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segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Mestre Armando Leão visita o Cariri para articular congresso da UNEGRO




O mestre de Capoeira de Angola, Armando Leão esteve nesta segunda-feira (21/02) na região do Cariri para se reunir com lideranças do movimento negro com o objetivo de articular a mobilização para o congresso nacional da União de Negros pela Igualdade – UNEGRO que será realizado em julho deste ano.

O Congresso da entidade é composto por etapas regionais e estaduais. De acordo com o coordenador estadual da UNEGRO, Armando Leão o congresso desempenha papel importante na defesa de bandeiras de lutas pela igualdade racial, tolerância religiosa e também serve para ampliar as lutas e fortalecer as conquistas políticas e sociais para o conjunto da população.

No Ceará será realizado neste sábado, dia 26, no auditório do Sindicato dos Bancários, em Fortaleza, o Seminário preparatória para etapa estadual do Congresso. Armando frisa que do Cariri deverão participar cerca de 15 lideranças dos diversos segmentos do movimento negro, como quilombolas, copoeiristas, MCs, mães e pais de Santo. Ele destaca que manteve contato com representantes do Grupo de Valorização Negra do Cariri – Grunec, Coletivo Camaradas, Berimbalarte, quilombolas e pessoas de terreiro.

A Pró-Reitoria de Extensão PROEX da Universidade Regional do Cariri – URCA, A secretária de Esporte e Juventude de Juazeiro do Norte e a Prefeitura de Potengi são algumas das parcerias no Cariri da UNEGRO, além dos movimentos sociais.

RELEMBRANDO O CRATO ANTIGO - Pedro Esmeraldo


Foto capturada do Blog do Crato

Estamos tentando relembrar o Crato antigo. Era uma cidade pequena, mas de aspecto agradável, semelhante a uma cidade civilizada do sul do país. Seu povo vestia-se bem, andava bem trajado, sempre elegante, não fazia vergonha ao se apresentar em qualquer reunião social no cenário de todas as camadas da sociedade. O homem, enfatiotado e circunspecto, não se envergonhava de freqüentar os maiores convívios sociais.

Era uma cidade que quase não tinha indústria, a não ser pequenas indústrias de beneficiamento de arroz e algodão. O algodão, após ser beneficiado, tinha a lã transportada para os grandes centros do país. Também havia duas indústrias de ração para bovinos, satisfazendo o provimento da pecuária leiteira da região.

As suas principais praças eram localizadas no centro da cidade como: Francisco Sá, que é uma das praças mais bonitas do Ceará. Lá está instalada a coluna da hora e a estátua da samaritana, oferecida pelo artista e jogador de futebol Mundinho, grande craque cratense.

Também serviu de palco da antiga fonte luminosa, talvez abandonada por falta de recursos financeiros. Mesmo na parte central da cidade, havia um antigo mercado público, cognominado pela massa popular de arapuca, onde hoje é localizado o Banco do Brasil.

Naquele tempo, o crescimento do Crato era lento, mas digamos, com força de expressão, era uma cidade quase civilizada que tinha aspecto de cidade grande porque seu comércio era bastante intenso, devido a predominância da cana-de-açúcar e do algodão, que se encontrava no apogeu, considerada como um grande centro elevado de economia regional.

Os engenhos, ao redor da cidade, adocicavam a economia com o afago do seu mel, transmitindo um cheiro agradável ao visitante da cidade.

Posteriormente, essas duas culturas, ou seja, da cana-de-açúcar e do algodão arruinaram-se e o agricultor cratense estava totalmente despreparado para outra atividade correlata. Daí surgiu o descrédito econômico do agricultor que não sabe sobressair-se das dificuldades financeiras e ficou arrasado financeiramente, deixando cair no ostracismo social.

Quanto á queda do consumo da rapadura, observamos que, nos tempos modernos, o homem passou a mudar de hábito alimentar, abandonando certos costumes, afastando-se dos costumes regionais, mudando-se de costumes alimentares, esquecendo dos produtos da região, deixando o agricultor arrasado e desinteressado pelo trabalho agrícola.

Os homens de outrora, principalmente os da classe política encontravam-se totalmente despreparados para enfrentar o trabalho efetivo e ponderando com muita reflexão, não procuravam pormenores para descobrir a causa da queda da nossa economia, cruzavam os braços e não observavam os prós e os contras, a fim de qualificar o homem para exercer, com dignidade, novas profissões com trabalho que lhe fosse favorável ao seu sustento.

Lembramos ainda que o procedimento negativo do agricultor trouxe péssimas consequências para a economia cratense.

Não recorremos aos melhores métodos que fossem apropriados ao homem, sem aflição, verificar qual seria a sua melhor inclinação que adiantasse o seu trabalho de acordo com o seu capital, procurando a parte favorável e preferida pelo povo.

Crato-CE, 17 de fevereiro de 2011.

Uma anfitriã em pânico - Por Magali de Figueiredo Esmeraldo

Em l995, nosso apartamento estava lotado de irmãos e alguns sobrinhos de Carlos, que vieram à Fortaleza para apoiar uma irmã dele que ia se submeter a uma operação de ponte de safena. A cirurgia era de risco, o que fez com que os irmãos e todos os familiares ficassem preocupados. Estávamos todos unidos em oração e torcendo para que tudo desse certo. E eu, no meu papel de anfitriã, organizava tudo a tempo e a hora para que todos se sentissem bem acolhidos e confortáveis.

Nessa época o prédio em que moramos, estava sem síndico, pois ninguém queria assumir tal missão. Sem nenhuma liderança, já que nem o subsíndico quis se responsabilizar, não foi tomado nenhuma medida para que fosse realizada a dedetização. Por mais que colocássemos isca em nossa casa, apareciam algumas baratas voadoras e outras que vinham dos esgotos do edifício.

Em determinado momento, ao entrar na despensa com a minha cunhada ao mesmo tempo, para pegarmos alguma coisa, passaram por cima de nossas cabeças duas enormes baratas voadoras vindas da varanda. Na hora, em pânico e sem pensar no meu papel de anfitriã acolhedora e educada, saí correndo e tranquei a porta da despensa deixando minha hóspede lá com as duas baratas. Corri o mais longe possível daquele local. Depois que passou o susto e as baratas já estavam mortas, envergonhada fui pedir desculpas a minha cunhada, justificando minha atitude pelo medo que tenho de baratas. Ainda bem que ela perdoou. Passado o meu constrangimento, demos boas risadas.

Por Magali de Figueiredo Esmeraldo

Luiz Domingos de Luna*

A Cela do existencialismo dos seres humanos é inexorável. A inteligência em projeção pouco, ou nada tem feito para outros dados amostrais da arte do existir. A busca de fundamentação teórica dos componentes químicos para a composição da existência somente consolida a tela da fortaleza da prisão, pois em nada acrescenta ao substrato de outras formas de se fazer presente no panorama permeado a todos, vez o estudo do passado, seja como principio ativo ou não, o processo culminará sempre com a realidade do agora.
A filosofia tem se debruçado sobre a justificativa para a devoradora de vida no planeta terra – Na verdade, a peregrinação epistemológica tem sido mais para a justificativa da morte, dificilmente, se encontra uma escola filosófica para um estudo sério de como vencê-la, a ciência pouco tem feito para derrotar esta assassina de vidas. Dessa forma até parece que a morte é soberana é algo que está acima da compreensão humana. O reinado da morte parece ser eterno.
A morte de fato não derrota ou devora a vida, mas sim, apenas limita, pois a sobra da morte, a história, que a seqüência, forma a epistemologia genética da humanidade que é base para a civilização humana.
O Problema nasce quando a vida é estudada como a variável e a morte como a certeza, quando de fato, deveria ser o contrário, a vida como certeza e a morte como variável, isto acontece porque a humanidade se curva a inferioridade de uma existência perecível, ou seja, o presídio é concreto, vive em todas as abstrações dos humanos e sempre é vencedor, sendo a morte a heroína que fecha qualquer ciclo vital.
A solução se torna inatingível, pois tanto a inteligência quanto a ciência qualifica este caracteres como parte do Carrossel existencial, pois, a falta de uma forma diferenciada de existir faz sempre a vida no encaixe do tempo: passado, presente e futuro, até hoje esta fatalidade tem sido uma constante na vida dos seres vivos no planeta ainda azulado.
A desfragmentação da existência em outros patamares é base a libertação do homem, se não existe espaço dentro da lógica real, palpável, ou do alcançável, que seja oferecido novos modelos existenciais, se esta possibilidade inexiste dentro do campo racional do existencialismo que se busque uma ferramenta para tal fim, assim, a fé será sempre um caminho de Luz.
(*) Professor da Escola de Ensino Fundamental e Médio Monsenhor Vicente Bezerra – Aurora - Ceará.

Lifanco – Um guerreiro da Nação Cariri



Compositor, músico e fundador do reisado Nação Cariri. Lifanco deve produzir em breve uma coletânea de músicas engajadas. Lifanco tem composições com artistas do Cariri como Fatinha Gomes, Luciana Dantas, Cacá Araujo e o musico paraibano Rangel Junior, além de várias outras parcerias.
Alexandre Lucas - Quem é Lifanco?

Lifanco - Uma pessoa do bem

Alexandre Lucas - Quando teve inicio seu trabalho artístico?

Lifanco - Como musico aprendiz em 74, tempos de rock´s, baladas e leves blues que falavam de paz e de amor...que tempo !!!!

Anos 80 comecei a tocar em bandas, só a partir de 98 comecei a compor e cantar minhas vivências e também imaginações, pois ninguém é de ferro, né?!

Alexandre Lucas - Quais as influências do seu trabalho?

Lifanco - Todas!! Ainda hoje tenho influências... Desde que passem pelo crivo critico da minha capacidade de sentir.

Alexandre Lucas - O que é música para você?

Lifanco - Tudo !!! A musica tem o poder tipo: moldar pensamentos e atitudes, por isso o cuidado meu e de outros artistas na qualidade do que faz !!

Exemplos ??!! Temos de sobra estão ai no ``mêi do mundo´´ o que se esta criando em termos de comportamentos tendo como meio divulgador a musica ??!! É brincadeira!!
Os que podem fazer alguma coisa preferem ficar em suas casas e mansões com os seus, ouvindo e assistindo o que acham melhor. Ao resto? Resta a pergunta : Será ?!!

Alexandre Lucas - Você tem composições em parcerias com vários artistas. Fale dessas parcerias.

Lifanco - Ressumo numa pequena frase : É o que sustenta a vida e me dar a alegria de vivê-la.

Alexandre Lucas - Você tem composições engajadas?

Lifanco - Sim, divulgadas ? Esta perto(espero).

Alexandre Lucas - O seu novo trabalho será uma coletânea dessas musicas engajadas?

Lifanco - Com certeza !! Aguardo paciente o que falta, não depende mais só de mim.

Alexandre Lucas - Como você analisa o cenário musical do Cariri?

Lifanco - Sobre apresentações musicais com os nossos artistas não sei se posso analisar, até porque saio muito pouco, se esta acontecendo alguma coisa, falta divulgação.

Alexandre Lucas - Qual a sua relação com a brincadeira do Reisado?

Iiihhh !!! A mais prazerosa e descontraída possível !! A gente vira criança! É um outro mundo !!

Fundamos o ``Reisado Nação Cariri´´ gravamos 02 cd´s que considero uma das coisas mais importantes na minha historia. Mas.... (tem sempre esse mas, né?) Por força da falta de força tivemos que parar.

Alexandre Lucas - Como você ver a participação dos músicos e interpretes do Cariri nos grandes eventos da Região?

Lifanco - Relação intima nenhuma rsrsrsrsr, temos eventos promovidos com outras intenções.

O trabalho dos nossos artistas deve ter uma boa estrutura financeira e estética pra poder ser mostrado aos que nos visitam, ficamos com um espaço quase que vergonhoso em expocratos, expoafres, berros e etc... Os artistas da região foram os pioneiros, hoje não são nem chamados, mesmo que seja pra se submeterem a uma seleção... Também pudera !! Então é isso (os artistas que falo são os que estão engajados num bem comum, que fazem um trabalho consciente, musical e poético) os que estão na midia (nada contra) não passam por esse tipo de coisa.

Valeu !! E viva a nossa guerrilha, o nosso coletivo camaradas, a Mostra Sesc de teatro, o nosso festival cariri da canção, a mostra sesc de musica, nossas terreiradas com seus mestres e mestras, nossos compositore(a)s, atore(a)s,poetas, poetisas e cantores e viva nossa cultura viva e pulsante nas veias dos pensantes e atuantes caririzeiros.

Alexandre Lucas - Quais são os seus próximos trabalhos?

Lifanco - Compor sempre que sentir ser necessário e gravar quando for possível.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Algumas noites da Bahia - Emerson Monteiro

Havia sempre o que agitar nas noites de Salvador, no tempo em que lá vivi e posso contar, anos da década de 70. Eram ocasiões plenas dos chamamentos de uma cidade maior e cheia das diversões e alternativas mais diversas. Visitei pessoas, lugares; assisti a espetáculos teatrais, musicais, folclóricos; percorri festas de largo, exposições artísticas, palestras, festivais de música, cursos, museus, filmes, gama de permanentes novidades inesgotáveis. Em movimentos contínuos, sobremodo aos finais de semana, jamais reclamaria de rotina ou monotonia, caso avaliasse o período, considerando, no entanto, a saudade que mexia comigo, por dentro, na ausência que sentia de minha família, dos amigos caririenses e das belezas que aqui deixara, o que marcava as lembranças, quisesse ou não. Agora isso acontece no sentido contrário, ao rever pela memória aqueles tempos de tantas presenças marcantes e alegres, súbito deixadas para trás no turbilhão das circunstâncias, ao regressar e aqui permanecer.
Enumerar os principais argumentos das histórias passadas chega como instrumento de analisar algumas delas. Uma noite, no Teatro Castro Alves, por exemplo, assisti ao Balé da China, mostra de música e dança que, de tão longe, veio ao Brasil com grupo formado por mais de 200 figurantes, festa de cores e movimentos que preservo nos arquivos das maiores emoções. Enormes figuras mitológicas chinesas e evoluções impressionantes envolveram a platéia entusiasmada, numa apresentação sem termos comparativos.
Por volta dessa mesma oportunidade, chegaria também o Balé do Senegal, que utilizou as dependências do ginásio de esportes Antônio Balbino, trazendo danças típicas africanas, executadas por centenas de homens e mulheres, em trajes, ritmos autênticos e quadros sucessivos, superlotando e sacudindo o público feliz, turnê que viajaria o mundo inteiro naquela ocasião.
Outras dessas gratas reminiscências ficam por conta de peças e shows musicais montados no Teatro Vila Velha, sempre palco de apreciados eventos, onde se encontravam os amigos e conhecidos da época, pessoas que se relacionavam através dos interesses artísticos e culturais, quando pude admirar grandes valores da nossa música popular, quais Milton Nascimento, Gal Costa, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Maria Bethânia, Ivan Lins, Jorge Mautner, Gonzaguinha, dentre outros.
Visto gostar de cinema, usufrui ao máximo as chances de ver filmes raros, no Cine Clube da Bahia, no Instituto Brasil - Alemanha e no circuito comercial, comparecendo a exibições, festivais e seminários.
Então, nestas pinceladas rápidas, quis resumir a rica gama do que experimentei de um turno baiano e suas situações, o que preservo com afeto no íntimo depósito da memória, resultado de caminhadas vividas, e bem vividas, da existência.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Como ficou a região metropolitana do Cariri? José do Vale Pinheiro Feitosa

Refletindo sobre este blog, com o Agora que traduza o Cariri, lembrei-me de um tema um tanto esquecido. O quê aconteceu de prático e legal para os poderes municipais com a criação da chamada região metropolitana?

Parte da minha pergunta se deve à ignorância, pois tenho acessado muito pouco o noticiário regional. Mas de qualquer forma, até mesmo se existem enganchos com lei, uma curiosidade no rodeia com esta questão. Não é uma questão banal e terá muita repercussão no futuro. Especialmente para o planejamento das verbas estaduais e federais.

Se há algo em dependência no imbróglio das disputas regionais, isso é importante para sabermos localizar melhor. Lembro muito bem de uma questão e ao lembrar gostaria de esclarecer algo a meu respeito.

Sou funcionário federal e trabalhei em muitos governos, desde Figueiredo até o governo Lula. Inclusive com FHC. Nunca fui ligado, politicamente, a FHC e embora ocupando função, não foi por acordo político, mas pela questão técnica que felizmente sempre existiu no Estado brasileiro, apesar de tanto arranjo que é feito. Esclareço isso pois um mau entendido estimulou que fosse um dos quadros no tempo do governo dele.

Mas o motivo do aproveitamento é que isso guarda uma relação. Quando Violeta Arraes era reitora, estive envolvido naquele projeto federal sobre a APA do Araripe. Esclareço, muito mais com opiniões e participando de algumas reuniões. Na verdade o trabalho já estava quase definido quando me aproximei do assunto.

Então, vou ao Crato e junto com uma grande comitiva da região, fomos até o Clube Serrano para um ato de assinatura do Decreto, com a presença de FHC e Tasso Jereissati. Na ocasião surgiu um destes imbróglios que interrompem as coisas.

Algumas lideranças regionais não gostaram do conteúdo do decreto e entendiam que a preservação prejudicaria o desenvolvimento de alguns municípios. Isso levou um tempo longo de vai e vem e foi uma grande decepção para todos. O presidente da República na região para assinar um decreto que era questionado. Inclusive por autoridades do governo estadual, incluindo Tasso. Olhem que, compreensivamente, o Estado de Pernambuco e Piauí, também atingidos pelo decretos não apresentaram queixas. Só o Cariri e o Ceará.

Compreensivo, pois a parte mais dinâmica da APA é esta. A mesma região que estaria sob o projeto de criação da região metropolitana. Se alguém tiver disposição para levantar o assunto estará fazendo um bom debate.

TEATRO NO CRATO: O HÓSPEDE

PROGRAMA GUERRILHA EM MOVIMENTO
APRESENTA


SINOPSE

Uma família desestruturada a partir da chegada de um hóspede, “o Garanhão”, em sua casa, em suas vidas e “em suas camas”, trazendo à tona desejos e sentimentos outrora guardados e hoje revelados, enfim “chutaram o balde”. Albânia a matriarca, é o sinônimo de preconceito, arrogância e hipocrisia, “uma recalcada, isso sim!”, tentando com isso comandar a vida de todos e, não vendo seu autoritarismo surtir efeito, entra em total desajuste emocional, “uma surtada”. É aí que se dá o desenrolar da trama. Amores não correspondidos, desejos aflorados, morte, descoberta, libertação... Tudo isso está reunido em “O Hóspede”.

É HOJE

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

ENCONTRO DE GUERRILHEIROS DAS ARTES

ÚLTIMAS NOTÍCIAS - Prefeito Samuel Araripe consegue 4 milhões de reais para as obras emergenciais do Canal do Rio Grangeiro


ATENÇÃO - A notícia que todos os Cratenses aguardavam!


O prefeito Samuel Araripe informa que acaba de conseguir com o ministro da integração nacional, Fernando Bezerra Coelho, recursos para a recuperação emergencial do canal do Rio Grangeiro. O valor já foi creditado na conta da Prefeitura do Crato no início da noite de ontem , quinta-feira ( 17 ). O prefeito Samuel Araripe frisa que o Crato trabalha pela liberação de duas verbas federais distintas: a emergencial, que é da órdem de 4 milhões de reais, que servirá para atender às situações mais urgentes do município, e outra verba maior, para a reconstrução do canal do Rio Grangeiro através de um novo projeto.

O prefeito do Crato ressalta a intermediação do deputado Federal Arnon Bezerra, que esteve também na reunião realizada na semana passada com o ministro da integração nacional em Brasília, a fim de solicitar a liberação desses recursos federais hoje conseguidos.

Por: Dihelson Mendonça

Cortando o cordão – Por Carlos Eduardo Esmeraldo

O acaso sempre esteve presente na minha vida. Sem que eu planejasse muita coisa, como muitos o fazem, deixei que a vida me levasse e, ela me conduziu por caminhos retilíneos e belos. Em janeiro de 1964, eu pensava que iria continuar estudando no Crato, na minha zona de conforto, sob a proteção dos meus pais, entre meus familiares e colegas de estudos, uma turma unida e muito amiga. Dizem que o destino sabe traçar a estrada daqueles que sem querer, a ele se entregam. Talvez tenha sido esse o meu caso.

Um primo que estudava engenharia no Recife, estava de férias e visitava nossa casa, no São José. Ao vê-lo, fui conversar com ele, saber como era o curso de engenharia, suas dificuldades e sobre o vestibular. Sabedor de que eu desejava cursar engenharia, ele me aconselhou a ir estudar no Recife durante o curso científico. Disse-me que se eu ficasse no Crato, correria o risco de não ser aprovado no vestibular. Respondi que não dependia de mim. E então ele foi falar com o meu pai. E o fez de uma forma tão convincente, que eu senti naquele contato a concordância do meu pai. Mas este não disse nem sim e nem não. Para mim dizia ser impossível, pois não estava podendo arcar com as despesas.

Dias depois, um parente do meu pai, diretor da Escola de Engenharia de Minas de Ouro Preto, visitava meus pais, sempre que vinha ao Crato em suas férias. Ao saber do meu desejo de cursar engenharia, aconselhou-me que eu fosse estudar em Ouro Preto, colocando sua casa à minha disposição. Fiquei receoso de meu pai aceitar aquele convite protocolar, pois além de não ter nenhuma intimidade com aquele parente distante, Ouro Preto, para mim, era um fim de mundo.

No inicio do mês de fevereiro daquele ano, nada estava definido. Pensava tranquilamente que iria continuar no velho Colégio Diocesano e isso me dava certo alento, pois por ser o filho caçula, eu era muito apegado aos meus pais e irmãos. Entretanto, dias depois, o meu pai recebeu uma carta de uma irmã dele, a tia Anete, que residia em Salvador, dizendo que já reservara a minha matrícula e que eu poderia ir estudar na Bahia. Olhei no sobrescrito o meu futuro endereço: Avenida Beira Mar 404. Na minha imaginação surgiu, como que de repente, a avenida de mesmo nome que eu vira em Fortaleza na única visita que fizera até então a uma cidade maior que o Crato, além do Juazeiro, é claro! E imaginava que iria viver num paraíso. Fiquei ainda mais contente, quando soube que o meu primo e companheiro de brincadeiras, José Esmeraldo Gonçalves também iria.

Tudo então ficou decidido e às pressas, mamãe preparou um enxoval que fez minhas lembranças recuarem cinco anos, quando fui estudar no Seminário. Um medo disfarçado se apoderou de mim. Era a primeira vez que iria sair do Crato e debaixo das asas e da proteção dos meus entes queridos.

Um novo mundo se descortinava à minha frente, o desconhecido, a sensação de uma nova vida. Viajar de avião, coisa impensada, conhecer a cidade de Salvador e suas inúmeras igrejas e tantas outras belezas das quais ouvia falar com insistência.

Viajei com meus primos que lá já estudavam e residiam com minha tia Anete. Por causa de um defeito no DC3 que nos levaria, esperamos um dia inteiro no velho Aeroporto de Fátima, sem nada para enganar o estômago e sem comunicação. Somente no dia seguinte é que conseguimos voar num DC6 que veio em substituição ao avião danificado. O DC6 era um avião grande, com assentos com três cadeiras de cada lado e capacidade para mais de cem passageiros. Ao chegarmos a Salvador, uma Kombi da Varig levou os passageiros de porta em porta até a residência de cada um. O aeroporto distava mais de trinta quilômetros da cidade. Fomos os últimos a chegar ao destino, pois onde tia Anete morava era na Ribeira, final de uma península na cidade baixa.

Senti um misto de arrependimento e tristeza. A Avenida Beira Mar não era nada daquilo que eu imaginara. Era uma rua larga, às margens da Baia de Todos os Santos, sem calçamento, cheia de poças d’água, muita lama e enormes amendoeiras no meio, cujas folhas caídas se misturavam e recobriam as poças de lama. O bairro era triste, composto por um monte de casas velhas. Onde íamos morar era numa escola, o Educandário Pio XII, alojado num velho casarão de três andares, com piso de tábua corrida, que ecoava sob nossos passos. No terceiro andar havia um pequeno apartamento composto de três quartos, um banheiro, um vestíbulo com guarda-roupa coletivo e uma ante-sala ao lado da escada, onde estudávamos. Ao todo éramos seis pessoas que morávamos neste pequeno apartamento, eu, e os primos João Barreto, José Esmeraldo, Luciano Gonçalves, além do cratense Dailton, professor do Pio XII e dois jovens de Alagoinhas: Wedner e Ananias. Daílton era o mais velho do grupo. Ele tinha na época 26 anos, e por causa disso recebeu o apelido de “O Velho”.

A tia Anete ao nos receber, entregou a mim a Zé Esmeraldo uma chave da porta de entrada e nos disse: “vocês saem e entram na hora que quiserem e não precisam me avisar nada.” Senti um enorme peso, pois lá em casa, eu vivia sob certo controle e acompanhamento. Mas aos poucos aprendi a usar minha independência e isto me foi de grande importância para meu amadurecimento pessoal.

Ainda hoje, eu sou grato a essa minha querida tia por ter tornado possível a realização de um sonho. Se não fosse sua solicitude não teria oportunidade de estudar num grande centro. Por isso eu tenho por ela um enorme carinho e gratidão. Ela é a única das minhas tias ainda viva. Reside no Crato, com bastante lucidez e invejável memória, aos oitenta e nove anos. Em julho próximo, esperamos festejar seus 90 anos.

Por Carlos Eduardo Esmeraldo

Roberto Siebra - O ajudante de pedreiro que se fez doutor

Filho de merendeira e marceneiro, Roberto Siebra tem uma história de vida que orgulha os filhos da classe do proletariado deste país. Quando menino vendeu pão picolé, inventou de ser engraxate, já adulto foi ajudante de pedreiro e atualmente é professor doutor da Universidade Regional do Cariri – URCA. Siebra foi perseguido na sua juventude por causa da sua militância política e é uma das figuras históricas do Partido Comunista do Brasil na Região do Cariri por ter ajudado a construir o partido no período da semi-cladestinidade.

Alexandre Lucas - Quem é Roberto Siebra?

Roberto Siebra - Um rapaz nascido e criado no bairro do Seminário, no município do Crato, tendo uma bela vista do Sopé da Chapada do Araripe, filho de uma merendeira de escola pública e de um marceneiro, casal que criou seus 4 filhos de forma honesta e ética, ensinamentos estes que até os dias atuais tomo como guia nas ações que pratico no cotidiano.


Alexandre Lucas - Como teve início o seu contato com o Partido Comunista do Brasil – PCdoB?

Roberto Siebra - O meu contato foi no inicio da década de 80, quando na oportunidade participava dos movimentos de juventude existentes no nosso município. Naquele período o Brasil vivia os dias finais da ditadura militar, com grandes manifestações da sociedade civil e política participando de milhares de movimentos pela liberdade e pela democracia. Foi em um destes momentos que conheci o PCdoB, ainda na clandestinidade.

Alexandre Lucas - Você teve um trabalho importante na construção do PCdoB na região do Cariri, no tempo em que o partido ainda vivia na clandestinidade. O que foi ser comunista neste tempo?

Roberto Siebra - Lembro bem que neste período éramos obrigados a termos nomes falsos, o meu era Mauricio, e as reuniões eram feitas obedecendo a várias regras de segurança, entre as quais, a de nunca exceder o numero de três pessoas, não fazer anotações, não se reunir sempre no mesmo lugar, etc.

Foi um período muito difícil para mim, então com 17 anos, que tive que trocar vários prazeres da juventude, pela prática política semi-clandestina. Significou por um bom tempo ter que mentir para família (Ex. varias vezes tinha reunião em Fortaleza e ai dizia que íamos para um encontro religioso, uma viagem de ferias, etc.)

Significou também enfrentar um grande preconceito de pessoas e instituições, e como exemplo lembro um episodio que mim marcou profundamente, a solicitação, na época de pessoas da Igreja Católica exigindo que retirasse do movimento de juventude, pois isto podia prejudicá-lo, etc.

Outro exemplo marcante foi a minha expulsão do Colégio Agrícola do Crato, depois de ter sido arrombado o meu armário e retirado alguns pertences, entre os quais alguns documentos tidos como subversivos. Mas, nada disto nos tirava a certeza de que o novo sempre vem, como diz o poeta Belchior. E, poucos anos depois, pudemos comprovar isto na prática com o fim da ditadura militar e o retorno a um país democrático.

E como as coisas mudaram, sinto feliz em ter dado esta contribuição. Esta é a melhor coisa que tenho, é o meu bem mais precioso, que deixo aos meus filhos, meus netos e próximos da minha geração. Dizer-lhes e provar-lhes que ajudei a construir um país livre da opressão e da miséria, tarefa que ainda continuo até hoje e pretendo levar até os dias finais de vida.

Alexandre Lucas – Quais eram os desafios?

Roberto Siebra - O grande desafio da época era combinar o trabalho semi-clandestino com o trabalho legal, mas o grande trabalho era organizar o combate a Ditadura Militar, daí tínhamos uma grande participação no movimento secundarista e de bairros.

Alexandre Lucas – Você vem da classe operária e teve uma vida sem facilidades. Antes de receber a titulação de doutor foi servente da
construção civil.

Roberto Siebra - Desde cedo aprendemos a lição reservada aos filhos das classes pobres – TRABALHAR. Comecei vendendo pão, depois picolés e até, sem muito sucesso tentando ser engraxate. Depois fui contratado por uma construtora para trabalhar nas casas populares, inicialmente como servente e depois, por conta de algumas facilidades, ascendi para apontador. Infelizmente esta carreira na construção civil durou pouco, pois ao descobri que tinha uma militância política e na obra estava tentando sindicalizar alguns funcionários, fui demitido.
Consegui emprego junto aos trabalhadores em transportes rodoviários, passando a atuar especificamente no sindicato dos trabalhadores desta categoria por um longo tempo, e ao sair fui ser Agente de Saúde no Crato, sendo posteriormente conduzido ao Sindicato Estadual dos Empregados em Estabelecimentos de Serviços de Saúde.

No decorrer da minha vida sempre mim virei para conseguir trabalho, mas o que é fundamental que nunca larguei os estudos. Mesmo tendo que trabalhar, conclui a minha graduação em História na Faculdade de Filosofia e fiz duas especializações na UECE, o que mim qualificou a trabalhar inicialmente na URCA como professor colaborador sendo contratado como professor efetivo, em decorrência de ter passado no primeiro concurso publico promovido por esta instituição. Foi uma das maiores alegrias da minha vida e da minha família.

Dentro da universidade, e com muita dificuldade lutei para conseguir galgar a patamares maiores. Afirmo com orgulho que eu sou um destes casos excepcionais numa sociedade como a nossa que reservou os melhores lugares sociais, políticos e econômicos, para as classes dominantes e abastardas. Imaginar que uma pessoa que teve a minha origem e história chegar a um dos maiores títulos acadêmicos em uma universidade brasileira – SER DOUTOR.

Alexandre Lucas – Essa sua trajetória é marcada por momentos difíceis?

Roberto Siebra - É verdade, aminha vida não foi nem é fácil. O importante nisto tudo é como enfrentamos e resolvemos estas dificuldades e tomei a decisão de enfrentá-las através de muito trabalho, de ser sincero, honesto e ético. Principalmente de nunca esquecer minha origem e em especial o esforço que o meu pai e mãe (Cristovão e Altina) fizeram para chegar aonde cheguei. Sem meus genitores, não estaria onde estou hoje e a eles dedico todas estas conquistas.

A esta trajetória gostaria de tirar uma lição aprendida na prática, por mais difícil que seja a vida, podemos conseguir sair vitorioso, mas isto significar ir a luta e não só ficar em casa se lamentando ou criticando os outros. Eu sou a prova viva disto.

Alexandre Lucas – Antes você ajudava a construir prédios e hoje ajudar a construir consciências?

Roberto Siebra - Esta é maior tarefa que existe e que enfrento. Construir consciências é um prédio muito difícil de levantar, até porque nunca estará concluso, sempre terá um andar para subir, o que exige um cotidiano de práticas e compromissos. Na construção das consciências existem dois fatores importantes, de caráter objetivo e subjetivo. O primeiro está relacionado como a pratica da educação formal e informal e o fator subjetivo engloba outras situações, muito difíceis de enfrentar numa sociedade onde o valor supremo é o dinheiro e o poder material, em detrimentos de outros valores éticos e morais transformados em moeda de troca no mercado de ações capitalistas.

Construir consciência significa construir um novo mundo calcado em valores supremos de dignidade e respeito aos valores fundamentais dos seres humanos. Significa em primeiro lugar acabar com a fome a miséria da maioria de nossa população.

Alexandre Lucas – O que significa a educação para você?

Roberto Siebra - Um passo importante, mas não o único, para iniciarmos o processo da construção de nossas consciências, um aliado fundamental para darmos dignidade a pessoa humana, e um instrumento valiosos na construção de uma ova sociedade. Não podemos prescindir do papel da educação como essencial no processo de produção e transformação das riquezas materiais, ou melhor dizendo, alavanca fundamental no avanço das forças produtivas e conseqüente mudança das relações sociais.

Alexandre Lucas – Existe uma crença de que a educação fará a revolução. Você acredita nisso?

Roberto Siebra - Não acredito que educação faça revolução até porque se isto fosse verdade os professores seriam agentes altamente revolucionários e aqueles que tem mestrado e/ou doutorado seriam seus lideres. E a realidade é bem diferente, pois a história mostra que este segmento nunca foi capaz de avançar ou liderar processos revolucionários significativos, ficando sua participação política restrita a lutas especificas, como melhoria salarial, etc.

É bem verdade que a educação formal pode ser um componente importante no processo de transformações de uma sociedade, mas se isto for acompanhado de um processo de conscientização política que ocorra em outras arenas da vida.

Alexandre Lucas – Qual o seu papel enquanto professor?

Roberto Siebra - O mesmo que tinha quando estava na fabrica, contribuir para a construção de um mundo melhor. Não mudou nada o fato de ser professor no que diz respeito ao meu papel, só o terreno da prática, pois é mais difícil ser professor universitário do que ser operário. O palco é diferenciado com grande predominância da vaidade e da falta de humildade, fatores que impedem que vejamos as outras categorias como parceiras e que exercem um papel fundamental na construção de uma nova realidade


Alexandre Lucas – O índice de analfabetismo em Cuba é baixíssimo. Quando você esteve em Cuba pode perceber diferenças no sistema educacional brasileiro?

Roberto Siebra - Tenho viajado muito, Europa, América Central e mais recentemente vários países da América Latina e isto mim fez ter muito cuidado na hora de fazer avaliações sobre as realidades especificas de cada país. São contextos históricos, sociais e políticos completamente diferentes dos nossos e temos que levar isto em consideração sob pena de cometermos erros de avaliação.

O caso cubano é mais complicado porque temos que levarmos em consideração um fator importante na construção histórica deste país, refiro-me a tentativa deste povo construir uma nova sociedade diferente daquela que estamos acostumados e que tem como base a mercantilização das relações. Isto é diferente e vai de encontro a falsa realidade que permeia a maioria da humanidade construída principalmente pelas classes dominantes dos grandes países imperialistas modernos, especialmente os Estados Unidos.

Não precisamos aqui fazemos nenhuma apologia a realidade cubana, pois os dados estatísticos referentes a conquistas sociais, nos quais está inserido a educação, são provas cientificas da vitalidade do sistema e dos grandes avanços conseguidos por este povo. É bem verdade que existem grandes problemas a serem enfrentados e vencidos e isto tem sido uma pratica cotidiana deste povo.

Alexandre Lucas - O seu doutorado é em Sociologia e sua tese tem como título: Os subterrâneos do poder: corrupção e instituições de controle no Estado do Ceará. O que você pode concluir a partir desta pesquisa?

Roberto Siebra - São varias as conclusões, mas especialmente, no que se diz respeito a corrupção podemos afirmar que é um fenômeno histórico, datado e não natural como afirma o senso comum. Isto significa dizer que esta pratica política, assim como teve inicio pode ter fim.

A corrupção é uma prática política de poder relacionada às elites dominantes que sempre a usaram como forma de manter os seus privilégios, motivo pela qual persistem nas instituições governamentais.

Outro fator importante diz respeito a relação entre corrupção e democracia, na medida em que esta ultima pode ser um antídoto poderoso para combater esta pratica ilícita.

Alexandre Lucas – No final do ano passado você vez uma aventura pela America Latina que lembra o revolucionário Ernesto Che Guevara. Como foi essa experiência em conhecer os países vizinhos como mochileiro?

Roberto Siebra - Estive recentemente na Bolívia, Peru, Chile e Argentina, conhecendo estes lugares, seu povo e historia de uma forma que lembra Guevara.Mas apesar de ter adotado a mesma forma de conhecimento, isto é, usar meios alternativos para esta aventura, nunca tive a presunção de imitar o comandante, até porque isto seria impossível, por vários motivos. Foi uma viagem de conhecimento, já que tive acesso a povos, culturas e costumes em tempo real, sem intermediários, vivenciando o cotidiano de nossos irmãos latino americanos. Isto é fundamental para o aprendizado de um cientista social de profissão e de coração que acredita que a busca do conhecimento tem que ter dois pilares inseparáveis: a teoria e a prática.

Todo este roteiro foi feito a pé, de bicicleta e de ônibus, seguindo um projeto que foi pensado por cerca de 10 meses e que foi finalmente concretizado, com todos os percalços que uma empreitada desta pode oferecer, inclusive risco de vida. Certamente foi uma das maiores aventuras de minha vida e mim impulsionou a transformá-la numa rotina a ponto de esta já planejando uma próxima

Roberto Siebra - O ajudante de pedreiro que se fez doutor

Filho de merendeira e marceneiro, Roberto Siebra tem uma história de vida que orgulha os filhos da classe do proletariado deste país. Quando menino vendeu pão picolé, inventou de ser engraxate, já adulto foi ajudante de pedreiro e atualmente é professor doutor da Universidade Regional do Cariri – URCA. Siebra foi perseguido na sua juventude por causa da sua militância política e é uma das figuras históricas do Partido Comunista do Brasil na Região do Cariri por ter ajudado a construir o partido no período da semi-cladestinidade.

Alexandre Lucas - Quem é Roberto Siebra?

Roberto Siebra - Um rapaz nascido e criado no bairro do Seminário, no município do Crato, tendo uma bela vista do Sopé da Chapada do Araripe, filho de uma merendeira de escola pública e de um marceneiro, casal que criou seus 4 filhos de forma honesta e ética, ensinamentos estes que até os dias atuais tomo como guia nas ações que pratico no cotidiano.


Alexandre Lucas - Como teve início o seu contato com o Partido Comunista do Brasil – PCdoB?

Roberto Siebra - O meu contato foi no inicio da década de 80, quando na oportunidade participava dos movimentos de juventude existentes no nosso município. Naquele período o Brasil vivia os dias finais da ditadura militar, com grandes manifestações da sociedade civil e política participando de milhares de movimentos pela liberdade e pela democracia. Foi em um destes momentos que conheci o PCdoB, ainda na clandestinidade.

Alexandre Lucas - Você teve um trabalho importante na construção do PCdoB na região do Cariri, no tempo em que o partido ainda vivia na clandestinidade. O que foi ser comunista neste tempo?

Roberto Siebra - Lembro bem que neste período éramos obrigados a termos nomes falsos, o meu era Mauricio, e as reuniões eram feitas obedecendo a várias regras de segurança, entre as quais, a de nunca exceder o numero de três pessoas, não fazer anotações, não se reunir sempre no mesmo lugar, etc.

Foi um período muito difícil para mim, então com 17 anos, que tive que trocar vários prazeres da juventude, pela prática política semi-clandestina. Significou por um bom tempo ter que mentir para família (Ex. varias vezes tinha reunião em Fortaleza e ai dizia que íamos para um encontro religioso, uma viagem de ferias, etc.)

Significou também enfrentar um grande preconceito de pessoas e instituições, e como exemplo lembro um episodio que mim marcou profundamente, a solicitação, na época de pessoas da Igreja Católica exigindo que retirasse do movimento de juventude, pois isto podia prejudicá-lo, etc.

Outro exemplo marcante foi a minha expulsão do Colégio Agrícola do Crato, depois de ter sido arrombado o meu armário e retirado alguns pertences, entre os quais alguns documentos tidos como subversivos. Mas, nada disto nos tirava a certeza de que o novo sempre vem, como diz o poeta Belchior. E, poucos anos depois, pudemos comprovar isto na prática com o fim da ditadura militar e o retorno a um país democrático.

E como as coisas mudaram, sinto feliz em ter dado esta contribuição. Esta é a melhor coisa que tenho, é o meu bem mais precioso, que deixo aos meus filhos, meus netos e próximos da minha geração. Dizer-lhes e provar-lhes que ajudei a construir um país livre da opressão e da miséria, tarefa que ainda continuo até hoje e pretendo levar até os dias finais de vida.

Alexandre Lucas – Quais eram os desafios?

Roberto Siebra - O grande desafio da época era combinar o trabalho semi-clandestino com o trabalho legal, mas o grande trabalho era organizar o combate a Ditadura Militar, daí tínhamos uma grande participação no movimento secundarista e de bairros.

Alexandre Lucas – Você vem da classe operária e teve uma vida sem facilidades. Antes de receber a titulação de doutor foi servente da
construção civil.

Roberto Siebra - Desde cedo aprendemos a lição reservada aos filhos das classes pobres – TRABALHAR. Comecei vendendo pão, depois picolés e até, sem muito sucesso tentando ser engraxate. Depois fui contratado por uma construtora para trabalhar nas casas populares, inicialmente como servente e depois, por conta de algumas facilidades, ascendi para apontador. Infelizmente esta carreira na construção civil durou pouco, pois ao descobri que tinha uma militância política e na obra estava tentando sindicalizar alguns funcionários, fui demitido.
Consegui emprego junto aos trabalhadores em transportes rodoviários, passando a atuar especificamente no sindicato dos trabalhadores desta categoria por um longo tempo, e ao sair fui ser Agente de Saúde no Crato, sendo posteriormente conduzido ao Sindicato Estadual dos Empregados em Estabelecimentos de Serviços de Saúde.

No decorrer da minha vida sempre mim virei para conseguir trabalho, mas o que é fundamental que nunca larguei os estudos. Mesmo tendo que trabalhar, conclui a minha graduação em História na Faculdade de Filosofia e fiz duas especializações na UECE, o que mim qualificou a trabalhar inicialmente na URCA como professor colaborador sendo contratado como professor efetivo, em decorrência de ter passado no primeiro concurso publico promovido por esta instituição. Foi uma das maiores alegrias da minha vida e da minha família.

Dentro da universidade, e com muita dificuldade lutei para conseguir galgar a patamares maiores. Afirmo com orgulho que eu sou um destes casos excepcionais numa sociedade como a nossa que reservou os melhores lugares sociais, políticos e econômicos, para as classes dominantes e abastardas. Imaginar que uma pessoa que teve a minha origem e história chegar a um dos maiores títulos acadêmicos em uma universidade brasileira – SER DOUTOR.

Alexandre Lucas – Essa sua trajetória é marcada por momentos difíceis?

Roberto Siebra - É verdade, aminha vida não foi nem é fácil. O importante nisto tudo é como enfrentamos e resolvemos estas dificuldades e tomei a decisão de enfrentá-las através de muito trabalho, de ser sincero, honesto e ético. Principalmente de nunca esquecer minha origem e em especial o esforço que o meu pai e mãe (Cristovão e Altina) fizeram para chegar aonde cheguei. Sem meus genitores, não estaria onde estou hoje e a eles dedico todas estas conquistas.

A esta trajetória gostaria de tirar uma lição aprendida na prática, por mais difícil que seja a vida, podemos conseguir sair vitorioso, mas isto significar ir a luta e não só ficar em casa se lamentando ou criticando os outros. Eu sou a prova viva disto.

Alexandre Lucas – Antes você ajudava a construir prédios e hoje ajudar a construir consciências?

Roberto Siebra - Esta é maior tarefa que existe e que enfrento. Construir consciências é um prédio muito difícil de levantar, até porque nunca estará concluso, sempre terá um andar para subir, o que exige um cotidiano de práticas e compromissos. Na construção das consciências existem dois fatores importantes, de caráter objetivo e subjetivo. O primeiro está relacionado como a pratica da educação formal e informal e o fator subjetivo engloba outras situações, muito difíceis de enfrentar numa sociedade onde o valor supremo é o dinheiro e o poder material, em detrimentos de outros valores éticos e morais transformados em moeda de troca no mercado de ações capitalistas.

Construir consciência significa construir um novo mundo calcado em valores supremos de dignidade e respeito aos valores fundamentais dos seres humanos. Significa em primeiro lugar acabar com a fome a miséria da maioria de nossa população.

Alexandre Lucas – O que significa a educação para você?

Roberto Siebra - Um passo importante, mas não o único, para iniciarmos o processo da construção de nossas consciências, um aliado fundamental para darmos dignidade a pessoa humana, e um instrumento valiosos na construção de uma ova sociedade. Não podemos prescindir do papel da educação como essencial no processo de produção e transformação das riquezas materiais, ou melhor dizendo, alavanca fundamental no avanço das forças produtivas e conseqüente mudança das relações sociais.

Alexandre Lucas – Existe uma crença de que a educação fará a revolução. Você acredita nisso?

Roberto Siebra - Não acredito que educação faça revolução até porque se isto fosse verdade os professores seriam agentes altamente revolucionários e aqueles que tem mestrado e/ou doutorado seriam seus lideres. E a realidade é bem diferente, pois a história mostra que este segmento nunca foi capaz de avançar ou liderar processos revolucionários significativos, ficando sua participação política restrita a lutas especificas, como melhoria salarial, etc.

É bem verdade que a educação formal pode ser um componente importante no processo de transformações de uma sociedade, mas se isto for acompanhado de um processo de conscientização política que ocorra em outras arenas da vida.

Alexandre Lucas – Qual o seu papel enquanto professor?

Roberto Siebra - O mesmo que tinha quando estava na fabrica, contribuir para a construção de um mundo melhor. Não mudou nada o fato de ser professor no que diz respeito ao meu papel, só o terreno da prática, pois é mais difícil ser professor universitário do que ser operário. O palco é diferenciado com grande predominância da vaidade e da falta de humildade, fatores que impedem que vejamos as outras categorias como parceiras e que exercem um papel fundamental na construção de uma nova realidade


Alexandre Lucas – O índice de analfabetismo em Cuba é baixíssimo. Quando você esteve em Cuba pode perceber diferenças no sistema educacional brasileiro?

Roberto Siebra - Tenho viajado muito, Europa, América Central e mais recentemente vários países da América Latina e isto mim fez ter muito cuidado na hora de fazer avaliações sobre as realidades especificas de cada país. São contextos históricos, sociais e políticos completamente diferentes dos nossos e temos que levar isto em consideração sob pena de cometermos erros de avaliação.

O caso cubano é mais complicado porque temos que levarmos em consideração um fator importante na construção histórica deste país, refiro-me a tentativa deste povo construir uma nova sociedade diferente daquela que estamos acostumados e que tem como base a mercantilização das relações. Isto é diferente e vai de encontro a falsa realidade que permeia a maioria da humanidade construída principalmente pelas classes dominantes dos grandes países imperialistas modernos, especialmente os Estados Unidos.

Não precisamos aqui fazemos nenhuma apologia a realidade cubana, pois os dados estatísticos referentes a conquistas sociais, nos quais está inserido a educação, são provas cientificas da vitalidade do sistema e dos grandes avanços conseguidos por este povo. É bem verdade que existem grandes problemas a serem enfrentados e vencidos e isto tem sido uma pratica cotidiana deste povo.

Alexandre Lucas - O seu doutorado é em Sociologia e sua tese tem como título: Os subterrâneos do poder: corrupção e instituições de controle no Estado do Ceará. O que você pode concluir a partir desta pesquisa?

Roberto Siebra - São varias as conclusões, mas especialmente, no que se diz respeito a corrupção podemos afirmar que é um fenômeno histórico, datado e não natural como afirma o senso comum. Isto significa dizer que esta pratica política, assim como teve inicio pode ter fim.

A corrupção é uma prática política de poder relacionada às elites dominantes que sempre a usaram como forma de manter os seus privilégios, motivo pela qual persistem nas instituições governamentais.

Outro fator importante diz respeito a relação entre corrupção e democracia, na medida em que esta ultima pode ser um antídoto poderoso para combater esta pratica ilícita.

Alexandre Lucas – No final do ano passado você vez uma aventura pela America Latina que lembra o revolucionário Ernesto Che Guevara. Como foi essa experiência em conhecer os países vizinhos como mochileiro?

Roberto Siebra - Estive recentemente na Bolívia, Peru, Chile e Argentina, conhecendo estes lugares, seu povo e historia de uma forma que lembra Guevara.Mas apesar de ter adotado a mesma forma de conhecimento, isto é, usar meios alternativos para esta aventura, nunca tive a presunção de imitar o comandante, até porque isto seria impossível, por vários motivos. Foi uma viagem de conhecimento, já que tive acesso a povos, culturas e costumes em tempo real, sem intermediários, vivenciando o cotidiano de nossos irmãos latino americanos. Isto é fundamental para o aprendizado de um cientista social de profissão e de coração que acredita que a busca do conhecimento tem que ter dois pilares inseparáveis: a teoria e a prática.

Todo este roteiro foi feito a pé, de bicicleta e de ônibus, seguindo um projeto que foi pensado por cerca de 10 meses e que foi finalmente concretizado, com todos os percalços que uma empreitada desta pode oferecer, inclusive risco de vida. Certamente foi uma das maiores aventuras de minha vida e mim impulsionou a transformá-la numa rotina a ponto de esta já planejando uma próxima

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

O gosto de escrever - Emerson Monteiro

À medida que os hábitos passam a integrar a personalidade, eles se revertem numa segunda natureza, agindo por conta própria, arrastando consigo os impulsos e as disposições pessoais. Isto quanto aos maus ou bons hábitos. Daí quanto difícil largar um vício de qualquer naipe. O aprendizado adota, por isso, tal mecanismo de automação da vontade, nas profissões, nos processos de administração das circunstâncias, ou nas inúmeras e complexas atividades que formam os dias das criaturas humanas. Escrever também pode bem representar desses mecanismos, na prática das rotinas, que as transformam numa segunda natureza.
Por mais frequente a ocupação, e na medida em que cresçam as facilidades nela desenvolvidas, o subconsciente age no segundo plano da atenção, propiciando resultados surpreendentes de aprimorar o método escolhido. Dirigir automóvel, pilotar aeronave, praticar esporte, pedalar, cantar, trabalhar, ler, estudar, escrever, além dos milhares de outros exercícios físicos e mentais, alimentam e planificam os costumes da alma humana, identificando-a no que lhe cabe desenvolver. O que antes parecia sacrifício e exigia dedicação, reverte num prazer sem conta ou tamanho.
A força, por isso, aplicada para desenvolver o hábito traz satisfação até então desconhecida por quem desconhece as reações do organismo, em termos de realização particular.
A título de comparação, faz anos que eu avisto, na estrada do Grangeiro, em Crato, o professor Alberto Teles praticar corrida, dias constantes. Às vezes, sob sol intenso; às vezes, debaixo de chuva. Sozinho, suado, nu da cintura para cima, pés descalços, concentra-se na atividade qual fosse pela primeira vez. Um atleta modelo, toca adiante hábitos esportivos reunidos no tempo em que serviu às forças armadas, na Marinha do Brasil. Depois, ensinou educação física nos colégios cratenses. Para mantê-se em forma, corre alguns quilômetros, todo santo dia, exemplo dos que atendem à evolução do corpo físico, no disciplinamento dos hábitos salutares que adquiriu.
Para mim, escrever condiciona as práticas de frases e períodos na busca do sentido, e preserva a memória da leitura e da existência, coisas que gosto de realizar. Algo que arrasta ao exercício físico ou mental, alimento das alegrias interiores, desejos de levar aos outros a disposição das idéias construtivas e as lembranças mais queridas da minha história pessoal.
Conquanto positivos hábitos, que os vivamos nós. Porém, na adversidade dos chamados vícios, que os substitua, pelo esforço reverso, no contrário da força do hábito, e descubra ocupações benfazejas, a fim de preencher o ranço dos inquilinos antigos com sabores novos e agradáveis.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Equilíbrio ecológico - Emerson Monteiro

Durante bom tempo me imaginei conhecendo a Floresta Amazônia, o que povoava os meus sonhos brasileiros desde que me entendo de gente, do início dos primeiros estudos, digamos assim. Lá um dia, há pouco mais de cinco anos, veio essa oportunidade. De malas e cuias, segui ao lado de alguns companheiros de pesquisa, rumo à hiléia brasileira, percurso de dois dias, com intervalo para dormir já em Araguaína, no estado de Tocantins, após cruzarmos o Piauí e o Maranhão. Na bela cidade maranhense de Carolina, dos tempos do Império, atravessáramos as águas caudalosas do Rio Tocantins, largo e volumoso, o mais largo dos até agora que conheço.
No dia seguinte, logo cedo, passado o Araguaia, chegamos às terras do Pará, estabelecendo-nos em uma fazenda às margens do rio por dez longos dias, para conhecer o ecossistema amazônico, orgulho da raça, com isso presenciando diversos momentos da floresta e da ação do homem no que respeita à sua devastação.
Vimos de perto a agressão indiscriminada que caracteriza o sistema de posse do modelo desenvolvido para estabelecimento da criação extensiva do gado bovino. Movidos no afã de tornar produtiva a área, visando o criatório da raça nelore, centenas e centenas de estabelecimentos em dimensões a perder de vista, empresários do País inteiro, fixam bases em regiões planas e chuvosas, eliminando a constituição florestal primitiva através da força de tratores e queimadas, no sentido de plantar capim e construir currais. Vastidões lunares do reino vegetal somem em pouco tempo, deixando espaço aos tapetes de pastos, administradas pelos peões vindos de fora. Nisso trabalham sob os olhos oficiais das normas, assistidos de órgãos competentes do País. Produzem a carne que alimentarão largas faixas de consumidores do mundo inteiro, a peso de ouro. São manadas e manadas de reses criadas em trechos próprios para manejos, a remoer silenciosas das pastagens em uso.
Vimos de um tudo no que tange aos estragos impostos ao patrimônio das matas nativas. Tiradas as árvores maiores, madeira de lei e custo inestimável em termos da natureza primária dos séculos que lhes deu vida, o que resta em pouco tempo calcina mediante a ação do fogo, revirado a correntes vigorosas arrastadas por tratores descomunais. O quadro corta corações. Onde antes só havia o verde frondoso do mistério milenar e escuro, altivo caules esfacelados dão conta de troncos enegrecidos, parecidos aos vestígios das lindas bocas tornadas em dentes cariados e feios, eliminados ao furor das chamas. Aconselho não aos que nunca visitaram o paraíso amazônico a conhecê-lo nesses pontos entristecidos pela façanha dos matadores de floresta.
Idênticas práticas avistamos, também, no Tocantins e no Maranhão, estados vocacionados à implantação das fazendas de soja, moda e febre continuada que sacode os planaltos do Norte por meio da agroindústria e maravilha os resultados positivos das balanças do Brasil no exterior.
Quando ouço, pois, as declarações anuais dos funcionários de governo que contiveram a devastação amazônica em tanto e tanto por cento, desconsolado sacudo a cabeça por saber de perto que o gigante é maior muitas vezes do que contavam as distantes lendas trazidas no vento.

Uma dor do tamanho da Piriquara - José do Vale Pinheiro Feitosa

Um dos espaços mais belos do litoral noroeste do Ceará é aquele da Planície que forma a Ponta da Piriquara. Um corpo alongado, raso, em que se tornam mais formosas as Dunas brancas e os coqueirais adensando como matas primitivas.

Na planície pastam vacas e os jumentos em bandos que não retornaram ao estado selvagem, mas donos já não existem a reclamar-lhes trabalho. Anus brancos e pretos, carcarás, bem-te-vis, algum gavião e urubus planando.

Um vento planetário sem igual acelera o formato plano da região. Alguns reservatórios de águas das chuvas entremeados no relevo através da cianinha de touceiras de guajiru, muricis, cajus e coqueiros.

Na Piriquara a juventude despreocupada, da Europa e outros continentes, escolheu para aproveitamento veloz dos ventos em prática de Kite Surf. Ali as ondas podem formar tubos, não como o Havai, mas tubos do mesmo modo.

Uma noite de lua cheia na vastidão e solidão da Piriquara é o último refúgio do mundo tal qual ele inventou este que aqui digita. As luas cheias nascem mais anchas e sua circunavegação tem um hemisfério de mais brilho que ilumina o alvo da existência.

A silhueta do mundo da Piriquara no plenilúnio é como uma imanescência de um mistério além dos conceitos utilitaristas com os quais identificamos as coisas. Identificamos o coqueiro pela água e a polpa, o murici com o picolé e o jumento mesmo quando uma carga de simbolismo cristão.

Luminescência que diz eternidade quando o cotidiano apenas soletra mortalidade. A Piriquara com o sol mesmo que estourando as cores e a luz ainda revela um momento que traduz a realidade muito além deste pragmatismo pequeno burguês que teima com despensa entulhada.

Se poeta fosse cantaria laudas infandas à Piriquara. Faria Confissões como um Agostinho, em busca da unidade que contém tudo que existe entre os céus e o mundo e mesmo além destes mesmos. A unidade que compreende o conteúdo universal e que vai muito além do incompreensível e escapa de qualquer tentativa de dar-lhe um continente limitante.

Pois acordei. O Governador Cid Gomes assinou um decreto para total transformação da Piriquara: um conjunto de prédios para 2014 abrigar a Copa do Mundo, estruturas para treinamento da seleção Espanhola, campos de futebol, escolinhas de futebol e depois dois hotéis, um conjunto de edifícios residenciais, shoppings, campos de golfe. Uma nova cidade no artifício do estilo ocidental.

Meu coração sangra por uma dor em vão. Que parece dor de alguém abastado, dado e posto que ama esta planície como intocada do velho estilo de viver. Uma dor que esperava este parto arrasador, o resultado desta prenhez de um monstro chamado progresso.

Uma dor solitária. Isolada, mágoa intensa, mas sem par. Pronta apenas para manter o monocórdio tom de cantochão de uma missa de sétimo dia. O corpo da resistência já foi enterrado. Na parede de um açougue de Paracuru existe um cartaz com um salmo que pede diariamente por mais empresas, pois empregos faltam. Faltam empregos que vindos darão rendas aos que estão e atrairão milhares que igualmente desempregados ficarão.

Dilma corta R$ 92,7 milhões de Reais para o Ceará


NE - O show já terminou. Vamos voltar à realidade...

Perda mais significativa com o corte nas emendas será de R$ 30 milhões, destinados à manutenção de perímetros irrigados, responsáveis pela produção de frutas - FOTO: MELQUÍADES JÚNIOR; Perímetros irrigados, infraestrutura logística e qualificação profissional serão diretamente atingidos pelo veto.

Agora é para valer. A presidente Dilma Rousseff, no tradicional estilo "fechar a torneira", riscou, na tarde de ontem, de uma só vez, R$ 92,7 milhões de 20 emendas parlamentares e individuais que poderiam vir para o Ceará este ano. O veto mais significativo, de R$ 30 milhões, é o da emenda destinada à manutenção de perímetros irrigados do Estado, notadamente, uma péssima notícia para a economia local, por se tratar de um setor produtivo que vem se destacando nos últimos anos, inclusive, sendo responsável por recordes na exportação de frutas.

A infraestrutura logística também foi afetada com o veto de R$ 20,8 milhões na manutenção de trechos das BRs que passam pelo Estado, outra reclamação recorrente de cearenses e de caminhoneiros que pelo Estado têm de transitar. Outra área importante e "tecla batida" no mundo empresarial como entrave para o desenvolvimento do Estado - a necessidade de qualificação de mão-de-obra local para ocupação de novas oportunidades de emprego -, também foi prejudicada com o veto, por parte da presidente, de R$ 29 milhões.

Deste montante, R$ 19 milhões poderiam ser aproveitados no fomento à elaboração e implantação de projetos de inclusão digital, o chamado Cinturão Digital; enquanto os outros R$ 10 milhões deveriam ser aplicados no apoio à implantação e modernização de Centros Vocacionais Tecnológicos (CVTs) e aquisição de equipamentos. Ambas as ações consideradas ferramentas estratégicas de capacitação de força de trabalho no Estado.

Emendas individuais

Não demorou para as primeiras medidas anti-populares do novo governo começassem a eclodir. Contudo, para surpresa dos parlamentares cearenses, até emendas individuais, que, geralmente, eram menos susceptíveis ao veto que as demais emendas da bancada do Ceará, foram retiradas do orçamento. "Um veto desses é inadmissível. Nunca houve isso para emendas individuais, que foram aprovadas dentro de todas as normas. O pior é que o restante, (aproximadamente R$ 1,1 bilhão previsto no orçamento para o Estado) não estará livre de contingenciamentos", reclamou o deputado federal Raimundo Gomes de Matos (PSDB), ressaltando que apenas 3% dos recursos das emendas parlamentares do Ceará foram aproveitadas no ano passado, e que só 19% do recursos total da União para o Estado foi, de fato, aplicado em 2010, conforme, matérias publicadas, com exclusividade, pelo Diário do Nordeste, em janeiro deste ano.

"Não podemos virar uma Venezuela. O que existe, hoje, é uma subserviência como um todo do Congresso em relação ao governo", indignou-se o deputado quanto ao tratamento das matérias pelo executivo. Ao todo, a presidente Dilma barrou 16 propostas cearenses (de oito deputados federais e de um senador, tanto da oposição como da base governista), que totalizavam R$ 12,8 milhões em construção de cisternas para armazenamento de água no Interior do Estado; revitalização da infraestrutura física das unidades da Embrapa; apoio à pesquisa, inovação e extensão tecnológica para o desenvolvimento social; prevenção de violência contra a mulher; estruturação da rede de serviços de proteção social básica e especial, implantação e modernização dos CVTs; fomento a projetos em arte e cultura; promoção da inclusão produtiva; apoio à pesquisa e desenvolvimento am áreas temáticas da biodiversidade; e apoio à inovação em arranjos produtivos locais. "Uma das emendas vetadas pela presidente Dilma reservaria uma quantia de R$ 500 mil para o CVT de Maranguape, que, com certeza, iria viabilizar uma escola técnica naquele município", lamentou Matos.

Social mais afetado

Esta semana, o governo federal tinha sinalizado que a área social não seria atingida pelo corte de R$ 50 bilhões no orçamento federal. Porém, na tarde de ontem, o que se viu foi justamente o contrário. De um total de R$ 1,8 bilhão de emendas vetadas pelo executivo para todo o País, pouco mais de R$ 1 bilhão, ou seja, 55,2% são justamente desse setor. Destaque para inclusão digital (R$ 419 milhões). Sobrou até para economia solidária e acesso à alimentação, com veto de R$ 20 milhões e 12 milhões, respectivamente.

A área de infraestrutura, com R$ 458 milhões (24,6%) veio logo em seguida na participação do que foi vetado, destaque para R$ 113 milhões no setor de mobilidade urbana. Na produção, o veto do executivo chegou a R$ 355 milhões (19%).

Área social

1 bi de reais em emendas parlamentares voltadas à área social foi cortado do Orçamento da União, contrariando o discurso do governo de que investimentos para o setor seriam mantidos.

ILO SANTIAGO JR.
DiÁRIO DO NORDESTE

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Um exemplo de gratidão – Por Carlos Eduardo Esmeraldo

Recentemente estive a serviço da organização que trabalho, visitando a cidade de Limoeiro do Norte, a qual estivera pela última vez há mais de 20 anos. Fiquei admirado o quanto progrediu aquela cidade nesses dois últimos decênios. A impressão que nos causa como visitante, é a de uma cidade em plena expansão e notável desenvolvimento. Cidade limpa e bem cuidada, com largas avenidas, prédios históricos restaurados, comércio movimentado e rico, educação de boa qualidade para os seus filhos. O desenvolvimento da economia local é facilmente percebido por qualquer visitante. A irrigação de extensas áreas rurais na Chapada do Apodi possibilitou o cultivo em grande escala de frutos tropicais, como o melão, o abacaxi, a melancia, o maracujá e a banana, para citar apenas os mais importantes. Toda essa produção abastece não somente os mercados nordestinos, mas é exportada, via porto do Pecém, para vários países da Europa, chegando ao destino dez dias após a colheita. Hoje Limoeiro do Norte é o maior exportador brasileiro de melão e o segundo de abacaxi, atividades que lhe propiciam anualmente mais de 50 milhões de reais em divisas. Na formação de seus jovens, Limoeiro possui o Centro de Ensino Tecnológico, o CENTEC e uma unidade descentralizada da UECE, com oito cursos superiores. O CENTEC foi uma criação de um cearense de extraordinária visão, filho de Limoeiro do Norte e que tem em seu currículo a criação do NUTEC e da Secretaria de Ciência e Tecnologia, uma das primeiras idealizadoras de utilização do biodiesel. Mas o que mais me impressionou em Limoeiro do Norte foi a gratidão que o seu povo devota aos seus benfeitores. Nas últimas eleições parlamentares, Limoeiro, com menos da metade dos eleitores do Crato, ajudou a eleger deputado federal com 50% dos votos do município o filho da terra que lhe proporcionou o primeiro CENTEC instalado no Estado. Outra gratidão demonstrada pelo povo da cidade é ao seu primeiro Bispo, Dom Aureliano Matos. Esse prelado dá nome à principal avenida da cidade e à unidade local da UECE.

Essa gratidão que os filhos de Limoeiro do Norte têm para com seus benfeitores conduziu-me a uma imediata comparação com muitas ingratidões demonstradas por uma grande maioria dos cratenses à sua terra. A nossa primeira ingratidão é com os políticos cratenses. Nosso município, que há cinqüenta anos elegia dois deputados federais e dois estaduais, vive nos últimos anos um ocaso político danoso ao seu desenvolvimento. Não conseguimos eleger um deputado federal há mais de vinte anos. E não vale a justificativa de que nossos atuais políticos não são bons. Eles são do mesmo nível daqueles que foram deputados há mais de meio século. O único deputado estadual cratense da presente legislatura foi eleito graças ao seu desempenho em programas policiais da televisão, assim mesmo com votos de outros municípios. Diante desse quadro, consultei os dados do TRE das últimas eleições e verifiquei com tristeza que os cratenses validaram 51.731 votos para deputados federais, suficientes para garantir a eleição de um deputado federal. Enquanto o único candidato cratense obteve apenas 37% desses votos, 63% deles foram destinados a candidatos de outras cidades, destacando-se o ex-governador Ciro Gomes com 10.669 votos, os cincos candidatos a deputado federal por Juazeiro que obtiveram juntos 6.993 votos. Ao todo foram votados mais de 43 candidatos no Crato, entre os quais muitos desconhecidos pela maioria dos cratenses como André Figueiredo, com 997 votos e Maria Aparecida Albuquerque que obteve no Crato 75 votos. Esses números são reveladores da tamanha ingratidão política do cratense para com os seus próprios filhos. Reclamamos dos nossos prefeitos, que pouco fazem pelo desenvolvimento do Crato, mas esquecemos que eles não conseguem viabilizar seus projetos juntos aos governos federais e estaduais porque não elegemos um filho da terra deputado federal para fazer o acompanhamento político dos projetos de interesse do Crato nos labirintos da administração federal. Com tamanha ingratidão, não podemos reclamar a perda da Universidade Federal, da sede regional do DETRAN, ou de um hospital público de qualidade, afora tantos órgãos federais e estaduais que foram transferidos do Crato para outras cidades. Os maiores culpados por tamanho descaso são os próprios cratenses que votam em candidatos de fora e que somente se lembram do Crato de quatro em quatro ano.

Ao ver o nome de Dom Aureliano Matos estampado numa placa da principal avenida de Limoeiro, lembrei-me que um sobrinho dele, Dom Vicente Matos foi bispo do Crato e seu maior benfeitor em todos os tempos. Mas não existe no Crato nenhuma rua com o nome de Dom Vicente Matos. Aqui reside a maior de todas as ingratidões. Existem ruas com o nome de ex-presidente de outro país, de candidatos a presidentes que nada fizeram pelo Crato, de outras figuras que nunca colocaram seus pés em nossa terra, além daqueles que jamais souberam se o Crato existe. Por que não uma rua com o nome de dom Vicente? Graças a ele fomos pioneiros no ensino superior no interior do Estado do Ceará, com a implantação da Faculdade de Filosofia do Crato que possibilitou anos mais tarde a viabilização da URCA, com sede no Crato. São ainda iniciativas de Dom Vicente a Rádio Educadora do Cariri, a expansão do Hospital São Francisco, o desenvolvimento estrutural da Fundação Padre Ibiapina, a construção do Centro de Expansão da Diocese, único centro do gênero nas dioceses do Estado e quiçá do Nordeste, além de tantos outros benefícios, impossíveis de resumi-los em poucas palavras.

Sei que essa proposta de dar o nome de Dom Vicente a uma rua do Crato é muito antiga e parece encontrar certa resistência dos nossos vereadores. Não sei se já tramita algum projeto na nossa Câmara de Vereadores ou se nossos edis continuam insensíveis. Mas somente para reforçar a idéia, gostaria de registrar aqui o argumento da mulher de um amigo cratense que, para agradar o marido, conseguiu junto a nossos vereadores mudar o nome da rua em que mora. Tal rua tinha o nome de um escritor carioca, um dos mais famosos da literatura brasileira e que morreu há cem anos, e essa senhora conseguiu fazer a mudança para o nome do falecido sogro, pessoa muito conhecida e estimada por todo o Crato. Perguntou ela junto aos vereadores o que fez aquele escritor pelo Crato. Será que ele sabia ao menos onde ficava o Crato? Ou se existia uma cidade com esse nome? Gostaria de usar o mesmo argumento daquela senhora. Que representou o presidente Kennedy para o Crato? Quais os benefícios trazidos por ele à cidade? Quem foi João Pessoa para o Crato? E Santos Dumont construiu por aqui algum aeroporto? Por que não mudar um desses nomes para Rua Dom Vicente Matos. Ele merece a principal rua do Crato! Pensem nisso para corrigir uma grande ingratidão!

Nota do autor: O presente texto data de 3 de setembro de 2008. Foi postado no Blog do Crato e publicado pela revista “A Província” em sua edição N° 27 de junho de 2009, Até a presente data nossos vereadores permanecem insensíveis a esse apelo justíssimo.

Por Carlos Eduardo Esmeraldo

Ambições de conhecer o futuro - Emerson Monteiro

Essa vontade humana de dominar a natureza envolve desejos antigos de saber o que vem acontecer no futuro das gerações. O motivo da disposição incontida desde tempos imemoriais finca raízes nos planos de dominar a vida e tudo o que diz respeito ao mundo e as coisas em volta, na política, na fortuna, no tempo. Sobretudo dominar os outros e a sociedade. Em resumo, reter nas mãos o destino e a riqueza, pretensão do tamanho do Universo. Um sonho bem avassalador, a sede insaciável do poder.
Essa tal vontade de domínio mostra evidências constantes nas profecias existentes e documentadas no decorrer da história, no âmbito das religiões e dos livros sagrados.
Filmes e pronunciamentos sempre trazem novidade quanto a isso. Agora mais recente, por exemplo, na película 2012, um sucesso de bilheteria, há referências ao que os Maias, civilização desaparecida na América Central, deixaram quanto a grandes mudanças que sofrerá a Terra nesse ano vindouro do calendário moderno.
Mas o que interessa mesmo, em termos práticos, chega mais longe, ao domínio do que pode permitir o conhecimento, até depois das muitas profecias ora existentes, numa lembrança forte das palavras de Jesus nos Evangelhos, a dizer: Sóis Deuses e não o sabeis, fazendo paralelo nas condições prósperas, contudo ainda que para eles mesmos realizarem, amarrando o burro nas orelhas dos donos.
Quanta maravilha transporta em si a existência, na assertiva cristã de guardar na alma a essência da herança divina, porém sob o desafio de ter antes de aprender a sabedoria, desenvolver esse modo particular de achar o caminho da luz e se libertar para as outras dimensões da evolução.
Isto demonstra o tanto de responsabilidade na revelação pessoal através da caminhada do aprendizado, conquanto artífice da própria transformação. Longe de apenas se acomodar naquilo que receber, sem estudo e trabalho, só à toa pela vida, ninguém merecerá o Reino de Deus que o Mestre divino aqui veio repartir conosco. A mensagem que revela e enfatiza com tamanha seriedade a isto deu sua própria vida em demonstração desta Verdade.
Portanto, ao desejar a existência cômoda e perene da Eternidade, nós, humanos falíveis, reuniremos os laços do conhecimento a fim de achar a dominação do futuro, livres e sós dos apegos e das posses deste chão que, veloz, passa sob os nossos pés.
Profecia maior não existirá além deste conhecer individual das normas do sentimento, porta aberta do Amor autêntico de Deus, o que nos promoverá ao nível das vontades e dos prazeres permanentes. Descobrirás a Verdade e ela vos libertará, portanto.