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terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Os Cratenses passaram 50 anos bebendo água de uma substância Cancerígena sem saber!


A SAAEC está trocando 15Km de canos completamente degenerados em Crato.



Você já ouviu falar em Amianto ? - É um material proibido em diversos países porque causa uma doença incurável chamada ASBESTOSE, além de Câncer. ( ver foto ao lado ). O que você provavelmente não sabia é que a tubulação de água do Crato, de aproximadamente 50 anos, era feita de AMIANTO. A água que muita gente bebia no Crato passava ( e em alguns lugares ainda passa ) por esse material. O Governo do Crato nesta gestão, está trocando 15 Km de canos e substituindo por outros que têm aprovação por institutos de pesquisa, e que não causam problemas à saúde.

O asbesto (da palavra grega ἀσβεστος, "indestrutível", "imortal", "inextinguível"), também conhecido como amianto (do grego αμίαντος, puro, sem sujidade sem mácula) , é uma designação comercial genérica para a variedade fibrosa de seis minerais metamórficos de ocorrência natural e utilizados em vários produtos comerciais. Trata-se de um material com grande flexibilidade e resistências tênsil, química, térmica e eléctrica muito elevadas e que além disso pode ser tecido.

Patologias causadas por Amianto

Já em 1898 o inspector-chefe de fábricas no Reino Unido relatava ao parlamento no seu relatório anual os efeitos malignos do pó de asbesto ( amianto ). Nele afirmava que a natureza aguçada como vidro das partículas quando presentes no ar em qualquer quantidade é nociva, como se deveria esperar. Em 1906 uma comissão do parlamento britânico confirmou os primeiros casos de morte causada por asbesto e recomendou que fosse melhorada a ventilação nos locais de trabalho, entre outras medidas. Em 1918 uma companhia de seguros dos Estados Unidos efectuou um estudo que demonstrava a ocorrência de mortes prematuras na indústria do asbesto e em 1926 a comissão de acidentes industriais de Massachusetts concedeu pela primeira vez a um trabalhador doente da indústria o direito à primeira compensação por doença causada por asbesto. Muitos dos afectados pela exposição ao asbesto nos Estados Unidos trabalhavam na construção naval durante a Segunda Guerra Mundial. Os problemas com o asbesto surgem quando as fibras se dispersam no ar e são inaladas. Devido ao tamanho das fibras, os pulmões não conseguem expeli-las [Casarrett & Doull's Toxicology (2001), pp 520-522].

Entre as doenças causadas pelo asbesto incluem-se:

* Asbestose - Inicialmente diagnosticada entre trabalhadores da indústria naval dos Estados Unidos, a asbestose consiste de lesões do tecido pulmonar causadas por um ácido produzido pelo organismo na tentativa de dissolver as fibras. As lesões podem tornar-se extensas ao ponto de não permitirem o funcionamento dos pulmões. O tempo de latência (período que a doença leva a manifestar-se) é geralmente 10 a 20 anos.

* Mesotelioma - Um cancro do revestimento mesotelial (pleura) do pulmão. A única causa conhecida é a exposição ao asbesto. O período de latência do mesotelioma pode ser de 20 a 50 anos. A maior parte dos doentes morre em menos de 12 meses após o diagnóstico.

* Cancro - Cancros do pulmão, do tracto gastrointestinal do rim e laringe foram associados ao asbesto. O período de latência é muitas vezes 15 a 30 anos.

* verrugas de asbesto - produzidas quando fibras aguçadas se alojam na pele sendo recobertas por esta causando crescimentos benignos semelhantes a calos.

* placas pleurais - espessamento de parte da pleura visível por meio de radiografias em indivíduos expostos ao asbesto.

* espessamento pleural difuso - semelhante à anterior. Geralmente assimptomática, pode causar perda de capacidade respiratória se a sua extensão for grande.

Riscos da exposição ao asbesto

Quase todas as pessoas são expostas ao asbesto em algum momento das suas vidas. No entanto, a maioria das pessoas não adoece em consequência dessa exposição. As pessoas que adoecem devido à exposição ao asbesto são geralmente aquelas expostas de forma regular, a maior parte das vezes no seu posto de trabalho em que contactam directamente com o material ou através de contacto ambiental substancial.

Vários estudos sugerem que os efeitos nocivos do Amianto são muito maiores no grupo das Anfíbolas. Experimentos com ratos de laboratório já provocaram a indução de processo cancerígeno causado por Amianto Crisotila, porém em doses muito altas que sequer são encontradas fora do ambiente de laboratório.

Hoje o uso do Amianto Anfibólio é proibido em todo o mundo. O Amianto Crisotila já é proibido em algumas regiões do planeta porém ainda é amplamente comercializado em vários países, apesar de muitos defenderem a sua proibição total.

Proibição

* No Brasil, alguns estados (Rio Grande do Sul, Pernambuco, Rio de Janeiro e São Paulo) e municípios brasileiros proibiram a industrialização e a comercialização de todos os tipos de amianto, inclusive o crisotila. Por outro lado, a Lei Federal nº 9055, de 1º de julho de 1995 dispõe sobre a mineração, industrialização, transporte e comercialização do amianto e dos produtos que o contém. O Decreto nº 2350 de 1997 regulamenta a Lei nº 9.055.Há um projeto em andamento para o banimento do amianto em todo o território brasileiro.O relatório sugere a desativação da única mina de amianto ainda em operação no Brasil, localizada em Minaçu (GO).O projeto está a ser votado.1

* A União Europeia proíbe toda e qualquer utilização do amianto no seu território desde 1 de Janeiro de 2005, estando a sua extração igualmente proibida. Os trabalhadores que tenham que lidar com o amianto nas suas actividades de remoção do mesmo estão sujeitos a especiais condições de trabalho.

* O Canadá proíbe o uso do amianto no próprio país e é um dos maiores exportadores mundiais do produto, juntamente com a Rússia; seus maiores clientes são países em desenvolvimento.

* Diversos países proíbem o uso do amianto. Na América do Sul o uso do amianto é proibido na Argentina, no Chile e no Uruguai.

* Discussões entre especialistas, ambientalistas, ONG's e empresas sugerem que para alguns o tema sobre o banimento do Amianto se trata mais de uma questão político-econômica do que propriamente de saúde pública. Muitos defendem a proibição total do minério sem sequer saber que existem dois grupos distintos de amianto.

Fonte: Wikipedia

Bispo recusa homenagem do Senado em protesto contra aumento

Eduardo Bresciani
Do G1, em Brasília

Dom Manuel da Cruz durante sessão especial no Senado Federal nesta terça-feira (21)
(Foto: J. Freitas / Agência Senado)

O bispo de Limoeiro do Norte (CE), Dom Manuel Edmilson da Cruz, recusou nesta terça-feira (21) receber uma comenda do Senado Federal. Ele afirmou que sua atitude era para protestar contra o aumento salarial de 61,8% aprovado pelos parlamentares em causa própria. A homenagem recusada por ele é a Comenda dos Direitos Humanos Dom Helder Câmara.

A recusa do bispo foi feita em um discurso no plenário do próprio Senado. Ele criticou os parlamentares por aprovar o aumento deste montante para o próprio salário. “Quem assim procedeu não é parlamentar, é para lamentar”, disse.

O religioso afirmou que a comenda que lhe foi oferecida não honra a história de Dom Helder Câmara, que teve atuação destacada na luta pelos direitos humanos durante o regime militar.

"A comenda hoje outorgada não representa a pessoa do cearense maior que foi Dom Helder Câmara. Não representa. Desfigura-a, porém. Sem ressentimentos e agindo por amor e por respeito a todos os senhores e senhoras, pelos quais oro todos os dias, só me resta uma atitude: recusá-la. Ela é um atentado, uma afronta ao povo brasileiro, ao cidadão, à cidadã contribuinte para o bem de todos, com o suor de seu rosto e a dignidade de seu trabalho”, afirmou o bispo. Ele destacou que o aumento dado aos parlamentares deveria ter como base o reajuste que será concedido ao salário mínimo, de cerca de 6%. “O aumento a ser ajustado deveria guardar sempre a mesma proporção que o aumento do salário mínimo e da aposentadoria. Isso não acontece. O que acontece, repito, é um atentado contra os direitos humanos do nosso povo”.

O senador José Nery (PSOL-PA) disse compreender a atitude do bispo. “Entendemos o gesto, o grito, a exigência de Dom Edmilson da Cruz”. Nery, que foi um dos três senadores a se manifestar na votação de forma contrária ao aumento, deu prosseguimento a sessão após a atitude do religioso.

Dom Manuel Edmilson da Cruz foi indicado para receber a comenda pelo senador Inácio Arruda (PC do B-CE). Além dele, foram indicados para a homenagem Dom Pedro Casaldáliga, Marcelo Freixo, Wagner de La Torre e Antônio Roberto Cardoso. Apenas este último também estava presente e discursou. Ele afirmou estar “incomodado” com a homenagem, mas disse a ter aceitado porque ela se enquadra dentro de um contexto histórico e de um reconhecimento ao trabalho de Dom Helder Câmara.

Fonte: G1

LÁGRIMA

Foto de Stálin Araújo

Por que não chega
A raiva, o ódio e a rebeldia
Deste amor profano?
E eu beberei até o sol sair
Me tostar as faces

Por que não chega
A fome e a falsa coragem
de gritar, subir, pular
Cair d'um edifício?
E acabarei co'a dor
Morrendo em teu louvor

Por que tu não não vens de noiva?
Pra me afogar na cama
Pra me acender o corpo
E amar, correr, suar
Melar, gemer, urrar
E só sair de dentro
Quando o amor se destruir
Se o amor se destruir
Fugir, morrer, saltar
Pela janela

Por que não chega
A decisão, o sim, o não
A flor, a faca?
Pra me mostrar o brilho, se for
Ou a escuridão


Cacá Araújo

Crato-Cariri-Ceará-Brasil

Pensamento para o Dia 21/12/2010



“Certa vez, Draupadi perguntou a Dharmaraja: "Senhor! Você é, sem dúvida, o mais elevado entre aqueles que seguem sem hesitação o caminho do Dharma; mesmo assim, como é que tal calamidade terrível lhe aconteceu? Dharmaraja respondeu: " Draupadi, não sofra. Olhe para a cordilheira do Himalaia. Quão magnífica, gloriosa, bela e sublime ela é! É um fenômeno tão esplêndido que Eu a amo sem limites. Isso não me dará nada, mas minha natureza é amar o belo, o sublime. Então, aqui também vivo em amor. A personificação dessa sublime beleza é Deus. Esse é o significado e a importância do amor por Deus. Deus é a única entidade que vale a pena amar. Essa é a razão pela qual eu O amo. Eu não desejo nenhum favor Dele. Não vou rezar para qualquer benefício. Que Ele me mantenha onde Ele quiser me manter. A maior recompensa para o meu amor é Seu amor! Meu amor não é um artigo no mercado." Assim, Dharmaraja ensinou Draupadi que o Amor é uma qualidade Divina e deve ser assim tratado. O Amor é a natureza espontânea daqueles que estão sempre presentes na consciência do Atma (Eu Superior).”
Sathya Sai Baba

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Laura no Natal - José do Vale Pinheiro Feitosa

Laura nasceu neste domingo do dia 19 de dezembro de 2010, menos dois dias em que, há 62 anos, nascera o avô. Naquele final de década dos anos quarenta, o mundo era só esperança, mesmo com a Bomba Atômica e o veneno da Guerra Fria já sendo inoculado, uma era de progresso humano começava.

Laura sentiu a luz do mundo pela primeira vez vindo das fontes artificiais da maternidade, dos flashes da fotografia digital, foi para uma incubadora que lhe deu calor a partir da eletricidade. Ela está num mundo muito mais complexo, muito mais avançado e que se pergunta todo dia como resolver as dores dos incertos dias.

Laura e o mundo: o quanto Laura é o próprio mundo e ele é o quantum de Laura, não se precisa responder. A resposta já é da natureza mesma do nascer. Não se nasce por acaso, é uma necessidade, um impulso de futuro, uma mutação contínua, com a qual jamais se encontrará um ponto final na sentença do que seja o mundo e Laura.

Para contabilidade dos que já estavam no mundo antes de Laura, resta um haver por multiplicar, como acréscimo do cotidiano. Sempre que imagino o 25 tios que a herança nordestina do avô de Laura lhe deu, não me veio o amor dividido dos pais, mas a imensa capacidade de multiplicar que tem o amor que tantas vezes o tratamos com o meloso banal de algumas frases de algibeira.

Isso posto que Laura, irmã de Sofia, é uma frase que se basta e diz tudo, mas não diz o que comumente pensamos como natural. Não existe uma ordem entre Laura e Sofia, esta primeiro e Laura depois. Não é um ranking de preferências ou particularidades. Em outras palavras a ordem cronológica entre as duas é apenas isso, não leva a maiores diferenciações que não seja apenas que Laura e Sofia, como de restos todos, somos parte únicas do mundo.

Quando se explica o que foi dito no parágrafo anterior, se revela a preocupação da longa tradição ocidental e até mesmo oriental: o primogênito. A ordem de herança e poder não cabe mais no mundo de Laura e Sofia. A primogenitura foi ultrapassada há muito, resta em algumas mentalidades apenas como o comum dos retalhos de arcaísmo que se pregam no corpo do presente.

Laura, neste exato momento que escrevo completa 24 horas no pleno do ambiente, tem uma calma de transição que não parece “chocada” com o salto qualitativo em sua vida. Dorme, muito raro faz um breve choro e ainda não tem a volúpia oral, mas os olhos se abrem e examinam a luz desconhecida por alguns momentos. Um parecer para sua mente universal, uma breve impressão sobre uma nova realidade.

Laura não é uma tela em branco pronta para receber a escrita do mundo. Há muito que ela é algo de existência, de vida, de experiência, uma imensidão de novidades que já havia mesmo antes dos nossos olhares a vista nua. Pois é verdade que já a víramos por ultrassonografia, mas agora tudo parece o primeiro momento. É que ela está, bem ali, com seu breve respirar e ruídos orais que já denotam a voz do infinito mundo.

O NATAL EM AQUARIUS

O Natal em Aquarius
Luiz Domingos de Luna*
Outro dia recebi a notificação para passar o natal em meu planeta natal Aquarius, confesso que fui acometido por uma emoção muito prazerosa, passar as festividades natalinas no meu querido Planeta Natal – Aquarius. Foi algo muito forte, muito presente, muita árvore, ai pensei Lá em Aquarius não tem árvore, lá o tempo real não existe, logo, este convite de meu retorno, era a meu ver no mínimo fajuto.
Sofri muito, durante a espera, visto saber que lá a possibilidade da existência do natal é algo totalmente impossível. Finalmente, como combinado, a nave a me esperar, já acostumado, entrei na cápsula, ou seja, no desmaterializador da matéria e fui para o bóson negro e ainda pude sentir a nave a mil vezes acima da velocidade da luz, como já estava desmaterizado, nem me preocupei com a teoria de Albert Einstein, pois eu era somente um porção de íons.
Chegando lá, pelo retroversor gravitacional, ganhei o meu formato habitual e o novo chip. Os irmãos gritavam é natal, é natal é natal, Pensei, o chip que colocaram em mim não deve está funcionado, pois este tipo de memória pertence aos terráqueos, jamais aos aquarianos.
O Instrutor foi logo ordenando, tragam o papai Noel para a ceia natalina entrei na fila como de costume e. trouxeram um espécie de caixote, com o Papail Noel, para a minha surpresa, o papai Noel existindo de verdade, num natal de verdade. Parecia uma alucinação, será que os humanos estão colonizando Aquarius. Foi o que me veio no pensamento, porém como já é sabido, nós Aquarianos não pensamos, foi somente um refluxo químico da memória terrestre.
O Instrutor de ordem, disse: este ano nós temos natal como se fazem no planeta terra, inclusive o papail Noel, tragam o papai Noel e apresentem a sociedade aquariana, e o irmão apresentou ao papai Noel para todos nós. Eu, como sempre, não me contive, perguntei:como é o nome do nosso papai Noel ? O instrutor disse é o GRAJ -1 uma bactéria que existe em abundância no Lago Mono na Califórnia, no Planeta Terra.
Eu fiquei logo emocionado, se bem que em Aquarius, não existe emoção e gritei, tragam o fósforo para acender a vela da ceia natalina.
O Irmão a lado disse: comporte-se, você não está no Planeta Terra, fiquei preocupado e perguntei o que eu fiz de errado? - Você falou em fósforo. Aqui não existe fósforo. E como vocês chamam fósforo aqui – Esqueceu irmão - esqueci – Arsênio.
(*) Procurar na web

Um jeito de falar esquecido no tempo – Por Carlos Eduardo Esmeraldo

Eu sou de um tempo em que tínhamos mais juízo, pois não víamos televisão, coisa desconhecida por nós cratenses. Falávamos nosso próprio dialeto, hoje substituído pela linguagem padronizada das novelas globais.

Nas tardes de domingo íamos aos programas de auditório das Rádios Educadora do Cariri e Araripe, para vaiar com um sonoro “fiufiu” os calouros que “levavam” “gongo”. E os locutores dessas “estações” de rádio eram chamados de “espiques”.

Que tempos bons aqueles em que nos divertíamos nos dias de feira! As ruas ficavam “apinhadas” de “beradeiros”, que de “boca aberta” “espiavam” “abismados” as janelas do Banco Caixeiral. Mal chegávamos à feira, os “moleques de rua”, “doidinhos” para ganhar alguns “tostões”, iam logo perguntando: “tem carrego”? “Tadinho deles!” Exclamavam algumas “beatas Filhas de Maria”, “compadecidas” daquelas crianças “sem pai nem mãe”. E como era bom ouvir os “chapeados” conduzindo pelas ruas e calçadas “caixões de pinho”, ou grandes “balaios” com as compras e, sufocados pelo peso, gritarem “Óia a mala, óia a mala, óia a mala!...” para pedir passagem no meio da “matutada”.

E quantas vezes eu fiquei na “entradinha” da “Rua da Cruz” esperando a “sopa” para ir ao Juazeiro? Quando as “peruas”, não passavam “entulhadas” de passageiros, eu ia nelas. “Doutras vezes”, algum “chofer” de caminhão “mais camarada" oferecia um “bigu” na “boléia”. Mas para o São José, como “dava só uma légua”, eu ia mesmo era “de pés”. Mas só chegava lá pela “boquinha da noite”, cansado e com “dor desviada”.

Nas seções matinais das séries do Cassino, em dias de domingo, havia uns “cabinhas” “enrolões” que passavam “checho” no porteiro e entravam “de graça”. Era comum a fita “cortar” “parando” o filme. Ouvia-se logo um grito de algum “maloqueiro” exigindo uma “reparação”: “meu dinheiro!” E nós meninos, influenciados por essas séries, quando fazíamos alguma brincadeira mais “arriscada” para “empunhar” os amigos, gritávamos: “thantantan: o perigo da série”!

Perdi a conta de quantas viagens eu fiz no “Misto” do Bodocó que subia a serra pela ladeira da “Matança” e descia na “banda de lá” pela ladeira do “Cancão”, até chegar no “Novo Exu”.

Fui freguês da Casa Abidoral, onde comprava uma porção de “alvaiade” para deixar branquinhos os meus “fanabus” e assim não tirar nota baixa nas aulas de “Educação Física”, que aconteciam às cinco horas da madruga. Quem não fosse com os “fanabus” bem limpinhos levava um grande “carão” do professor, que não tolerava “fanabus emporcalhados”.

Nas noites de domingo as “meninas moças”, usando um “califon” bem maior para os seus tamanhos, “tirado escondido” da mamãe ou das irmãs mais velhas, vestindo “saia godê” sobre “anáguas” com ”bicos” e “bem engomadinhas” e uma blusa “banlon” “arrodeavam” a Praça Siqueira Campos. Perdemos a conta do número de voltas que elas davam em torno da praça. Mas se elas fossem “enfileiradas” na estrada, daria para ir “inté” Fortaleza. Nós, “marmanjos”, ficávamos postados em pé na “beirada” da calçada, vestidos numa calça “faroeste” ou de “tergal” e finíssima camisa “volta ao mundo” para “flertar” com aquelas que nos dirigiam um “encabulado” olhar. E elas comentavam entre si: O meu flerte é um "pão", mas muito "acanhado"! Já faz quatro domingos que ele lança “um olhar pidão” e ainda não teve coragem de “encostar”. E aqueles rapazes mais “atirados” corriam o risco de receber uma “rabissaca” e a qualificação de “bicho veio enxerido”.

De um lado da praça, um grupo de “marmanjos” ficava na calçada da Loja Frigidere para “espiar” as “brechas” dadas pelas “balzaquianas”, quando elas sentavam nos bancos e, provocava os curiosos cruzando as pernas. Em certas ocasiões, as mais “sem cerimônia” recebiam uma “salva de palmas”.

Os “brotinhos” recebiam das mamães a recomendação para voltarem cedo para casa, pois não havia luz elétrica na cidade e, as ruas eram um verdadeiro “breu”. Elas tinham medo dos “rabos de burro”! Então, às nove horas da noite do domingo, a praça ficava um “ôco”. E nós íamos “merendar” na Sorveteria Bantim. Pedíamos uma “bananada”, ou “abacatada”, enquanto alguns comiam um “pão com ovo” acompanhado de “ponche” de maracujá

Quando arranjávamos uma namorada, uns três meses depois, os amigos perguntavam: “Já pegou na mão”? Era a maior ousadia que se permitia e a suspeita de que o namoro “era pra casar”. E quando um casal andava pelas calçadas e o namorado não cedia o lado da parede para a namorada, surgia logo a pergunta: “Tá vendendo?

Todos os dias, “depois” do almoço, “um magote de faladores da vida alheia”, sentava-se no “patamar” da Igreja da Sé para “tirar o couro” de quem passasse “rua abaixo ou rua acima”. Se por acaso um “barbeiro” “guiasse” um velho jipe 52 do pai e “arranhasse” a marcha, vinha logo a exclamação: “Uma abacatada!” E quando se ia contar um boato, perguntava-se antes: vocês me pagam as “alvíssaras”? Se o fato já fosse conhecido, respondiam: “boneco!” Ou substituíam a fala por um gesto equivalente: segurando a ponta da camisa e prendendo-a com os dedos “cata piolho” e o “fura bolo” em forma de circulo.

Naquele tempo, na seleção cratense, o “golquíper” era um Anjo, os “beques”: Silvio e Charuto, os “ralfes”: Peba e Enoque e o “centerfor” era Anduiá. Depois que trocaram os nomes dessas posições, o Crato nunca mais teve futebol que valesse “dois vinténs”.

Se você, amigo leitor, que se “deu ao trabalho” de ler até aqui “essas mal traçadas linhas”, tiver mais de sessenta anos, e não entendeu “patavina”, então é porque você não é “de” Crato! Uma cidade “metida a besta”, que hoje tem costumes globalizados.

Por Carlos Eduardo Esmeraldo

pensamento do dia 19/12/2010



“O segredo supremo é que você deve viver, no mundo onde nasceu, como a flor de lótus que, embora nascida na água, flutua sobre ela sem ser afetada ou molhada por ela. Obviamente é bom amar e adorar a Deus a fim de obter alguns frutos valiosos agora ou no futuro. Mas, já que não há fruto ou objeto mais valioso e interessante que Deus, os Vedas nos advertem a amar Deus sem nenhum traço de desejo em nossas mentes. Ame, desde que você ame por causa do amor. Ame a Deus apenas, sem qualquer outro desejo ou pretensão, pois tudo que Ele possa dar nada mais é do que Ele Próprio.”
Sathya Sai Baba

Culturas Indígenas

Guarani é oficializado como segunda língua em município do Mato Grosso do Sul


O guarani é a segunda língua oficial do município de Tacuru, no Mato Grosso do Sul. O município é o segundo do país a adotar um idioma indígena como língua oficial, depois da sanção, pelo presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, no dia 24 de maio, do Projeto de lei que oficializa a língua guarani em Tacuru. Com a nova lei, os serviços públicos básicos na área de saúde e as campanhas de prevenção de doenças neste município devem, a partir de agora, prestar informações em guarani e em português.

O primeiro município do Brasil a adotar idioma indígena como língua oficial, além do português, foi São Gabriel da Cachoeira, localizado no extremo norte do Amazonas. Além do português, São Gabriel tem três línguas indígenas oficiais: o Nheengatu, o Tukano e o Baniwa.

Em Tacuru, pequeno município no cone sul do estado do Mato Grosso do Sul, próximo ao Paraguai formado por uma população de 9.554 habitantes, segundo estimativa do IBGE de 2009, 30% de seus habitantes são guarani residentes na aldeia de Jaguapiré, situada no município. A maioria dos 3.245 indígenas de Tacuru não é bilíngue, ou seja, fala somente o Guarani o que dificulta o acesso aos serviços públicos mais essenciais.
Com a nova lei, a Prefeitura de Tacuru se compromete a apoiar e a incentivar o ensino da língua guarani nas escolas e nos meios de comunicação do município. A lei estabelece também que nenhuma pessoa poderá ser discriminada em razão da língua oficial falada, devendo ser respeitada e valorizada as variedades da língua guarani, como o kaiowá, o ñandeva e o mbya.

O Ministério Público Federal do Mato Grosso do Sul (MPF-MS) elogiou a aprovação da medida e argumentou que o Brasil é multiétnico e que o português não pode ser considerado a única língua utilizada no país.  O MPF lembrou que o Brasil é signatário do Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos, que determina que, nos Estados onde haja minorias étnicas ou linguísticas, pessoas pertencentes a esses grupos não poderão ser privadas de usar sua própria língua.

A Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) sobre os Povos Indígenas e Tribais determina, dentre outras coisas, que deverão ser adotadas medidas para garantir que os membros das minorias étnicas possam compreender e se fazer compreender em procedimentos legais, facilitando para eles, se for necessário, intérpretes ou outros meios eficazes.

Em Paranhos, também no Mato Grosso do Sul, tramita um projeto de lei semelhante ao aprovado em Tacuru, que propõe a oficialização do idioma guarani como segunda língua do município. Em Paranhos existem 4.250 indígenas guarani. Em todo o estado do Mato Grosso do Sul são 68.824 indígenas, divididos em 75 aldeias.

Para o secretário da Identidade e Diversidade Cultural/MinC, Américo Córdula, a oficialização da língua guarani em mais um município brasileiro vai ao encontro das políticas culturais desenvolvidas pelo Ministério da Cultura de proteção e promoção dos saberes tradicionais dos povos indígenas.

No mês de fevereiro (de 2 a 5), a SID/MinC realizou, juntamente com a Itaipu Binacional, o Encontro dos Povos Guarani da América do Sul - Aty Guasu Ñande Reko Resakã Yvy Rupa que reuniu cerca de 800 índios da etnia do Brasil, Bolívia, Paraguai e Argentina, em Diamante D”Oeste, no Paraná, para discutir formas de fortalecer o intercâmbio cultural entre as comunidades dos quatro países.

“Temos no Brasil uma comunidade de aproximadamente um milhão de indígenas, formada por 270 povos diferentes, falantes de mais de 180 línguas”, informa Córdula. Segundo ele, a população indígena brasileira é detentora de uma grande diversidade cultural, que deve ser protegida por seu caráter formador da nacionalidade brasileira. Com esse objetivo, a SID/MinC já realizou dois prêmios culturais (2006 e 2007) voltados para as comunidades tradicionais indígenas. Foram investidos R$ 3,6 milhões para a premiação de 182 projetos em todo o Brasil.

Este ano, no mês de março, foi criado o primeiro Colegiado de Culturas Indígenas, formado por 15 titulares e 15 suplentes representantes do segmento. No último dia 1º, foi eleito o conselheiro do Colegiado para o Plenário do Conselho Nacional de Políticas Culturais (CNPC).

Maria das Dores do Prado, da etnia Pankararu, foi escolhida para defender, junto ao CNPC, as políticas públicas voltadas para a valorização da cultura de todas as comunidades indígenas brasileiras. Um das reivindicações defendidas pelo segmento durante a Conferência Nacional de Cultural, realizada em março, quando se deu a eleição do Colegiado, é a manutenção de todas as línguas nativas.
(Heli Espíndola-Comunicação/SID)

Publicado por Karina Miranda no site do MINC.

Fonte: http://revistaraiz.uol.com.br

domingo, 19 de dezembro de 2010

Nascimento do Menino Deus é teatro vivo nas lapinhas

Lapinha de Mãe Celina (Crato-CE-Brasil)

Por mais antiga que seja, a tradição natalina de montar lapinhas continua presente nas famílias cearenses
 
Crato. Universal, abrangente, calorosa. Assim é a festa de Natal, uma das mais coloridas celebrações da humanidade, é também a maior festa da cristandade, da civilização surgida do cristianismo no Ocidente. Não há quem consiga ignorar a data por mais que a sociedade de consumo insista em transformar o evento num banquete profano, no qual a figura importada do Papai Noel procura assumir o lugar do Menino Jesus.

O Natal trás de volta a lapinha, uma das mais expressivas manifestações da cultura popular do Cariri, carregando consigo o mais puro sentimento cristão do povo simples. É o caso da Lapinha Viva de "Mãe Celina" , do Bairro Muriti, representada por personagens do presépio, que são vividos por jovens da comunidade, a maioria da mesma família, que trazem no sangue a arte de reisado do Mestre Dedé de Luna e a religiosidade de dona Celina Luna que, há mais de 50 anos, arma sua lapinha na sala da frente de sua casa num ato, segundo afirma, de devoção.

Este ano, a Lapinha "Mãe Celina" vai se apresentar na cidade de Aurora e no Centro Cultural do Banco do Nordeste, em Fortaleza. No Crato, a apresentação será no dia 6 de janeiro. Dia de Reis que, segundo a tradição cristã, seria aquele em que Jesus Cristo recém-nascido recebera a visita dos três Reis Magos: Melchior, Gaspar e Baltazar. Nesta data, encerram-se para os católicos os festejos natalícios - sendo o dia em que são desarmados os presépios e, por conseguinte, são retirados todos os enfeites natalícios.

"A influência ancestral dos três principais mundos formadores da alma brasileira permanece pulsante na vida do sertanejo simples, cuja religiosidade se manifesta à flor de seus atos e ditos", diz o folclorista e dramaturgo Cacá Araújo, lembrando que "é na efervescência dessa estética universal que nascem e se fortalecem as tradições culturais populares. Em nosso caso, resultantes do caldeamento cultural ocorrido entre os indígenas donos da terra, os brancos ibéricos invasores e os negros de várias nações para cá trazidos como escravos".

Longe dos grandes gastos feitos por algumas pessoas durante o período natalino para ornamentar suas residências, comércios e ruas, as irmãs Mazé e Penha Luna revivem o Natal, usando como principal matéria-prima o amor pela festa do nascimento do menino Jesus e a união familiar, que é o exemplo maior da família sagrada formada por Jesus, Maria e José.

A casa de mãe Celina, no Muriti, é um verdadeiro ateliê, onde as irmãs Mazé e Penha Luna fabricam artesanalmente a indumentária dos grupos folclóricos (lapinha, reisado e pastoril) que fazem do Crato a "Capital da Cultura" do Cariri. O património cultural e artístico de uma comunidade constitui o maior legado que se pode deixar às novas gerações. O conhecimento, a recriação e a divulgação da sua cultura popular contribuem decisivamente para o fortalecimento dos laços sociais, para o enriquecimento humano das suas gentes e para a dinamização econômica local e regional. A lapinha, portanto, é mais do que um auto de Natal. É a expressão de uma arte popular que está enraizada na alma de pessoas simples que ajudam a conquistar o futuro cada vez mais globalizado, fortalecendo os alicerces da identidade e os valores ancestrais que caracterizam esta comunidade.

Para a mestre da Cultura Mazé Luna, a dramatização do tema, além de manter uma tradição familiar, surgiu como necessidade de mais fácil compreensão do episódio da Natividade. A cena parada, embora de sentido evocativo, do nascimento de Jesus, movimenta-se, ganha vida, sai do seu mutismo, com a incorporação de recursos, não apenas visuais, também sonoros. "É uma forma simples de interpretação do texto sagrado", justifica Mazé.

História
Conta a Bíblia que um anjo anunciou para Maria que ela daria a luz a Jesus, o filho de Deus. Na véspera do nascimento, o casal viajou de Nazaré para Belém, chegando à noite de Natal. Como não encontraram lugar para dormir, eles tiveram de ficar no estábulo de uma estalagem. E ali mesmo, entre bois e cabras, Jesus nasceu sendo enrolado com panos e deitado em uma manjedoura. Pastores que estavam próximos com seus rebanhos foram avisados por um anjo e visitaram o bebê. Três Reis Magos que viajavam há dias, seguindo a estrela guia igualmente, encontraram o lugar e ofereceram presentes ao Menino: ouro, mirra e incenso. No retorno, espalharam a notícia de que havia nascido o filho de Deus. A Lapinha assume, neste contexto, uma espécie de demonstração da prevalência do Cristianismo sobre as crenças e religiões dos outros povos. Entretanto, não escapa à aculturação decorrente dessa convivência O presépio, em sua forma original, fiel à dignidade da homenagem que pretende prestar ao nascimento de Jesus, é tipicamente hierático: dramático, na sequência das cenas e sacramental no modo de ser cristão. Caracteristicamente piedoso na maneira humilde e respeitosa de ser religioso, explica Maria da Penha Luna, irmã de Mazé, esclarecendo que a lapinha é a reconstituição dramática popular da visita dos três Reis Magos ao recém-nascido Jesus, com o fim de lhe ofertarem presentes.

Representação
Sua significação é inspirada na representação quase que ainda medieval, com pessoas interpretando santos, bichos e coisas da natureza como simples e profunda louvação ao Deus-Menino, até a complexa peça de antropologia cultural que traz em si grande parte da história da humanidade. A professora Veridiana Pedrosa diz que lá estão não só símbolos de culto cristão, católico, "mas fortes traços que nos remetem aos primitivos tempos em que o homem vivia em diálogo e harmonia com a natureza". Lembra que a lapinha está na alma da criança. É como protesto inconsciente a mercantilização do Natal que pretende transformar Papai Noel no herói do momento.

Tradição

"A lapinha é tradição familiar e uma forma simples de interpretar o texto sagrado"Mazé de LunaMestra da cultura

"A lapinha é ainda a reconstituição da visita dos três Reis Magos ao menino Jesus"Maria da Penha Luna,
Folclorista

"Na lapinha estão fortes traços que nos remetem aos primitivos tempos"Veriadiana Pedroza
Professora

FESTEJOS

Apresentação termina no Dia de Reis


Crato. Desde sua origem, o Natal é carregado de magia. Gritos, cantigas, forma rudimentar do culto, um rito de cunho teatral, o drama litúrgico ou religioso medieval ganha modificações no decorrer dos séculos. Dos templos, a teatralização ganha praças, largos, ruas e vielas, carros ambulantes, autos sacramentais e natalinos.

O folclorista e dramaturgo, Cacá Araújo, destaca que, no Cariri, as lapinhas vivas apresentam praticamente as mesmas características dramáticas de outrora, sendo acrescidas quase sempre da louvação de um grupo de Reisado, que também representa a peregrinação dos Reis Magos a Belém, pertencendo ambos ao ciclo natalino, e, às vezes, de uma Banda Cabaçal. Quando se juntam os três folguedos, multiplica-se a beleza estética, o brilho dramático, o riso brincante, o alcance histórico. O folclorista acrescenta que "o fortalecimento e a difusão do folclore e das manifestações tradicionais populares, a exemplo das lapinhas, devem servir principalmente à causa do (re) descobrimento de nossa identidade cultural, pois que oferecem uma farta leitura do mundo em variadas dimensões e diferentes tempos. É a história se doando generosamente à elaboração de um novo pensamento, que dê vazão a sinceras atitudes libertárias, que restabeleça o espírito e a festa da dignidade humana, da democracia, do respeito à natureza, da felicidade, do amor", complementa.

Diz o folclorista Câmara Cascudo, ainda, que a lapinha é a denominação popular do pastoril, com a diferença de que era representada a série de pequeninos autos, diante do presépio, sem interferência de cenas alheias ao devocionário.

Por lapinha, segundo Cascudo, seria denominado o pastoril que se apresentava diante dos presépios, ou seja, o grupo de pastoras que faziam as suas louvações na noite de Natal, cantando e dançando diante do presépio, divididas por dois cordões - o azul e o encarnado, as cores votivas de Nossa Senhora e de Nosso Senhor. Em outras palavras, tratava-se de uma ação teatral de tema sacro.

Enquanto o presépio representa uma das tradições natalinas, assim como a árvore de Natal, a lapinha ainda se encontra bem conservada, particularmente no Nordeste do Brasil. O folclorista Câmara Cascudo ressalta, em seu Dicionário do Folclore Brasileiro, que, por tradição, a Sagrada Família se recolheu a uma caverna (uma lapa ou gruta), onde nasceu Jesus. Vem, daí, o termo lapinha.

Antônio Vicelmo, Repórter do DN



Fonte: Diário do Nordeste, Caderno Regional, em 19/12/2010.

J. Lindemberg de Aquino - Emerson Monteiro

Queremos tecer aqui, em algumas e poucas palavras, um comentário a propósito de personalidade a quem o Cariri deve boa parte da evidência que hoje detém neste mundão imenso de Meu Deus; falar a respeito do João Lindemberg de Aquino, jornalista inteligente, possuidor de talento inquestionável já reconhecido nas letras nordestinas, e autor emérito do livro Roteiro Biográfico das Ruas do Crato, trabalho permanente para os estudos da história desta Região.
Durante décadas, anos 50, 60 e 70, pelos menos, os principais registros da movimentação social, economia e política do interior cearense da região sul ganharam notoriedade, sobretudo nas páginas dos jornais de Fortaleza, através das matérias que ele encaminhava para publicação.
Nos seus escritos, Lindemberg mostrou especial dedicação à vida social caririense, aos acontecimentos e lideranças que nortearam o progresso deste vale onde habitamos, conquanto agora mesmo apenas usufrua de uma vida recolhida e afastada deste meio que, com carinho e trabalho, ajudou a construir e onde estabeleceu numeroso círculo de amizades.
Quando, em 1953, o Instituto Cultural do Cariri encetava caminhada, dentre os seus fundadores ele ali se encontrava na função de Secretário da primeira diretoria, ao lado dos nomes expressivos de Figueiredo Filho, Irineu Pinheiro, Padre Antônio Gomes, Huberto Cabral e outros.
Desde cedo que busquei assisto de perto a trajetória intelectual deste cidadão cratense integrado ao meio, ainda de quando exercia um cargo no atendimento do INPS, em Crato, assessorava diversas administrações municipais cratenses e escrevia crônicas diárias para as Rádios Araripe e Educadora, além de testemunhar os principais acontecimentos sociais também das comunas próximas, divulgando-os na grande imprensa do Estado e do País. Nisto aplicou-se durante décadas inteiras, favorecendo o encaminhamento de temas progressista e atualizando as influências políticas e educacionais, o que marcaria bases no nosso crescimento histórico.
Dotado, pois, de paixão verdadeira pelo que realizou em termos de jornalismo sociocomunitário, Lindemberg de Aquino chamou a si a preservação da autoestima deste povo caririense, anotando para as gerações futuras efemérides e valores que eternizou com a sua pena.
Perante tais aspectos que caracterizam existência de tantos préstimos, cabe-nos reconhecer o êxito das ações que empreendeu e dedicar o melhor tributo de reconhecimento a João Lindemberg de Aquino por tudo que fez valer em prol da gente deste lugar.

Renato Rabelo: O legado leninista e a nova luta pelo socialismo

No seminário Pensar Lênin: aspectos contemporâneos de sua teoria – realizado sábado em São Paulo – o presidente do PCdoB, Renato Rabelo, fez uma intervenção sobre as experiências socialistas, a importância do líder russo e os desafios atuais do movimento comunista. Trazendo a análise para os dias de hoje, disse: “o grande desafio colocado para os revolucionários de todo mundo hoje é justamente vincar uma corrente marxista forte através de um partido revolucionário forte e influente”. Acompanhe.

 
O período que vai da grande revolução proletária de Outubro de 1917 na Rússia à débâcle contra-revolucionária de 1989/1991 – do ponto de vista histórico — é um tempo diminuto. Mas seu impacto no movimento revolucionário no mundo foi muito grande. Na atualidade, ao debatermos aqui neste seminário os aspectos contemporâneos da teoria de Vladimir Ilich Lênin, precisamos extrair as lições desta primeira importante experiência de construção do socialismo na história da humanidade.

Lênin foi o líder revolucionário mais destacado de nossa era e um grande teórico. Sua projeção vai muito além da Revolução Russa. Transformou-se numa referência, um pensador de grande estatura, um grande estrategista. Na verdade, ele formulou a teoria e a política para a revolução proletária do século XX e contribuiu decisivamente para os êxitos da luta de libertação nacional e a construção do campo socialista. Entretanto, com a crise da experiência socialista, cujo ápice foi 1989/1991, os ideólogos capitalistas vaticinaram a eternidade do capitalismo. Passamos a viver um mundo unipolar, onde os Estados Unidos assumem o controle quase absoluto de uma ofensiva imperialista em todos os terrenos, especialmente com a aplicação das políticas neoliberais.

Ensinamentos da derrota do socialismo na URSS

Diante da derrota desta primeira experiência de construção do socialismo, observamos dois tipos de conduta bem definidos no movimento revolucionário mundial. Os que renunciaram ao legado socialista e os que mantiveram a identidade socialista. Estes últimos são os que buscaram compreender o que havia ocorrido na URSS e no Leste Europeu e procuraram absorver os ensinamentos. No Brasil, estes ensinamentos apontam para uma situação em que nos perdemos em preceitos formais que de maneira sintética poderiam ser resumidos assim:

- A ideia da inevitabilidade de duas etapas da revolução em países dependentes;
- A concepção da existência de modelo universal de socialismo para todos os países e um esquema de socialismo que deveria ser seguido em todo o mundo;
- A compreensão programática de que deveria haver trânsito direto para o socialismo.

Estas ideias dificultaram muito descortinar o horizonte político, impedindo que desvendássemos claramente a realidade brasileira num primeiro plano na formulação programática.

No 8º. Congresso do PCdoB em 1992 e em sua 9ª Conferência Nacional sobre o Programa, de 1995, nos dedicamos a estudar e compreender porque houve este desmoronamento por dentro do regime soviético. Além das questões que o Partido já havia chamado a atenção – como o golpe promovido por Nikita Khruschev e setores do Exército contra a direção bolchevique – constatamos problemas graves na concepção da direção do novo governo implantado como, por exemplo, a fossilização do sistema de soviets, que deixaram de ter a função de uma instância de poder das massas no processo de construção socialista.

Aos poucos estes soviets foram sendo subestimados e as relações entre o governo e o povo foram se enfraquecendo, assim como as relações entre o Partido Comunista e o movimento dos trabalhadores na União Soviética. O marxismo-leninismo acabou se restringindo a uma doutrina de Estado para justificar as políticas e ações de governo. Ocorreu simultaneamente uma estagnação evidente do modelo de desenvolvimento econômico e do trabalho teórico revolucionário de construção da nova sociedade.

O resgate do pensamento leninista

O PCdoB desde meados da década de 90 do século passado procurou estudar um dos aspectos do pensamento leninista deixados na penumbra pelo movimento comunista que foi a questão da transição do capitalismo para o socialismo. João Amazonas, líder de nosso Partido, debruçou-se sobre a obra de Lênin especialmente no período de 1918 a 1923, onde ele oferece ensinamentos sobra a transição de países atrasados para um estágio superior de sociedade. Lênin esboça então uma teoria da transição para o socialismo, a partir da proposta da Nova Política Econômica, conhecida por NEP. Partia do raciocínio de que o socialismo deveria ser um sistema mais avançado do que o capitalismo. Pensar em socialismo em países atrasados e até com características feudais seria um non sense. O desafio foi levar adiante esta tarefa socialista. A teoria que embasava a NEP levava em consideração problemas de método, de tempo, de lugar e da dinâmica revolucionária.

A NEP procurou enfrentar uma séria defasagem entre a situação atrasada das forças produtivas na União Soviética do início dos anos 20 para patamares mais avançados. O problema central se tratava de como criar base material para fazer surgir o socialismo e de como o capitalismo poderia ser usado para o desenvolvimento das forças produtivas nos marcos do poder democrático-popular.

Muitos anos depois tanto a República Popular da China nos anos 80 como a República Socialista do Vietnã nos anos 90 seguem caminhos parecidos com suas características peculiares. A fase primária do construção do socialismo — segundo os chineses — ainda terá 50 anos pela frente. Os chineses e vietnamitas encontraram uma saída com a política de reforma e abertura. No caso de Cuba e da Coréia o bloqueio imperialista impõe sacrifícios a seus povos que além disso enfrentam sistematicamente tragédias naturais. Mesmo assim buscam saídas próprias diante do cerco violento capitaneado pelos Estados Unidos. Haverão de promover ainda várias etapas de transição para superar as dificuldades.

A nova luta pelo socialismo

O grande desafio colocado para os revolucionários de todo mundo hoje é justamente vincar uma corrente marxista forte através de um partido revolucionário forte e influente, respeitado em cada um de seus países, o que naturalmente supõe avançar teórica e ideologicamente, para desenvolver o marxismo e o leninismo para a nossa época. Assim como Lênin no início do século XX enfrentou a questão de buscar uma saída para desencadear a revolução na Rússia – um país atrasado do ponto de vista das relações de produção, um “elo frágil da cadeia imperialista”, como dizia Lênin, onde a revolução proletária poderia se iniciar – sendo que a análise predominante na época era de que o processo revolucionário dar-se-ia primeiramente onde estas relações de produção estivessem mais avançadas, como conceberam Karl Marx e Friedrich Engels em suas obras do final do século XIX.

Com este espírito de luta o partido comunista, diante das novas exigências, deve levantar a bandeira da retomada da luta pelo socialismo. Assim poderemos enfrentar a lógica do desenvolvimento desigual e o processo de centralização e concentração do capital na era do imperialismo. A falsa euforia propagandeada por Francis Fukuyama e seu “Fim da História” foi abatida com a eclosão da terceira grande crise do sistema econômico e financeiro mundial em 2007 e 2008, com repercussões que se fazem sentir ainda hoje com a falência do neoliberalismo na Grécia e a situação precária da Espanha, Portugal e do próprio sistema da União Europeia.

Historicamente o capitalismo está superado

A grande questão é que historicamente o capitalismo está superado, mas ideológica e politicamente continua vivo. Os revolucionários se colocam diante de duas situações básicas na atualidade:

- promover o acúmulo de forças nos países capitalistas para a transição ao socialismo;
- lutar pela construção do socialismo nos países que não sucumbiram à negação deste mesmo socialismo, respeitando suas características próprias. Além destas duas condições deveremos levar em conta também a busca de alternativas ao capitalismo, como se faz hoje na Venezuela, processo que merece ser acompanhado e que serve de lastro para novos caminhos. Como já vimos, não existe um referencial único de luta revolucionária rumo ao socialismo.

No caso do Brasil houve um esforço de combinar a luta nacional com a luta social, e de entrelaçar a luta pela democracia com a luta pela soberania para nos aproximar do socialismo. Neste sentido, o Programa Socialista do PCdoB está estruturado em dois pontos essenciais: o rumo socialista e o caminho nacional, popular e de integração com os povos da América Latina. A atuação partidária se desdobra em três frentes: na luta parlamentar e a participação em governos, na luta de ideias e na intervenção no movimento social de forma articulada, para nos permitir o crescimento e a expansão. As alianças são parte fundamental deste processo. O certo é que sem o ciclo aberto por Luiz Inácio Lula da Silva não poderíamos realizar no Brasil o atual acúmulo de forças. (...)


Fonte: http://www.vermelho.org.br/, em 12 de Maio de 2010.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Lênin: Tolstoi, um grande artista

Morreu Leon Tolstoi. Sua importância mundial como artista e sua popularidade universal como pensador e pregador refletem, a seu modo, a importância mundial da revolução russa.

Por Vladimir Ilitch Lênin*

Leon Tolstoi se manifestou como um grande artista desde os tempos do regime da servidão. Em várias obras geniais, escritas por ele no transcurso dos longos cinquenta anos em que se prolongou a sua atividade literária, pintou de preferência a velha Rússia anterior à revolução, que depois de 1861 ficou em um regime de semisservidão; pintou a Rússia aldeã, a Rússia do latifundiário e o camponês. Ao pintar esse período da vida histórica da Rússia, Leon Tolstoi soube apresentar tantas questões fundamentais em seus escritos, alcançou em sua arte tão grande força, que suas obras figuram entre as melhores da literatura mundial.

A época em que se preparava a revolução em um dos países oprimidos pelos senhores feudais foi, graças à forma genial com que Tolstoi a tratou, um passo adiante no desenvolvimento artístico de toda a humanidade.

Como artista, somente uma minoria insignificante o conhece na Rússia. Para fazer efetivamente suas grandes obras patrimônio de todos, há que lutar contra o regime social que condenou milhões e milhões de seres à ignorância, ao embrutecimento, a um trabalho próprio de condenados e à miséria; há que fazer a revolução socialista.

Tolstoi não só escreveu obras literárias que sempre serão apreciadas e lidas pelas massas quando estas criem para si condições de vida humana, derrubando a opressão dos latifundiários e dos capitalistas; ele soube também descrever com força admirável o estado de ânimo das grandes massas subjugadas pela ordem de coisas desse tempo, soube também pintar sua situação e expressar os seus sentimentos espontâneos de protesto e indignação. Tostói que pertenceu, principalmente, à época de 1861 a 1904, refletiu com assombroso realce em suas obras – como artista e como pregador – as características da especificidade histórica de toda a primeira revolução russa, sua força e sua debilidade...

Olhem com atenção o que dizem de Tolstoi os jornais do governo. Choram lágrimas de crocodilo assegurando que têm em alta estima o “grande escritor”; mas, ao mesmo tempo, defendem o “santíssimo” sínodo. E os santíssimos padres acabam de cometer uma canalhice das mais imundas, enviando seus popes à cabeceira do moribundo, para enganar o povo e dizer que Tolstoi se “arrependeu”. Antes, o santíssimo sínodo havia excomungado Tolstoi.

Prestem atenção no que dizem de Tolstoi os jornais liberais. Eles se apressam com estas frases ocas, oficial-liberalescas, batidas e professorais sobre “a voz da humanidade civilizada”, “o eco unânime do mundo”, “as ideias da verdade e do bem”, etc. etc., pelas razões que Tolstoi castigava com tanta força e tanta razão contra a ciência burguesa. Os jornais liberais não podem dizer clara e concretamente o que pensam das idéias de Tolstoi sobre o Estado, a Igreja, a propriedade privada da terra e o capitalismo. Isso não porque a censura os atrapalha – pelo contrário, a censura os ajuda a sair da dificuldade.

Eles não podem porque cada tese da crítica de Tolstoi é uma bofetada no liberalismo burguês; porque, por si, a valente, franca e implacavelmente dura concepção das questões mais candentes e mais malditas de nossa época por Tolstoi é uma bofetada nas frases estereotipadas, nos batidos subterfúgios e na falsidade escorregadia, “civilizada” de nossa imprensa liberal (e liberal populista).

Morreu Tolstoi, e se foi o passado da Rússia anterior à revolução, a Rússia cuja debilidade e impotência se expressaram na filosofia do genial artista e vemos refletidas em sua obras. Mas em sua herança há coisas que não pertencem ao passado. Pertencem ao futuro. Essa herança passa às mãos dos proletários da Rússia, que a está estudando. Daí virá a explicação às massas trabalhadoras e exploradas da significação da crítica que Tolstoi fez ao Estado, à Igreja, à propriedade privada da terra; e não o fará para que as massas se limitem à autoperfeição e a suspirar por uma vida santa, mas para que se levantem com o fim de lançar um novo golpe à monarquia czarista e à posse da terra por latifundiários, que em 1905 só foi ligeiramente quebrada e que deve ser destruída. Então se explicará às massas a crítica que Tolstoi fez do capitalismo, mas não o fará para que as massas se limitem a maldizer o capitalismo e o poder do dinheiro, mas para que aprendam a apoiar-se, em cada passo de sua vida e de sua luta, nas conquistas técnicas e sociais do capitalismo, para que aprendam a se agrupar em um exército único de milhões de lutadores socialistas, que derrubarão o capitalismo e criarão uma nova sociedade sem miséria para o povo, sem exploração do homem pelo homem.

* Fragmentos do texto de Lênin refletindo a morte de Tolstoi

Fonte: Publicado em 16 (29) de novembro de 1910 em “O Social-democrata” 


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CACÁ ARAÚJO NO PORTAL VERMELHO

Em entrevista, Cacá Araújo fala de comunismo e arte no Cariri

A entrevista foi concedida ao Blog Coletivo Camaradas em 2009. Na conversa, cultura popular, comunismo, artes plásticas e política. Leia a seguir a entrevista na íntegra.

Cacá Araújo Cacá Araújo foi aluno do dramaturgo Augusto Boal (falecido recentemente) , fundador do Teatro do Oprimido.
 
Quem é Cacá Araújo?

Comunista, professor, dramaturgo, ator, diretor de teatro, poeta, folclorista. Filho de José e Joselita. Pai de Diogo Stálin, Carlos Ângelo, Maria Isaura e Lilith. Guerrilheiro permanente em defesa da liberdade, da democracia e do socialismo.

Quando teve início seu trabalho artístico?

Há mais de vinte e cinco anos, no movimento literário, juntamente com os poetas Gênes de Alencar e Domingos Sávio Barroso, criando posteriormente o Grupo Artístico-Cultural poesia, Vida & Sangue, responsável pela edição de vários livros de poesia, em especial a Antologia Poetas do Cariri 1986, da qual participaram novos e consagrados poetas como Saraiva de Sá e Patativa do Assaré.

Quais as influências do seu trabalho?

Minha formação principal é baseada na militância política fundada no marxismo-leninismo, sem desconsiderar que me criei no meio da feira do Crato, alternando com longas estadas no Sítio Riacho Vermelho, de propriedade de meu avô, no Distrito de Santa Fé. Em decorrência disso, de ser orgulhosamente matuto do pé da serra, veio a natural influência das tradições populares, das histórias do campo, da alma sertaneja.

Outra grande influência é a grande oportunidade e privilégio de conviver com os mestres do folclore local, como o Mestre Cirilo, Mestre Aldenir, Mestre Raimundo Aniceto, Mestra Zulene Galdino, Mestra Edite Dias e tantos outros.

Além de Marx, Engels, Lênin, Stálin, Amazonas e os nossos Mestres da Cultura Popular, outros como Brecht, Stanislavski, Augusto Boal, Dario Fo, Plauto, Aristóteles, Sófocles, Eurípedes, Ésquilo, Camões, Garret, Patativa do Assaré, Pedro Bandeira, Eloi Teles, Câmara Cascudo, Suassuna, Seu Joaquim Vicente, Júlia Doida, Miguel Preto, Capela, Sorriso, Incha Tetê, Tandô, entre muitos outros de ontem, transantontem e de hoje.

Como você vê a relação entre arte e política?

São partes de um todo indivisível, apesar de alguns tolos, imbecis e ou mercenários negarem. Arte é resultado da inventividade humana, que deriva de sua existência material, que por sua vez determina sua base espiritual e intelectual.

Seu trabalho segue uma dramaturgia de afirmação cultural? Qual a relação da sua produção com a de Ariano Suassuna?

Erguemos a mesma bandeira política da defesa da soberania nacional tendo a cultura popular como principal elemento identitário do país. As matrizes culturais que, caldeadas, formam a identidade nacional, revelam que nossas raízes são universais ao mesmo tempo em que manifestam a plural singularidade brasileira.

Em 1988, você foi aluno do dramaturgo Augusto Boal (falecido recentemente) , fundador do Teatro do Oprimido. Qual a sua opinião sobre a contribuição deste teórico no campo do fazer teatral?

O Boal é a maior referência teatral das américas e um dos mais importantes nomes mundiais de todos os tempos. Seu teatro é verdadeiramente revolucionário porque propõe a inclusão do espectador no universo cênico, discutindo, analisando e protagonizando soluções na cena, como que ensaiando as transformações que a vida real exige.

Você trabalha com a metodologia do Teatro do Oprimido?

A poética do oprimido é um compêndio político de extrema significação para quem vê no teatro uma forma de manifestar a alma e os anseios populares. Em várias ocasiões trabalho com várias técnicas do TO, seja com grupos específicos (professores, estudantes e comunitários, por exemplo), ou mesmo no dia-a-dia do desenvolvimento dos atores de nossa companhia teatral.

Qual a contribuição do marxismo para o teatro?

O Marxismo é fundamental para a compreensão do mundo e suas implicações políticas, econômicas, sociais e culturais. Oferece o embasamento ideológico para que uma ação, inclusive o teatro, adquira conteúdo revolucionário e contribua na educação das massas para as necessárias transformações sociais.

Qual sua produção em dramaturgia?

Minha dramaturgia “brincante” é toda ela pontuada pela mitologia, causos, história e costumes regionais: “A Comédia da Maldição”, que apresenta o mito da Mula-sem-cabeça; “O Pecado de Clara Menina”, abordando relações de poder e matreirices sertanejas, inspirada em poema anônimo medieval ibérico; “As presepadas de Zé Ozébe”, sugerida pelo cordel A história do cavalo que defecava dinheiro, de Leandro Gomes de Barros; “a Donzela e o Cangaceiro” (premiada pela Bolsa Funarte de Estímulo à Dramaturgia 2007), que traz o mito da Caipora e aborda temas ecológicos; e “O Mapa da Botija”, comédia infantil de aventura que evidencia o mito do “Papa-Figo” e a lenda caririense da “Pedra da Batateira”.

Tenho também textos que abordam temática urbana contemporânea, destacando-se: “Monólogos das Flores Violadas”, baseado em reportagens sobre casos de exploração sexual de crianças e adolescentes nas rodovias federais do Ceará; e “Lágrimas no papel”, inspirado na história da militante comunista Helenira Resende, assassinada pela repressão militar na Guerrilha do Araguaia, em 1972.

Como você analisa a atual conjuntura de políticas públicas que vem sendo desenvolvida pelo Ministério da Cultura?

É a expressão prática da democratização de bens e meios de produção culturais, principalmente através do genial programa de Pontos de Cultura, além de outras não menos importantes ações desenvolvidas por meio de editais, patrocínios diretos, estímulo ao mecenato e criação de sistema nacional de cultura envolvendo a totalidade de estados e municípios.

Como você vê a produção teatral na região do Cariri?

Intensa e diversificada. Aqui temos excelentes dramaturgos, atores, encenadores, produtores. Mas a maior virtude do nosso teatro atualmente é o abandono dos clichês globais e da estética ditada pelos grandes centros urbanos do Sul e Sudeste, principalmente através de ações midiáticas criminosas, hegemonistas e preconceituosas. O produto teatral do Cariri tem que ter o aroma, o sotaque, o rebolado, o ritmo, a história, a cultura do nosso povo que, longe de se fechar na região, revela uma avassaladora universalidade.

Entretanto, ainda há equívocos institucionais sérios, quando alguns órgãos, mesmo com dinheiro público, promovem um intercâmbio doutrinador e eliminador da auto-estima, quando desprestigiam a cena local.

Justiça precisa ser feita ao excelente desempenho do Centro Cultural Banco do Nordeste, que, ao longo do ano, atua na formação de platéia através do gosto pela cena produzida na região, fazendo-a circular e ganhar sentido de existir. Isso tem dado excelentes resultados na qualidade da produção caririense, além de gerar renda para os grupos e companhias.

A Guerrilha do Ato Dramático Caririense é uma realidade. O que é e como surgiu a idéia deste evento?

A Guerrilha é um movimento em favor da diversidade, respeito e afirmação da identidade cultural brasileira, especialmente por destacar a dramaturgia e a encenação produzidas no Cariri cearense como fortes elementos identitários do nosso povo. Foi, portanto, pensado a partir do debate com atores, diretores, dramaturgos e produtores, como forma de valorizar a produção dramatúrgica, a encenação e a realização de espetáculos na região, posto ser necessária intervenção de impacto que abra espaços de difusão da arte e do artista caririense, nordestino, brasileiro.

Esperamos, na continuidade desse processo, criar uma cooperativa de artes cênicas com o fim de garantir a unidade em defesa de ações formativas, difusão, desenvolvimento e, principalmente, reconhecimento aos artistas e suas produções.


Fonte:
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17 de Novembro de 2009

Oswald Barroso: Sertão de Poesia

O Cedro que eu conheci no início dos anos oitenta do século passado ainda era o município de pequenos sitiantes produtores de algodão, com a usina de sua cooperativa agrícola, a escola técnica e várias indústrias em pleno funcionamento, além de um comércio muito ativo, ares de antigo centro ferroviário, lugar próspero, onde corria algum dinheiro na zona rural e se podia contratar um cantador de viola ou um sanfoneiro dos bons para uma noitada inteira.

Por Oswald Barroso*

Talvez por isso, guardasse marcas da pequena Atenas cabocla que fora, espécie de São José do Egito cearense(1) , ou de Assaré de Patativa, já que naqueles sítios, apesar da faina intensa sobrava tempo para ouvir rádio e sonhar poesia.

Imagino que ali, durante a primeira metade do século 20, quando Idalzira nasceu, o cabra em vez de nascer chorando, como costuma acontecer, já nascia cantando, porque versejar era como falar. Então, veja lá, havia dentro de casa o pai João Bezerra, exímio poeta, e Joan ainda fala de um “Tio Clóidio” que na certa por ali andava. Além do mais, é preciso lembrar, o Cedro não por acaso ser berço de Geraldo Amâncio, um dos maiores cantadores brasileiros da atualidade, nascido exatamente nos meados dos mil e novecentos. Poesia, portanto, no meio em que Idalzira foi criada, era patrimônio familiar e comunitário, pra lá de literatura e arte, assunto cotidiano, jogo e divertimento, motivo para disputa, exibicionismo, duelo e desafio.

Sob inspiração das musas eram organizados torneios, festivais, com gêneros diversos de disputas, que incluíam perguntas e advinhas. Provas nas quais os contendores, homens ou mulheres, careciam mostrar poderes mágicos com as palavras, através de arranjos intrincados de sons, e arrotar valentia, como se estivessem manejando espadas invisíveis. Conforme o caso, precisavam fazer tremer o inimigo com versos indecifráveis e rimas terríveis, ou comover o coração das mais resistentes donzelas com a narrativa de romances enternecedores.
 

Talvez, principalmente, da intimidade do lar se nutrisse aquela poética, porque naqueles sítios de então, a vida se completava em rima. Digo pela forma como Idalzira fala de sua própria experiência: “Eu rimo quando estou triste/Para as mágoas espantar/Rimo quando tenho saudades/Pois é muito feio chorar/Rimo quando estou contente/Rimo quando estou ausente/Querendo te abraçar.” E de jogos e brincadeiras, as rimas se espalhavam por afetos, sentimentos, desejos, angústias, saudades, aflições, em conversas de salas, cozinhas, alcovas e alpendres principalmente. Demoravam-se em sessões nas quais a palavra falada, cantada de preferência, medida, exata, bem escolhida, era cultivada e cultuada, debulhada em cordéis, fabulada em histórias que narravam desde os mitos da origem dos tempos até a última novidade apregoada na feira ou ouvida no rádio.

Em sítios assim, orgulho maior é ser membro de uma prole de poetas, trovadores, repentistas ou especialistas outros do verso, como a família Bezerra de Idalzira. Não por acaso, Erivan, o caçula, perde completamente a modéstia para seguir a tradição, quando afirma sua pertença a esse clã. Diz ele, numa bela quadra: “Eu sou a pedra turquesa/Minha mãe é uma safira/Sou filho de Idalzira/Poeta por natureza.” E não está mentindo, pois se trata de uma família onde o cultivo da arte poética é bem herdado, estando justificada a admiração recíproca, embora, como afirma com autoridade Joan, o filho mais velho, a mestra indiscutível seja a mãe.

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Visitei o Cedro, quinze anos depois de haver lá morado, dessa vez como repórter, e também Morada Nova, outro município onde havia do mesmo modo trabalhado como educador em cooperativas de pequenos produtores de algodão. Outra era a realidade. Distritos e sítios esvaziados, plantações abandonadas. Comércio mais ativo só no dia de pagamento dos aposentados. A população envelhecera, o interior definhara. No Cedro as poucas indústrias, casas de comércio maiores e centros educacionais haviam fechado. A juventude emigrara. Nos sítios, principalmente, estabelecera-se um sentimento de abandono na fala dos velhos.

Talvez por isso, a sensação que me veio ao ler a carta de Idalzira para Joan sobre o mote: “De uma casa cheia de gente/Só resta um gato e um cancão”, foi o de estar frente a uma nova “Triste Partida”, de um canto social, como o de Patativa do Assaré. Um canto de tristeza dos que ficaram e, porque não dizer também, dos que partiram. De uma família de sitiantes que vê seus filhos irem-se, um a um, às vezes para nunca regressarem. Por isso, o canto de Idalzira é geral e dói além de sua dor particular. É a dor do migrante e de sua terra, é a dor de dois terços do mundo. É a dor de um coração partido.

Mas a dor de Idalzira é também só dela e única, porque se foi Joan e depois, tão menino ainda, Erivan, o caçula. Logo ele. Nem adiantou o consolo da visita à residência universitária e o conselho ao filho, de colocar na parede uma gravura do sol brincando com a lua, no lugar da foto de uma mulher nua (na certa por causa da rima, pois ela queria certamente era que o filho colasse a gravura de uma santa). Nada preenche o vazio na casa após a partida dos filhos. Nem os bichos: “O cancão, meu grande amigo/Canta e pula sem parar/O gato fica a miar/Pensando que não lhe ligo/Porém baixinho lhe digo/Não tenha ciúme não/Que é grande meu coração/Amo a todos igualmente./De uma casa cheia de gente/Só resta um gato e um cancão...”

Se para quem fica o vazio não tem tamanho, para quem vai a dor tem a mesma proporção, como mostram esses versos antológicos de Joan: “Volto a pegar no papel/Pra mais uma vez escrever/Tentar assim combater/Esta saudade cruel/Que amarga como fel/Corrói o peito da gente/Dá uma dor tão pungente/Que quase eu dou razão/A quem mata a solidão/Em um copo de aguardente.”

"O poeta é um fingidor
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente".
Fernando Pessoa
E o que é tão grande para uma mãe quanto o vazio de uma casa sem os filhos? Um vazio que nem a zoada de um cancão e de um gato, de madrugada pedindo comida, abala? O que pode preencher a espera de uma mãe solitária enquanto sonha em reunir a família no final do ano? A poesia, Sultão! Responderia a princesa Sherazade.

A maga Idalzira também é iniciada nesse segredo. Para preencher o vazio de seu mundo, armou uma dimensão de versos e rimas. Fez-se aranha rainha, lançou suas linhas e estendeu sua teia entre os caibros, ligando filhos e netos. Dor e solidão, distância e separação, espera e abandono tratou de encantar em poesia. Por carta novamente a prole dos Bezerra deu corpo ao Cedro do velho João. Fez reviver os romances de amor, o lirismo dos trovadores, mas também os torneios cavaleirescos, os desafios, as disputas, os repentes, o humor corrosivo, o sarcasmo até, a valentia, a pabulagem, a briga, a dor, a traição, o ciúme, a intriga (por que não?), todos eles ingredientes indispensáveis para uma cantoria cheia de suspense ou para um cordel repleto de imprevistos.

Na correspondência mantida entre Idalzira, filhos e neta, a vida se faz arte e a realidade se encanta em ficção. Entre afetos e notícias trocados por mãe e filhos, os poetas inserem ingredientes propositalmente artísticos. Primeiro são os filhos que, brincando, fingem querer suplantar a mãe na arte poética. Ela como resposta lhes dá um puxão de orelha: – Respeita Januário! Depois, Joan e Erivan disputam a atenção e o amor de Idalzira simulando brigar por ela. Tudo para impressionar a mãe. E saem por aí, trocando rima, se exibindo para Idalzira, travando desafios, fingindo que a luta é só de brincadeira, pra mãe não se chatear com a arenga dos filhos. Em seguida, vêm os desafios lançados dos filhos à mãe e aceitos para saudar com versos cada neto que nasce, cada filho que casa, cada novo acontecimento na família. Mais adiante, é Joan que, para chamar atenção, se mostra escandalizado com o casamento da irmã e inventa de fazer graça, transformando aquilo num fato extraordinário.

A verdade é que nessa correspondência poética, não se sabe em que direção vai o fingimento, se no sentido de fazer a dor parecer maior para torná-la mais eficazmente artística, ou se no sentido de fazê-la artística para que se torne mais suportável. Não se pode precisar se a queixa da mãe é um pretexto para fazer poesia ou se fazer poesia é uma forma da queixa não se tornar aborrecida (porque sempre com muito bom humor), ou seja, da queixa poder ser feita reiteradamente, isto é, de fingir estar usando o pretexto da queixa para fazer poesia, quando a mãe quer mesmo é se queixar da falta de notícias do filho. Daí vem o dito de Fernando Pessoa colocado na abertura desse texto.

Muitas são cartas comuns como as de mãe orientando o filho, aconselhando o filho que se candidatou a vereador, ou a do filho consolando a mãe saudosa, outras da mãe com críticas e comentários políticos, mas há até mesmo cartas inusitadas como a do filho dando conselhos à mãe, escrita por ele como se aconselhasse uma filha, com muito humor e descontração. Depois entra a neta Geórgia na conversa e mantém o nível poético da correspondência, agora entre avó, filhos e neta.

Afinal, são cartas que ajudam a transformar a saudade em arte, a dor em vida, a solidão em beleza. Cartas que viraram atração entre os amigos de Joan e Erivan, lidas para o coletivo de estudantes. Cartas que, acima de tudo, revelam um imenso amor entre os três, agora quatro, sentimento bem traduzido nesses versos de Erivan para a mãe: “Me despeço de antemão/Já com saudade no peito/Mas sinto que é o jeito/Pois o tempo é um balão/Voando de hora em hora/Minha vontade era agora/Lhe mandar meu coração.”

Por tratar-se de um livro de correspondência poética, entre uma mãe e os seus, a obra já teria assegurado seu interesse e sua originalidade. De quebra, Idalzira ainda nos brinda com uma série de sonetos e outros poemas, em que fala de sua vida, de seus sentimentos, de sua família, de seus alunos e de sua terra, o Cedro. Trata-se, além do mais, de uma crônica do cotidiano rural, de um rico testemunho dos costumes, da política, da vida nos sítios, dos valores morais e do imaginário de uma vila sertaneja, onde ainda havia tempo e espaço para traduzir o mundo em poesia.

(1) Município do Alto Sertão do Pajeú pernambucano, berço de tantos poetas e cantadores famosos, entre os quais Rogaciano Leite e os irmãos Batista, Lourival, Dimas e Otacílio.

* Oswald Barroso é professor universitário, poeta, dramaturgo e pesquisador da cultura popular


Fonte: PORTAL VERMELHO - http://www.vermelho.org.br/

NOTÍCIA DO PORTAL VERMELHO


Aconteceu em
18 de dezembro
Guerrilha da Sierra Maestra: ao centro, Fidel
1956 - Dia da Sierra Maestra
Os guerrilheiros cubanos que sobrevivem ao desembarque do Granma reúnem-se, na Sierra Maestra. A serra será o 1º núcleo da revolução vitoriosa em 1959.
1889:
Motim de praças, severamente reprimido, no Rio de Janeiro.
1915:
Sufocado levante de praças contra os baixos soldos na Vila Militar, Rio; 256 presos.
1940:
Decreto secreto de Hitler ordena que se prepare a invasão da URSS.
1972:
Auge do bombardeio do Vietnã do Norte pelos EUA.
1987:
Decreto de Sarney proíbe a pesca da baleia em águas brasileiras.
1987:
Comício por diretas em 88 reúne 15 mil no Rio de Janeiro.
1989:
Marines dos EUA invadem o Panamá, a pretexto de prender o ex-presidente Noriega. Mil mortos, 1.500 presos.
1997:
O oposicionista Kim Dae-jung elege-se pres. da Coréia do Sul, na esteira da crise asiática. Início do degelo entre as Coréias do Norte e do Sul.
2005:
Evo Morales, indígena aimará, sindicalista e dirigente do antiimperialista MAS (Movimento ao Socialismo), é o 1º presidente da Bolívia a se eleger no 1º turno, com 53,7% dos votos.
Evo

I Fest Cariri Caribe - Emerson Monteiro


Acontece desde ontem (17/12) até 20/12 (segunda-feira), em Farias Brito CE, o primeiro festival de cinema denominado Fest Cariri Caribe (Audiovisual, Teatro, Música e Movimento), uma iniciativa do poeta e cineasta Rosemberg Cariry, filho do município, que envolve exibição e competição de filmes longa e curta metragens realizados no Brasil e em países da zona do Caribe, na América Central, este ano representada por Cuba, Venezuela e Porto Príncipe.
No decorrer da mostra na cidade, que comemora seus 74 anos de emancipação política, registram-se outras atividades culturais até o dia 20, dia do seu aniversário de autonomia. Além da exibição dos filmes, são realizadas palestras, oficinas, exposições, apresentações artísticas e, no final da tarde do dia 17, houve, pelas principais ruas da cidade, rico desfile de grupos artísticos e folclóricos, alguns deles dos municípios de Crato, Juazeiro do Norte e Barbalha, numa animação das mais intensas, ao som da Banda de Música de Farias Brito, marcando, com isso, a abertura do evento.
A realização do I Fest Cariri Caribe coube ao Governo Municipal de Farias Brito, na atual gestão de José Vandevelder, sob o patrocínio da Casa Civil do Governo do Estado do Ceará e apoio de Sereia Filmes, Associação Cultural Curumins do Sertão, Cineclube Inácio de Loyola e Cineclube Quixará das Artes, ambos de Farias Brito.
Desde o primeiro dia, o festival mobiliza as escolas e as ruas, em clima alegre e participativo, que envolve os habitantes do lugar e sensibiliza pela beleza plástica e musicalidade.
Numa participação intensa dos principais responsáveis pela iniciativa, Auxiliadora Nergino, Bárbara Cariry, Nailson Teixeira e Cíceros Clislones, somados a outros nomes dedicados à educação do município, as atividades desenvolvem as apresentações seguirão até segunda-feira, quando, à noite, ocorrerá a premiação dos filmes da mostra competitiva, a exibição do documentário Patativa do Assaré - Ave Poesia, de Rosemberg Cariry, e a festa popular Noite Caribenha, animada por grupos musicais de Farias Brito.
A proposta do festival ora em andamento teve bases limitadas do ponto de vista do investimento financeiro, e junto a uma comunidade de menor porte do Cariri, contudo objetiva, dentro de pouco tempo, se transforma em uma data importante do calendário do cinema no Ceará, o que segundo Rosemberg, também incluirá outras cidades da Região.
Filho de Farias Brito, Rosemberg Cariry instalou e mantém funcionando, em avenida central da cidade, um ponto que reúne casa de cultura e centro cultural, com biblioteca, filmoteca, acervo de artes plásticas e sala de cinema, onde funciona o grupo de teatro denominado Os Curumins do Sertão.

Ecos do Salão de Outubro – Um recado para Edilma Rocha

Ontem eu fui ao dentista. Ele me contou um fato interessante. Um casal português que, viaja pelo mundo, foi atendido por ele em seu consultório há cerca de um mês e, comentou que acabara de chegar do Crato, vindo do Recife e ficou encantado com a cidade. Visitou uma exposição de artes, viu espetáculos de danças, poesias, um movimento cultural que nada fica a dever aos grandes centros da Europa. Essa noticia é para Edilma Rocha e os parabéns de todos os cratenses pela realização do último Salão de Outubro.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Os cinemas do Crato - Emerson Monteiro

O derradeiro filme que vi num dos cinemas cratenses foi Dança com lobos, com Kevin Costner, no Cine Cassino, pertencente a Mário Correia, durante sessão noturna de meio de semana. Com isso, para mim se fechavam as cortinas dos históricos cinemas, nesta terra de cultura e educação.
Ainda lembro com intensidade grandes filmes que vi no Cine Moderno, sessões das 16h dos sábados e domingos. As séries das 14h, no Cassino, no Moderno, superlotadas, gente em pé, corredores tomados, assobios, gritos, palmas, calor de saúna, suor de escorrer pelo pescoço, fachos dos projetores cruzando o escuro da sala, pessoas frenéticas em movimento constante quase a sessão toda, enormes fila na entrada, meninos vendendo revistas em quadrinhos, tabuleiros de bombons, carros de pipoca do lado de fora, ventiladores de coluna zoando alto, recepcionistas com laterna indicavam as poltronas vazias aos retardatários e a sonorização característica para abrir as cortinas (zuuuuuuuum, num sinal elétrico demorado), em preparação ao espetáculo, etc. A reforma do Moderno pelo seu derradeiro proprietário, Macário de Brito Monteiro, sucessor do tio Ormínio de Brito, foi acontecimento que marcou época e a história da cidade.
Depois, abriria suas portas em noite memorável o Cine Educadora. Um outro teatro de inolvidáveis películas trazidas a público. Na sua inauguração, exibiu Os cavaleiros da távola redonda, com Robert Taylor e Ava Gardner, onde não pude entrar por ter menos de 14 anos. Era uma sala confortável, cheia de janelas venezianas, de poltronas estufadas, espaçosa, um luxo só.
Já sumira o Cine Rádio, da Rádio Araripe, na Rua Nélson Alencar, onde assistira O cangaceiro, sucesso mundial do diretor brasileiro Lima Barreto, junto com meus pais. Também até 14 anos, mas acompanhado conseguira entrar com o coração aos pulos. Uma semana antes da idade mínima ainda cheguei a ser barrado na entrada do Moderno, para minha contrariedade. O Comissariado de Menores, ao qual depois pertenceria, funcionava com presteza e eficiência, terror da garotada ansiosa pelos filmes proibidos, sempre os mais procurados.
Nesse meio tempo de salas de exibição maiores, uma experiência de cinemas menores aconteceu em paralelo. José Hélder França (o poeta Dedé França), na década de 60, chegara a iniciar, pelos bairros, rede alternativa que exibia filmes na bitola 16mm, no entanto a proposta durou poucos meses.
Lembro desses cinemas menores, um na esquina de cima do Colégio Diocesano (Rua Ratisbona), o Cine São Francisco, e outro no Bairro do Seminário, o Cine São José. Se a memória não me engana, houve também outro nas imediações da Igreja de São Miguel, na Rua da Cruz, ainda a ser confirmado pelos memorialistas.
Em um dos armazéns existentes no final da Rua Santos Dumont, proximidade dos postos de Antônio Almino de Lima, quiseram, na primeira metade da década de 60, também montar um cinema em 16mm. Porém a tentativa frustrara nas primeiras sessões; a máquina emperrava após iniciada a projeção. Na primeira noite, recebemos saídas para a noite seguinte. Voltamos, eu e um operário de meu pai. De novo não passou da metade do filme. Retornamos na terceira e última noite. Pois, quando a máquina quebrou deu-se por perdido e até o dinheiro dos presentes eles devolveram.
Tenho notícias de outro cinema do Crato, que não cheguei a conhecer. Sei dele através dos escritos de Florisval Matos, o Cine Paraíso, que funcionou em prédio da Praça da Sé, no quarteirão onde ora existe a loja Hippie Chic e que antes abrigara a Cooperativa do Banco do Brasil e a Biblioteca Municipal.
Jackson Bola Bantim por sua vez nos informou que seu bisavô, Luiz Gonzaga de Oliveira (Gonzaguinha), nascido no Crato na segunda metade do século 19, fotógrafo, aqui acompanhou a visita de um grupo francês que exibia filmes pelo interior cearense. Interessado na nova arte, viajou a cavalo até Fortaleza, lá adquiriu um projetor e fundou, no prédio n.º 25 da Rua Miguel Limaverde, o primeiro cinema cratense, denominado Lanterninha Mágica, isso bem nos primeiros anos do século XX.
Eis, portanto, ligeiro apanhado da história das salas de cinema no Crato, anotada nesta fase em que aguardamos o retorno de um estabelecimento que corresponda, em nossa comunidade, ao progresso avançado da apreciada e resistente Sétima Arte no resto do mundo, pois no momento, para contrariedade dos muitos apreciadores, não há um único lugar de exibição de filmes em nossa cidade.

PROGRAMA CULTURAL NO CCBNB CARIRI