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domingo, 20 de junho de 2010

A revelação de uma outra realidade

Antonio Gonçalves Filho - O Estado de S.Paulo

Retratos Pintados, de Titus Riedl e Martin Parr, recupera a ameaçada arte dos bonequeiros do Nordeste do País, que transformam o negativo da vida de pessoas simples em imagens que as ajudam a suportar a própria história

Família. Crianças em fotorretratos, no Ceará: relação entre vivos e mortos. Foto: reprodução

Foi preciso que um sociólogo alemão e um fotógrafo inglês cruzassem seus caminhos no sopé da chapada do Araripe - mais exatamente no município cearense de Crato - para que saíssem desse encontro com um livro curioso sobre o universo estético do sertanejo nordestino. Titus Riedl, autor de uma tese sobre fotorretratos pintados - tão populares no interior do País -, conheceu Martin Parr durante um fórum latino-americano de fotografia realizado há três anos em Crato. Sabendo da importância do fotógrafo, representado pela agência Magnum, Riedl, que há 15 anos mora na microrregião do Cariri, apresentou a Parr uma série de fotografias pintadas que deixaram o profissional esfuziante. Compreensível: Parr é um fotógrafo que acompanha com particular interesse a estética dos países emergentes - é dele o livro Luxury, que documenta o gosto duvidoso dos novos-ricos do mundo globalizado, tema de sua primeira exposição individual na Galeria de Babel, que o representa, em São Paulo, em outubro próximo.

Antes, na próxima quarta-feira, Martin Parr, atualmente peregrinando por Cingapura, abre uma exposição na Yossi Milo Gallery de Nova York e lança o livro sobre "bonequeiros" nordestinos, Retratos Pintados (Nazraeli Press, capa dura, 68 páginas e 61 fotos). Ele diz, que mesmo familiarizado com a fotografia vernacular, nunca havia sentido o que sentiu ao ver as imagens da coleção de Titus Riedl, reunidas para uma tese de mestrado defendida há 12 anos pelo sociólogo. Há, de fato, poucos estudos acadêmicos ? um deles da socióloga Cristiane de Souza ? sobre o ofício dos "bonequeiros" ou "puxadores" de telas, aqueles vendedores ambulantes que saem pelo interior do Brasil convencendo viúvas a colorizar antigas fotos do marido morto ou mães de natimortos a guardar a última imagem do anjinho no caixão (alguns retocados com olhos bem abertos para que essa lembrança fique menos mórbida).

Representantes de um ofício em extinção após o advento do photoshop - capaz de "milagres" como reunir com perfeição pessoas vivas e mortas numa mesma foto ?, os bonequeiros desempenharam no passado o mesmo papel dessa ferramenta digital. De que maneira? Ora registrando numa mesma imagem o improvável encontro do padre Cícero com seu sucessor frei Damião, ora retocando defeitos físicos dos retratados ou simplesmente incorporando elementos de prestígio social aos deserdados sociais - são comuns as fotos em que um sertanejo sem recursos aparece vestido como um executivo ou coberto de joias. Também não são raras as imagens de mulheres solteironas vestidas de noiva.

Desafio profissional. Apenas um décimo das fotos recolhidas por Titus Riedl durante todos estes anos de estudo entrou no livro de Parr. As que mais impressionam, sem dúvida, são as que transformam defuntos em seres vivos de olhos arregalados. Elas, porém, não causam espanto aos "puxadores de tela". Segundo Riedl, os pintores que retocam as fotos parecem gostar da ideia de ressuscitar o morto, desafio profissional que coloca em jogo sua habilidade e versatilidade artística. Mal comparando, eles usam a mesma estratégia do badalado fotógrafo norte-americano Joel-Peter Witkin, que, por inveja do irmão gêmeo pintor, Jerome, monta naturezas-mortas com corpos de indigentes dissecados em faculdades de medicina ? ele chegou a transformar a cabeça de um deles num bizarro vaso de flores.

Os bonequeiros nordestinos não chegam a ser desrespeitosos como Witkin, cujo fascínio mórbido pela deformação física já o levou ao extremo de montagens quase teatrais com mutilados. No caso dos fotorretratos brasileiros prevalece um sentimento ingênuo: os bonequeiros apenas seguem as orientações dos clientes. "Na zona rural, as imagens fotográficas ainda são escassas e, como último recurso para manter viva a lembrança do morto, os familiares recorrem às vezes a um retrato apagado ou desgastado do falecido, que tem de ser concluído pelo bonequeiro", conta Riedl. Ele cita o caso de uma viúva que pediu para ser retratada ao lado do marido, cuja única foto remanescente era a de sua carteira de trabalho. O resultado foi a reunião artificial ? e engraçada ? de uma senhora de 80 anos com um homem de 40 que bem poderia ser seu filho.

As técnicas de retoque da imagem fotográfica e da pintura sobre fotografia não começaram, obviamente, com os puxadores de tela nordestino. Elas existem desde meados do século 19, mas o pintor-retocador, segundo Riedl, "tornou-se uma peça fundamental para dar verossimilhança ao retrato em preto e branco", demasiadamente triste para os sertanejos que vivem num cenário agreste e tentam superar sua miséria com a euforia cromática garantida por essas pinturas de cores berrantes ? vivas como as fachadas e platibandas das casinhas do Nordeste, tão bem retratadas nas fotos de Anna Mariani (em exposição no Instituto Moreira Salles de São Paulo). Sua função estética tampouco é diferente: trata-se de ornamentação. A exemplo das fachadas e platibandas enfeitadas, encaradas como "pinturas" pelo nordestino, o fotorretrato acaba sendo às vezes o único objeto de decoração no interior despojado dessas pequenas casas sem eira nem beira castigadas pelo sol.

A diferença é que o encontro visual de Martin Parr com o sertão não passou, como no caso de Anna Mariani, por Euclides da Cunha e Ariano Suassuna. O approach do inglês não é literário e muito menos sentimental ? Parr é irônico demais para isso -, mas antropológico. Se as fachadas pintadas a cal pigmentada das moradas nordestinas fizeram parte da infância da fotógrafa brasileira, Parr só recentemente conheceu o Crato. "Os fotorretratos constituem uma maneira de garantir status aos membros da família de sertanejos, dando a eles um aspecto santificado, icônico", arrisca Parr. Os bonequeiros serviriam como agentes do sonho brasileiro, ao concretizar em imagem o delírio de ascensão social dos nordestinos, garantido por roupas caras e joias a que os modelos dos retratos pintados jamais teriam acesso.

Retoque. Hoje, essa verossimilhança é garantida pelo photoshop. Riedl apresentou a Martin Parr um bonequeiro, Júlio de Santos, que antes mantinha uma oficina com uma dúzia de pintores e hoje usa um computador para "retocar" a realidade nordestina. Instalado em Fortaleza, ele mantém - agora sem assistentes - a tradição de recuperar originais desgastados pelo tempo e embelezar os modelos , inclusive o próprio Martin Parr, que ganhou de presente seu retrato, deliciando-se com a fotografia vernacular do mestre-pintor.

Sobre essa função, o sociólogo Titus Riedl não recua ao comparar a arte dos bonequeiros nordestinos à criação dos artistas pop que retrabalharam retratos de celebridades, dos quais o mais famoso foi o norte-americano Andy Warhol (1928-1997). O nome da brasileira Rosângela Rennó, que vai participar da próxima Bienal, pode ser igualmente evocado não só por seguir a escola da recriação fotográfica como por ter sido pioneira na valorização do trabalho dos bonequeiros nordestinos, reconhecendo-o como pintura. "Como os clientes às vezes pedem para o bonequeiro tirar as sombras da fotografia, ocorre que o resultado acaba beirando o hiper-realismo", observa Riedl, concluindo que os rostos assumem com frequência o aspecto de uma máscara do belga James Ensor (1860-1949) ou de uma caricatura do alemão Otto Dix (1891-1969).

´Talvez seja conveniente não esquecer que Dix, um dos expoentes da pintura expressionista germânica, usou fotografias de soldados desfigurados nas trincheiras da 1.ª Guerra como modelos de sua pinturas antibélicas. Dix era um ótimo retratista, mas preferiu reduzir seu mundo à caricatura justamente por acreditar que a realidade - de tão horrível - é inimitável. Ensor não foi muito diferente. Transformou bípedes racionais em bandos de esqueletos ambulantes, portadores de bizarras máscaras carnavalescas. Involuntariamente, os bonequeiros nordestinos acabam fazendo parte dessa turma de expressionistas, embora agindo na contramão. Explicando: eles não fazem crítica social. Ao contrário, tentam atrair o freguês com promessas de um mundo melhor, em que uma cara feia pode virar um rosto aceitável e defuntos caminham como Lázaros pelo sertão.

"Há frequentemente entre o bonequeiro e o cliente um jogo dissimulado de sedução, em que o primeiro tenta sugerir alterações em fotos mostradas pelo segundo, indicando mudanças de estilo nas roupas, cores e adereços", observa Riedl, contando casos engraçados de espertos fotorretratistas que viajaram pelos grotões afastados em busca do lucro fácil. "Nesses lugares eles ganham até mais que nas regiões próximas das cidades, pois podem ficar hospedados de graça e comer na casa do cliente, ampliando a oferta de produtos além das fotos, como quadros de santos, etc." É como eles sobrevivem em tempos de laboratórios que revelam filmes em uma hora e fazem retoques digitalizados. Nem sempre um bonequeiro, lembra Riedl, tem conhecimento qualificado da técnica fotográfica ou de pintura, o que explica os erros frequentes nas proporções, nos contrastes e na composição da imagem.

Quietude. Imagem da garota ao lado do vaso foi colorizada por Riedl. Foto: Reprodução

Idiomas. De certo modo, foi isso o que atraiu o olhar de Martin Parr, atento para essas distorções que acabam dando à fotografia um aspecto mais pictórico. Vale frisar que o grande mestre contemporâneo da pintura hiper-realista, o alemão Gerhard Richter, chega ao outro extremo partindo também de fotos. Ele "aperfeiçoa" a realidade, fazendo com que a retórica da pintura, antes avessa ao idioma da fotografia, se confunda de tal modo com ele que o espectador seja incapaz de dizer onde começa uma tela e acaba uma foto. Nessa oblíqua referência à mídia fotográfica, Richter questiona a "veracidade" da imagem fotográfica.

Richter começou a trabalhar com imagens fotográficas nos anos 1960, usando antigos retratos e paisagens de amadores, distorcidos por largas pinceladas que eliminavam seu foco. Parece evidente nesses primeiros trabalhos a influência de artistas pop como Andy Warhol e Lichtenstein, que operavam no mesmo registro, alterando rostos ou ambientes. Richter, porém, foi além da estética pictórica pós-conceitual. Sua atitude negativa diante do objeto fotográfico tem a ver com a desconfiança numa imagem banal que só se torna interessante por meio do olhar do artista ? o que justamente chama a atenção quando se vê o trabalho de um bonequeiro tentando "mudar" o que lhe parece errado ou desagradável na realidade. Imagens banais possibilitam a Richter que ele se concentre no problema da representação ? seu grande tema ?, no lugar de se ocupar do conteúdo da obra. Exemplo disso é sua série 48 retratos (1971-72), que, aparentemente, busca a semelhança entre o modelo real e o pintado. Para Richter, este é justamente o aspecto que menos importa em sua pintura. A arte, para ele, perdeu essa função mimética, fazendo justamente com que aumente a distância entre o modelo concreto e sua reprodução. Venceu o simulacro, como nos fotorretratos pintados dos bonequeiros nordestinos.

Como eles usam fotos antigas, dos tempos em que os recursos para ampliação e revelação eram precários, os fotorretratos acabam se parecendo mais com o modelo que esses profissionais imaginam do que com o real. Os clientes, por vezes insatisfeitos, reclamam da falta de verossimilhança. Em Juazeiro do Norte, o sociólogo Titus Riedl encontrou uma verdadeira empresa familiar comanda pelo pintor Abdon, ele mesmo especializado em retocar rostos e cabelos. O resto do corpo ele deixa para um ajudante, o filho e o sobrinho. Abdon gosta de cores fortes e usa cola brilhante para "realçar" os traços dos fregueses. Os bonequeiros concorrentes não gostam. Dizem que seus retratos apenas mantêm leve semelhança com os originais. No entanto, ele é rápido e entrega os retratos dentro do prazo combinado, coisa seriíssima no Nordeste. Riedl já ouviu de um mestre pintor que foi obrigado a concluir um trabalho atrasado sob ameaças de morte. E morte é outro negócio sério na região. Mas já foi mais. Os bonequeiros hoje recebem poucas encomendas para transformar retratos de defuntos em vivos.

Sem rugas. As encomendas mais frequentes são de natureza cosmética. Os clientes pedem para embelezar a imagem dos parentes, nem sempre favorecidos pela natureza. Segundo Riedl, os bonequeiros devem seguir algumas regras para corresponder aos seus padrões estéticos, especialmente dos fregueses idosos: tirar todas as rugas do rosto; nunca pintar de branco os cabelos; evitar sombras, pois elas dão ao retratado um aspecto sinistro; "ajeitar" roupas que pareçam exageradamente sensuais. Outras regras: as crianças devem se parecer com o Menino Jesus dos folhetos distribuídos nas missas; mulheres devem usar blusas monocromáticas ou estampas de flores e homens, invariavelmente, devem aparecer de terno e gravata. Os bonequeiros mais experientes, conta Riedl, "sabem explorar melhor os desejos dos seus clientes", permitindo-se sugestões baseadas na simples observação do gosto do freguês.

Martin Parr diz que as delícias dessa fotografia vernacular são mais apreciadas hoje do que eram no passado exatamente por sua simplicidade de propósito. A esse respeito, Titus Riedl lembra que as fotopinturas são populares não só no Brasil como em países de cultura germânica, que desde o século 19 utilizam a técnica para preservar a memória familiar, sobretudo em lugares onde a tradição da autoridade é rigorosamente respeitada. "Os bonequeiros sabem disso e hoje buscam seus clientes em lugares de romaria." O cineasta cearense Joe Pimentel realizou há três anos o documentário Câmera Viajante, que retrata o trabalho dos fotógrafos populares atuantes em festas, feiras e romarias do interior nordestino.

Num balanço final, o sociólogo Titus Riedl avalia: "O livro de Parr é mais irônico, enquanto minha fundamentação é antropológica." Em sua opinião, os bonequeiros nordestinos não têm a ambição artística que a publicação pode eventualmente sugerir ao olhar estrangeiro, mas o livro, segundo ele, deve ajudar na revalorização de uma arte hoje ameaçada de extinção.

Desde que o francês Louis Arthur Ducos du Hauron (1837-1920) colorizou a primeira paisagem, em 1877, muita água rolou no Cariri. Mesmo tendo chegado com certo atraso ao sertão nordestino, a fotografia colorizada ganhou a adesão de artistas intuitivos. Eles nunca ouviram falar da Bauhaus e ainda assim criaram platibandas com lindas formas geométricas. Também não sabem quem foi Cartier-Bresson, mas reinventaram rostos com indiscutível talento. Pode ser que seus fotorretratos não sejam considerados arte, mas eles constituem documentos preciosos de interpretação da realidade nordestina. Em todo o caso, também os críticos estrangeiros terão um prazo de quatro meses para descobrir o que Riedl e Parr já descobriram. A exposição Retratos Pintados na Yossi Milo de Nova York, com 150 retratos originais, fica em cartaz até dia 18 de setembro.

Fonte: Jornal O Estado de S. Paulo

Nota de falecimento

Faleceu ontem em Fortaleza, Clailson Alves Paiva. O sepultamento ocorrerá hoje, 19 de julho, às 18 horas no cemitério Nossa Senhora da Piedade, em Crato, onde o corpo será velado a partir das 15 horas.

sábado, 19 de junho de 2010

Coisas da caserna – Por Carlos Eduardo Esmeraldo

O Tiro de Guerra, como todos sabem, é uma unidade do Exército Brasileiro instalada em algumas cidades do interior, com a cooperação das prefeituras. Tem como objetivo a formação de reservistas para a defesa do território nacional. Essa unidade atende à instrução militar dos nossos jovens, conciliando a formação com o estudo e o trabalho. Sobre o TG já ouvi muitos “causos” interessantes.

Havia no TG 205 do Crato um atirador conhecido por Janjão da Mata, um jovem da nossa zona rural, muito desinibido e brincalhão. Apesar de completamente analfabeto, Janjão demonstrava ser bastante vivo. Uma turma do Colégio Diocesano ao perceber a inteligência e espontaneidade desse jovem, colocava em sua boca muitas coisas engraçadas para quebrar a dureza do preparo físico e das constantes broncas do sargento. Aos dias de domingo, a jornada era maior e, os atiradores eram obrigados a percorrem em marcha uma distância mínima de vinte quilômetros. Entretanto, o sargento instrutor normalmente não observava tal requisito. Próximo do final do ano era realizada uma correição pelo comando da 10a Região Militar. Então o sargento instruiu a turma: “Se o coronel perguntar a vocês quantos quilômetros vocês marcham por semana, vocês respondam: vinte.” Alguém ao lado do nosso Janjão soprou em seu ouvido. E ele imediatamente interrompeu o instrutor: “Sargento, nós num vai dizer isso não!” “Por que, posso saber?” Perguntou-lhe o sargento. E Janjão emendou: “O senhor disse que nós num deve mentir.” A essa insinuação, o sargento não perdeu tempo: “Muito bem TG, em forma! Vamos agora marchar até a Ponta da Serra e voltar de lá correndo!” E Janjão não perdeu tempo: “Precisa não sargento: nós diz, nós diz.”

Certa vez, eu li em algum lugar que, no TG de certa cidade, a mãe de um atirador sofreu um ataque cardíaco, vindo a falecer numa manhã de domingo, justamente na hora em que todos os atiradores estavam reunidos na instrução dominical. Alguém da família pediu ao capitão comandante do TG para que ele desse a notícia ao jovem atirador. Este não tendo jeito para dar esse tipo de notícia, convocou o sargento e pediu que ele desse a notícia com muito jeito. O sargento disse ao seu superior que sabia como fazer e não se fez de rogado. Imediatamente deu as ordens: “TG, sentido!” Todos ficaram de pé em posição de sentido voltados para o sargento. Então o sargentão falou: “Quem tiver a mãe viva dê um passo à frente!”. Todos deram um passo à frente. “Você não, atirador 56!” “Que é isso, sargento, a minha mãe é viva!” Protestou o jovem. E o sargento emendou: “Era! acabou de morrer!

Por Carlos Eduardo Esmeraldo

ANTI-CRATENSES – DESTRUIDORES DA CIDADE

Pedro Esmeraldo

Certo dia, ouvi de um senhor as seguintes palavras: seu Pedro, admiro muito o senhor em lutar ferrenhamente em defesa do Crato, mas não vejo nenhuma prosperidade porque o senhor luta sozinho. Quisera que houvesse mais ajuda de pessoas interessadas em adquirir com lutas mais desenvolvimento e que todos tivessem união em benefício da terrinha. Se houvesse mais gente disponível, o Crato estaria bem diferente e não seria tão desprezado como se encontra agora.

Convém notar que alguns desses políticos, ou melhor, quase todos os políticos cratenses não reagem diante das dificuldades sombrias. O que ocorre é que a maioria deles é acomodada, fica inerte, dormente e não se esforça para que venham melhores coisas para a cidade.

Veja o descaso da Ponta da Serra, querendo se elevar sem ter condições. Isto é desdenho para com o Crato. Não posso entender como um pequeno Distrito quer subir onde não lhe cabe, principalmente não tem voz ativa para manejar com sabedoria seu potencial econômico, pois não sabe onde tem as ventas, e quer se elevar às custas do suor alheio. Com que roupa vai poder manter suas despesas a fim de prevalecer seus esforços enfrentados com altruísmo e sabedoria e mostrar boas qualidades técnicas no projeto econômico?

Dizendo isso se despediu e saiu. Também fiquei perplexo e, ao mesmo tempo, matutando com os dizeres desse senhor que deseja o bem estar do Crato.

Certa vez, estando sozinho em uma das praças da cidade, apareceu um cidadão de tez morena falando que não compreendia o comodismo dos políticos cratenses. Pois não teem vontade ferrenha de lutar pela cidade. Reparo que o senhor é diferente deles, tem força de vontade, é lutador e considera semelhante ao tribuno e político grego Demostene (384 – 322 a.C.), pois, sozinho, lutou contra Filipe, Rei da Macedônia, que invadiu a Grécia, vencendo os gregos em batalhas sangrentas, devido a corrupção, a Grécia perdeu a guerra, mas Demostene, embora sozinho, lutou até o fim, e o senhor é o exemplo dessa figura notável, pois não esmorece em suas pretensões.

Um ingênuo de Altaneira, vem com apoio zombeteiro, bufando, contaminando o ambiente de tolices, querendo aparecer e desaprovar esse movimento contrário em lutar pela defesa de minha cidade. Tenho pensamento sadio e não ando com palavras loucas, apregoando fracasso, mas seria melhor deixar que os outros lutem ao bem estar da sociedade.

Nem pense que vou esmorecer. Andarei sempre de cabeça erguida, pois sempre tive a idéia de lutar e, ao mesmo tempo, peço a Deus que me dê força, altruísmo e sabedoria e ainda peço a Deus que as águas do Crato sejam contempladas pela sua bênção, contemplando-a como cidade de grande porte.

Também peço para livrar o Crato desses abutres que andam assombrando a terra sem dó e piedade, que esperam a hora de abocanhar o seu quinhão. A melhor coisa seria viver numa união duradoura e o pensamento atrelado ao bom companheirismo.

Acabem com essa mania de desagregação, já que esse Distrito foi o mais bem contemplado desta cidade e ao mesmo tempo, peço que afaste a religião desse meio porque o lugar de religioso é na igreja.

Rir com animação - Emerson Monteiro

Outro dia, assistindo ao programa Ceará DiVerso, do poeta Vandinho Pereira, na TV Verde Vale, me deparei com o personagem Tranquilino Ripuxado narrando uma de suas histórias engraçadas, que repasso aos leitores do jeito que pude guardar:
Dois compadres que se reencontravam e um deles perguntou ao outro:
- Manoel, você soube da morte de seu Joãozinho do Brejo?
- Soube, sim, compadre. Fui até no enterro dele.
- Pois é, compadre. Eu estava viajando e nem pude comparecer nas despedidas do amigo velho. Mas, compadre, diga como foi lá. Na ocasião, tinha muita gente?
- Ora, compadre, gente, tinha um tanto de gente. Só que nunca vi povo tão sem entusiasmo.
Bom, com esta rápida introdução, quero para falar um pouco da urgência do riso franco, verdadeiro, aberto, nas pessoas dos tempos atuais. Riso mesmo, cheio desse entusiasmo que, por vezes, invade todos os lugares. A história, modelo de irreverência, demonstra que o ato de existir pede alguma participação, vibração, interesse, inclusive na hora das exéquias dos rituais comunitários.
É isso que falta nestes dias de muito compromisso e pouca esportividade, gosto de viver e se animar nas celebrações da existência. Um povo frio, técnico, sisudo, dotado de grandes habilidades no volante dos automóveis, cumpridor das normas e obediências formais, no entanto exausto só de correr atrás da sobrevivência desenfreada.
Numa fase de esforço e preocupação com o dia de amanhã, para si e os seus familiares, patrimônio, fama, trajes e viagens apressadas, festas reservadas, salões atapetados, conjunturas e expectativas, quase nada se nota das cenas de cumplicidade, da leveza de ânimo, do companheirismo...
O riso perdeu aquele elã vital, como que sumiu do rádio, da televisão; os ditos programas humorísticos viraram programas chatos, artificiais, num país de excepcional história de humoristas que marcaram época; em poucas décadas sumiram da cena, e fazer graças virou tarefa, a bem dizer, impossível de voltar a acontecer.
Mais atrás, no calendário, havia os circos nas praças e seus felizes picadeiros, doses cavalares de gargalhas povoadas de palhaços espirituosos, algo típico de um tempo esperançado; linguagem das ruas, dos botequins, alcovas, numa festa inigualável de um Brasil de música inteligente, festas de largo preenchidas de foguetes e felicidade popular.
Quero crer, em face das mudanças climáticas que sacodem o Planeta em bases inesperadas, nisso venha nova safra de animação pelo ar, lembrando os sonhos mágicos da tecnologia nos três séculos transcorridos da Revolução Industrial, que chegou prometendo a democracia dos frutos do trabalho deste mundo.
E para conhecer mesmos os índices de desenvolvimento humano de um povo, observe-se a espontaneidade do riso e das suas comemorações nas conquistas sociais. Pois, no dizer do escritor Oswald de Andrade, a alegria é a prova dos nove.

Esse é o hino – por José Roberto Guzzo


"A letra do Hino Nacional talvez nem seja pior que a média das letras dos hinos de outros países, em geral obcecadas por sangue, morte, canhões, tiranias e outros horrores"

Se quatro em quatro anos, por ocasião das Copas do Mundo de futebol, milhões de pessoas pelo planeta afora têm a oportunidade de entrar em contato com uma das melhores realizações que o Brasil já foi capaz de pôr em pé – o Hino Nacional Brasileiro, tocado e transmitido globalmente antes do começo de cada jogo. É sempre um momento de sucesso garantido junto ao público. O time, no campo, pode ir melhor ou pior, mas o hino não falha nunca. Seus primeiros acordes já deixam claro para a plateia presente aos estádios que ela vai ouvir, nos instantes que se seguem, música de primeira qualidade no gênero; dali para a frente as coisas só melhoram.

Ao se executar a última nota, todos os que prestaram atenção ao que estavam ouvindo ficam com a impressão de ter recebido um brinde inesperado antes do jogo: em vez da monotonia habitual dos hinos nacionais, em geral áridas arrumações de movimentos marciais que têm como característica mais notável o fato de parecerem todas iguais umas às outras, o que se ouve é uma das melodias mais vibrantes, calorosas e inspiradas que se podem escutar numa cerimônia oficial.

Não há um momento sequer de tédio no Hino Nacional; tudo ali é energia, emoção e vigor. Com quase 200 anos de vida, a peça composta por Francisco Manuel da Silva em 1822 mantém intactas até hoje todas as qualidades que fizeram dela uma das composições mais bem-sucedidas na história da música brasileira. Escrita originalmente em homenagem à Independência, e oficializada como Hino Nacional Brasileiro após a proclamação da República, a obra de Francisco Manuel tem um longo histórico de aplausos. Louis Gottschalk, o grande compositor americano do século XIX, que morreu no Brasil em 1869 e tinha entre seus admiradores Chopin, Liszt e Berlioz, considerava-a um dos melhores momentos da criação musical de sua época; em sua homenagem, escreveu a celebrada Fantasia Triunfal sobre o Hino Nacional Brasileiro.

É bom notar, também, que nas Copas do Mundo o Hino Nacional costuma ter competidores de primeiríssima linha, como agora – a começar, por exemplo, pelo extraordinário Deutschland Über Alles, o hino nacional da Alemanha, composto por ninguém menos que Joseph Haydn. Concorre, também, com grandes clássicos como o God Save the Queen, o hino não oficial da Inglaterra, e outros sucessos habituais como os hinos da Itália e dos Estados Unidos – isso sem falar na Marselhesa, da França, provavelmente o hino nacional mais conhecido do mundo. Não é fácil brilhar nessa companhia.

Mas e a letra? Já se falou mal o suficiente da letra do Hino Nacional para que se ganhe alguma coisa insistindo no assunto. Sua linguagem, provavelmente, já era antiquada na época em que foi escrita, 101 anos atrás; é confusa, às vezes absurda, e muito pouca gente consegue decorá-la direito, mesmo porque muito pouca gente entende o que ela está dizendo. Mas isso não afeta a melodia nem embaça o gênio de Francisco Manuel – que, por sinal, já estava morto quase meio século antes de colocarem palavras em sua música. Além do mais, a letra do Hino Nacional nunca causou prejuízo a ninguém – e, francamente, talvez nem seja pior que a média das letras presentes em hinos de outros países, em geral obcecadas por sangue, morte, canhões, tiranias e outros horrores.

O mais prático, portanto, é deixar tudo como está, antes que venha a ideia de adotar uma nova letra através de concurso público. Com certeza teríamos muita saudade, aí, do lábaro estrelado e dos raios fúlgidos.

Artigo publicado na VEJA que começa a circular hoje
Postado por Armando Lopes Rafael

sexta-feira, 18 de junho de 2010

José Saramago - por José do Vale Pinheiro Feitosa

José Saramago,

Sabe aquela escuridão, mofada, entremeada de teias de aranha, que entupia os tubos pelos quais se respira, foi ela que te transportou para as paredes vulcânicas das Ilhas Canárias. Tu, carregado pelo braço leve de Pilar del Rio, fostes além daquele adro católico que enterra a alma portuguesa como um manto a sufocar o broto de novas flores. Sal amargo, salamargo, salamandra das pedras das Canárias.

Membro do partido comunista em solo português, como este da terra brasilis, senha para ser perseguido, acusado, demitido, culpado de tudo, até da fúria dos poderosos que, violenta, lanha tua pele em chagas. Pois quisestes muito,“participar em acções reivindicativas da dignificação dos seres humanos e do cumprimento da Declaração dos Direitos Humanos pela consecução de uma sociedade mais justa, onde a pessoa seja prioridade absoluta, e não o comércio ou as lutas por um poder hegemónico, sempre destrutivas.”

Aquela hierarquia das cinzas, tumular dos espíritos obrigados a nascer. Tão pálida de luz e de olhos fundos, refestelada nas adegas de conventos, nos anéis cardinalícios, junto ao coração da piedosa esposa do Sr. Ministro. Ali, ao pé do ouvido, no silêncio de corredores, na ausência de testemunhas, todo um povo pobre e sofrido perdeu o progresso do século, sofreu o abandono da nova jornada interrompida num lamaçal que atolou a todos por quase um século.

E quando tua família sai pelas brechas incontidas do regime de contenção, tornaste-se, tu, Saramago, hoje reverenciado pelos cínicos que te atraiçoaram, pelo mesmo Cavaco Silva do teu exílio nas Canárias quando ousastes ser um evangelista com as marcas do tempo de agora. E teu relato autobiográfico revela a falência do ensino técnico dos tempos “americanhalhados” da indigência pedagógica do Brasil. Do ensino, tornado aborto do espírito humano, de porcas, parafusos e arruelas.

Como dizes: “meus pais haviam chegado à conclusão de que, por falta de meios, não poderiam continuar a manter-me no liceu. A única alternativa que se apresentava seria entrar para uma escola de ensino profissional, e assim se fez: durante cinco anos aprendi o ofício de serralheiro mecânico. O mais surpreendente era que o plano de estudos da escola, naquele tempo, embora obviamente orientado para formações profissionais técnicas, incluía, além do Francês, uma disciplina de Literatura.”

Sabe Zé, quando falastes da morte sem medo, falavas da vida. Ficou uma sensação de que o contrário da vida não é a morte, esta instituição lendária. O contrário da vida é o medo, o apego ao inseguro como se rocha fosse e tal apego não passa de um bem material em processo de liquefação. Como todos os bens e riquezas, que servem mais para causar dor no outro, do que dar coragem a quem os possui. E tudo, Zé, para demonstrar a burrice de alcaides, prefeitos e vereadores, bibliotecas para a juventude não existem. Como tu, no teu atrasado e espezinhado Portugal ainda pudeste freqüentar: “frequentar, nos períodos nocturnos de funcionamento, uma biblioteca pública de Lisboa. E foi aí, sem ajudas nem conselhos, apenas guiado pela curiosidade e pela vontade de aprender, que o meu gosto pela leitura se desenvolveu e apurou.”

Zé, o mundo é outro mesmo! Os livros se tornaram produtos comerciais. Os escritores meros anéis de ligação na máquina de produção, distribuição e consumo. Bem sabes que teu mundo se tornou universal pelo Prêmio Nobel, sem o qual, talvez, ninguém te escutasse tanto quanto se escutou e hoje, condoídos, repetem o quanto tinhas para dizer. Se não fosse o prêmio, bem menos.

Outro dia, Zé, olhando o calendário das tuas publicações outro sentimento me roubou da mortalidade. Não eras aquele tipinho de mídia, precoce, veloz, que se torna personalidade como Lady Gaga, assim como uma espuma de shampoo. Escorre pela pele e se vai pelo ralo da próxima atração. Tuas publicações é a senha para que todo escritor, todo poeta, todo artista vá muito além dos limites de si mesmo e daqueles externos que existem para te confundir.

Se tinhas 24 anos quando de tua primeira publicação, tanto tempo não viram letras impressas dos teus poemas. Somente aos 43 anos retornastes às publicações com teus poemas. O primeiro romance aos 55, outro aos 57, levaste uma década escrevendo mesmo romance. Eis a marca de que não é no sucesso, na idade e nem no produto que “todo artista tem ir onde o povo estar”.

José Saramago, um humano como nós. Um ateu que escreveu um evangelho. Um comunista que viveu a perseguição de sê-lo.

Pensamento para o Dia 18/06/2010


“Todo ser vivo anseia por felicidade. Ele não deseja miséria. Alguns desejam obtenção de riquezas, alguns acreditam que ouro pode fazê-los felizes. Alguns acumulam artigos de luxo, alguns colecionam veículos, mas todos são compelidos a obter coisas que acreditam lhes dar alegria. Mas aqueles que sabem onde conseguir a verdadeira felicidade são muito poucos. Felicidade sátvica é de natureza tal que parece ser tóxica no começo, mas depois se transforma em néctar. Essa felicidade é conseguida através da consciência do Eu Superior usando práticas espirituais (Sadhana) preliminares como controle da mente (Sama), controle dos sentidos (Dama) etc., pelos quais é necessário passar inicialmente e que parecem difíceis e desagradáveis. Trata-se de luta e esforço. Assim, a reação pode ser amarga. Mas a bem-aventurança que se conquista depois é o mais elevado tipo de felicidade.”
SATHYA SAI BABA

Obstáculos da Vida!!! Tenha Fé!!

(É bem pequenininho... Vale a pena ler)

Um rapaz pediu a Jesus um emprego, e uma mulher que o amasse muito.
No dia seguinte, abriu o jornal e tinha um anúncio de emprego.
Ele foi, viu a fila muito grande e disse: eles são melhores do que eu, e foi embora.
No caminho, um garoto lhe deu uma rosa... no ônibus ele, chateado, jogou a rosa fora.
Ao chegar em casa, o rapaz briga com Jesus:
...É assim que me tratas?
...É assim que me amas?
E vai dormir. Em sonho Jesus lhe diz: O emprego era seu, mas você não confiou e desistiu antes mesmo de lutar; aquela rosa foi eu que te dei... inspirei aquela criança a lhe dar!!! O amor da sua vida, estava sentada ao seu lado... em vez de você dar a rosa a ela, você a jogou fora.
Você entendeu como Jesus age na sua vida?
Ele abre as portas e te mostra o caminho, mas a tua fé é tão pouca que
desiste no primeiro obstáculo. Não desista... confie que Jesus pode agir na sua vida.
Os obstáculos existem para ver até onde vai a tua fé. Passe adiante... isso já será um sinal que Jesus está agindo em sua vida!!!

Recebido por e-mail

Coletivo Camaradas pretende montar grupo de cortejo


No Crato, já existem cerca de três grupos de Maracatus.


O Coletivo Camaradas pretende contribuir com o resgate da musicalidade da tradição africana bastante difundida na região do Cariri, através dos grupos de reisados, bandas cabaçais, capoeira e maracatus. A intenção dos camaradas é montar um grupo de cortejo. Neste sentido será realizada uma oficina de Construção de Tambores, ministrada pelo artista pernambucano Vitor Brito.

Vitor Brito vem desenvolvendo na cidade do Crato um trabalho de incentivo a criação de grupos de Maracatus, tendo ministrado oficinas na comunidade Jocum, no Ponto de Cultura Carrapato, na Casa Harmônica e no projeto Nova Vida, na comunidade do Gesso, no qual é educador. A experiência na construção de instrumentos e o seu aprendizado de percussão se deram nos terreiros de maracatus do Pernambuco.

O Coletivo Camaradas visa potencializar a compreensão sobre a história da musicalidade de origem africana, convidando inclusive integrantes do Maracatu Cearense Az de Ouro que tem mais de 70 anos de tradição no Estado do Ceará. A realização da oficina conta com a parceria da Pró-reitoria de Extensão da Universidade Regional do Cariri – PROEX/URCA e do Instituto Ecológico e Cultural Martins Filho – IEC. A oficina terá início neste sábado, dia 19, no Crato.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Pensamento para o Dia 16/06/2010


“As pessoas hoje acreditam que são o corpo, os sentidos etc. e anseiam por prazeres materiais. Elas se convencem de que esse prazer é necessário e, com essa noção equivocada, procuram satisfazer seus desejos. Iludem-se achando que podem garantir bem-aventurança cuidando do corpo e dos sentidos. Tais tentativas não podem assegurar bem-aventurança. O prazer obtido a partir de objetos externos traz junto tristeza, e essas tentativas de obter prazer são recompensadas com desilusão, derrota e desastre. Os três textos-fonte (Upanishads, Brahma Sutra e Bhagavad Gita) claramente exortam que VOCÊ é a própria personificação da bem-aventurança (Ananda). Eles auxiliam as pessoas a atingirem a mais elevada sabedoria.”
Sathya Sai Baba

COMPOSITORES DO BRASIL




“Não sou eu quem repete essa história
É a história que adora uma repetição” (Rebichada, Chico Buarque).

CHICO BUARQUE
Parte III

Por Zé Nilton

Poderia fazer um prolegômeno sociológico sobre a obra de Chico Buarque de Holanda, neste último programa Compositores do Brasil, até para mostrar erudição e conhecimento sobre a vida e obra do renomado compositor brasileiro. Não o farei.

Prefiro viajar no verso da música que ele fez e cantou com os Trapalhões, trilha sonora do filme “Os Saltimbancos Trapalhões”, de 1981, baseado na peça teatral Os Saltimbancos, de Sergio Bardotti, Luis Enríquez Bacalov e Chico Buarque, por sua vez uma adaptação do conto Os Músicos de Bremen dos Irmãos Grimm, e que foi dirigido por J. B. Tanko, sendo considerado pela crítica como o melhor filme do grupo.

Não, Chico de jeito nenhum insinua contradizer a célebre e irônica sacada do velho Marx, respondendo a Hegel, no livro “O 18 Brumário de Luiz Bonaparte”, publicado em 1852, de que os fatos e personagens históricos não se repetem duas vezes sob a mesma forma, a não ser “a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”.

No entanto, a opressão,a intimidação, a exploração, a intolerância, o desprezo pelo outro, e a atitude humana de não se deixar calar ante um rosário de mesquinharias praticadas em qualquer latitude e sob quaisquer formas de poder, isto se repete, e como se repete!

Deixo a letra de Rebichada como veículo aberto para os que quiserem viajar comigo em busca de uma sociedade de equidade na justiça e na distribuição dos bens materiais e imateriais.

“Não me importa trabalhar pra cachorro
O jumento é meu igual
Morro muito mais que gato no morro
Quando chega o carnaval
Sou eu quem cutuca o galo, viu
Pro galo cocorocar
Mas se pisam no meu calo
Não me calo
Eu tenho que falar
Como falo

Au, au, au, hi-ho, hi-ho
Miau, miau, miau, cocorocó
Essa história é mais velha que a história
Dos tempos de glória do velho barão
Quem não sabe de cor essa história
Refresque a memória e me preste atenção
Não sou eu quem repete essa história
É a história que adora uma repetição
Uma repetição

Sou eu que distraio o galo, de fato
Quando a outra vai chocar
Sou eu quem arruma cama de gato
Ponho o gato pra mijar
Beijo a mão de vira-lata, sim
Chamo burro de doutor
Mas se alguém me desacata
Maltrata meu brio
E meu valor
Largo a pata

Au, au, au, hi-ho, hi-ho
Miau, miau, miau, cocorocó
Essa fábula vem de outro século
Pelo fascículo de um alemão
O irmão do alemão deu prum nego
Que vendeu prum grego
Por meio milhão
Esse grego morreu de embolia
E deixou para a tia
O que tinha na mão
Essa tia casou com um pirata
E afundou com a fragata
Lá no Maranhão
Essa lenda rolou na fazenda
Moeu na moenda
E espalhou no sertão
E eu não nego que roubei dum cego
E inda ponho no prego
Pra comprar meu pão
Não sou eu quem repete essa história
É a história que adora
Uma repetição
Uma repetição”.

Na sequencia do terceiro programa dedicado ao compositor Chico Buarque de Holanda, nascido em 19 de junho de 1944, ouviremos e falaremos de suas músicas produzidas entre 1979 a 1993:

BYE, BYE, BRASIL, de Chico e Roberto Menescal, com Chico Buarque
EU TE AMO, de Chico e Tom Jobim com Chico Buarque
O MEU GURI, de Chico com Chico Buarque
REBICHADA, de Chico e Enriquez – Bardotti com Chico Buarque e os Trapalhões (Dedé, Didi, Mussum e Zacarias)
A HISTÓRIA DE LILY BRAUN, de Chico e Edu Lobo, com Maria Gadu
MIL PERDÕES, de Chico com Chico Buarque
PELAS TABELAS, de Chico com Chico Buarque
TANGO DO COVIL, de Chico com Os Muchachos
ANOS DOURADOS, de Chico e Tom Jobim com Chico Buarque e Tom Jobim
TODO SENTIMENTO, de Chico e Cristóvão Bastos, com Chico Buarque
A MAIS BONITA, de Chico com Bebel Gilberto e Chico Buarque
PARA TODOS, de Chico com Chico Buarque
A VIOLEIRA, de Chico e Tom Jobim com Elba Ramalho

Quem ouvir verá.

Informação:
Programa COMPOSITORES DO BRASIL
Rádio Educadora do Cariri
Todas as quintas-feira de 14 às 15h.
Pesquisa, produção e apresentação de Zé Nilton
Apoio Cultural: CCBN-Cariri
Retransmissão: cratinho.blogspot.com

quarta-feira, 16 de junho de 2010

PROJETO PROGRAMA RAPADURA CULTURARTE

DATA: 20 DE JUNHO DE 2010
HORÁRIO: 20:00h – LOCAL: Praça da Sé
CRATO – CARIRI – CEARÁ – BRASIL


PROGRAMAÇÃO
- Crônica : Eu sou do Crato – Autor: José Hamilton de Lima Barros
- Crônica : Eu Vi! – Autor: Jorge Carvalho
- Apresentação da Banda de Musica do Pe. Pio – Jucas-CE

Francisco Jorge Carvalho
Coordenador

terça-feira, 15 de junho de 2010

Coisas do futebol – Por Carlos Eduardo Esmeraldo

A terceira partida do Brasil na Copa do Mundo de 1958 era contra a poderosa seleção da antiga União Soviética. O Brasil não poderia sequer empatar. Segundo os jornais da época, o esquema de jogo da URSS era armado por poderosos cérebros eletrônicos. Antes do jogo, o técnico Feola orientava os jogadores assim: “Nilton Santos e Zito desarmam as investidas dos russos e lançam para Didi no meio do campo. Didi dá um passe de cinqüenta metros para Garrincha na ponta direita. Garrincha dribla dois defensores do time adversário e cruza para Vavá na entrada da área. Entenderam?” Perguntava o técnico. Ai Garrincha falou: “Só uma dúvida, seu Feola. O senhor combinou isso com os russos?”
***
A propósito, o gorducho Vicente Feola, além de entender de futebol, sabia lidar com o psiquismo humano, como poucos psicólogos fariam. Na véspera do jogo contra a URSS ele precisava barrar Joel, o ponta direita titular e escalar Garrincha em seu lugar. Então, ele reuniu os jogadores e comunicou solenemente: “Pessoal a partir de hoje o Joel será o chefe de disciplina dos atletas. Quem precisar se ausentar da concentração deverá pedir permissão a Joel. Qualquer problema que tiverem, conversem com o Joel.” Claro que Joel ficou morto de satisfeito quando seus companheiros pediam permissão para irem até a calçada do hotel. No dia seguinte, antes do jogo, Feola começou a distribuir as camisas. Então sem dizer nada ao Joel entregou a camisa a Garrincha. Joel não pôde protestar. Afinal ele era o chefe da disciplina da equipe.
***
Em 1958, o Ceará possuía um dos maiores goleadores da história do futebol cearense, o centro avante Gildo. O jogo contra o obscuro Nacional era importante, pois se o Ceará perdesse ou empatasse se distanciaria mais ainda do Fortaleza que liderava o campeonato. Aconteceu que o goleiro do Nacional, um certo Jairo, estava fechando o gol. Fazia defesas sensacionais. Aos quarenta minutos do segundo tempo, Gildo recebeu uma bola cara a cara com o goleiro. Colocou bem no canto e o Jairo segurou a bola, sem nenhum rebote. Gildo então se dirigiu ao goleiro do time adversário e assim falou: “Jairo, essa sua defesa foi a mais bonita que eu já vi um goleiro fazer. Desejo lhe cumprimentar. Toque aqui.” Ao ouvir isso, o ingênuo Jairo, cheio de contentamento, soltou a bola, esquecendo-se de que a havia recolocada em jogo. Então foi apertar a mão do Gildo. Este, ao ver a bola no chão, imediatamente a chutou para o fundo das redes. Gol do Ceará. É claro que o juiz validou o gol, a bola estava em jogo.
***
Em 1959 o time do Botafogo do Rio de Janeiro excursionava pela América do Sul. Todos queriam ver seus campeões mundiais Nilton Santos, Didi, Garrincha e Zagalo. Num jogo no interior da Colômbia Garrincha driblou toda a defesa do time adversário e ficou na frente do goleiro fingindo que ia chutar. O técnico gritava desesperado, mas mesmo assim Garrincha demorou a fazer o gol. No vestiário, o técnico perguntou por que ele havia demorado tanto para chutar aquela bola. E Garrincha respondeu: “Seu João, o goleiro deles demorou a abrir as pernas...”
***
Na quinta-feira da Semana Santa de 1961, o Vasco da Gama do Rio de Janeiro, time do meu coração, jogava contra o Santos de Pelé, em pleno Pacaembu e, aos quarenta e quatro minutos do segundo tempo ganhava o jogo por dois a zero. Naquela época, o Vasco possuía uma temível dupla de zagueiros praticamente intransponível: Brito e Fontana. Durante o jogo inteiro, Pelé não passara pela muralha que eram esses dois jogadores. Foi aí que Fontana abriu a boca para irritar o rei Pelé. “Brito, cadê o rei? Me disseram que nós íamos jogar contra o time do rei e eu ainda não vi esse rei em campo.” Pelé ouviu tudo calado. Recebeu uma bola no meio do campo, lançou Dorval, este chutou e o goleiro do Vasco jogou para o escanteio. Na cobrança do corner Pelé pulou mais alto do que Fontana e cabeceou para o fundo da rede. Batido o centro, o próprio Pelé desarmou o ataque do Vasco em formação, correu pela direita, passou a bola por baixo das pernas de Fontana, lançou-a ao gol com um chute fortíssimo e empatou a partida. Em seguida, o próprio Pelé foi buscar a bola no fundo das redes e entregou-a ao Fontana dizendo: “Leve pra casa e entregue a sua mãe. Diga a ela que foi o Rei que mandou de presente.”

Por Carlos Eduardo Esmeraldo

Pensamento para o Dia 15/06/2010


“Em tempos idos, em qualquer região, quando as pessoas eram afligidas por medo ou ansiedade, ou quando as fontes de alegria e contentamento secavam, elas determinavam a causa da calamidade como alguma falta ou falha no culto oferecido a Deus nos templos dessa área. Elas procuravam identificar tais erros e corrigi-los, de modo que pudessem ter paz interior. Elas acreditavam que a crise poderia ser controlada através desses meios. Tais atos são agora agrupados e chamados de "superstições" e são ignorados. De modo algum, isso não é superstição. Os antigos compreendiam a verdade suprema somente depois de experimentar pessoalmente sua validade.”
Sathya Sai Baba

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Fazendo tranças nos cabelos dos outros - por José do Vale Pinheiro Feitosa

Não lembro quem e se realmente a fonte de seu descontentamento era a Propaganda da Petrobrás cantando o hino nacional e falando de bandeirinhas. A pessoa falava da questão do amor à pátria e lá pelas tantas desancou um discurso sobre as estatais, o uso político delas e, claro, aliviado, defendeu as privatizações dos anos 90. Tomei aquele trecho como o renitente discurso do liberalismo econômico, só que agora tratado como neo, pois não é mais vinculado ao capital produtivo, mas ao financeiro.

A verdade é que com toda esta lambança mundial das economias centrais, muito por desregulamentação - a outra perna das privatizações - pôs em xeque o discurso liberal. Mas ele continua vigoroso, inclusive agora com a fase da crise, a Européia, com ataques ao funcionalismo público, às aposentadorias e todas as políticas de “Seguridade Social”, tão caras à Europa.

No Brasil o discurso neoliberal não está nesta campanha. Melhor explicando, não nos candidatos e seus discursos (tenho a íntegra dos discursos dos dois principais), mas está na Rede Globo de Televisão, na Veja, Folha de São Paulo e o Estado de São Paulo. E, claro, como a pessoa lá do início, repercutida na rede social da internet e nos blogs.

Um tripé desta visão de mundo: os impostos, a eficiência privada e a autonomia da mídia em tornar instituição o que é apenas visão de mundo de uma parcela da sociedade. A melhor aquinhoada e a classe média tradicional que se encantou com as promessas frustrantes do mercado.

Atacar impostos, como faz, por exemplo, o último filme de Ridley Scott, Robin Hood. Empresas paulistas criaram o impostômetro, as televisões transformam um simples painel em frontispício da notícia nacional e a canalhice (procure a raiz da palavra canalha e a tome por pessoa malvada) nacional repete sem saber bem a razão exata.

Acontece que o sentido ontológico de se achar ruim o imposto é para que sobre mais recurso no bolso de cada um. Ou seja, que a renda de todos aumente. Mas não existe isso na parte de quem manipula o impostômetro: não gostam de pagar salários, têm horror a direitos trabalhistas que significam mais renda para o trabalhador, para esta gente cujo lucro é sagrado, pagar salário pelo trabalho é despesa, ou seja, custo.

Quando um sindicato ao invés de receber um aumento maior para o trabalhador, concede em receber um Plano de Saúde, por exemplo, está fazendo exatamente o que o pessoal do impostômetro ontologicamente condenaria. O pagamento do plano é imposto com o nome de mensalidade e este dinheiro não entra no bolso do trabalhador. Quando alguém compra uma assinatura seja de jornal, de revista semanal, de televisão a cabo, está simplesmente pagando um imposto mensal para se informar sobre o impostômetro. Aliás, tal despesa não está no impostômetro.

O sagrado é o que eles ganham. Pois os liberais brasileiros não têm horror ao Estado, têm horror às regulamentações públicas, à cadeia que prende delinqüentes que monopolizam a vida econômica. Quando vêm com aquele papo das privatizações para o lado da educação e da saúde, apenas querem ter o monopólio dos fundos estatais para fazerem negócios. Um funcionalismo pago, regulamentado, com uma renda determinada por lei, não interessa a este liberal do venha vós ao meu reino e ao vosso reino nada.

Só um dado de hoje. A eficiência privada, numa universidade aqui no Rio. Quando passava a pé pela rua em frente ao complexo educacional, existiam entre 340 e 380 automóveis estacionados. Acontece que o valor maior em economia nesta civilização é a energia, a maior parte não renovável e poluidora da atmosfera. Então se cada um destes automóveis, que leva um único aluno, consumir 3 litros de combustível em média (acho muito pouco as distâncias no Rio são imensas), teríamos a queima diária de 1.020 litros de combustível, ou seja, 5.100 por semana e 20400 por mês. A conta é maior por que não computei os automóveis que vão e vêm com os pais e motoristas particulares soltarem e recolherem os rebentos na porta da universidade.

Então se vamos discutir imposto e eficiência privada (ou estatal) paremos de discutir só a raiva dos mais ricos. Vamos discutir a renda dos mais pobres (salários, aposentadorias, etc.) e, claro, a racionalidade geral de uma sociedade que gasta o que lhe é essencial, como energia, e não dar conta do enorme desperdício como a falta de uma política de transporte coletivo e a regulamentação do trânsito de veículos particulares.

O Hino Nacional Brasileiro -- por Armando Lopes Rafael


Inegavelmente o que sobrou do patriotismo coletivo do povo brasileiro só aflora – nos tempos atuais – em anos de realização da Copa do Mundo de Futebol. Pelos próximos dias, além da bandeira verde-amarela – herança do Império Brasileiro, como já escrevi em artigo anterior – também o nosso Hino Nacional (igualmente oriundo dos tempos imperiais) será ouvido, com todo respeito, por milhões de brasileiros, em frente às telinhas dos televisores, antecedendo os jogos do nosso selecionado, nos estádios da África do Sul.
Nos seus primórdios, que remonta ao Primeiro Reinado de Dom Pedro I, o Hino Nacional Brasileiro era executado sem ter ainda uma letra. Conhecida apenas como “Marcha Imperial”, foi muito tocada nos campos de batalhas da Guerra do Paraguai. Depois desse conflito foi popularizada na cidade do Rio de Janeiro, então capital do Brasil.
Com o advento do golpe militar que implantou a República dos Estados Unidos do Brasil, no chamado “Governo Provisório” – dirigido pelo Marechal Deodoro da Fonseca – foi instituído um concurso para a adoção de um novo hino nacional. A ordem era (tentar) apagar tudo que restasse do Brasil-Império. Vivia-se os novos tempos republicanos e a propaganda oficial dizia que tudo vinha melhorando e o Brasil iria trilhar a senda do progresso e do bem estar do seu povo.
Quantas vezes, nos últimos cem anos, vimos esse filme...
Pois bem, na noite de 20 de janeiro de 1890, o Teatro Lírico do Rio de Janeiro estava superlotado, reunindo as mais destacadas personalidades da então capital brasileira, para conhecer o novo Hino Nacional. No camarote de honra, o velho Marechal Deodoro, àquela época já bastante decepcionado com alguns companheiros do golpe militar de 15 de novembro de 1889. O hino que obteve o primeiro lugar no concurso foi composto pelo maestro Leopoldo Miguez, com letra de Medeiros e Albuquerque. Na verdade, uma bonita peça (hoje chamada de “Hino da República”, que começa com o refrão: “Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós”.
Ao final da execução do hino, o Marechal Deodoro bateu o martelo e impôs:
– Prefiro o velho!
Foi quando ficou preservada para as gerações vindouras, a bela “Marcha Imperial”, o mesmo Hino Nacional Brasileiro de hoje, cujos primeiros acordes (“Ouviram do Ipiranga às margens plácidas/ De um povo heróico o brado retumbante”) nos enche de orgulho e nos faz reviver o pouco de patriotismo que ainda resta à “brava gente brasileira”...
Texto e postagem de Armando Lopes Rafael

domingo, 13 de junho de 2010

Diante das bombas, só destroços – A cultura do bom negócio no Ceará


Por Alexandre Lucas

A Expocrato vem a cada ano sendo alvo de críticas no que diz respeito a sua programação cultural. As argumentações são justas e pertinentes diante das atrocidades de exclusão dos artistas da região do Cariri num dos principais eventos regionais. É notório, que esse evento público (privado) só serve para encher os bolsos dos empresários das grandes bandas que fazem parte de um monopólio musical.
Vale destacar que a concessão para exploração privada do evento é publica e não estabelece critérios para que seja garantida a diversidade musical e a inclusão dos artistas neste mega evento.
O fato é que a Expocrato tornou-se um bom negócio para poucos. Poucos estilos musicais, poucos artistas do Cariri, poucos que lucram. Pouco desenvolvimento e rendimento para região, do ponto de vista, da formação de platéia, afirmação de identidade e diversidade cultural e de turismo cultural e sustentável.
O fato é que essa política do “pão e circo” é recorrente em todo o Estado do Ceará e vem provocando uma insatisfação generalizada por parte dos artistas ligados a música cearense que vem perdendo espaço com políticas equivocadas como o “Férias no Ceará” (O secretário de Turismo do Estado possivelmente nunca estudou nada sobre turismo cultural e sustentável, se estudou nunca entendeu) e as descaradas inaugurações ou anúncios de obras regadas pelas bandas ligadas ao monopólio da música, ou seja, as bandas que estão a serviço da reprodução do machismo, da homofobia, da violência, da vulgarização sexual, enfim da forma pela forma, que agora tem o sustentáculo financeiro do Governo do Estado. Fato que só nos faz lembrar algo típico da política desenvolvida nos tempos dos coronéis, aonde por qualquer motivo se fazia uma festa banhada através do desperdício de recursos públicos.
O dinheiro gasto com esse “bom negócio” (termo utilizado pela política desenvolvida pelo governo tucano de Fernando Henrique Cardoso que considerava a “cultura como um bom negócio”) possivelmente poderia ter proporcionado a circulação de grandes shows dos cearenses para os cearenses potencializando a diversidade musical do nosso povo, bem como poderia ter servido para a gravação de milhares de Cds, muitos artistas tentam há anos conseguir o mínimo de recursos gravar o seu trabalho. Já as bandas do tipo “chupa que é de uva” basta piscar os olhos para fazer um “bom negócio”.
Essa postura assumida pelo Governador é contrária a conjuntura nacional e estadual no campo das políticas públicas para a cultura. Contraditória até mesmo com a política defendida e executada pela Secretária de Cultura do Estado do Ceará. O Secretário Auto Filho como todo cearense deve ficar encabulado, mas acredito que ele também fica indignado.
Essa pratica despeita e rasga as resoluções da constituinte cultural, das conferências municipais e estaduais da Cultura. Será que o Governador nunca teve acesso as informações destes fóruns? Será que ele desconhece as reivindicações dos trabalhadores da arte? Será que ele sabe que nestes fóruns os cearenses defenderam o nosso patrimônio, inclusive da música e do direito a diversidade musical? Acredito que sabe sim! Mas enquanto isso prefere financiar a chacina do “jogaram uma bomba no cabaré”.
Enfim uni-vos contra a barbárie cultural.

*Coordenador do Coletivo Camaradas, pedagogo, artista/educador e membro do Conselho Municipal da Cultura

PS. No Crato, o Conselho Municipal da Cultura dará um passo importante na defesa e resistência de um outro formato de evento que privilegie a diversidade musical e a inclusão do nosso patrimônio, que são os nossos combatentes, os artistas.




TEATRO POPULAR NA CAPITAL DA CULTURA

No último sábado, dia 12 de junho de 2010, na Praça da Sé, em Crato-CE, encerrou-se a primeira temporada do espetáculo “A COMÉDIA DA MALDIÇÃO”, modalidade teatro de rua, no contexto do projeto “COMÉDIA NA RUA DAS TRADIÇÕES”. Cerca de seiscentas pessoas lotaram a arena montada pela Cia. Cearense de Teatro Brincante – Ponto de Cultura do Brasil, que teve como convidada a Banda Cabaçal dos Irmãos Aniceto, ícone da cultura tradicional popular brasileira.

A peça, escrita e dirigida pelo dramaturgo Cacá Araújo, serve como elo entre a contemporaneidade e as raízes culturais do povo nordestino, trazendo à cena o mito da Mula-sem-cabeça, numa grandiosa montagem que tem encantado crianças e adultos.

Orleyna Moura, atriz e assistente de direção, considerada a primeira-dama do teatro cearense, afirma que a experiência de integrar o teatro às manifestações do nosso folclore fortalece os caminhos para se consolidar a identidade nacional.




Dia seguinte, nem bem amanhecia o 13 de junho, a Cia. Cearense de Teatro Brincante, a Banda Cabaçal dos Irmãos Aniceto, amigos e familiares de Cacá Araújo, realizaram grande e emocionante homenagem pela passagem de seu aniversário. Marchas, frevos, baiões, xaxados e repentes foram entoados como a revigorar o coração brincante e sertanejo daquele matuto-ator.





Um registro de nascimento - por José do Vale Pinheiro Feitosa

Aconteceu na sexta-feira. Num cartório de alguém muito querido no Crato, mas não vou revelar para não virar motivo de chacota. Um pai com as testemunhas, todos do Distrito do Romualdo entraram no cartório para registrar uma criança.

O funcionário de cara pediu o Documento de Nascido Vivo que é dado pela maternidade. O pai um pouco atrapalhado explicou:

- Nasceu em maternidade não! Aparado na rede. Dona Reimunda cortou o cordão!

O funcionário coçou a cabeça e a testa fez dobras de preocupação. Situação rara nos dias de hoje, quando a maioria faz pré-natal e nasce em maternidade. Consultou um colega para saber como proceder sem o tal documento. Afinal concluíram que as testemunhas serviriam exatamente para esta finalidade: dar credibilidade a quem nasceu, já que o próprio não possuía o verbo necessário para lá comparecer.

O funcionário abriu o livro e começou perguntando pelo sexo do recém-nascido. A pergunta gerou dúvidas no pai:

- Séquiço! Cuma é mermo? Séquiço? – o olhou com o rabo do olho para o compadre que servia de testemunha que deu de cotovelo na outra testemunha, levantando as sobrancelhas e repassando a pergunta. Esta, então, respondeu pelo pai.

- Bote aí no papel viu! O séquiço é muié!

A ladainha de perguntas, dúvidas e contribuições coletivas para as respostas. Para dizer a hora e o dia do nascimento: entre o primeiro e o segundo canto do galo. O nome dos avós foi lenha para resolver, dúvidas até pelos sobrenomes do lado do pai, imaginem para descobrirem o lado da mãe. Finalmente pergunta do nome que queria dar à filha.

O pai abriu um sorriso de superioridade completa, olhou para todos os presentes no cartório como se tivesse diante uma récua de desabonados pela inteligência. O olhar por cima girou o salão e terminou sobre o funcionário do cartório, do outro lado do balcão com as anotações á sua frente.

- Pode botá aí! O nome dela vai ser Jabulane da Silva.

O rapaz do cartório perguntou como ele queria escrever o nome se com um “i” ou um “e” no final. O pai, muito orgulhoso, deu a dica:

- Escreva ingual a bola! Mermim cuma a bola!

Um espírito de porco ouvia tudo com curiosidade. O funcionário folheava o jornal a do nome da bola da atual copa do mundo. O engraçadinho não se conteve e disse:

- Chuta a gol meu patrão!