé. Passe adiante... isso já será um sinal que Jesus está agindo em sua vida!!!

Recebido por e-mail

Coletivo Camaradas pretende montar grupo de cortejo


No Crato, já existem cerca de três grupos de Maracatus.


O Coletivo Camaradas pretende contribuir com o resgate da musicalidade da tradição africana bastante difundida na região do Cariri, através dos grupos de reisados, bandas cabaçais, capoeira e maracatus. A intenção dos camaradas é montar um grupo de cortejo. Neste sentido será realizada uma oficina de Construção de Tambores, ministrada pelo artista pernambucano Vitor Brito.

Vitor Brito vem desenvolvendo na cidade do Crato um trabalho de incentivo a criação de grupos de Maracatus, tendo ministrado oficinas na comunidade Jocum, no Ponto de Cultura Carrapato, na Casa Harmônica e no projeto Nova Vida, na comunidade do Gesso, no qual é educador. A experiência na construção de instrumentos e o seu aprendizado de percussão se deram nos terreiros de maracatus do Pernambuco.

O Coletivo Camaradas visa potencializar a compreensão sobre a história da musicalidade de origem africana, convidando inclusive integrantes do Maracatu Cearense Az de Ouro que tem mais de 70 anos de tradição no Estado do Ceará. A realização da oficina conta com a parceria da Pró-reitoria de Extensão da Universidade Regional do Cariri – PROEX/URCA e do Instituto Ecológico e Cultural Martins Filho – IEC. A oficina terá início neste sábado, dia 19, no Crato.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Pensamento para o Dia 16/06/2010


“As pessoas hoje acreditam que são o corpo, os sentidos etc. e anseiam por prazeres materiais. Elas se convencem de que esse prazer é necessário e, com essa noção equivocada, procuram satisfazer seus desejos. Iludem-se achando que podem garantir bem-aventurança cuidando do corpo e dos sentidos. Tais tentativas não podem assegurar bem-aventurança. O prazer obtido a partir de objetos externos traz junto tristeza, e essas tentativas de obter prazer são recompensadas com desilusão, derrota e desastre. Os três textos-fonte (Upanishads, Brahma Sutra e Bhagavad Gita) claramente exortam que VOCÊ é a própria personificação da bem-aventurança (Ananda). Eles auxiliam as pessoas a atingirem a mais elevada sabedoria.”
Sathya Sai Baba

COMPOSITORES DO BRASIL




“Não sou eu quem repete essa história
É a história que adora uma repetição” (Rebichada, Chico Buarque).

CHICO BUARQUE
Parte III

Por Zé Nilton

Poderia fazer um prolegômeno sociológico sobre a obra de Chico Buarque de Holanda, neste último programa Compositores do Brasil, até para mostrar erudição e conhecimento sobre a vida e obra do renomado compositor brasileiro. Não o farei.

Prefiro viajar no verso da música que ele fez e cantou com os Trapalhões, trilha sonora do filme “Os Saltimbancos Trapalhões”, de 1981, baseado na peça teatral Os Saltimbancos, de Sergio Bardotti, Luis Enríquez Bacalov e Chico Buarque, por sua vez uma adaptação do conto Os Músicos de Bremen dos Irmãos Grimm, e que foi dirigido por J. B. Tanko, sendo considerado pela crítica como o melhor filme do grupo.

Não, Chico de jeito nenhum insinua contradizer a célebre e irônica sacada do velho Marx, respondendo a Hegel, no livro “O 18 Brumário de Luiz Bonaparte”, publicado em 1852, de que os fatos e personagens históricos não se repetem duas vezes sob a mesma forma, a não ser “a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”.

No entanto, a opressão,a intimidação, a exploração, a intolerância, o desprezo pelo outro, e a atitude humana de não se deixar calar ante um rosário de mesquinharias praticadas em qualquer latitude e sob quaisquer formas de poder, isto se repete, e como se repete!

Deixo a letra de Rebichada como veículo aberto para os que quiserem viajar comigo em busca de uma sociedade de equidade na justiça e na distribuição dos bens materiais e imateriais.

“Não me importa trabalhar pra cachorro
O jumento é meu igual
Morro muito mais que gato no morro
Quando chega o carnaval
Sou eu quem cutuca o galo, viu
Pro galo cocorocar
Mas se pisam no meu calo
Não me calo
Eu tenho que falar
Como falo

Au, au, au, hi-ho, hi-ho
Miau, miau, miau, cocorocó
Essa história é mais velha que a história
Dos tempos de glória do velho barão
Quem não sabe de cor essa história
Refresque a memória e me preste atenção
Não sou eu quem repete essa história
É a história que adora uma repetição
Uma repetição

Sou eu que distraio o galo, de fato
Quando a outra vai chocar
Sou eu quem arruma cama de gato
Ponho o gato pra mijar
Beijo a mão de vira-lata, sim
Chamo burro de doutor
Mas se alguém me desacata
Maltrata meu brio
E meu valor
Largo a pata

Au, au, au, hi-ho, hi-ho
Miau, miau, miau, cocorocó
Essa fábula vem de outro século
Pelo fascículo de um alemão
O irmão do alemão deu prum nego
Que vendeu prum grego
Por meio milhão
Esse grego morreu de embolia
E deixou para a tia
O que tinha na mão
Essa tia casou com um pirata
E afundou com a fragata
Lá no Maranhão
Essa lenda rolou na fazenda
Moeu na moenda
E espalhou no sertão
E eu não nego que roubei dum cego
E inda ponho no prego
Pra comprar meu pão
Não sou eu quem repete essa história
É a história que adora
Uma repetição
Uma repetição”.

Na sequencia do terceiro programa dedicado ao compositor Chico Buarque de Holanda, nascido em 19 de junho de 1944, ouviremos e falaremos de suas músicas produzidas entre 1979 a 1993:

BYE, BYE, BRASIL, de Chico e Roberto Menescal, com Chico Buarque
EU TE AMO, de Chico e Tom Jobim com Chico Buarque
O MEU GURI, de Chico com Chico Buarque
REBICHADA, de Chico e Enriquez – Bardotti com Chico Buarque e os Trapalhões (Dedé, Didi, Mussum e Zacarias)
A HISTÓRIA DE LILY BRAUN, de Chico e Edu Lobo, com Maria Gadu
MIL PERDÕES, de Chico com Chico Buarque
PELAS TABELAS, de Chico com Chico Buarque
TANGO DO COVIL, de Chico com Os Muchachos
ANOS DOURADOS, de Chico e Tom Jobim com Chico Buarque e Tom Jobim
TODO SENTIMENTO, de Chico e Cristóvão Bastos, com Chico Buarque
A MAIS BONITA, de Chico com Bebel Gilberto e Chico Buarque
PARA TODOS, de Chico com Chico Buarque
A VIOLEIRA, de Chico e Tom Jobim com Elba Ramalho

Quem ouvir verá.

Informação:
Programa COMPOSITORES DO BRASIL
Rádio Educadora do Cariri
Todas as quintas-feira de 14 às 15h.
Pesquisa, produção e apresentação de Zé Nilton
Apoio Cultural: CCBN-Cariri
Retransmissão: cratinho.blogspot.com

quarta-feira, 16 de junho de 2010

PROJETO PROGRAMA RAPADURA CULTURARTE

DATA: 20 DE JUNHO DE 2010
HORÁRIO: 20:00h – LOCAL: Praça da Sé
CRATO – CARIRI – CEARÁ – BRASIL


PROGRAMAÇÃO
- Crônica : Eu sou do Crato – Autor: José Hamilton de Lima Barros
- Crônica : Eu Vi! – Autor: Jorge Carvalho
- Apresentação da Banda de Musica do Pe. Pio – Jucas-CE

Francisco Jorge Carvalho
Coordenador

terça-feira, 15 de junho de 2010

Coisas do futebol – Por Carlos Eduardo Esmeraldo

A terceira partida do Brasil na Copa do Mundo de 1958 era contra a poderosa seleção da antiga União Soviética. O Brasil não poderia sequer empatar. Segundo os jornais da época, o esquema de jogo da URSS era armado por poderosos cérebros eletrônicos. Antes do jogo, o técnico Feola orientava os jogadores assim: “Nilton Santos e Zito desarmam as investidas dos russos e lançam para Didi no meio do campo. Didi dá um passe de cinqüenta metros para Garrincha na ponta direita. Garrincha dribla dois defensores do time adversário e cruza para Vavá na entrada da área. Entenderam?” Perguntava o técnico. Ai Garrincha falou: “Só uma dúvida, seu Feola. O senhor combinou isso com os russos?”
***
A propósito, o gorducho Vicente Feola, além de entender de futebol, sabia lidar com o psiquismo humano, como poucos psicólogos fariam. Na véspera do jogo contra a URSS ele precisava barrar Joel, o ponta direita titular e escalar Garrincha em seu lugar. Então, ele reuniu os jogadores e comunicou solenemente: “Pessoal a partir de hoje o Joel será o chefe de disciplina dos atletas. Quem precisar se ausentar da concentração deverá pedir permissão a Joel. Qualquer problema que tiverem, conversem com o Joel.” Claro que Joel ficou morto de satisfeito quando seus companheiros pediam permissão para irem até a calçada do hotel. No dia seguinte, antes do jogo, Feola começou a distribuir as camisas. Então sem dizer nada ao Joel entregou a camisa a Garrincha. Joel não pôde protestar. Afinal ele era o chefe da disciplina da equipe.
***
Em 1958, o Ceará possuía um dos maiores goleadores da história do futebol cearense, o centro avante Gildo. O jogo contra o obscuro Nacional era importante, pois se o Ceará perdesse ou empatasse se distanciaria mais ainda do Fortaleza que liderava o campeonato. Aconteceu que o goleiro do Nacional, um certo Jairo, estava fechando o gol. Fazia defesas sensacionais. Aos quarenta minutos do segundo tempo, Gildo recebeu uma bola cara a cara com o goleiro. Colocou bem no canto e o Jairo segurou a bola, sem nenhum rebote. Gildo então se dirigiu ao goleiro do time adversário e assim falou: “Jairo, essa sua defesa foi a mais bonita que eu já vi um goleiro fazer. Desejo lhe cumprimentar. Toque aqui.” Ao ouvir isso, o ingênuo Jairo, cheio de contentamento, soltou a bola, esquecendo-se de que a havia recolocada em jogo. Então foi apertar a mão do Gildo. Este, ao ver a bola no chão, imediatamente a chutou para o fundo das redes. Gol do Ceará. É claro que o juiz validou o gol, a bola estava em jogo.
***
Em 1959 o time do Botafogo do Rio de Janeiro excursionava pela América do Sul. Todos queriam ver seus campeões mundiais Nilton Santos, Didi, Garrincha e Zagalo. Num jogo no interior da Colômbia Garrincha driblou toda a defesa do time adversário e ficou na frente do goleiro fingindo que ia chutar. O técnico gritava desesperado, mas mesmo assim Garrincha demorou a fazer o gol. No vestiário, o técnico perguntou por que ele havia demorado tanto para chutar aquela bola. E Garrincha respondeu: “Seu João, o goleiro deles demorou a abrir as pernas...”
***
Na quinta-feira da Semana Santa de 1961, o Vasco da Gama do Rio de Janeiro, time do meu coração, jogava contra o Santos de Pelé, em pleno Pacaembu e, aos quarenta e quatro minutos do segundo tempo ganhava o jogo por dois a zero. Naquela época, o Vasco possuía uma temível dupla de zagueiros praticamente intransponível: Brito e Fontana. Durante o jogo inteiro, Pelé não passara pela muralha que eram esses dois jogadores. Foi aí que Fontana abriu a boca para irritar o rei Pelé. “Brito, cadê o rei? Me disseram que nós íamos jogar contra o time do rei e eu ainda não vi esse rei em campo.” Pelé ouviu tudo calado. Recebeu uma bola no meio do campo, lançou Dorval, este chutou e o goleiro do Vasco jogou para o escanteio. Na cobrança do corner Pelé pulou mais alto do que Fontana e cabeceou para o fundo da rede. Batido o centro, o próprio Pelé desarmou o ataque do Vasco em formação, correu pela direita, passou a bola por baixo das pernas de Fontana, lançou-a ao gol com um chute fortíssimo e empatou a partida. Em seguida, o próprio Pelé foi buscar a bola no fundo das redes e entregou-a ao Fontana dizendo: “Leve pra casa e entregue a sua mãe. Diga a ela que foi o Rei que mandou de presente.”

Por Carlos Eduardo Esmeraldo

Pensamento para o Dia 15/06/2010


“Em tempos idos, em qualquer região, quando as pessoas eram afligidas por medo ou ansiedade, ou quando as fontes de alegria e contentamento secavam, elas determinavam a causa da calamidade como alguma falta ou falha no culto oferecido a Deus nos templos dessa área. Elas procuravam identificar tais erros e corrigi-los, de modo que pudessem ter paz interior. Elas acreditavam que a crise poderia ser controlada através desses meios. Tais atos são agora agrupados e chamados de "superstições" e são ignorados. De modo algum, isso não é superstição. Os antigos compreendiam a verdade suprema somente depois de experimentar pessoalmente sua validade.”
Sathya Sai Baba

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Fazendo tranças nos cabelos dos outros - por José do Vale Pinheiro Feitosa

Não lembro quem e se realmente a fonte de seu descontentamento era a Propaganda da Petrobrás cantando o hino nacional e falando de bandeirinhas. A pessoa falava da questão do amor à pátria e lá pelas tantas desancou um discurso sobre as estatais, o uso político delas e, claro, aliviado, defendeu as privatizações dos anos 90. Tomei aquele trecho como o renitente discurso do liberalismo econômico, só que agora tratado como neo, pois não é mais vinculado ao capital produtivo, mas ao financeiro.

A verdade é que com toda esta lambança mundial das economias centrais, muito por desregulamentação - a outra perna das privatizações - pôs em xeque o discurso liberal. Mas ele continua vigoroso, inclusive agora com a fase da crise, a Européia, com ataques ao funcionalismo público, às aposentadorias e todas as políticas de “Seguridade Social”, tão caras à Europa.

No Brasil o discurso neoliberal não está nesta campanha. Melhor explicando, não nos candidatos e seus discursos (tenho a íntegra dos discursos dos dois principais), mas está na Rede Globo de Televisão, na Veja, Folha de São Paulo e o Estado de São Paulo. E, claro, como a pessoa lá do início, repercutida na rede social da internet e nos blogs.

Um tripé desta visão de mundo: os impostos, a eficiência privada e a autonomia da mídia em tornar instituição o que é apenas visão de mundo de uma parcela da sociedade. A melhor aquinhoada e a classe média tradicional que se encantou com as promessas frustrantes do mercado.

Atacar impostos, como faz, por exemplo, o último filme de Ridley Scott, Robin Hood. Empresas paulistas criaram o impostômetro, as televisões transformam um simples painel em frontispício da notícia nacional e a canalhice (procure a raiz da palavra canalha e a tome por pessoa malvada) nacional repete sem saber bem a razão exata.

Acontece que o sentido ontológico de se achar ruim o imposto é para que sobre mais recurso no bolso de cada um. Ou seja, que a renda de todos aumente. Mas não existe isso na parte de quem manipula o impostômetro: não gostam de pagar salários, têm horror a direitos trabalhistas que significam mais renda para o trabalhador, para esta gente cujo lucro é sagrado, pagar salário pelo trabalho é despesa, ou seja, custo.

Quando um sindicato ao invés de receber um aumento maior para o trabalhador, concede em receber um Plano de Saúde, por exemplo, está fazendo exatamente o que o pessoal do impostômetro ontologicamente condenaria. O pagamento do plano é imposto com o nome de mensalidade e este dinheiro não entra no bolso do trabalhador. Quando alguém compra uma assinatura seja de jornal, de revista semanal, de televisão a cabo, está simplesmente pagando um imposto mensal para se informar sobre o impostômetro. Aliás, tal despesa não está no impostômetro.

O sagrado é o que eles ganham. Pois os liberais brasileiros não têm horror ao Estado, têm horror às regulamentações públicas, à cadeia que prende delinqüentes que monopolizam a vida econômica. Quando vêm com aquele papo das privatizações para o lado da educação e da saúde, apenas querem ter o monopólio dos fundos estatais para fazerem negócios. Um funcionalismo pago, regulamentado, com uma renda determinada por lei, não interessa a este liberal do venha vós ao meu reino e ao vosso reino nada.

Só um dado de hoje. A eficiência privada, numa universidade aqui no Rio. Quando passava a pé pela rua em frente ao complexo educacional, existiam entre 340 e 380 automóveis estacionados. Acontece que o valor maior em economia nesta civilização é a energia, a maior parte não renovável e poluidora da atmosfera. Então se cada um destes automóveis, que leva um único aluno, consumir 3 litros de combustível em média (acho muito pouco as distâncias no Rio são imensas), teríamos a queima diária de 1.020 litros de combustível, ou seja, 5.100 por semana e 20400 por mês. A conta é maior por que não computei os automóveis que vão e vêm com os pais e motoristas particulares soltarem e recolherem os rebentos na porta da universidade.

Então se vamos discutir imposto e eficiência privada (ou estatal) paremos de discutir só a raiva dos mais ricos. Vamos discutir a renda dos mais pobres (salários, aposentadorias, etc.) e, claro, a racionalidade geral de uma sociedade que gasta o que lhe é essencial, como energia, e não dar conta do enorme desperdício como a falta de uma política de transporte coletivo e a regulamentação do trânsito de veículos particulares.