
Enquanto o velório ocorria na sala de jantar no interior da casa, eu e o primo José Esmeraldo Gonçalves sentávamos no peitoril da janela da fachada e apreciávamos o movimento das pessoas que passavam pela Rua Dom Quintino. De repente chegou uma vendedora de laranjas, postou-se na soleira da porta e com voz aguda e cortante, gritou a todo pulmão: “Quer comprar laranjas? Olhe a laranja de primeira!” Como ninguém lá de dentro da casa respondia e nem nós, a vendedora insistia: “Quer comprar laranja?...” Repetiu essa cantilena várias vezes, até que uma das minhas primas, bastante autoritária, veio até a porta recriminar a vendedora: “Fale baixo! Respeite o sentimento das pessoas dessa casa. Aqui morreu a dona da casa. Não está vendo que é um velório?” Ao ouvir a reprimenda, a vendedora gritou mais forte ainda: “Morreu, morreu, quer comprar laranjas? Estou vendendo minhas laranjas. Quer comprar laranjas?” E saiu Rua Dom Quintino acima, resmungando e descompondo minha prima. Até hoje a frase dessa vendedora de laranja virou para mim um refrão que eu sempre repito, quando alguma coisa não dá certo ou não têm mais jeito: “Morreu, morreu quer comprar laranjas?”
Por Carlos Eduardo Esmeraldo
2 comentários:
Carlos,
Benditas e fartas sejam suas memórias!
Elas dizem respeito a um universo espécifico e especial que é a cultura do nosso Crato e da região do Cariri.
Essa passagem que reune o velório de sua bisavó (ainda que torta) e a vendedora de laranja (com toda sua altiva petulância), merece uma dissertação de mestrado...
Bravo!
Prezado Carlos Rafael.
Puxa, e eu que relutei muito em postar esse texto... Você levantou a minha autoestima. Muito obrigado!
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