Por Carlos Rafael Dias*
Os antagonismos entre as duas principais cidades caririenses parecem ter no processo de emancipação política de Juazeiro e na Sedição de 1914 os seus momentos de maior tensão. Isso sem ignorar a posição contrária do clero cratense aos supostos milagres de Juazeiro, um antecedente que veio a fermentar esta rivalidade. Da mesma forma, deve se considerar, como um importante fator dessa tradicional rivalidade, a ascensão econômica de Juazeiro, já no início do século xx, fruto das crescentes romarias. Por sinal, este foi o argumento das lideranças juazeirenses para motivar a campanha pela autonomia daquele que na época era um mero distrito do Crato. No entanto, a maior motivação pró-emancipacionista foi a insatisfação decorrente dos impostos cobrados, em benefício do Crato, sobre as receitas do comércio de Juazeiro.
Se havia toda uma matéria-prima pré-fermentada para o confronto, faltava quem se dispusesse a instigar a massa para a causa emancipacionista. Esse papel foi exercido pelos editores do jornal O Rebate, semanário que circulou entre julho de 1909 e agosto de 1911. O principal objetivo do órgão era divulgar a causa Juazeirense contra as acusações desferidas pela imprensa do Crato que qualificava o Juazeiro como antro de fanatismo e banditismo. Como um desdobramento da propaganda anticratense, a população, mobilizada, boicotou o pagamento de impostos recolhidos ao Crato.
Juazeiro foi elevado a município em 4 de outubro de 1911, quando Padre Cícero foi empossado como prefeito, fato que o iniciou oficialmente na vida política. Neste mesmo dia, foi assinado em Juazeiro o famoso Pacto dos Coronéis, uma tentativa de pacificar a região, bastante tumultuada pelas violentas deposições de coronéis por outros coronéis, com uso de milícias particulares formadas, notadamente, por jagunços e capangas.
No final de 1913, um senador cearense enviou, através do então deputado federal Floro Bartolomeu, uma carta ao Padre Cícero onde era tramada a deposição do coronel Marcos Rabelo, eleito presidente do Estado do Ceará ao derrotar o grupo do oligarca Nogueira Acióli, que governou com mão de ferro a província por longo tempo. Um ano antes, Padre Cícero tinha iniciada uma longa troca de telegramas com Franco Rabelo. Nos primeiros contatos, Padre Cícero refutava a informação de que ele estaria preparando um levante contra o governo do Estado. A denúncia, que o padre considerava uma intriga de políticos adversários, poderia resultar numa intervenção armada em Juazeiro por parte do governo estadual.
A sedição para depor Franco Rabelo irrompeu, como assim já se anunciava, no dia 8 de dezembro de 1913, com o desarmamento, em Juazeiro, de um destacamento da polícia do Estado que teria a incumbência de prender ou matar Floro Bartolomeu. No dia seguinte, vários políticos juazeirenses, como o prefeito João Bezerra de Menezes, sucessor do Padre Cícero, refugiaram-se no Crato. E o Crato virou alvo da milícia que Floro Bartolomeu recrutou entre famosos e temidos celerados vindos de várias partes do Nordeste.
Os cratenses, logicamente, sentiram-se ofendidos com a invasão. Testemunhos dão conta que os sediciosos, sob o comando de Floro Bartolomeu, teriam invadidos e saqueados residências e estabelecimentos comerciais, mesmo contrariando a ordem do Padre Cícero de que não houvesse violência e que deixassem livres algumas estradas que permitissem a fuga daqueles que não quisessem lutar.
Esses episódios conjugados são os principais vetores da rivalidade que vez por outra é requentada, principalmente, na ocorrência de polêmicas que envolvem a destinação de investimentos públicos dos governos federal e estadual para a região. Quando os grandes investimentos são alocados em benefício do Juazeiro, os cratenses se queixam da intervenção de um “conciliábulo do mal” formado pelos adversários da cidade.
Há quem diagnostique que toda essa problemática deriva de duas doenças adquiridas e que teimam parecer congênitas. Enquanto os cratenses são vítimas de uma letal “juazeirite”, os juazeirenses foram acometidos de uma incurável “cratite”. O mal é, pois, intrínseco ao antídoto: rivalidade só se cura com união de interesses que venham igualmente beneficiar as populações das duas cidades. Sem inveja, sem mesquinhez, sem retrocesso.
Um remédio? A recém-criada Região Metropolitana do Cariri, que deve ser prescrita sem contra-indicações, apesar dos possíveis efeitos colaterais que podem causar em pessoas de espírito bairrista.
* Professor do Departamento de História da Universidade Regional do Cariri – URCA.
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terça-feira, 28 de julho de 2009
Raízes históricas da rivalidade entre Crato e Juazeiro
segunda-feira, 27 de julho de 2009
Sarney se apequenou diz Tasso em entrevista à Época
Amigo no passado, o senador diz que o presidente do Congresso representa hoje uma “coisa inaceitável”
A entrevista na íntegra
O senador Tasso Jereissati e o senador José Sarney já tiveram relações muito próximas – inclusive familiares. O sogro de Tasso, o empresário cearense Edson Queiroz, era amigo de Sarney. Foi sob o incentivo de Sarney que Tasso, então uma jovem liderança empresarial, entrou na política na década de 80 e virou governador do Ceará, pela primeira vez, em 1986. Quando Sarney era presidente da República, Tasso só não virou ministro da Fazenda por causa de um veto de Ulysses Guimarães. Mas a crise do Senado afastou os dois. Na eleição para a presidência da Casa, em fevereiro, Tasso votou contra Sarney. “Disse ao Sarney que ele estava representando uma coisa inaceitável”, afirma Tasso. “Ele está representando a pequenez da vida pública brasileira.”
ÉPOCA – O que representa o senador Sarney hoje? Tasso – A imprensa se concentrou nele, e isso é injusto, porque tem gente pior. Mas ele está concentrando todos os defeitos do nepotismo, do fisiologismo, da acomodação pessoal, do aproveitamento da vida pública para vantagens específicas. Ele está representando a pequenez da vida pública, em vez de representar o lado grande do homem público, que ele representou na Presidência da República. O Sarney se apequenou.
ÉPOCA – O senhor foi um dos amigos mais próximos do senador Antônio Carlos Magalhães nos últimos anos da vida dele. Sarney e ACM são homens da mesma geração. ACM teve de renunciar ao mandato de senador por causa de um escândalo. A presidência do Senado representa uma maldição para certos políticos? Tasso – Há uma diferença importante entre Sarney e o Antônio Carlos. Eu costumava dizer o seguinte: se você pegasse o temperamento do Sarney e juntasse a ele os homens públicos que cercavam o Antônio Carlos, você teria um dos melhores políticos do país. Mas, se você juntasse o temperamento do Antônio Carlos com os homens que cercam o Sarney, você teria um dos piores políticos do país. Apesar de serem da mesma geração, o ACM era um formador de líderes. Suas administrações sempre eram da melhor qualidade. Já o Sarney sempre se cercou muito mal.
ÉPOCA – O líder do PMDB, senador Renan Calheiros (AL), é uma dessas influências nefastas junto a Sarney? Tasso – O senador Renan Calheiros hoje controla uma boa parte do PMDB, que dá o tom no Senado. Ele é o homem forte da Casa. Essa boa parte do PMDB é um partido estranho. É um partido que não propõe chegar diretamente ao poder. Mas indiretamente, por meio de uma barulhenta maioria congressual, e assim mandar no governo independentemente da cor que ele tenha. É um partido que não faz meu gosto.
ÉPOCA – Por que o Senado chegou a essa crise tão profunda?
ÉPOCA – Mas a barganha entre o Legislativo e o Executivo existia no governo Fernando Henrique Cardoso. O senador Renan Calheiros foi ministro da Justiça de FHC.
ÉPOCA – O senhor já teve ótimas relações com o presidente Lula. Chegou a cogitar a formar uma chapa presidencial com ele em 1994. Por que suas críticas a ele hoje são tão duras?
ÉPOCA – Essa crítica moral ao governo e a seus aliados não perde eco por causa de situações como a do líder do PSDB, o senador Arthur Virgílio (AM), que pediu dinheiro emprestado ao Agaciel Maia?
ÉPOCA – O senhor usou a cota de passagens aéreas do Senado para fretar aviões. Isso não é uma vantagem indevida?
ÉPOCA – Qual é a solução para o Senado?
ÉPOCA – Sarney tem condições de liderar essa reforma?
ÉPOCA – Um ano atrás, a oposição era favorita na sucessão presidencial, com os governadores José Serra e Aécio Neves. Hoje, o cenário é diferente, com a ascensão da candidatura da ministra Dilma Rousseff. Qual é a chance de vitória da oposição em 2010?
ÉPOCA – O que o PSDB tem de fazer?
ÉPOCA – O governador Serra lidera as pesquisas. Ele deve ser o candidato?
ÉPOCA – Uma chapa presidencial com os dois é possível?
ÉPOCA – O que o senhor acha da ideia de Ciro Gomes, seu aliado no Ceará, de ser candidato a governador em São Paulo?
ÉPOCA – O que o senhor fará em 2010?
ÉPOCA – O senhor não coloca isso como uma certeza?
segunda-feira, 20 de julho de 2009
HONDURAS HOJE
a) O governo Zelaya ampliou o conflito com grupos empresariais através de leis trabalhistas e do aumento do salário básico.
b) Acontece que a economia de Honduras se encontra inserida num balaio de frutas plantadas no território de diversos países cujos preços são ditados pelas grandes empresas americanas que se abastecem na agricultura local.
c) O aumento de impostos, normas trabalhistas e aumento do salário quebram a política regional das grandes empresas e Honduras passa a ter a pretensão de formar preços e condicionar custos.
d) Membros do staff de Bush Jr, em Honduras através do Embaixador Americano e da base militar com 500 militares e nos EUA com John Maccain (derrotado por Obama) e com Dick Cheney dão musculatura para a ruptura golpista.
e) Quando nos surpreendemos com a vigorosa resistência dos golpistas apesar de todas as condenações internacionais não se busque isto apenas internamente, mas na associação do valor das plantações com os remanescentes do antigo governo americano junto a um Obama afogado em problemas e muito cauteloso sobre o assunto.
f) Não foi sem razão que outro dia Obama elogiou Lula por ser um esquerdista que não provoca rupturas. Na verdade ele parecia apenas em diálogo consigo.
g) A solução do conflito hoje se encontra entre uma guerra civil (ZELAYA ANUNCIA QUE SE ENCONTRA DEFENITIVAMENTE EM HONDURAS) e uma intervenção armada externa no estilo do Haiti de Aristides.
h) A Zelaya a primeira solução é a que mais lhe interessa. Aos EUA a segunda opção é melhor, pois exclui os contendores num futuro próximo, mas Obama perdeu muito tempo e as convicções na OEA se firmaram contra o golpe.
i) Se Zelaya retomar o poder presidencial o fará na ponta de uma guerra civil, com muitos mortos e rupturas. O futuro imediato seria a formação de contras no velho estilo centro-americano.
j) O estabelecimento de um governo de ruptura em Honduras favorecerá a formação de uma política centro-americana com a Nicarágua e El Salvador. Nisso se encontra a maior motivação para a reação dos autores do golpe.
k) Neste momento também se testa a política internacional de Venezuela, Bolívia e Equador. A ruptura Hondurenha tem tudo de provocação com a atual política destes países.
l) O Brasil, Argentina e Chile têm muita importância, tanto em relação aos três países citados quanto em relação à Colômbia e Peru. O fator moderador em que um avanço em renda ocorra na América Central ocorra e se mantenha relativa cordialidade com Washington é do Mercosul.
terça-feira, 14 de julho de 2009
Parque de Exposições, Xodó dos Cratenses
Para a população do Crato, e das cidades circunvizinhas, esta é a sua maior festa! Julho é a época do ano em que todos ressurgem para rever parentes e amigos e, sem dúvida, a “Exposição” é o grande motivo! O local é marcado pela tradição de 58 anos de romarias ao ponto de encontro de todos os cratenses, espalhados pelo mundo. É a época do ano onde os filhos do Crato se reencontram em solo conhecido, envoltos em boas lembranças, que faz com que nos reconheçamos a partir da festa que atravessou todas as fases de nossas vidas. O Parque de Exposições é um ícone da cidade que, hoje, se confunde ou forma a própria identidade do Cratense. O que aconteceria se retirássemos a Praça do Ferreira, em Fortaleza, do local onde está e a transferíssemos para o Bairro Aerolândia? Ou o Carnaval de Olinda, de Olinda? Que tal se a Torre Eiffel, em Paris, de uma hora pra outra não estivesse mais lá? É da imagem, da tradição, que nós estamos falando!
O que se há de concreto hoje é um evento, sucesso de público, acontecendo no mesmo local, ano após ano, há mais de meio século. É fato também que administrações públicas anteriores não investiram na ampliação da instalação existente no Parque, que pouco difere da inaugurada na distante década de 50. Vale salientar que a atual estrutura não equivale nem à metade do tamanho total do terreno disponível. Que a URCA precisa de um Campus maior e melhores instalações é verdade, mas isso depende muito mais de dinheiro do que de espaço. O ginásio poliesportivo que seria construído em um terreno que abriga um estacionamento improvisado durante a exposição, nunca saiu do papel. Bem como a reforma do galpão (almoxarifado da URCA), vizinho ao mesmo estacionamento, que abrigaria os gabinetes de professores do Campus Pimenta. Que a cidade precisa destes 25 milhões isto pode ter certeza! Estou certo de que todos louvam a atitude do governador de direcionar este montante do orçamento estadual para o desenvolvimento do Crato. O que precisa ser estudado é de que maneira este dinheiro será melhor aproveitado em prol da cidade.
Sugiro que as obras citadas, previstas em Planejamentos Estratégicos da URCA, sejam executadas. Sugiro ainda um estudo arquitetônico, que utilize toda a área ociosa do terreno existente, que resulte num projeto que ofereça mais conforto a demanda crescente de expositores e visitantes. E claro, não se esquecer de reservar verba para melhoria do atual Campus Pimenta - URCA. Acredito que a melhor proposta sempre será aquela que represente o atendimento dos desejos da população da cidade, maior interessada e beneficiada dos melhoramentos. Sugiro ouví-la!
Dimas de Castro e Silva Neto
pela University of Birmingham e Professor do Curso de Engenharia Civil da UFC Cariri
sábado, 4 de julho de 2009
A beata do milagre – por Nilze Costa e Silva
Da janela da casa nº 239 da antiga Rua do Arame, hoje Padre Cícero, uma senhora me atendeu com cara de espanto, quando perguntei se lá morou a beata Maria de Araújo. Também eu me assustei, pois parecia estar vendo a própria beata, tal a semelhança entre as duas, segundo descrição que colhera nos livros: magra, pele negra, cabelos crespos. Acordei dessa fugaz viagem e antes que a “sósia” me fechasse a janela na cara tratei de explicar-lhe que estava a escrever um romance sobre a protagonista do milagre de Juazeiro e queria saber se naquela casa haveria algo sobre ela: algum escrito, uma foto, uma placa... Dirimidas as dúvidas, ela colocou os cotovelos na janela e respondeu: “Nada! Não tem nada dela aqui não”. Esta mulher tem, talvez, a mesma idade que teria a beata antes de falecer nesta mesma casa, em 1914. Em torno de 51 anos – de novo viajei. A moradora falou ser freira, que a casa é da diocese, e que mora com outras naquele local há poucos anos. “Mas irmã, em todas as casas onde Padre Cícero morou tem lá suas marcas, seus objetos pessoais, sua história.” Animou-se e disse que sentia muito, mas que realmente não havia nada mesmo na casa, que identificasse a beata. Acrescentou saber de toda a história.
Dia 28, passado, abri o jornal O POVO na página sobre o Cariri e fiquei feliz: no local onde nasceu a injustiçada beata vai ser fixada uma placa em sua memória.
segunda-feira, 29 de junho de 2009
Notinhas sobre o Cariri
50 ANOS DE ENSINO UNIVERSITÁRIO
Este ano, comemora-se o jubileu de ouro da instalação da primeira escola de ensino superior do Cariri: a Faculdade de Filosofia de Crato. Deve-se esta instituição ao idealismo do eterno reitor Martins Filho, que contou com o decidido apoio do professor José Newton Alves de Sousa. Este último reside atualmente em Salvador (BA) onde, depois de aposentado pelas universidades baianas, fundou e dirige a Academia de Letras e Artes "Mater Salvatoris". Trata-se de ilustre cratense que teve seu nome cogitado, em 2000, na relação prévia para a escolha do “Cearense do Século”. As urnas, no entanto, deram vitória a outro cratense: Padre Cícero.
MARCO ZERO DE JUAZEIRO
Juazeiro do Norte vai ter o seu marco zero, a exemplo de Recife, Curitiba e Porto Alegre. Trata-se de um obelisco que será erguido no exato local onde surgiu a cidade, fato ocorrido em 1827, a partir da construção da capelinha de Nossa Senhora das Dores, pelo Brigadeiro Leandro Bezerra Monteiro. O marco zero ficará próximo à cúpula da Praça dos Romeiros, em frente à Basílica Menor de Nossa Senhora das Dores. Naquelas imediações surgirá, também, a Rua do Centenário – localizada entre o Centro de Apoio ao Romeiro e os arcos da Basílica Menor – possibilitando o contorno para quem desce pela Rua São Pedro e retorna pela Avenida Padre Cícero.
ENQUANTO ISSO...
O obelisco do centenário de Crato, localizado na Praça Juazez Távora (popularmente conhecida como Praça de São Vicente) encontra-se deteriorado, carente de pintura, e escondido e espremido entre duas mal localizadas mangueiras, cujas raízes já prejudicaram os alicerces do monumento. O obelisco de Crato precisa urgentemente de estauração, juntamente com a praça. Esta, construída há 56 anos, até hoje, nunca recebeu nenhum melhormento ou conservação.
CARIRI SERVE DE MODELO
A Unesco vem incentivando o surgimento de novos geoparks no Brasil. Para tanto, o Geopark Araripe vem sendo mostrado como um modelo exitoso de geopark. Dias atrás, o governo do Mato Grosso do Sul e o Ipahn promoveram um evento para criação do Geopark na Serra da Bodoquena, que englobará parte da área do Pantanal matrogrossense. Para proferir palestras sobre o êxito da implantação do Geopark Araripe estiveram em Campo Grande (MS) os professores André Herzog e Alexandre Feitosa Sales, considerados os maiores conhecedores, no Brasil, nessa nova modalidade de preservação ambiental.
BOA INICIATIVA
Um escritório de arquitetura de Fortaleza está ultimando o projeto de revitalização das praças centrais de Crato, cujas obras terão início no segundo semestre deste ano. O projeto inclui a sinalização dessas praças, bem como de edifícios históricos da Cidade de Frei Carlos. As ruas centrais de Crato serão dotadas de placas indicativas onde constarão também os nomes antigos dessas vias urbanas. Aguarda-se, dentro da restauração das praças cratenses, a construção de um monumento ao fundador da cidade, Frei Carlos Maria de Ferrara.
TROCA, TROCA
Vem de longe, segundo Armando Rafael, o costume de mudanças nas denominações tradicionais de Crato. O cemitério público, construído em 1853, tinha o nome de Bom Jesus dos Pecadores. Nos dias atuais é chamado de Nossa Senhora da Piedade. Já a capela desse cemitério foi dedicada, inicialmente, a Nossa Senhora dos Remédios. Hoje no seu altar pontifica uma imagem de Nossa Senhora Rainha dos Corações. É Armando ainda quem lembra: no final do século 19, Crato possuía 11 ruas principais, denominadas de Rua de Santo Amaro, da Pedra Lavrada, das Laranjeiras, do Pisa, Formosa, Grande, do Fogo, da Vala, da Boa Vista, Nova e do Matadouro. Já as travessas possuíam os seguintes nomes: Travessa do Cafundó, da Caridade, do Candéia, da Matriz, do Sucupira, de São Vicente, do Charuteiro, do Cemitério, da Ribeira Velha, do Barro Vermelho, da Califórnia, do Pequizeiro, da Taboqueira, das Olarias, da Cadeia e do Pimenta. Tudo trocado por nomes de pessoas cujas biografias são desconhecidas da população...
PENSE NUMA BURAQUEIRA
No próximo dia 12 de julho começa mais uma ExpoCrato. Milhares de visitantes virão à Princesa do Cariri e vão se defrontar com um Crato de ruas esburacadas o que causa péssima impressão. Dentre elas: a Avenida Maildes de Siqueira, proximidades do Parque de Exposição, onde as pedras toscas dividem espaço com o que restou do asfalto. Muitos buracos existem também na Rua Ratisbona e Avenida Padre Cícero, saída para Juazeiro. Idem na Avenida São Sebastião, que dá acesso ao bairro Grangeiro. A pergunta que se impõe: ainda dá tempo a Operação Tapa Buraco visitar essas ruas?
CURTAS
– Juazeiro do Norte resgata seu passado histórico. A humilde casa de taipa onde nasceu a beata Maria de Araújo era exatamente onde hoje fica o prédio dos Correios. A Prefeitura de Juazeiro, em parceria com o governo federal vai afixar uma placa em memória da Beata (...)
– Desde a última quarta-feira, 24, está circulando no Cariri o nº. 27 da revista “A Província”, publicada graças aos esforços e idealismo do jornalista Jurandy Temóteo. A nova edição bateu o recorde em número de paginas: mais de duzentas (...)
– Perguntar não ofende: como anda o cronograma de construção do Metrô do Cariri, de apenas 13 quilômetros de via férrea, interligando os municípios de Crato e Juazeiro que o Governo do Ceará anunciava para entrar em operação em 2009? (...)
– Serão abertas no próximo dia 18 de julho as comemorações do centenário de Juazeiro do Norte. A data marca os cem anos de lançamento do do jornal “O Rebate”, criado pelo sacerdote cratense padre Alencar Peixoto para lutar pela independência política de Juazeiro, à época distrito de Crato (...)
As viaturas do Programa “Ronda do Quarteirão” já estão no pátio do 2º Batalhão Policial Militar, em Juazeiro do Norte, onde será implantado nesta segunda-feira, em solenidade com a participação do governador Cid Gomes e do prefeito Manoel Santana.
JUAFORRÓ
Com certeza o Juaforró deste ano bateu todas as expectativas. Para agitar ainda mais aqueles que gostam da festa, o prefeito Manoel Santana anunciou que em 2010 que Juaforró terá 30 dias. Vale registrar nesta coluna que Elba Ramalho disse durante show que realizou no Juaforró deste ano, que o evento de Juazeiro não deve nada ao São João de Caruaru.
A URCA sediou um evento fundamental par ao atual momento do Cariri. O anúncio, por parte do presidente da Agência Nacional de Petróleo, Haroldo Lima, do início das pesquisas geológicas para saber se há ou não petróleo no Cariri. O evento contou com a participação de prefeitos caririenses, deputados, e com a presença do senador Inácio Arruda (PC do B), um dos políticos que mais lutou para que as pesquisas acontecessem.
O secretário Camilo Santana, do desenvolvimento agrário, vem trabalhando fortemente para o sucesso da Expocrato 2009, que deve alcançar em termos de negócios mais movimentação financeira do que a Expocrato do ano passado.
Coletivo Camaradas vai se transformar em ONG
O Coletivo Camaradas tem feito um trabalho de resgate da atividade de artistas plásticos, abrindo espaço para intervenções artísticas em vários espaços urbanos e discutindo a importância da arte engajada.
Esse esforço levou à formação do blog do coletivo, tendo como colaboradores artistas plásticos, músicos, poetas, escritos, jornalistas e cronistas. Para aprofundar o debate sobre a importância do resgate da cultura regional, o coletivo vai agora se transformar em uma Organização Não-Governamental (ONG).
Para Alexandre Lucas, coordenador do coletivo, esse é um processo de amadurecimento natural do coletivo, que precisa avançar na formatação de projetos e ações de incentivo a uma intervenção cultural que privilegie o regional. A assembléia de fundação da ONG se dará no próximo sábado, 4 de julho, ao ar livre, no bairro Gesso, em Crato.
Esse bairro, aliás, é o mote do filme “Cabaré – Memórias de uma Vida”, produzido por integrantes do Coletivo Camaradas. Após a fundação da ONG o filme será exibido “no meio da rua” como definem os integrantes do coletivo, para que toda a comunidade acompanhe a película.
Concurso público em Juazeiro do Norte
Estão abertas as inscrições para o Concurso Público de Juazeiro do Norte. O período para as inscrições começa hoje (29/06) e se encerrará no dia 17 de julho de 2009.
A Prefeitura de Juazeiro do Norte está ofertando 766 vagas distribuídas em 12 secretarias do município, com salários de até R$ 4.500 Reais. As inscrições devem ser feitas, exclusivamente, pela internet, no endereço eletrônico: www.cev.urca.br.
A taxa de inscrição é de R$ 40 Reais para ensino médio e R$ 80 reais para ensino superior. Estão isentos da taxa de inscrição, Doadores de Sangue conforme Lei Estadual 12.559/95, e todos os servidores que comprovem que possui algum tipo de vínculo funcional com o Município de Juazeiro do Norte, conforme Lei 2.193, de 23 de maio de 1997.
O cartão de identificação do candidato, deverá ser entregue de 02 a 09 de agosto, e as provas serão aplicadas no dia 16 de agosto.
O Edital do Concurso com todas as correções já está disponível para downloads no site da Prefeitura de Juazeiro do Norte: www.juazeiro.ce.gov.br
Tipos populares do Crato (5)
Capela
O Crato sempre foi uma terra de contrastes. A elite convive (até certo ponto) com os seus subprodutos: bêbados, homossexuais, prostitutas, mendigos e loucos.
Dentre esses subprodutos, um homossexual impôs respeito tanto pela dignidade como pela valentia. Era Capela, um espécime alto, corpulento e de cor branca. Não tenho certeza, mas parece que ele trabalhava nos inúmeros cabarés existentes além da linha férrea, que era um verdadeiro divisor entre a boa sociedade cratense e a aquela que era taxada como a pior das escórias.
Em 1983, estávamos eu, Jackson Bola Bantim e Leonel Araripe, fazendo a pré-produção de um filme que pretendíamos realizar na bitola super-8. O filme já tinha um roteiro escrito (de autoria de Leonel Araripe) e até um título, que fazia jus ao seu enredo vanguardista: Um lance de dados, numa alusão ao poema de Mallarmé. O filme só não foi concluído por falta de verba.
Mas, num dos estudos de iluminação e locação, feito ao amanhecer, nos trilhos próximos da Estação da Rffsa, encontramos Capela, que não sabíamos se vinha chegando ou se ia indo embora, pois havia cabarés nas duas direções. Mas, fizemos algo temerário: pedimos para Capela posar para uma fotografia.
Ele, amavelmente, consentiu e até fez pose.
domingo, 28 de junho de 2009
Os governos das Américas e o Golpe Militar de Honduras
Então vem o golpe de Honduras. Irá se sustentar? Sabemos que nenhum golpe de Estado se sustenta sem apoio de Nações Estrageiras fortes. Durante a noite vamos observar as falas dos presidentes das repúblicas nos três continentes. Amahã vamos sentir as medidas práticas.
O grande teste é o seguinte: se de fato os golpistas mantiverem o poder e ele não for restaurado ao presidente eleito, tudo o mais se reverte. Em saltos da história não é possível conviver simultaneamente com a afirmativa e a negativa na mesma frase.
sábado, 27 de junho de 2009
Desastre de um transgênico ou um crime ambiental? - por José do Vale Pinheiro Feitosa
Ao se tornar sedentário, aquele homem de caça e colheita, foi de encontro à natureza: funcionou como um redutor de diversidades. A monocultura, como a soja, a cana, a laranja, a uva entre tantas, é o exemplo mais acabado e que se encontra na raiz da extinção de espécies e, portanto, da diversidade na terra.
Não é por acaso que os estudos se voltaram para um elo perdido da humanidade, para a pré-história, quando outros alimentos, mais ricos que os atuais, eram utilizados. Um caso clássico é o do Amaranto a grãos.
O Amaranto a grãos foi cultivado há cinco mil anos pelos povos primitivos do México, junto com a abóbora e a pimenta. Na cultura Asteca o Amaranto se destaca como uma grande fonte de nutrientes, de qualidade terapêutica e ritualística. Eram aproveitados os grãos até como farinha para diversos alimentos como os tamales e das folhas se faziam molhos deliciosos.
Como rito a farinha do Amaranto era oferecida no panteão dos deuses astecas e simultaneamente comidas pelos fiéis como se faz com o pão na comunhão com o cristo. Desta mesma farinha se fazia uma pasta com qual se elaboravam artesanatos para as crianças recém-nascidas, com motivos de flechas, arcos etc.
Segundo pesquisadores, o rito com o Amaranto e o abandono do seu cultivo decorreu da perseguição cristã e da imposição seletiva pelas escolhas dos conquistadores europeus. O Amaranto virou uma erva daninha da monocultura do século XX em todas as Américas, especialmente nas grandes extensões de soja.
Mais do que uma vingança vinda da pré-história o que passo a relatar é uma comprovação daquilo que a soberba e a ganância monopolista do capital faz. Falo da questão da agricultura e da criação de animais geneticamente modificados (TRANSGÊNICOS). Como sabemos objeto de grandes discussões científicas, por vezes até mesmo extremadas.
Qual o núcleo duro e racional da cautela com a manipulação e dispersão destes organismos geneticamente modificados? A primeira delas era o monopólio que as empresas de manipulação genética passariam a ter na produção dos alimentos da humanidade. Com isso tornando a iniciativa privada o cárcere dos países e dos povos. Tudo pelo lucro e a humanidade como suserana.
A segunda tinha por base a possível hibridização entre os seres geneticamente modificados e os demais. Em outras palavras, genes modificados poderiam migrar para outros seres vivos, inclusive de espécie diferente. Os grandes manipuladores negaram isso e “compraram consciências”, pois este era, inegavelmente, um fenômeno evidente na natureza: a transferência contínua de genes intra e entre espécies.
A terceira era a seleção natural. Desde muitos séculos (não apenas com Darwin que sistematizou o conceito) que se conhece o poder da seleção natural. Como também se conhece o poder ainda maior num território de monocultura, já que a seleção além de ocorrer velozmente, termina por ser substituída por uma ou poucas espécies.
Mesmo assim grandes Multinacionais como a MONSANTO, velha conhecida das lutas pelo Meio Ambiente, foi em frente e as plantas geneticamente modificadas se espalham pelo mundo todo. No Brasil a estratégia destas empresas foi corroendo por dentro das instituições e dos plantadores até que por força violenta do fato consumado, se estabeleceu.
Agora nos EUA se comprovou a migração de um gene da soja geneticamente modificada, chamada Roundup Ready para o Amaranto. Aquele mesmo que alimentava os Astecas e se tornaram a erva daninha incontrolável da cultura de soja. Como funciona a estratégia da Monsanto?
A Monsanto descobriu e produziu o Roundup, um herbicida que destrói qualquer erva daninha, inclusive a soja. É o que se chama um herbicida total. Num segundo passo a Monsanto manipula geneticamente a soja, introduzindo um gene que resiste ao Roundup. Um negócio das arábias: ganha no grão para plantio e torna cativo o plantador ao seu herbicida.
Aí aconteceu o que negavam, agora se pode afirmar e a Monsanto tem de responder por isso nos tribunais: houve hibridação entre a soja e o Amaranto. Agora só dar Amaranto, muito mais “competente” que a soja no processo de seleção natural. Os campos que antes eram de soja, agora são de Amaranto. Já se identificaram nos EUA cinco mil hectares e outros cinqüenta mil estão sob ameaça.
Tem uma saída. Sem a Monsanto por ganância, a civilização que renegou o Amaranto nos seus primórdios, agora o terá no prato. Modificado geneticamente, mas certamente livre do herbicida e da concorrência com outras espécies.
quinta-feira, 25 de junho de 2009
Tipos populares do Crato(4)
Tandor
Não tenho a mínima idéia da origem ou do porquê do nome Tandor. Também, os vocabularistas mais recentes não o citam. Só resta, pois, a lembrança dos que o ouviram e que o associam a um velhinho de cor negra, de cerca de um metro e meio de altura e que percorria, serelepe, as ruas do Crato, vestindo um traje exótico que lembrava um cangaceiro extemporâneo. Usava um chapéu de couro, uma espécie de farda de brim azul, de onde pendiam um sem-número de enfeites, como medalhas e fitilhos, calçava uma sandália “currulepe” e, no peito e ao redor da cintura, entrelaçavam-lhe cartucheiras que, em vez de balas, acondicionavam vidrinhos com líquidos de diversas cores. Nestes vidrinhos estavam o meio de vida de Tandor, que ele batizou como “mijo de moça”, e os vendia como se fosse uma panacéia para espinhela caída, mau olhado, dor nas juntas, coceira, pereba etc.
Dizia-se que Tandor, quando jovem, tinha sido cangaceiro ou jagunço. Essa informação pode ser um mito, construído a partir da representação que ele assumiu a partir de suas veste. Ou pode ser verdade.
Na década de 1970, Emerson Monteiro dirigiu um filme em Super-8, intitulado Terra Ardente, no qual Tandor foi um figurante, fazendo justamente o papel de um jagunço.
terça-feira, 23 de junho de 2009
Tipos populares do Crato (3)
O Brigadeiro
Com a simples menção deste nome - O Brigadeiro -, nós, crianças do bairro Buenos Aires, tremíamos de medo. Isso por conta das histórias (ou seriam estórias?) que se propalavam ao seu respeito. Eram histórias que o pintavam como um homem duro, implacável, violento e, por conseguinte, bastante temido.
O Brigadeiro José Macedo ou simplesmente O Brigadeiro, como era comumente conhecido no Crato, já era um militar reformado quando eu era criança. Talvez, tenha sido o único cratense a atingir a mais alta patente da Aeronáutica Brasileira Enveredou-se na política, candidatando-se, em 1972, a vice-prefeito, na chapa encabeçada por Walter Peixoto, que depois seria prefeito do Crato por duas vezes. Era também proprietário de terra e de um engenho de cachaça. Sua casa ficava a poucos metros da minha, na Rua da Cruz, cercada por muros altos e portões sempre fechados.
Por trás da sua casa, havia (e ainda há) um belo e extenso palmeiral, conhecido ainda hoje como o Palmeiral do Brigadeiro; formado por centenas de babaçus nativos e constituindo-se numa preciosa reserva ecológica. Se esse palmeiral ainda existe, o mérito é do Brigadeiro, que além de preservá-lo, legou esta missão aos herdeiros.
Durante o período da minha infância, quando era vizinho do Brigadeiro, não me lembro de tê-lo conhecido pessoalmente. Só vim conhecê-lo no fim da adolescência, quando o Brigadeiro já estava no ocaso da vida e era um assíduo frequentador da Praça Siqueira Campos.
Uma única vez, eu conversei com ele. Foi na Loja Bolart, de propriedade de Jackson “Bola” Bantim, no início da década de 1980. A Bolart era uma loja especializada em artigos culturais (discos, livros, pôsteres, cordel, jornais, revistas, camisetas temáticas) e plantas e peixes ornamentais. A loja, situada na Rua Mons. Feitosa, próximo à Praça Siqueira Campos, era ponto de encontro de artistas, que naquele tempo, estavam órfãos de espaços aglutinadores dos amantes da arte e da cultura.
Um dia estava tomando conta da loja, a pedido de Jackson Bantim, que teve que dar uma saidinha, e eis que chega o Brigadeiro. A despeito de sua idade avançada, era um homem forte, esbelto, ereto e elegante. Depois de olhar as mercadorias expostas nas prateleiras, deteve-se em frente a um pôster de Che Guevara, com aquela clássica foto de Alberto Korda e a famosa frase “hay que endurecer, pero sin perder la ternura jamás”. Chamou-me e me disse: burro, este rapaz! Deixou um futuro promissor como médico para ser guerrilheiro em Cuba.
Na época, este comentário seria uma afronta à minha pessoa e às minhas crenças políticas, calcadas que eram na ideologia de esquerda. No entanto, apenas achei graça daquela observação.
Do lendário Brigadeiro José Macedo, não se poderia ouvir outra coisa.
O Irã não pode ser examinado com imbecilidades
Esta mídia que aparenta um zelo pelos fatos, mas escorrega no próprio umbigo quando tenta olhar seus valores transpostos para outros povos. Mas não apenas escorrega, levanta um olhar maniqueísta em que o bem é sempre o ocidente e o mal os outros. De fato a ética ocidental nunca superou o problema da alteridade e procura transpor “cirurgicamente” suas instituições para terceiros.
Neste dias as lágrimas de crocodilo se derramaram a sorrelfa pelos monitores de televisão. O filho do antigo Xá do Irã expôs copiosas lágrimas nas páginas chorosas do Ocidente. Ontem mesmo no Jornal Nacional, tão neutro que transmite as notícias de Israel como se sabe inimigo do Irã, entrevistava um Israelita de origem Iraniana e este chorava lágrimas “amargas” pelo povo do Irã. Parece ironia, mas não é, pois os Palestinos são vítimas de Israel e lágrimas pelo vizinho não existem.
A Inglaterra que não tem nenhum perdão da história pelo massacre de culturas pelo mundo todo, que mandou soldados destruir o Iraque recentemente, é o núcleo de tenebrosas visões. Deseja o domínio do Islã, melhor dizendo dos lagos subterrâneo daquele líquido preto e viscoso que se formam em imensa região. Ninguém efetivamente pensa no povo do Irã, apenas nas vantagens do seu território, por isso mesmo o corpo ensangüentado da jovem baleada é o símbolo do sacrifício tão útil para justificar ações que mutilam.
Será que alguém em sã consciência imagina que o discurso inusitado do Presidente Francês no Parlamento, condenando a burca e levantando a liberdade das mulheres não tem nada com esta jovem iraniana? É a mesma coisa, a velha propaganda maniqueísta ocidental, que se constitui numa peça única em todas as agências de notícias do mundo e por isso mesmo uma peça urdida e aplicada em benefício da surrada democracia européia.
Mesmo quem nasceu após a segunda guerra mundial desconfia que os Europeus pouco tenham a ensinar de globalização ou sistema mundial de paz e democracia. Destruíram suas florestas, arrasaram seus ecossistemas, esgotaram seus recursos, se expandiram agressivamente por todos os continentes e realizaram as guerras mais terríveis que resultaram em carnificinas sem igual em qualquer continente. Os norte-americanos apenas acrescentaram a eficácia da tecnologia e a eficiência de suas instituições a este mesmo modelo.
Sem dúvida que o Irã passa por grandes transformações. Que ela nasceu seguramente da revolução que derrubou o Xá. Ou nos tornamos todos imbecis ao não observar que os bons níveis de educação alcançados naquele país foi justamente uma política deliberada de anos e anos da revolução? Apenas a título de exemplificação, hoje mesmo a Miriam Leitão no Bom Dia Brasil, falava na conquista da mulher iraniana. Claro que o resultado de apenas 4% de mulheres analfabetas naquele país, em que 55% das vagas universitárias sejam ocupadas por elas faz parte de uma política de anos de incentivo à educação feminina. Ou estamos obnubilados e imaginamos que a morte daquela jovem significa que o regime persegue as mulheres. Entendemos o maniqueísmo?
É importante que se entenda o seguinte: o Irã há anos tem um projeto de nação. Já foi agredido pelo Iraque por financiamento do EUA, é ameaçado pela potência nuclear de Israel e desde alguns anos para cá é ameaçado pela Europa e os EUA por desenvolver energia nuclear. E sabem o motivo? É que tudo no Irã tem projeto de longo prazo, para cinqüenta anos adiante. Conheci quadros dos organismos internacionais que se admiravam da visão estratégica de todas as instituições iranianas.
Mais ainda, o Irã tem milionários (Rafsajani, aquele que já mandou por lá é um burguesão clássico e se opõe ao atual presidente), tem um capitalismo em ebulição e tem pobres e trabalhadores explorados. Nada diferente do resto do mundo “globalizado”. Mas o Irã tem plano estratégico e tem muitos viés que unem seu projeto, inclusive atraindo esta classe média que aparentemente se rebela. Um outro fato inegável é que o Ocidente em crise pouco oferece a quem tem problema. O Irã já se junta ao esquema de aliança da Ásia, se aproximará dos BRICs e portanto da América Latina e da África.
segunda-feira, 22 de junho de 2009
Tipos populares do Crato (2)
Sorriso
Todas as cidades prezam e desprezam, com a mesma intensidade, seus loucos. É uma espécie de catarse, para as pessoas tidas como normais extravasarem a pressão que pode levá-las à loucura.
No Crato, não é diferente. Ainda, hoje, apesar do rápido crescimento observado nos últimos anos, tanto do seu perímetro urbano quanto de sua população, é comum o triste espetáculo de malhação pública das pessoas tidas como exóticas, a exemplo dos bêbados, homossexuais e loucos.
Sorriso era uma louca que só vivia sorrindo, perambulando maltrapilha pelas ruas, becos e avenidas.
Em tempos de moralismo extremado, o tabu da virgindade era muito forte. Havia um forte preconceito contra as garotas que não fossem virgens, o que, fatalmente, custaria um casamento dentro do padrão esperado. Para os garotos, só restava uma alternativa para aliviar a libido: fazer sexo com prostitutas. No entanto, essa via era problemática. Só os maiores de dezoito anos podiam frequentar os prostíbulos (aqui chamados de cabaré). Os comissários de menores, a quem chamávamos de “come-sapo”, eram implacáveis e, por isso, muito temidos. Ou seja, sexo com prostitutas nos cabarés era uma possibilidade muito difícil. Restavam duas opções: as empregadas domésticas ou as loucas. E dentre as loucas, Sorriso era a primeira opção.
Sorriso teve muitas gestações indesejadas e, por conseguinte, muitos filhos indesejados também.
Por isso, talvez, Sorriso vivia a embalar uma boneca de plástico, como que lhe substituindo os filhos, tomados dela para serem criados por famílias abastadas ou não.
sábado, 20 de junho de 2009
Preito e gratidão a Lourival Luciano Filho
Ao final desta tarde fui surpreendido com a infausta notícia do falecimento do professor e psicólogo Lourival Luciano Filho, antes de tudo um colega, companheiro e amigo.
Trabalhei e convivi com Lourival por quase duas décadas, principalmente na Comissão Executiva do Vestibular – CEV da URCA. Boas lembranças tenho deste convívio, pautado por uma postura séria, competente e ética.
Depois, quando assumi a árdua função de presidente da CEV, sempre contei com a colaboração prestimosa e eficiente do professor Lourival.
Só tenho que agradecê-lo por tudo isso e desejar à família enlutada, o conforto que só a fé é dispensadora.
Tipos populares do Crato (1)
Maria Roxa
A personagem deste artigo, que eu me lembre, não cheguei a conhecer pessoalmente. Mas, por outro lado, o seu nome era por demais conhecido no bairro onde vivi a minha infância. Ela morava, junto com uma grande família, entre parentes mais próximos e agregados, na Rua André Cartaxo. Eu morava na Rua Teodorico Teles, também conhecida como Rua da Cruz.
Maria Roxa, eu sabia, era piauiense e adepta da umbanda (ou candomblé), mas que, sob o forte preconceito e intolerância, bastante arraigados numa cidade de raízes católicas como o Crato, principalmente há trinta ou quarenta anos atrás, - era sinônimo de macumba, pura e simplesmente. Macumba era, ainda, sinônimo de magia negra, feitiço, pacto com forças ocultas e malignas. Portanto, Maria Roxa era conhecida, pejorativamente, como A Feiticeira. Dizia-se, inclusive, que o casarão onde ela residia, dispunha de um porão onde eram realizados os rituais da primitiva religião, heranças da etnia afro que para o Brasil foi transplantada na época da colonização lusitana, obrigada à prestação de trabalho escravo.
Ouvia todas essas histórias, com bastante interesse e tomada por aquela impressão própria da infância cheia de imaginação. Não sentia a repulsa que percebia existir nas pessoas adultas. A minha aguda curiosidade, ao contrário, atraia-me para aquela mulher diferente, difamada por preservar suas raízes negreiras (o apelido Maria Roxa era um sintoma da cor de sua pele) e aquele imenso e misterioso casarão, de primeiro andar e de um suposto porão. Contentou-me, pois, quando fui colega de escola de Cival, neto de Maria Roxa. Era a oportunidade de adentrar aquela dimensão desconhecida.
E a oportunidade se deu, quando Cival me chamou para ir até a sua casa. Para minha surpresa, além do tamanho desta (enorme, principalmente sob a perspectiva de uma criança que comumente superdimensiona as coisas), não havia nada de diferente por lá.
Resgatar, mesmo que sob a etérea perspectiva infantil, personagens marginalizadas por conta de um padrão diferente do comportamento dominante, é, da minha parte, uma maneira de fazer justiça, ainda que tardia.
Por Sarney, Lula até desafia Constituição – por Augusto Antunes (*)
Brasília tornou-se uma ilha da fantasia para deputados e senadores, que usam seus cargos de representantes do povo para locupletar-se e obter vantagens para seus apaniguados. O corolário evidente é que a capital se transformou numa imagem de pesadelo para os que pagam a conta: nós, os milhões de contribuintes; nós, as dezenas milhões de pessoas comuns. É tal o resumo da ópera brasiliense - eles, os poderosos, os "incomuns", se lixam cada vez mais para a opinião pública, para os bons modos, para a Constituição. Minam, assim, a crença na democracia e os alicerces de uma nação que almeja a civilização.
Esse espetáculo deprimente teve outra cena triste na semana passada. Seu protagonista: o presidente Lula. Desde que se viu na contingência política de ter que defender os crimes dos seus partidários envolvidos no mensalão, Lula teve que entregar a bandeira da ética - que ele empunhou com desenvoltura antes de chegar ao Palácio do Planalto. A rendição do presidente se deu naquela célebre entrevista concedida em Paris, em 2005, nos tempos em que a corrupção causava ainda algum constrangimento. Sem os corretivos vindos de cima, a turma do baixo, do médio e do alto clero da base aliada sentiu-se mais livres do que nunca. Sempre que um de seus membros está prestes a se afogar, eis que surge o presidente, solidário, oferecendo o conforto de suas palavras amigas.
Nem precisa ser compadre de pitar cigarrilha, como o leal companheiro Delúbio Soares, estrela do mensalão. Pode ser do PMDB, do PP ou do PTB. Pode até ser, vá lá, um "grande ladrão", adjetivo com o qual Lula descrevia o senador José Sarney quando este era presidente da República.
Há cinco meses, o Congresso Nacional enfrenta uma infindável onda de escândalos. Ela envolve parlamentares e altos funcionários com mordomias, nepotismo e suspeitas de corrupção. Aos 79 de idade, 54 de política, Sarney, o mais longevo e experiente dos políticos brasileiros, é apontado como mentor e beneficiário da máquina clandestina que operava a burocracia do Senado. Inerte diante das denúncias, o senador tentou defender-se no plenário, com argumentos tão frágeis quanto os azulejos portugueses de São Luís. Do Cazaquistão, onde se encontrava em visita oficial, Lula atirou-lhe a bóia.
"O senador tem história no Brasil suficiente para que não seja tratado como se fosse uma pessoa comum", disse o presidente. E continuou: "Não sei a quem interessa enfraquecer o Poder Legislativo no Brasil. Quando o Congresso foi desmoralizado e fechado, foi muito pior para a democracia". Não satisfeito, acrescentou: "Eu sempre fico preocupado quando começa no Brasil esse processo de denúncias, porque ele não tem fim e depois não acontece nada". Ao afirmar que Sarney merece um tratamento diferenciado, o presidente atropelou o preceito constitucional expresso no artigo 5º, que estabelece a igualdade de todos perante a lei. "Lula foi absolutamente infeliz. Reforçou a idéia de que um é melhor do que o outro. Restabeleceu a lógica do 'você sabe com quem está falando?'. Bateu de frente na Constituição e no princípio basilar da democracia", resume o cientista político Marco Antônio Villa.
Na véspera da declaração de apoio de Lula, o senador "incomum" subiu à tribuna. Em um discurso de pouco mais de meia hora, disse que a crise não é dele, mas de todo o Senado, e que não aceita ser julgado por questões menores, o que é uma “falta de respeito para quem tem mais de 50 anos de vida pública”. Em 1890, Benjamin Constant, ardoroso republicano brasileiro, saiu de uma audiência com o Marechal Deodoro da Fonseca, primeiro presidente do Brasil, indignado com o tratamento que lhe fora dispensado. "Não era esta a República que eu sonhava", disse Constant. Mais de um século depois, sua frase continua a ressoar entre os milhões de cidadãos que vivem sob o império da lei, sem privilégios e pagando a conta dos "incomuns" de Brasília.
terça-feira, 16 de junho de 2009
Sua Alteza o Príncipe Dom Pedro Luiz – por Ibsen Noronha
(In memoriam)
Dom Pedro Luiz de Orleans e Bragança desapareceu na flor da juventude, na primavera da Vida. Nos seus poucos anos de existência procurou ser exímio em tudo que fez. Buscou desempenhar bem os seus deveres de dinasta do Trono do Brasil; e, com a discrição e o charme da alta Nobreza, defendeu e divulgou os ideais monarquistas.
Evidente que um Príncipe que desassombradamente falava de Política e Religião jamais poderia deixar de entusiasmar, nestes tempos de crise e penúria moral. No Brasil, por diversas vezes, tive a honra de acompanhar mon Prince em eventos monarquistas. Suas intervenções, sempre breves, mas densas, serviam de estímulo para a defesa dos ideais de Restauração e de Moralização deste imenso Império chamado Brasil. A delicadeza de Dom Pedro Luiz para com todas as pessoas é outro aspecto inesquecível da sua personalidade. E o seu Amor pela Pátria edificava que bem soubesse observar mais esta virtude.
A Juventude não foi feita para o prazer, mas para o heroísmo! Certa vez citou esta belíssima frase de Paul Claudel. E comoveu a muitos… Eis uma verdade, uma grande verdade, que saída dos seus lábios calava profundamente nas almas. Dom Pedro Luiz foi levado jovem e não mais teremos a honra e o prazer do seu convívio. Voluntas Dei Pax nostra!Mas a sua memória será sempre lembrada com admiração e servirá de constante estímulo para grandes lutas e dedicações em prol da Monarquia.
(Transcrito do Jornal do Cariri, edição de 16 de junho de 2009)
Passeio sentimental pelas ruas do Crato (final)
Saudades da Cinelândia
Hora de voltar para casa e encerrar o passeio. O sol estava quente e fazia um calor sufocante. Bebericava a garrafinha d’água enquanto fazia o caminho de volta. Fui pela Rua Dr. João Pessoa, antiga Rua Grande. Pensei sobre a mudança dos nomes das ruas do Crato, outrora poéticas e bucólicas: Travessa Califórnia, Rua das Laranjeiras, Rua do Fogo, Rua da Cruz, Rua da Palha, Rua da Pedra Lavrada, Rua da Saudade... Agora, na sua grande maioria, as ruas homenageiam personalidades políticas que pouco ou nada tiveram a ver com o Crato.
Nas imediações do Calçadão, senti uma tristeza profunda ao ver ainda baldio o terreno que antes abrigava o prédio do antigo Grande Hotel, onde no térreo funcionava a Lanchonete Cinelândia, ponto de encontro de várias gerações de cratenses, onde se tomava um concorrido café expresso, apesar de Genésio, um dos proprietários, não ser uma unanimidade como atendente bem-humorado. Pessoalmente, nunca tive do que reclamar. Genésio, talvez em atenção ao meu pai, de quem era grande amigo, sempre me atendeu bem, até com mesura. Várias vezes, ele me dispensou de pagar o cafezinho.


