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sexta-feira, 10 de outubro de 2008

CORDELISTA DO CRATO LUCIANO CARNEIRO É MESTRE DA CULTURA DO CEARÁ

OPERÁRIO DO VERSO
Por Cacá Araújo

Luciano Carneiro de Lima é uma espécie de mago do verso popular. É como um Midas das letras sertanejas: toda palavra que põe no mundo vira poesia. Constrói seus versos falando sobre religião, problemas sociais, tradições populares. Romanceia e faz humor.

Agricultor, carroceiro e vigilante, Luciano Carneiro é uma das mais respeitadas e reconhecidas expressões do verso popular caririense. Pobre de bens e rico de sabedoria popular, ele é considerado um cordelista completo.

Iniciou em 1975 divulgando suas poesias no Programa Coisas do Meu Sertão, do saudoso poeta e radialista Eloi Teles, primeiro na Rádio Araripe do Crato e depois na Rádio Sociedade Educadora do Cariri. Mas foi aos 12 anos de idade que se revelou como poeta, quando cantava de viola com seu irmão Cazuza.

Fundador da Academia dos Cordelistas do Crato, sendo hoje seu presidente, lá presta serviços como tipógrafo na Gráfica Coisas do Meu Sertão.

Tem mais de 40 cordéis publicados, alguns em parceria, e participa ativamente da vida cultural caririense, sendo referência para novas gerações de poetas e admirado por grandes nomes como Pedro Bandeira de Caldas (cantador), Antonio Vicelmo (jornalista), Ariovaldo Carvalho (ex-prefeito do Crato) e Geraldo Amâncio.

Cantou com Azulão do Norte, Gerônimo Bonfim, Pintassilgo e Zé Gaspar, entre os quais somente o primeiro é vivo e reside em São Paulo.

Poeta respeitado e querido pelo povo simples e por segmentos intelectuais do Ceará, foi jurado de vários festivais de violeiros, participou de festivais de folclore, simpósios de poesia, recebeu homenagens de instituições como o SESC e a Escola Agrotécnica Federal do Crato.

Casado com Luzanira Batista de Lima, com quem teve 13 filhos, dos quais 10 estão vivos, é natural de Teixeira-PB, conhecida como “terra dos poetas”, em 7 de janeiro de 1942, e reside em Crato-CE há mais de 50 anos.

Seu reconhecimento oficial como Mestre da Cultura do Estado do Ceará, através do Edital Tesouros Vivos da Cultura 2008, promovido pela SECULT, significa o enobrecimento da poesia popular e a garantia de melhores condições de peleja em defesa da alma sertaneja universal através de seu verso mágico e elaborado com talento e sabedoria.

“Eu não tive vocação / Pra diácono nem vigário / Tornei-me então um poeta
Não muito extraordinário / Mas sou com muita alegria / No campo da poesia
Um verdadeiro operário”
(Luciano Carneiro)

Do Crato, foram inscritos por Cacá Araújo, além do poeta Luciano Carneiro, a mestra de reisado e lapinha Mazé Luna, a mestra de dança do coco Edite Dias e o mestre de banda cabaçal Emídio Barbosa (Mestre Bidu, falecido há pouco mais de um mês).

O nome do cordelista e tipógrafo Luciano Carneiro e os dos outros novos Mestres serão levados à publicação no Diário Oficial do Estado e os novos Tesouros Vivos da Cultura 2008 serão diplomados na abertura do IV Encontro Mestres do Mundo, no dia 2 de dezembro, na região do Cariri.

Crato-CE, 10 de outubro de 2008.



Santa Tereza d´Ávila

Festa da padroeira em Altaneira
10/10/2008
00:38

Altaneira, cidade que completa 50 anos de fundação em dezembro próximo, é a única no Ceará que tem como padroeira Santa Tereza d´Ávila, doutora da igreja e reformadora do carisma da ordem carmelita. Por causa das eleições municipais, ocorridas no último domingo, 5, os festejos da santa foi adiados e começaram ontem, 9, prosseguindo até o próximo dia 18.
A data comemorativa à Santa Tereza d´Ávila é dia 15 de outubro. Mais de 50 mil pessoas são esperadas na cidade, que fica na região do Cariri, durante os 10 dias de festa. A abertura das comemorações foi marcada pela chegada do pau da bandeira. Trata-se de um tronco de árvore com 20 metros de comprimento que é conduzido pelos fiéis. O pau foi cortado no sítio Poças, a três quilômetros da sede do município, e conduzido pela estrada de acesso até à praça da igreja matriz. Na caminhada, muitos levavam lenços brancos para saudar a chegada do pau da bandeira. Os homens que vão conduzindo o tronco param no trajeto para descansar e tomar a famosa "cachaça do seu vigário", bebida em garrafas que é levada pelas pessoas que dão apoio à caminhada.
Muitos jovens e adultos que participam de grupos folclóricos da cidade também acompanham os condutores do pau da bandeira desde o sítio até à igreja e, no trajeto, fazem apresentações. "O tema deste ano da festa de nossa padroeira é Com Santa Tereza d'Ávila, Discípula e Missionária, Defendemos a Vida", informa o pároco, padre Wilecir Basílio Vidal. Ele informa que, durante 10 dias haverá novenas, missas, caminhadas, alvoradas festivas, visitas das imagens aos bairros da cidade. À noite, barracas para a venda de comidas típicas no calçadão da cidade, no centro. Também estão programados leilões, quermesses e shows musicais. "Esse momento, em que comemoramos nossa padroeira, é também de confraternização entre os familiares e amigos. Muitos que nasceram em Altaneira retornam nessa época para rever pai, mãe, irmãos, pessoas que não vêem há muito tempo", diz o padre Wilecir.
No dia 18, último dia de festejos, estão previstas missas solenes, pela manhã, com a presença do bispo diocesano do Crato, dom Fernando Panico, e de padres da região. Está marcada procissão para as 16 horas, saindo da praça da igreja matriz e percorrendo as principais ruas do centro de Altaneira. Os fiéis rezam e cantam seguindo o andor com a imagem de Santa Tereza d´Ávila. Ao final, haverá a bênção do Santíssimo Sacramento (representação de Jesus na Hóstia Consagrada) presidida pelo pároco Wilecir Vidal.
(Colaborou Amaury Alencar)
(Matéria publicada no jornal "O Povo" 10-10-2008)

terça-feira, 7 de outubro de 2008


O grande Pedro I
Armando Lopes Rafael

Há 210 anos, no dia 12 de Outubro de 1798, nascia no Palácio de Queluz – nas cercanias de Lisboa – o Príncipe Pedro de Alcântara, que viria a ser Dom Pedro I, o primeiro imperador brasileiro. Infelizmente, nosso povo pouco se interessa e pouco sabe da nossa história. Por isso, desconhece quem foi esse grande herói.
Em Portugal ele passou à história como Dom Pedro IV, O Rei-Soldado, por combater – na Guerra Civil de 1832-34 – o irmão D. Miguel, que havia usurpado o trono de sua filha, a Rainha Maria da Glória. Mas, ficou também conhecido, em ambos os lados do Oceano Atlântico, como '”O Libertador'” — Libertador do Brasil do domínio português e Libertador de Portugal do governo absolutista.
Segundo João de Scantimburgo, Dom Pedro I foi o “Clarão do Novo Mundo”. O historiador Pedro Calmon, por sua vez, considerou-o “O maior príncipe do século XIX”. Conhecido como o Rei Cavaleiro, Pedro I possuiu, dentre outros, os títulos de Imperador do Brasil, Rei do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, d’Aquém e d’Além-Mar em África, Senhor da Guiné, da Conquista da Navegação e do Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia.
Por sete vezes foram oferecidas a Dom Pedro I as Coroas de três nações: Grécia (em 1822 e 1830); Portugal (1826 e 1834) e Espanha (1826, 1829 e 1830). Mas ele sempre teve preferência por seu querido Brasil, país aonde chegou com 9 anos de idade e que foi palco dos melhores momentos e dos maiores atos heróicos de sua breve vida.
Seu pai – Dom João VI – chegou a cogitar a criação de um imenso Império, com mais de 30 milhões de Km2, composto por possessões portuguesas espalhadas em três oceanos e cinco continentes, tendo a capital no Brasil. Não fosse o retorno apressado de Dom João VI à Europa, essa teria sido a herança deixada a Dom Pedro I.
Deve-se ressaltar ainda que Dom Pedro I era forte no físico e valente no temperamento. Polivalente, além de estadista (chegou a ser Chefe de Estado em dois continentes), foi militar, poeta, músico (é o compositor do Hino Nacional de Portugal até 1920 e do Hino à Independência do Brasil), jornalista, legislador e geopolítico. Sem esquecer que era muito religioso, domador de cavalos, exímio carpinteiro, abolicionista, apreciador das mulheres e de espírito liberal.
Por fim devemos recordar o grande interesse que Dom Pedro I teve em ampliar as Forças Armadas do Brasil. Foi para impedir a sua redução que o jovem imperador dissolveu a Assembléia Constituinte de 1824. A nova Constituição foi elaborada por um Conselho de Estado indicado pelo novo imperador e submetida à aprovação de todas as Câmaras Municipais do Brasil, por elas aprovadas, a começar pela do Rio de Janeiro.
Dom Pedro I morreu no Palácio de Queluz – aos 36 anos de idade – no mesmo quarto em que nasceu. Em 1972, no 150º aniversário da independência brasileira, seus restos mortais foram transportados para o Brasil, onde se encontram na cripta do Monumento do Ipiranga, na cidade de São Paulo.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

COMEMORAÇÕES ELEITORAIS

No dia seguinte às eleições comemorar resultados positivos faz parte da disputa. É um momento especialmente humano. Uma disputa eleitoral envolve sacrifício pessoal do candidato e de sua militância, acusações, ataques a reputações, boas tiradas e todo este efeito se projetando nas urnas. Aí, então, a contabilidade dos votos se torna a democracia representativa. E será assim que, no dia seguinte às comemorações, tudo voltará ao “normal”.

O governo governa e o povo reclama dos eleitos. Até novas eleições. No meio vem toda aquela enxurrada de corrupção, má administração, traições de promessas, abandono de princípios e o jogo jogado que não tem a mesma natureza do jogo de azar. É jogo dirigido, com ganhadores já definidos no financiamento do candidato e nos acordos do cotidiano das administrações.

No dia seguinte as manchetes abrirão com a vitória dos candidatos dos jornais. Blogs e sítios, financiados por candidatos, também comemorarão. Claro que existem os perdedores, mas neste caso as manchetes serão mais sutis, transformarão derrota numa vitória subentendida e subjetiva. No dia seguinte a realidade será a de sempre: a democracia representativa e não a democracia real e direta.

A condição primária para uma democracia real e direta será a disposição da sociedade e da política de abrirem as entranhas das disputas de classes sociais. Como sabemos as classes sociais se territorializam. E toda política pública só pode acontecer num território. Assim é que o Bairro da Batateira irá disputar melhorias com bairros das classes médias tradicionais da cidade. Do mesmo modo é que a evolução política se torna mais objetiva e clara, pois cada vez mais cada indivíduo, nesta construção da política real, terá maior certeza dos objetivos do seu território e saberá conduzir o dia-a-dia com maior resultado.

A condição secundária da democracia direta e real é a criação de novas instituições. Mesmo que sejam próximas das instituições formais como a câmara de vereadores e a prefeitura. Mas é preciso que reuniões em assembléias com decisões e deliberações, que o voto plebiscitário, entre outros mecanismo como conselhos temáticos, debates e audiências públicas se tornem veio da implantação e implementação das políticas públicas.

domingo, 5 de outubro de 2008

Pássaro cearense, padrinho de ouro


Um macho do Soldadinho-do-Araripe, espécie considerada criticamente ameaçada. (Foto: Ciro Albano)
Felipe Lobo 21/08/2008, 19:12

O soldadinho-do-Araripe (Antilophia bokermanni) deve estar dando pulos de alegria no cantinho do Ceará onde vive. Para entender a razão é preciso voltar no tempo e viajar até a Inglaterra, onde aconteceu a British Bird Fair – maior feira de observação de aves do mundo - entre os dias 15 e 17 de agosto. Durante o evento, o pássaro, endêmico da Chapada do Araripe, recebeu um apoio de grossíssimo calibre: Sir David Attenborough, uma das vozes mais influentes da conservação no mundo, aceitou o convite da Bird Life International para ser o patrono do bichinho, cuja espécie sobrevive à beira da extinção. Ela agora passa a estar em excelentes mãos.

Attenborough nasceu em Londres, em 1926, e se firmou como um naturalista respeitado e diretor de documentários sobre natureza que, quando vão ao ar na BBC inglesa, costumam derrubar a frequência de cinemas e restaurantes. Em 2006, uma pesquisa de opinião o elegeu como o personagem de maior credibilidade no Reino Unido. No mesmo ano, outra enquete popular o elevou à condição de maior ícone vivo dos ingleses, à frente de gente como Paul McCartney e Michael Caine. Attenborough filma bichos e plantas pelos quatro cantos do mundo há mais de meio século. Há quem jure que não há ser humano que mais tenha andado de avião do que ele.
O patrocínio do naturalista inglês à luta do soldadinho-do-araripe para se manter vivo fez a felicidade de seus defensores no Brasil, reunidos nas Ongs SAVE (capítulo da Birdlife no Brasil) e Aquasis, do Ceará, esta última responsável pela guarda da espécie. Foram seus técnicos que, no final de 2006, elaboraram o plano para sua conservação que está em vigor. A história de como o pássaro conseguiu padrinho tão poderoso começou em 2007, quando a feira inglesa decidiu pela primeira vez adotar como tema as espécies de aves criticamente ameaçadas de extinção – 189 no total – ao redor do globo.
Para escolher as cinco espécies mais representativas dessa legião de bichos despossuídos – e que levariam todo o dinheiro arrecadado com a bilheteria da feira realizada em Londres – a Bird Life convocou seus capítulos em diversos países a indicarem candidatos. Quem ganhou a distinção no ano passado também foi uma ave brasileira, o formigueiro-do-litoral (Formicivora littoralis), que ocorre principalmente na região de Massambaba, Cabo Frio, na costa do Estado do Rio. Junto com a distinção, o formigueiro ganhou um padrinho suíço que destinou fundos para sua conservação. Logo que a feira de 2007 terminou, Pedro Develey, diretor de conservação da SAVE-Brasil, conversou com amigos e decidiu designar o soldadinho-do-Araripe para a edição de 2008.
O bichinho, além de símbolo da feira, ganhou o patrocínio de Attenborough, que assumiu a função de defender o soldadinho-do-Araripe pelo mundo e captar recursos para a guardiã da espécie, a Aquasis, prosseguir com o trabalho de conservação. “É uma personalidade mundial de comunicação, tem um poder de mobilização de milhões de pessoas no mundo inteiro. Não tem ninguém que se compare a ele no trabalho de divulgação, conservação, alerta aos problemas que estamos enfrentando. Portanto, o fato dele aderir à causa de uma espécie brasileira é muito relevante”, diz Guto Carvalho, organizador do Avistar, o encontro anual de observadores de ave do Brasil.
A história desta ave é curiosa. Em dezembro de 1996, o então estudante de biologia, Weber Girão, foi a uma expedição na Chapada do Araripe em companhia do professor Galileu Coelho, da Universidade Federal de Pernambuco. Galileu levava consigo um gravador com a voz de uma ave que nunca escutara, e perguntou para Girão se ele gostaria de acompanhá-lo no local onde havia registrado o canto. Diante da resposta positiva, os dois tocaram o canto para atrair seu autor. Quando o soldadinho-do-Araripe apareceu, os pesquisadores perceberam logo que estavam diante de uma raridade.
“A diferença entre ele e as outras espécies era tão nítida que já sabíamos se tratar de uma descoberta”, diz Girão, hoje biólogo da Aquasis. A sua descrição, no entanto, só aconteceu dois anos depois. Foi publicada na revista Brasileira de Ornitologia, que na época se chamava “Ararajuba”. Para conseguir entender a ecologia da espécie, Weber voltou para a Chapada e coletou um indivíduo de cada sexo. Eles tiveram que morrer, mas abriram espaço para um amplo trabalho de conservação. Hoje, os dois exemplares estão na coleção da Federal de Pernambuco.
O habitat do soldadinho-do-Araripe é restrito a apenas 28 quilômetros quadrados nas encostas da Chapada do Araripe, na divisa entre o Ceará e Pernambuco. “Lá tem uma ressurgência das águas absorvidas pelo platô da chapada, o que propicia o aparecimento de uma mata bem úmida, com árvores altas, bem diferente da Caatinga e do Cerrado”, explica Thieres Pinto, biólogo do Aquasis. O pássaro se alimenta, basicamente, de frutos da mata e alguns insetos, mas coloca seus ovos apenas em galhos próximos a uma das 300 nascentes da região. Por isso, sua ligação com a água é muito importante. Os machos da espécie, que costumam ter entre 15 cm de comprimento e 20 gramas de massa, são brancos, têm a cauda e as penas de vôo negras e um manto carmim que se estende do meio do dorso até o topo da cabeça. Territorialistas, eles não andam em bando e protegem sua companheira e filhotes dentro da faixa de terra conquistada. “É comum avistar um macho, depois andar um pouco pela floresta e, logo em seguida, encontrar outro guardando o território próximo”, diz Thieres. Já as fêmeas têm cor verde-oliva e apresentam um comportamento tímido. Quando os filhos crescem, o pai os expulsa de seus domínios.
Sexo e topete
Uma das principais diferenças entre os sexos é o topete. Enquanto ele cresce nos machos de acordo com o desenvolvimento do indivíduo (podem até ultrapassar a ponta do bico em até quatro milímetros), a fêmea sequer tem um. Mas elas possuem penas carmins isoladas no dorso e penas de vôo um pouco menores. “É uma das aves que os turistas têm maior curiosidade de observar. Vêm pessoas do mundo inteiro, Europa, Estados Unidos, e todos querem muito encontrá-la. Ela preenche todos os requisitos: é endêmica, está ameaçada e é muito bonita”, afirma Ciro Albano, ornitólogo da Aquasis e guia de abservação de aves do nordeste.
Integrante do mesmo gênero do soldadinho-do-cerrado, o pássaro cearense tem características morfológicas semelhantes, mas uma coloração bem distinta, já que o primeiro é quase totalmente negro e tem o manto carmim. Além disso, vive em todo o cerrado e entra pela Mata Atlântica e Amazônica também. Segundo senso realizado pela Aquasis, há cerca de 800 espécimes do tipo cearense na vida selvagem, e nenhuma em cativeiro. “Achávamos que ele ocorria apenas em duas ou três nascentes, mas vimos que estávamos errados. Mas é provável que a população esteja diminuindo”, diz Thieres.
O tráfico de animais selvagens é um problema sério para diversas espécies, mas não para o soldadinho do Araripe. A principal ameaça que ele enfrenta, na verdade, é a perda e a fragmentação de seu habitat. Isso acontece porque sua área de influência coincide com quatro municípios em franca ascenção na micro-região do Cariri. É lá onde estão Crato, Barbalha e Missão Velha, além de Juazeiro do Norte, a maior cidade do espaço e que necessita de muita água para a sua população. “Lá é um oásis no meio do sertão”, diz Weber Girão ao explicar o por quê da especulação no entorno dos 28 quilômetros usados pelas espécies.
A água já é usada para a irrigação há séculos, mas somente há alguns anos os cerca de 1.2 milhão de habitantes que vivem nas proximidades da floresta úmida avançam suas propriedades para o local. A busca por novas áreas para o cultivo de culturas inovadas, como uva, também pode ser um grave impasse para a conservação da espécie nos próximos anos. De acordo com o Plano de Proteção da espécie elaborado pela Aquasis, a vazão da nascente da Batateira (Crato) já reduziu em três quartos ao longo do século XX em virtude do manejo inadequado e do desmatamento do planalto e das matas das encostas.
“A população entende a importância de proteger o soldadinho, pois isso significa também conservar a água que ela usa”, diz Thieres. Enquanto os recursos captados por sir David Alttemborough não chegam, a Aquasis espera uma resposta do Instituto Chico Mendes para iniciar as conversas sobre uma unidade de conservação de proteção integral no habitat da ave e no platô da Chapada do Araripe, onde entra a água que ressurge no planalto. Mas Pedro Develey, diretor de conservação da SAVE, está esperançoso quanto à carreira internacional do nosso soldadinho-do-Araripe. “A feira na Inglaterra é uma grande vitrine, e ele conseguiu um patrono rapidamente”, completa.
Fonte: sitehttp://oeco.tempsite.ws/

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

A maldição do frade


Um religioso, muito amigo e íntimo de Dom Pedro II, com quem conviveu quase toda a vida, de quem era confidente e conhecedor de todas as suas lutas, dificuldades, angústias e sofrimentos, e que no calor do movimento da expulsão de Dom Pedro II e toda a sua família, vendo a injustiça contra o Imperador sendo praticada, teria dito para que muitos ouvissem:
“Maldito seja o marechal Deodoro e todos os que o acompanharam nesse ato de injustiça, que é a expulsão do mais ilustre brasileiro, Dom Pedro II.
Malditos sejam pelo uso da espada , contra um homem velho, indefeso e doente.
Malditos sejam todos aqueles que ocuparem o cargo de governantes do Brasil sem legitimidade.
Malditos sejam os republicanos!”
(fato narrado no livro “A Maldição do Imperador-Cem anos de República–1889-1989", do advogado e historiador - residente em Juazeiro do Norte - Francisco Luiz Soares. Gráfica Sidil Ltda. Divinópolis-MG, 2000, página 364)

Se o fato acima é verídico, eu não sei.
Mas que dá para desconfiar dessa maldição, lá isso dá! Dos 40 presidentes da República, 10 eleitos não cumpriram seus mandatos; 7 eleitos foram depostos; 1 eleito renunciou; 2 eleitos não tomaram posse por terem falecido; 1 assumiu pela força; 2 vice-presidentes terminaram o mandato de presidentes eleitos; 1 eleito foi impedido de tomar pose; 1 eleito se tornou ditador. E nos últimos 80 anos apenas três presidentes civis, eleitos pelo povo, conseguiram terminar o mandato: JK, FHC e Lula da Silva.
Isso sem falar nas cassações, exílios e impeachment...
Mas voltando ao início desta nota: não dá para desconfiar que a maldição pegou?

quinta-feira, 2 de outubro de 2008



República
impopular do Brasil


A sociedade ficou fora no regime que teve de imitar mitos, hinos, bandeiras e heróis


Cláudio Fragata Lopes (*)


A proclamação da República que em 15 de novembro próximo completará 119 anos, ainda é um capítulo equivocado na História do Brasil. Muita gente pensa no episódio como uma revolução popular, que pôs fim à monarquia e instalou no país um regime moderno e progressista. Mas não foi bem assim. O ato de implantação da República não teve participação popular. Foi fruto de uma elite, formada por militares, intelectuais e proprietários rurais, que, para legitimar o novo regime junto ao povo, tentou forjar mitos e símbolos.
Aprendemos na escola a ver a República como um movimento renovador e patriótico. Mas o episódio teve uma repercussão bem diferente daquela que está nos livros. A população carioca assistiu, no dia 15 de novembro de 1889, a uma parada militar liderada pelo marechal Deodoro da Fonseca, que até o último momento hesitou em desempenhar o papel de "proclamador”.
Testemunhos da época sustentam que o marechal deu um “viva ao imperador” ao fazer o famoso gesto que o pintor Henrique Bernadelli eternizou em quadro, e até hoje simboliza o ato da proclamação.
A descrição que o dramaturgo Arthur de Azevedo fez do episódio não é mais animadora: o cortejo passou em silêncio pelas ruas e o marechal parecia “um herói derrotado, mal se sustentando na sela, a cara fechada, de cor ferrosa puxando para o verde”.José Murilo de Carvalho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, é um dos historiadores que vêem a República com outros olhos: “Deodoro nunca foi republicano, nem antes, nem depois de 15 de novembro”, afirma. O marechal aceitou a missão por razões corporativistas, em defesa da honra militar, e também táticas, já que os conspiradores eram muito jovens.


Alegorias republicanas
De todos os símbolos fabricados, só a bandeira vingou


O mito do herói
A atuação dos participantes de 15 de novembro não foi suficiente para transformá-los em heróis. O jeito foi promover Tiradentes ao panteão cívico da República. Durante o desfile, o pintor positivista Décio Villares distribuiu uma litogravura onde o inconfidente aparecia com ares de Cristo.


A mulher República
Todo o esforço de representar o novo regime por meio da figura feminina, como foi feito na França, fracassou. Nesta tentativa de Décio Villares, a República brasileira tem na cabeça o barrete frígio, tal como foi usado ao tempo da primeira república francesa. Mas ganhou um toque nacional, passando de vermelho a verde e amarelo.(*)


(*) Cláudio Fragata Lopes é jornalista
cfragata@edglobo.com.br

(continua)

Primeira bandeira da República dos Estados Unidos do Brasil que só durou 4 dias (de 15 a 19 de novembro de 1889)
República
Impopular do Brasil
(2ª parte)
A sociedade ficou fora no regime que teve de inventar mitos, hinos, bandeiras e heróis

Cláudio Fragata Lopes (*)

Como salienta o historiador José Murilo de Carvalho, a campanha abolicionista foi popular: “O republicanismo, não”. Mas existem razões para isso. Desde sua fundação, em 1870, o movimento republicano foi sustentado por três correntes que se engalfinharam pela definição do novo regime: o liberalismo à americana, o jacobinismo à francesa e o positivismo, doutrina do filósofo francês Auguste Comte, difundida entre os militares brasileiros por Benjamin Constant. Eram ideologias que pertenciam ao círculo fechado das elites educadas. Seus respectivos ideários estavam acima da compreensão da maioria da população, que dispunha de baixíssimo nível de instrução.
Eis porque sua atuação era nula no palco da política organizada. No dia 15 de novembro não foi diferente. O papel reservado às massas foi de figuração, sem tomadas de Bastilhas, como na França Revolucionária.
A saída mais conveniente para a República foi a do liberalismo ortodoxo, vestido de federalismo à americana, salienta o historiador. Sem demora, porém, empenharam-se (os golpistas) em criar um arsenal de símbolos, mitos e alegorias que sensibilizasse as massas, de modo a legitimar o novo regime. ”Por meio da recriação de um imaginário é que se pode atingir não só a cabeça, como o coração de um povo”, frisa Carvalho.
Uma das medidas mais urgentes foi encontrar um herói para a República. Vários nomes destacaram-se no episódio. Quintino Bocaiúva, dono do jornal “O Paiz”, porta-voz oficial do republicanismo, era considerado “patriarca” ou “apóstolo” da República. Deodoro e Benjamin Constant disputavam o título de “fundador”, embora o mais aceito para o velho marechal fosse o de “proclamador”. O vice-presidente, marechal Floriano Peixoto, que substituiu Deodoro quando este renunciou em 1891, era aclamado como o “salvador” do regime. Nenhum deles tinha carisma popular. Para ter um herói, a solução encontrada foi promover Tiradentes ao panteão da República. Mas a celebração do 21 de abril só começou em 1891, instituída pelo novo regime.
A principal batalha pela simbologia republicana se deu em torno de uma nova bandeira e do Hino Nacional. No dia da proclamação, os participantes não tinham ainda uma bandeira. Levaram às ruas um modelo confeccionado pelos sócios do clube republicano Lopes Trovão, na verdade uma cópia da bandeira norte-americana, onde as cores imperiais verde e amarela foram conservadas nas faixas horizontais.
Quatro dias depois foi anunciada a vitória da corrente positivista. A bandeira continuaria a ser a do Império, retirando as armas imperiais e no lugar uma esfera azul com a inscrição “Ordem e Progresso”.

(*) Cláudio Fragata Lopes é jornalista
cfragata@edglobo.com.br

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Dicas aos eleitores


por Valdir Silveira Júnior


É ano eleitoral, e a história se repete: demagogos (que se dizem defensores dos interesses populares, em especial das classes baixas, e prometem coisas irrealizáveis), populistas (que buscam as simpatias das classes baixas por meio de "direitos sociais"), oportunistas (que se valerão do cargo público para obter vantagens) e despreparados (que não possuem qualificação para ocupar o cargo público), para não falar nos sujos (que emporcalham a cidade com cartazes, pichações e coisas do gênero) e barulhentos (que nos obrigam a ouvir musiquetas estridentes, sem o menor respeito por nossa privacidade), todos esses aí querem, custe o que custar, ser eleitos.
Tais tipos, obviamente, não merecem o voto do eleitor. Este, contudo, pergunta: em quem votar, já que a maioria dos candidatos se enquadra naquelas categorias? Generalizações são injustas, e regras comportam exceções. Sobre estas exceções o eleitor deve se informar, em especial sobre certos atributos dos candidatos que determinarão como será seu mandato:O primeiro atributo é a honestidade, que no homem público deve ser inatacável. Pois não só a moralidade e a legalidade são princípios aos quais deve obedecer cegamente o futuro administrador público, bem como o cotidiano deste implicará situações freqüentes em que sua honestidade será posta em prova.

Embora a Constituição Federal não se refira expressamente à honestidade como requisito de elegibilidade, tal podemos inferir quando aquela afirma que a lei estabelecerá "outros casos de inelegibilidade..., a fim de proteger a probidade administrativa, a moralidade para o exercício do mandato, considerada a vida pregressa do candidato". Assim, o eleitor deve buscar informações sobre a "vida pregressa" do candidato, evitando, contudo, fontes imparciais ou suspeitas.

O segundo atributo é a competência. Noções de direito, contabilidade, administração, economia e outras ciências afins serão úteis ao cotidiano do futuro administrador público, repleto de situações em que o conhecimento de tais ciências será necessário ao regular desempenho do mandato.

Aliás, a lei deveria obrigar os candidatos a realizarem concurso público, para que fossem avaliados seus conhecimentos técnico-científicos nas matérias relacionadas ao exercício do cargo público pretendido. Somente estariam aptos a disputar as eleições aqueles que demonstrassem deter conhecimentos mínimos naquelas matérias. Tal medida evitaria que multidões de incompetentes concorressem aos cargos públicos, desde já melhorando a qualidade das eleições. Atualmente, basta que o candidato leia um textozinho qualquer e rabisque algumas palavras para ser considerado alfabetizado, o único requisito concernente à competência que a lei exige. Esses abusos da democracia tendem justamente a enfraquecê-la, principalmente porque a maioria dos que votam e dos que são votados possuem baixa instrução. Assim, um pouco de aristocracia, a fim de mitigar os excessos da democracia e melhor qualificar os futuros administradores públicos, não faz mal.

O terceiro atributo é a sensatez e prudência. Um candidato sensato e prudente é aquele que saberá adequar os poderes que a ele são conferidos pela lei com as reais necessidades da sociedade; é aquele que sabe que, quanto maior o Estado, mais ineficiente será e mais caro será mantê-lo; é aquele que sabe que, quanto mais "direitos sociais" forem conferidos, mais dependentes do Estado e menos dispostas ao trabalho serão as pessoas; e por aí vai. Assim, e a título de exemplo, um candidato sensato e prudente não faz promessas irrealizáveis, não só porque as promessas de hoje podem ser os impostos de amanhã, bem como pelo fato de que os orçamentos públicos já são limitadíssimos; não tentará impingir à sociedade medidas absurdas e desprovidas de qualquer razão, como, a pretexto de combater preconceitos e discriminações, adotar políticas baseadas na raça ou na opção sexual das pessoas; não prometerá criar mais órgãos públicos para isso ou para aquilo, como se já não os tivéssemos em excesso; e por aí vai. Enfim, se a lei confere ao administrador público poderes maiores do que aqueles conferidos ao particular, para que aquele realize o bem comum, tais poderes hão de ser exercidos com prudência e sensatez, ou teremos tiranos disfarçados de democratas.

Alguns podem me acusar de idealizar o "político perfeito" (embora eu saiba que eles são feitos de carne e osso), mas em verdade busco instigar o espírito do "eleitor perfeito", aquele que pondera bem antes de escolher os futuros administradores públicos. Se eles pretendem ocupar os cargos públicos mais elevados de nossos municípios (ou dos Estados ou da União), é natural que o eleitor deles exija honestidade e probidade, preparo, sensatez e prudência, firmeza etc. Quanto mais rigoroso o eleitor, mais acertado será seu voto. Eis um excelente meio de evitar decepções pelos próximos 4 anos. Em não havendo candidatos que se enquadrem em tais exigências, busque o "menos ruim". Ou anule o voto, pois o eleitor é obrigado a votar, mas não a eleger.

Eleições 2008


Eleições: prós e contras

Armando Lopes Rafael

No cenário mundial poucos países realizam tantas eleições como o Brasil. Possuímos até um sistema de voto eletrônico provavelmente o mais avançado do mundo. De dois em dois anos temos votação para escolher nossos dirigentes e representantes. Sem esquecer de outras votações, a exemplo da escolha de diretores de escolas públicas, do Conselho Tutelar e até de reitor de universidades públicas, um caso atípico em todo o mundo.
É claro que tudo isso tem um custo. E não falo só das despesas com o processo eleitoral em si (que são caríssimas), mas, também, dos salários de vereadores, prefeitos, deputados, senadores, governadores e presidentes da república, pagos com dinheiro dos impostos cobrados da população.
Ninguém discute que as eleições são a base de uma sociedade democrática. O que está a merecer reflexão é se essas sucessivas eleições têm representado algum avanço para a sociedade brasileira. Qualquer pessoa medianamente informada sabe que o Brasil precisa, urgentemente, de uma reforma política para resgate da credibilidade e confiabilidade das nossas instituições e dos políticos. Infelizmente, essa reforma tem estado em segundo plano desde a promulgação da Constituição vigente. Bom não esquecer que, em 119 anos de regime republicano, a atual Constituição completa, neste 5 de outubro, apenas 20 anos de existência.
Denuncia-se, a cada eleição, a compra de votos. Tanto que o Poder Judiciário e a Igreja Católica, vêm promovendo, a cada dois anos, uma campanha educativa com o lema “Voto não preço, tem conseqüência”. Programas sociais, como o “Bolsa-família”, viram motes – nesta temporada – nos palanques eleitorais. Como se fossem uma dádiva de governantes bondosos...
E em meio a tudo isso temos uma oposição fraca e sem rumo e uma mídia forte, com alguns setores da imprensa e jornalistas assumindo o papel de partidos políticos, já que os atuais partidos não têm tradição na jovem democracia brasileira. O desempenho da mídia, aliás, vem causando desconforto a setores do governo e até à esquerda que não se reciclou depois da falência do socialismo real. Os mais radicais criticam a imprensa com o pejorativo título de “PIG-Partido da Imprensa Golpista”. Entretanto, devemos à mídia o pouco de transparência que temos no Brasil atual.
De qualquer forma temos de reconhecer que houve algum avanço nos últimos vinte anos. O Poder Judiciário goza de credibilidade. Maiores resultados só advirão em longo prazo. Com a evolução da educação do povo. Quando tivermos de fato a consciência da cidadania. Aí teremos o controle dos nossos representantes pela opinião pública. A reforma política constitui apenas o começo desse processo.

(escrito especialmente para o "Jornal do Cariri")

domingo, 28 de setembro de 2008

ZÉ, ESTE OURO SE ENCONTRA NA RAIZ DE TEU OUTRO NOME

Um século mais novo que eu, mas certamente um irmão sanguíneo no sentido literal. Um irmão mais novo que, no meu carinho arrevesado de nordestino, tanta provocação fiz. Era um miudinho bom de mexer. Por tudo ficava zangado (antigamente minha gente), o meu filho mais novo já em fase de muda, também era igual. Melhor situando. Nasci um sanduíche entre duas mulheres uma mais velha e outra mais nova, só oito anos depois é que tive um irmão. Naqueles idos Zé Flávio, Almirzinho, Nivaldo e Joaquim Pinheiro (estes dois moram em Recife) eram meus verdadeiros irmãos. Com cada um deles tive contatos próprios. Zé Flávio, numa certa época era bem constante, pois além da mãe ser sobrinha da minha, os nossos pais eram sócios.

E agora José? Como seremos Vikings na Lagoa do Gravatá? Lutando as lutas mais ferozes que dois artistas hollywoodiano poderiam lutar? Atravessando fiordes descomunais, através de labirintos indecifráveis formados pela vegetação aquática. Nas ações perigosas em que os barcos emborcavam (um cocho imprestável para a finalidade devida, mas um bom flutuante). Conquistando as mulheres mais lindas de Hollywood e beijando-as com tanto fervor que pequenas manchas chupadas ficavam nos antebraços.

Zé e a aquela dieta de Semana Santa no inverno do Gravatá. Dona Maria, Seu Valdemar e o velho Oscar. E Maria? Aquele lindo rosto de índia com a memória da raça branca e artefatos dos negros. As chuvas que se casavam com o solo pedregoso do sertão e nele fertilizava uma variedade sazonal de legumes para os sertões: maxixe, jerimum, milho e feijão verde. O queijo de coalho soando como borracha à mastigação de um baião de dois, quente e acalentador na friagem das chuvas. O clarear da madrugada sobre a cerca do curral, um copo com o fundo coberto de açúcar para em seguida encher-se de leite mugido. Mais um pouco o café, leite quente e cuscuz de milho novo.

A manhã começava com as trilhas em busca do gado no pasto. Em que área pastavam? Subir a trilha do serrote, ladear as locas de pedras, uma semicaverna, cercada de imbés e cactos. A flor da coro-de-frade. A mais exótica flor que conheço. Plumosa, redonda e inchada feito um bolo no forno. Os coxins da cangalha eram preenchidos por tal pluma e todos os sertões assim eram transportados. Mais uma distância na trilha da caatinga e chegávamos à Lagoa da Besta, no alto do serrote, cercada de lajedos, com as margens preenchidas por variada nascença de cactos: xique-xique, rabo-de-raposa, coroa-de-frade, entre outros. A manhã satisfeita, os bezerros achados e sem bicheiras e voltávamos para a casa. Em seguida ao açude.

Raras vezes se tem a oportunidade de tamanha proximidade com os pais. Manoel Vieira, Zé do Vale, entre um visitante ou um morador tomávamos banho como se fôssemos todos iguais. Os adultos brincavam feito crianças em fantasia de trabalho e as crianças trabalhavam feito adultos em fantasia de brincadeira. Desafios de mergulho, de nado, de pular. E as gozações consequentes dos erros e acertos propostos. Quando a manhã terminava o almoço se tornava rara iguaria na cozinha da casa do vaqueiro. Na estação pós prandial, as redes que os adultos mergulhavam no sono e as crianças se aquietavam até se juntar com mais alguém e se aventurar nos arredores.

Brincar sob a copa da cajaraneira ou dos pés de umbu. Seguir até a loca da pedra na encosta do serrote e de lá avistar todo a planura do revelo sertanejo. Imaginamos que nos limites da visão chegávamos a enxergar as vertentes da chapada do Araripe. Foi nesta loca de pedra que o Velho Antonio Dão se escondeu com um rifle carregado para atirar em inimigos do cangaço. Naqueles idos nas locas de pedra a mais curiosa das coisas seria observar a destreza dos cabritos e bodes aos saltos, numa beirada de abismo, com tanta naturalidade que parecia parte móvel daquele granito sertanejo. Lá pelas 16 horas catar no mato gravetos de galhos secos e juntar no terreiro da casa para a fogueira da noite.

Mais um banho de açude. O jantar e a roda em torno da fogueira. Cadeiras comuns e algumas espreguiçadeiras faziam o grande evento da noite. Mas também uma roda em que estivesse Manoel Vieira e Zé do Vale se assemelhava a algo da era de ouro da Grécia, através das ruidosas ruas da Roma Imperial e na confluência entre o Império Bizantino e a Roma dos Papas. Isso tudo misturado com dois sábios que tinham raízes profundas na vida sertaneja, na rudeza cruenta do couro de animal e das pontas das varas no canto da cerca. Os vizinhos de alguns quilômetros se aproximavam, os moradores e a conversa se expandiam no maior teatro que jamais haverá outro igual. A não ser o próprio.

O teatro se dividia em duas partes. Uma plana formando a base, menor que a outra, abobada e envolvente. Nesta base plana, embora na redução da capacidade do olho humano, sentia-se pela linha do horizonte que muito mais distância havia que nossa pouca imaginação. Nesta base ocorria todo o horizonte de eventos da terra e suas manifestações. Inclusive nós. Já na abóbada, vez por outra singrava a luz direcionada dos primeiros momentos dos satélites artificiais, por lá eventos da crosta já fugiam para o teto universal e tão intensamente cheio de planetas e estrelas que o rebaixamento da imaginação desconhece. Literalmente, a não ser por nossa velha confiança na força de gravidade, estávamos a um passo de flutuar no universo real e infinitamente maior que o cotidiano urbano.

Agora Zé, façamos a contabilidade daquelas noites: a exata dimensão do sertão; somada das histórias locais; adicionadas da cultura ocidental; do teatro universal e das telecomunicações com o estrangeiro. Dos demais já falei, resta esta telecomunicação. Um rádio transglobe, com aquelas faixas que giravam com um botão, sintonizando a rádio de Moscou, a Voz da América, a BBC de Londres, alguma estação escandinava com música clássica, Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília. O saldo destas noites vale toda uma vida. Até a vontade de amanhecer e entardecer tantas vezes mais quanto possível.

Pois é Zé Flávio Pinheiro Vieira, não há um minuto que não valha um século de reflexão e um século que não valha uma noite estrelada com aqueles companheiros de então.

sábado, 27 de setembro de 2008

OS FILÓSOFOS DA BATATEIRA E O DÓLAR

Os filósofos da Batateira elaboram numa escala tão alta que não ouso falar deles no raio além dos limites do Crato. Eles poderiam sofrer capturas por parte dos pragmáticos de sempre, daqueles que só enxergam metas e objetivos pela frente. Vêm apenas os pontos de chegada, nunca se abeberam das margens naturais de sua jornada. Por isso me reserva muito descrever suas reuniões, como mais esta sob a ponte do Rio Batateira para a qual a convocação não constava de uma pauta.

Naquele princípio de conversa, sem um tema para discutir as conversas surgem espontaneamente. Como uma piada, muito inocente para o gosto humorístico atual, desenvolvida por Mitonho:
- Um casal estava apaixonado. Arriados os quatro pneus e mais o de suporte. Aí o rapaz questiona a moça "como vamos casar sem dinheiro?". Ela no desejo imediato responde "meu bem me basta olhar para você que a fome passa". Casamento consumado, vem a fome e a esposa se queixa. O rapaz estranha "mas você não disse que bastava me ver para que a fome passasse?". Ao que ela responde: "mas não estou nem te vendo?".

Chico Preto, o líder dos filósofos, aproveita a história de Mitonho para iniciar a conversa:
- É isso aí. Nós somos, talvez, o único animal com maior capacidade de elaboração interior. Somo animal de inteligência, temos estratégias para defender a vida, temos manhas, seduções, mentiras e verdades, temos filosofia e história. Temos técnicas para manipular o planeta e até o espaço interplanetário. Mas continuamos dependendo da matéria do planeta para chegar nos próximos minutos.

- Chico, peraí! – Chambaril levantou uma questão - E a nossa alma? Temos um espírito! Algo que supera esta matéria do mundo. Chico tem uma virtude: não é arrogante nem no olhar e nem na postura e argumenta com Chambaril:
- Até hoje só a morte supera a matéria. Mas a morte não é uma entidade, uma essência, a morte é tão somente um fato, uma ocorrência que até funciona como um marco de passagem, mas não um conteúdo independente do mundo. Ela é totalmente dependente que o fato se antecipe de nascimento. Então quando digo que a vida material das pessoas é muito significativa é porque se algum de nós deixar de trocar o ar do pulmão por mais de cinco minutos, já se encontra ameaçado. E cinco minutos não é nada na nossa vida.

Zé de Dona Maria levanta uma questão de condução da reunião:
- Mas qualé o assunto mesmo da reunião? Chico ajusta sua postura na fala e se responde: É a crise americana. Biô aproveita para dar umas estocadas na arrogância americana. Chico Breca diz que nada de ruim pode acontecer com o Brasil. Fan põe o indicador puxando a pálpebra inferior do olho e diz: não afeta? Olha aqui ó!" Na verdade muitas outras visões pessimistas e outras tantas de fé no sempre forte EUA surgiram pela voz de Placa Branca, de João Barros e até pela boca do pouco falador Pinga. Chegara a hora de um encaminhamento do assunto. Tantas visões, muitas em choque não levariam a nada.

Chico retomou a palavra:
- Na busca pelo atendimento das necessidades da vida material nós compramos e vendemos estes recursos. Isso já com dinheiro arrumando a conversa e uma bem dosada regra de convencimento chamada de preço. O valor em moeda do que tenho para comprar e alguém tem para vender. Depois o mundo ficou mais esperto. As pessoas envelhecem, se aposentam, adoecem, ficam inabilitadas para o trabalho e então como a moeda é a garantia de que pode operar no mundo material, a pessoa faz poupança para os tempos ruins. E aí surge mais outra coisa.

João de Barros passa a mão sobre a pança lustrosa e brinca: aí parou. Não tem mais o que se dizer. A poupança é o fim da linha. Chico ri, pois sabe que o João deu ênfase para que a próxima explicação ficasse didaticamente mais fácil: Não. Não é o fim da linha. Aí as pessoas que querem uma coisa, mas não tem todo o dinheiro, pega emprestado de quem tem poupança e devolve aquele dinheiro com juros para compensar e estimular o poupador a emprestar. Mas aí.....

- Égua ainda tem outro aí! – Com certa irritação Bacurim exclama. Chico explica: Tem. Como o poupador pode juntar muito dinheiro, ele não tem meios para saber se quem está pedindo emprestado tem ou não condição de pagar-lhe. O que ele faz? Entrega esta atividade para um Banco. Com isso o Banco passa a ser na verdade o grande analista da capacidade do solicitante de dívida e com isso o Banco vira o maior emissor de dívida do mundo material.

- Eita ferro! É os americanos escritim. Tudo é no banco. Quem tá quebrando são os bancos. – Grita Mitonho, mas Chambaril logo rebate: Uma ova. Quem vai quebrar são as pessoas que têm poupança. Quem é devedor é caloteiro, mas o poupador é o perdedor. Chico Breca dar uma paulada final: Como não existe uma categoria separada de poupador e tomador de empréstimo, a mesma pessoa é um e outro ao mesmo tempo, todo mundo tá fodido. E Chico completa: o pior de tudo é que pelos próximos anos o mundo vai funcionar assim como um queima de estoque para balanço. Vai ficar todo mundo tonto para saber o real valor das coisas. Vai ser assim como casal se separando, cada um querendo levar vantagem sobre outro, briga de todo tamanho, pois afinal aquele céu arrumado pelo dólar é quem está em crise.

- E é assim? Desta monstruosidade? – Pinga se preocupa e Chico explica: "É isso mesmo. Como é que o mundo vai funcionar com uma regra que está toda lascada? Ninguém olha mais para o dólar sabendo do que se trata. O Brasil, podem contar aí, vai passar por um pedaço muito ruim. Não adianta achar que o dia amanheceu igual, pois hoje ele é outra coisa.

Nisso passa uma ambulância do socorro de emergência com buzina a todo grito na direção do bairro. A reunião não tem mais quem segure. Filósofo é ingrato como todo ser humano. Surge uma novidade e todo mundo corre para saber do que se trata. Não tem nem ritual de encerramento. Cada um queria seguir à frente dos outros para se antecipar nas explicações. Os filósofos da Batateira estão ficando um tanto parecido com o meio acadêmico.

Internacional

Expulso por Chávez
José Miguel Vivanco, diretor da organização de direitos humanos Human Rights Watch, conta, pela primeira vez em detalhes, como foi deportado da Venezuela por divulgarrelatório sobre as arbitrariedades do governo chavista
Diogo Schelp
Gilberto Tadday e Fernando Llano/AP

O advogado chileno José Miguel Vivanco, de 47 anos, diretor da Divisão para as Américas da Human Rights Watch, uma das principais organizações de defesa dos direitos humanos do mundo, e seu colega americano Daniel Wilkinson foram expulsos da Venezuela há duas semanas, a mando do presidente Hugo Chávez. O pecado de Vivanco foi ter ido a Caracas para divulgar o relatório "Uma década sob Chávez: intolerância política e oportunidades perdidas no avanço dos direitos humanos na Venezuela". De seu escritório em Washington, Vivanco relatou a VEJA a sua expulsão, com detalhes inéditos.
Como foi a sua expulsão da Venezuela?
Depois de passar o dia divulgando o relatório, regressamos ao hotel por volta de 22h15. Ao entrar, percebemos que os recepcionistas e mensageiros olhavam para nós de maneira estranha, com um misto de preocupação e curiosidade. Mas não desconfiei de nada.
Os policiais estavam esperando por vocês na porta do quarto?
Sim. Daniel e eu subimos pelo elevador até o 14º andar e, quando chegamos, demos de cara com um grupo de pouco mais de vinte pessoas. Uma câmera de televisão foi, então, ligada e começaram a nos filmar. Um sujeito baixinho identificou-se como diretor de direitos humanos do governo venezuelano, título que me deu vontade de rir. Com a voz empostada, ele disse, todo solene: "Em nome do governo bolivariano da Venezuela, ordeno sua expulsão imediata". Ele falava como se lesse uma proclamação militar ou algo assim. O baixinho estava cercado por uns quinze homens à paisana, com rádio na mão e armados com pistolas. Havia também cinco sujeitos do Exército com uniforme de combate e fortemente armados.
O que o senhor fez?
Eu tratei de explicar que aquilo era uma irregularidade muito grave. O sujeito baixinho respondeu: "O senhor violou a Constituição ao ofender a Venezuela. Decreta-se, portanto, sua expulsão". Ele seguia repetindo isso como um robô. Era nítido que falava para ter suas palavras registradas pela equipe de televisão. Eu protestei: "Estamos neste país de maneira legal, com todos os documentos em ordem. Estivemos aqui para divulgar um relatório de direitos humanos e só porque o seu governo não gostou do conteúdo não tem o direito de nos tratar como se fôssemos delinqüentes perigosos". O baixinho respondeu: "Coopere, senhor Vivanco, porque esta situação pode ser muito mais difícil!". Eu exigi, então, o direito de falar com o embaixador chileno. Não permitiram. Reclamei: "Supõe-se que a Venezuela seja uma democracia, não uma ditadura em que o chefe de estado expulsa as pessoas no meio da noite". Nesse momento, um dos militares deu um passo à frente e gritou: "Chega de discussão!". Os outros brutamontes me cercaram. Pedi para ir ao meu quarto para pegar minhas coisas. Eles disseram: "Sua mala foi empacotada. Todos os seus objetos pessoais já foram recolhidos. O procedimento foi filmado". Eu protestei, dizendo que isso era um abuso.
Não lhe permitiram entrar em seu quarto?
Sim, porque eu precisava me certificar de que não haviam colocado algo na mala que pudesse me incriminar na alfândega, como drogas ou uma arma. Eu também precisava pegar meu passaporte e meus cartões de crédito guardados no cofre. Mal comecei a inspecionar minha bagagem e os capangas puseram-se a me empurrar e a gritar: "Já revistou, já revistou, vamos embora!". Eu virei as costas, saquei meu celular BlackBerry e tentei fazer uma chamada para o meu embaixador. Um dos brutamontes me empurrou, o outro torceu meu braço por trás das costas e um terceiro arrancou o celular da minha mão. Daniel tentou fazer o mesmo em seu quarto, mas eles quebraram o seu telefone. A TV estatal de Chávez filmou, mas não mostrou nada disso. Agarraram minhas coisas, colocaram-me para fora do quarto e foram me empurrando pelo corredor.
Seu colega foi junto?
Sim, mas primeiro tentaram nos separar. Como protestamos, levaram-nos juntos a um elevador de serviço. Entraram conosco o baixinho e cinco brutamontes. Eu ainda não havia conseguido recuperar o meu celular e estava com medo de que aqueles sem-vergonha ficassem com todo o meu arquivo pessoal, armazenado no chip. Comecei um empurra-empurra para pegar de volta meu aparelho, até que o elevador travou entre dois andares. Assim mesmo, eu continuei empurrando meus captores. O baixinho ficou em pânico e gritou: "Doutor Vivanco, por favor! Esta coisa ainda vai despencar e causar uma tragédia!". Eu disse: "Não paro enquanto não me devolverem o celular!". O baixinho mandou me entregarem o telefone, sem a bateria. Em seguida, os capangas começaram a pedir socorro. Era uma situação ridícula, uma verdadeira comédia. Imagine que aquilo deveria ser uma operação de segurança de alto nível do governo venezuelano, para expulsar dois supostos inimigos internacionais – e estávamos todos presos no elevador de serviço.
Como vocês saíram?
Vieram uns funcionários com ferramentas e conseguiram mover o elevador um pouco. Fui puxado para fora pelos braços. Na saída do prédio, havia meia dúzia de veículos 4x4 blindados, com vidros escuros, e umas sete motocicletas com policiais. O baixinho me disse: "Doutor Vivanco, a minha tarefa acaba aqui. Eu o deixo a cargo do coronel. Adeus". Eu disse: "O quê? O senhor está lavando as mãos pelo que pode nos ocorrer a partir de agora?" Aquele foi o momento em que mais tive medo. E se tudo o que acontecera até então fosse uma armação para nos fazer crer que estávamos a caminho do aeroporto, enquanto, na verdade, iríamos terminar na sede da Disip, o serviço de inteligência da Venezuela? Se fôssemos presos naquelas condições, sem ter conseguido avisar ninguém, o que poderia acontecer? Daniel e eu então decidimos, em uma rápida conversa, não entrar na caminhonete. Resistimos até que os brutamontes nos agarraram pelas pernas e pelos braços e nos enfiaram à força dentro do veículo.
Vocês foram levados diretamente ao aeroporto?
Sim. Chegamos ao aeroporto por volta de meia-noite e fomos levados à pista, sem passar pela imigração. O primeiro avião que eu vi de dentro do carro foi o da Cubana de Aviación. Pensei, então, que o pesadelo não havia terminado e enfrentaria coisa ainda pior. Só faltava estarem nos mandando para Cuba! Depois me lembrei que Caracas é a única cidade latino-americana com vôos diretos para Teerã, no Irã. Temi que, em vez de Cuba, pudessem nos meter em um vôo para lá. Felizmente, o avião era o da Varig. Fiquei mais tranqüilo. Subimos as escadas, sob insultos dos brutamontes.
O avião estava esperando por vocês?
Sim, o vôo ia para São Paulo e estava mais de duas horas atrasado. Os passageiros imaginavam, conforme nos contaram depois, que éramos amigos de Chávez e nos atrasamos porque ficamos em festa, celebrando com o presidente. Já as aeromoças brasileiras sabiam desde o início que se tratava de uma expulsão por razões políticas. Elas até nos permitiram ir ao banheiro dar um telefonema, enquanto o avião se preparava para decolar.
Houve algum problema na entrada na Venezuela?
Daniel e eu levamos a Caracas quatro caixas com cópias do relatório. Duas delas não chegaram à esteira das bagagens. Um funcionário da American Airlines, companhia na qual viajamos, nos ligou horas depois do desembarque, para relatar, constrangido, que a alfândega venezuelana havia confiscado as duas caixas, sob o argumento de que continham livros proibidos. Acredito que, na noite anterior à nossa expulsão, os agentes de inteligência da Venezuela leram o relatório. Chávez nos expulsou para mostrar o que acontece com aqueles que o criticam.
O governo venezuelano os acusou de estarem a serviço do governo americano. Faz sentido?
Isso é completamente absurdo. Temos inúmeras publicações condenando a administração de George W. Bush pela prisão de Guantánamo. Mas não há comparação entre a maneira de o governo americano reagir às críticas e a de Chávez. Cada vez que alguém se opõe ao chavismo, é classificado como golpista, reacionário e agente do império. Chávez faz isso para intimidar e para não ter de responder às críticas. A tática de seu governo é falsificar a verdade. Mentir, mentir e voltar a mentir. É assim que ele está acostumado a governar.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Boa notícia


Economia
Arrecadação federal bate outro recorde
25 de Setembro de 2008 17:53-->

A Receita Federal anunciou nesta quinta-feira que a arrecadação de tributos e contribuições federais em agosto somou 53,930 bilhões de reais – o maior resultado para o mês na série histórica. Segundo os dados, o valor representa alta de 4,27% em relação ao mesmo período do ano passado. De janeiro a agosto, a quantia recolhida pelo governo federal também bateu o recorde histórico e chegou à marca de 443,56 bilhões, 10,33% acima do registrado no mesmo período de 2007.

Um dos principais responsáveis pela arrecadação recorde foi o Imposto de Renda, com arrecadação de 129,3 bilhões de reais, sendo 61 bilhões de reais somente das empresas. O Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) teve arrecadação maior, compensando o fim da CPMF. No acumulado do ano, o IOF arrecadou 13,44 bilhões de reais, contra 5,34 bilhões de reais em igual período do ano passado. Fora isso, o governo também aumentou a alíquota da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) paga pelas instituições financeiras. Fonte: site da revista VEJA

Comentário:
Lembremos de outra Notícia, esta divulgada em 27-10-2007:
“O presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu hoje a prorrogação da cobrança da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira–CPMF. A PEC (Proposta de Emenda Constitucional) que prorroga a cobrança da CPMF até 2011 está no Senado, onde enfrenta a resistência da oposição para ser aprovada. Lula acrescentou: “"Todo brasileiro de bom senso sabe perfeitamente bem que não há país ou empresa no mundo que possa prescindir de um imposto que lhe garanta R$ 40 bilhões no orçamento sem criar outro imposto. Até porque eles (os senadores oposicionistas) sabem que se não aprovar, quem vai perder é o povo brasileiro e o povo que se beneficia das políticas públicas que estão previstas nos investimentos do governo".

quinta-feira, 25 de setembro de 2008


Milagre e martírio em Juazeiro
Lucho Torres Bedoya


Amanhã (26) e nos dias seguintes, 27 e 28, realizar-se-á, em Fortaleza, o Seminário Estadual em Ciências da Religião intitulado: Milagre, Martírio e Protagonismo da Tradição Religiosa Popular de Juazeiro: Pe. Cícero, Beata Maria de Araújo, Romeiros/as e Romarias. O evento é promovido pelo Instituto de Ciências Religiosas - Icre. O assunto, que continua a despertar interesse, suscitando reações e posicionamentos diversos, será abordado em intensa programação que consistirá de conferências, seminários temáticos, oficinas, mesa redonda e atividades artístico-culturais (sala de exposição, teatro, repentes, e apresentação musical), oferecidos por pesquisadores qualificados da área e por conhecidos mestres da cultura.

O evento possibilitará a divulgação dos resultados da pesquisa recente a respeito do peculiar fenômeno cultural, social, religioso acontecido em Juazeiro em torno de Pe. Cícero, Beata Maria de Araújo e o movimento das romarias. Propiciará, também, o encontro de pesquisadores, professores e estudantes em Ciências da Religião do Estado na perspectiva de lançar o Fórum Estadual em Estudos sobre Religião. O Seminário pretende resgatar para o Ceará este rico patrimônio cultural-religioso que lhe pertence. Para além de discussões religiosas confessionais, este fenômeno precisa ser melhor compreendido à luz da contribuição das Ciências da Religião. O evento vai mobilizar um público diversificado: ligado, principalmente, à comunidade acadêmica dos centros de ensino superior do estado, e aberto ao público em geral. O fato de realizar-se no antigo Seminário da Prainha, da Arquidiocese de Fortaleza, confere ao evento um significado especial, por ser esse o local onde Pe. Cícero fez seus estudos em Teologia.

Lucho Torres Bedoya - Coordenador do Seminário Estadual em Ciências da Religião

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Saiu na "Folha de S.Paulo", 23-09-2008

23/09/2008 - 05h29


Combate à corrupção "estanca" no Brasil, diz Transparência Internacional


da BBC Brasil
O combate à corrupção "parece ter estancado" no Brasil nos últimos anos, segundo o relatório anual da organização Transparência Internacional (TI), divulgado nesta terça-feira. O índice de percepção de corrupção --que reflete como cidadãos em diversos países vêem o combate a este mal-- calculado para o Brasil permaneceu em 3,5 pontos, intocado em relação ao ano passado, em uma escala que varia de 0 a 10. Segundo a ONG, a situação do Brasil é ilustrativa da regional: 22 dos 32 países da região incluídos no levantamento ficaram abaixo dos 5 pontos, o que indica problemas sérios de corrupção. Destes, 11 sequer passaram dos 3 pontos, marco indicativo de corrupção desenfreada. Em sua análise para as Américas, a TI qualificou os resultados como "tendência infeliz para a região nos últimos anos". "Os esforços anticorrupção parecem ter estancado, o que é particularmente perturbador à luz dos programas de reformas de muitos governos", afirma o comunicado da ONG. Judiciário A pontuação foi obtida pela análise de diversos indicadores --no caso brasileiro, sete foram utilizados como fonte. As pesquisas mostraram que a América Latina tem o pior nível de confiança no seu Judiciário: quase três em cada quatro latino-americanos entrevistados em dez países da região declararam acreditar que existe corrupção nesta esfera de poder, afirmou a TI. Além disso, 54% dos entrevistados em uma pesquisa no ano passado disseram esperar que a corrupção aumente nos próximos três anos --uma proporção que era de 43% há quatro anos. "Esses elementos comuns parecem ser fatores determinantes no perpétuo sentimento de impasse na luta contra a corrupção na América Latina e no Caribe", afirmou o documento. "A região avançou significativamente na adoção de convenções e instrumentos legais contra a corrupção, mas está claro que muitos países ainda carecem da aplicação efetiva da lei." O professor Johann Graf Lambsdorff, da Universidade de Passau, que elabora o Índice para a TI, diz que há evidências de que melhorar um ponto no índice de percepção da corrupção aumenta as receitas de um país em até 4%, e a afluência de capital em até 0,5% do PIB (Produto Interno Bruto).


"Desastre humanitário"


No mundo, a lista dos países com melhores e piores índices foi pouco alterada em relação ao ano passado.
Melhores
Dinamarca e Suécia lideram o ranking, desta vez ao lado da Nova Zelândia --o antigo terceiro lugar, a Noruega, ficou em 14º e foi uma queda marcante no relatório deste ano, notou a ONG. Piores
Já a Somália, Mianmar, Iraque e Haiti registraram os piores índices. A Transparência Internacional procurou destacar o que chamou de "relação fatal" entre pobreza, instituições decadentes e corrupção. O mal adicionará US$ 50 bilhões --cerca de metade do volume de ajuda econômica anual global-- ao custo de alcançar os Objetivos do Milênio em acesso a água e saneamento básico, estimou a ONG. "Nos países mais pobres, os níveis de corrupção podem ser a diferença entre a vida e a morte quando está em jogo o dinheiro que vai para hospitais ou para água potável", disse a presidente da TI, Huguette Labelle. "Os altos e persistentes níveis de corrupção e pobreza que assolam muitas das sociedades mundiais são o equivalente a um desastre humanitário e não podem ser tolerados." Ela notou que mesmo nos países ricos o problema é preocupante, normalmente por falta de uma legislação que fiscalize a atuação das grandes companhias em outros países.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

A ARTE COMO DISCURSO POLÍTICO

Na semana passada Frei Betto publicou no Globo um texto com o título de "O Presente Infindável". A seguir vem um resumo do artigo. "São muitas nostalgias e poucas utopias. O novo conceito de tempo é o da arte cinematográfica, não mais linear, histórico. No filme predomina a simultaneidade. Suprimem-se a barreira entre tempo e espaço. O tempo adquire caráter espacial e o espaço tempo. O tempo dar saltos, do passado para o presente e deste para o futuro. Não há continuidade ininterrupta. A única âncora é o aqui-e-agora do espectador. Não há durabilidade e nem direção irreversível. A pessoa está morta e nas telas continua um personagem jovem e ativo. Aos poucos o horizonte histórico se apaga e a utopia sai de cena. Não há, como no Ecleisastes, tempo para construir e tempo para destruir; tempo para amar e tempo para odiar; tempo para fazer a guerra e tempo para restabelecer a paz. O tempo é agora, um tempo sobreposto de construção e destruição, amor e ódio, guerra e paz. A felicidade deixa de ser um projeto temporal, reduzindo-se a apenas um mero prazer instantâneo, epidérmico, derivado da dilatação do ego (poder, riqueza, fama etc.). A utopia é privatizada. É apenas o êxito pessoal. A vida não se move por ideais e nem se justifica pela nobreza das causas abraçadas. Basta ter acesso ao consumo que propicia valor e conforto. O Céu na terra – prometem a publicidade, o turismo, o novo equipamento eletrônico, o banco, o cartão de crédito etc. Nem a fé escapa à subtração da temporalidade. O Reino de Deus deixa de ser esperado lá na frente para ser esperado "lá em cima". A fé reduz-se à esperança de salvação individual. Uma mesma pessoa vive diferentes experiências sem se perguntar por princípios éticos, políticos ou ideológicos. Finalmente ele termina o texto com algo positivo sobre esta simultaneidade, que seria a busca da interioridade. Do tempo místico, do tempo absoluto. Tempo síntese/supressão de todos os tempos. Eis que irrompe a eternidade – eterna idade. Onde a vida é terna. Nas artes, a música e a poesia se aproximam desta simultaneidade que volatiliza o tempo, imprimindo-lhe caráter atemporal. Na música, nossos ouvidos captam apenas a articulação de umas poucas notas. No entanto, perdura na emoção a lembrança de todas as notas que já soaram antes. Em si, a melodia é inatingível, assim como o poema, uma sucessão rítmica de sílabas e palavras sutis. O que existe é a ressonância da nota e da palavra em nossa subjetividade. A seqüência se instala em nós. Não é o tempo fatiado em passado, presente e futuro. É o presente infindável. O tempo infinito. Como no amor, em que o cotidiano é apenas a marcação ordinária de uma inspiração extraordinária."

O texto de Frei Betto deve tocar fundo os corações de muitas pessoas que sente profundamente a evolução dos tempos presentes. Por isso mesmo é preciso contemplar que a arte cinematográfica não é a causa disso tudo. Apenas reflete um ordenamento da vida social e econômica que tem por eixo exatamente esta simultaneidade de vida. Em última análise uma conformação intelectual e sensitiva com uma realidade efetivamente imposta, histórica, pois terá fim, fruto de movimentos sociais e políticos. Enfim, toda esta volúpia de poder e riqueza é a regra do ordenamento geral. Afinal o cinema é uma mera narrativa da "ideologia" desta ordem, pode ser um pouco mais, se apresentar como crítica a ela, mas convenhamos que neste quase século e meio de sua existência ele é pouco demais para o tempo da história.

O outro dado a se considerar é o papel da música e da poesia com o qual Frei Betto explicita uma verdadeira experiência mística. Neste sentido a alma do frade se encontra num estágio por demais contemplativo para que ele se dê conta da força de sua argumentação na primeira parte do artigo. Seria como se diante de tanto desalento frente ao quadro geral da humanidade, nele encontrasse uma pepita brilhante com a qual pudesse finalizar de modo positivo o seu pessimismo introdutório. Mas também isso não é possível. Afinal a música e a poesia não se colocam em "categoria" distinta do cinema. Aliás, todos são partes dos mesmos recursos culturais dos tempos atuais. O próprio Nietzsche em suas diatribes contra Wagner, quase que na escala do dissabor pessoal, já alertava isso em relação à música. É que a música e a poesia são "discursos" humanos, históricos, providos de toda carga de tempo, assim como o cinema, portanto de ideologia, com intenções de se tornarem politicamente dominantes. No meu entender, por mais que gostasse de navegar na utopia de Frei Betto, não pude deixar de pegar na maçaneta da porta do tempo em que estes ficam para trás e um novo tempo se abre como uma utopia datada, mas certamente no território da humanidade.

Custos da Monarquia



Rogério da Silva Tjader (*)



Anos atrás, a revista Time publicou um artigo sob o título “A Magia da Monarquia Continua”, no qual constava textualmente:
“Uma das principais críticas à Monarquia consiste em dizer que ela é demasiadamente dispendiosa. Mas os Presidentes de Repúblicas também gastam e não estão aptos a governar com reis e rainhas que para isso foram educados. E os Presidentes nem sempre são tão honestos como eles, desde os europeus até os asiáticos.”
Por ocasião da independência da Noruega, quando o Parlamento votava a forma de governo a ser adotada, a Monarquia foi escolhida por 100 votos contra 4 a favor do regime republicano. Nansen – o Presidente do Parlamento – justificou o resultado dizendo:
“Optamos pela Monarquia por 3 razões básicas: é muito mais barata, concede mais liberdade, além de ter mais autoridade para defender os interesses nacionais”.

(*) Rogério da Silva Tjader é professor de História, titular em várias Faculdades, no Estado do Rio de Janeiro.

Duas cenas na vida do Padre Cícero


CENA 1

A família chegou ao Juazeiro, num carro de boi, depois de longos dias de caminhada pelo sertão poeirento do Nordeste. Pai, mãe, dois filhos e duas filhas conduziam um terceiro jovem, também filho do casal, possuído por maus espíritos, a fim de que o Padre Cícero lhe tirasse “o cão do couro”, expressão utilizada naquele tempo e correspondente hoje à palavra exorcismo. Colocado na sala de visita da casa do sacerdote, o rapaz, todo amarrado, espumava e urrava feito bicho bruto, querendo se ver livre das fortes cordas que o imobilizavam. Nisso, entra o Padre Cícero com um vidro de água benta na mão direita. Espargiu o líquido sobre toda a sala e em seguida ordenou: “tirem as cordas do rapaz”. Apesar das ponderações da mãe do moço, alertando que se ficasse livre das amarras o filho agrediria a todos, o Padre Cícero insistiu: “soltem o rapaz”. E começou a rezar em latim, jogando água benta no moço, que foi se acalmando até ficar totalmente sereno. A calmaria voltou ao ambiente. Padre Cícero recomenda dar uma xícara de líquido ao jovem, na parte da tarde, e leva-lo para descansar. Dias depois, os membros da família voltam à casa do Padre Cícero. Vieram agradecer ao sacerdote por ter livrado o filho dos maus espíritos. E retornaram, em seguida, para as paragens de origem.

CENA 2

A mesa de refeição da casa do Padre Cícero era sempre farta, embora ele próprio se alimentasse frugalmente. Diversas pessoas procuravam diariamente sua casa, nas horas das refeições, numa verdadeira exploração a conhecida hospitalidade do sacerdote. Por outro lado, todos os dias uma pequena multidão se formava, defronte a sua residência, buscando ter acesso ao velho padre. Ele recebia a todos indistintamente. Ricos e pobres. Moradores do Juazeiro ou visitantes vindos de diversos rincões do Nordeste. Nos últimos tempos, é bem verdade, a beata Mocinha fazia uma triagem dos visitantes a serem introduzidos ao sacerdote, pois era impossível o Padre atender a todos. Ele ouvia pacientemente todos os visitantes. Certo dia, uma mulher conduzindo nos braços uma criança furou a fila das pessoas a serem recebidas pelo Padre Cícero e, em alta voz, de forma impertinente, disse que uma parte da casa dela tinha ruído. Disse mais: cachorros e porcos invadiam o que restava da sua morada e ela não tinha condições de continuar mais lá. Pediu ao Padre Cícero uma ajuda. O velho sacerdote havia recebido, pouco antes, um donativo em dinheiro, e tinha colocado no bolso da batina a importância sem conferir. Pelo volume era uma boa quantia. Naquela mesma hora, Padre Cícero pegou aquele dinheiro e repassou toda importância para a mulher. Esta saiu demonstrando muito contentamento, pois, provavelmente, em toda sua vida, nunca tinha colocado tantos réis nas mãos...

Nota: as cenas acima foram relatadas por Maria Assunção Gonçalves, que conviveu com o Padre Cícero, ao autor destas linhas, e gravadas em julho de 2004.


Armando Lopes Rafael

sábado, 20 de setembro de 2008

ONDE ANDA VOCÊ?

O que deu errado? Uma longa fase de crescimento rápido, inflação e juros baixos e estabilidade macroeconômica gerou complacência e elevou a disposição para riscos. A estabilidade levou à instabilidade. (Martin Wolf – Financial Times)




Afinal o que ocorre? Para alguns é o movimento pendular do capitalismo entre o Estado e o Mercado. Por ocasiões o pêndulo tende para o mercado livre, auto-regulado, um ente racional que aposta nas melhores soluções e todos vivem felizes. Por outra é o Estado, regulador, indutor de estratégias, com proteções sociais e a igualdade traz a paz. Mas é isso mesmo o que ocorreu entre os anos 80 e estes 10 primeiros anos do século XXI, compreendido como o da era Teatcher-Reagen?

Aí dizemos dos Estados enfraquecidos, insuficientes para coisas complexas. Estados enxugados e reduzidos a uma linha de base que não interviesse nas leis de ouro do capitalismo. Aliás, cada vez mais as leis do capitalismo se reduzem a uma única: demanda e oferta. Uma vez deixada ao sabor dos seus movimentos, os agentes racionais, que se disseminam no mercado, conhecem exatamente a estrutura da economia e deste modo são capazes de se antecipar à evolução dos fatos. Aí o mundo segue. Mas o mundo é como um animal mesmo, mais que o outro animal do mercado, agita-se e a racionalidade perde a tramontana. Só não se imaginava que um ultra liberal como Martin Wolf viesse dizer que a regra de ouro, ela mesma, levasse à crise.

Mas tem um dado que nos deixa mais confusos. E confusão como sintoma mesmo de um contraditório que atravessa nossa visão, mas não o entendemos, pois nosso modelo de mundo racional se antepõe a esta visão. Ambos não combinam. Qual seja, se o neoliberalismo enxugou os Estados, levou tudo ao Estado Mínimo, que tanta grana é essa que sai das burras dos Estados nacionais para encher as malfadadas ações do mercado? Então o Estado era mínimo, mas o caixa era máximo? O Estado nada podia, era insuficiente e agora pode tudo, até nos salvar de uma quebradeira ao estilo anos 30? O Estado pode fazer guerra ao terrorismo, punir nações não pagadoras, punir populações rebeldes? Tem algo efetivamente contraditório nisso tudo.

Uma maneira de dirimir a contradição é contemplar se efetivamente ela existe. E ao que tudo leva a crer ela não existe. Jamais o capitalismo pôde abdicar dos Estados Nacionais. Apenas precisava limar limites nacionais para que os capitais, especialmente o financeiro, pudessem fazer o jogo livre de "novos produtos" para ganhar dinheiro, inventar a securitização, os derivados e jogar solto na face oculta da Globalização. Mas aí vem a revelação clara da era neoliberal: não se tratava de reformas para o livre mercado, mas de controle sobre os ganhos do trabalho e a proteção social que os movimentos trabalhistas haviam implantado nas sociedades do pós-segunda guerra.

A prova cabal foi a ampliação a quase início do século XX das desigualdades sociais em todo o ocidente. E agora que os Estados têm que salvar as empresas, como fica a questão do trabalho e das sociedades? Será muito pouco improvável que uma crise social não surja deste cenário. Uma crise social que tenderá a rever todo o rebaixamento da vida dos trabalhadores. Não é possível que após a farra das empresas um novo arranjo não se faça. Uma das coisas que mais chocou nos fatos da agonia do Leahman Brothers não foi apenas a sua quebra, mas essencialmente reconhecer-se que o banco operava com produtos fora da regulamentação, "inovadores" e o pior de todos os pecados, não contabilizados.

Uma contabilidade mentirosa, que não revele a verdadeira situação das empresas, é um dano irreparável ao capitalismo. Especialmente ao que resta de vida nele que são os chamados "agentes racionais" pois como este poderão tomar atitudes racionais se as informações não se ajustam à realidade? E vejamos que isso é um grande problema nos EUA, todas as famosas agências de risco erraram feio em sua previsão. Todas estão no furacão da crise, prestes a quebrar ou serem vendidas. A racionalidade esteve a serviço do irracional.