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quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Os tesouros deste mundo - Emerson Monteiro

A importância dos objetos, sentimentos, ideias, guarda relação estreita com a prática das pessoas no decorrer da existência, a ponto de muitas perderem o juízo buscando satisfazer o instinto de querer mais uma coisa do que outra. Não poucas pessoas vendem a alma para atender aos desejos loucos, e atropelam os outros, gastam o que não têm, utilizam mecanismos sujos, a ponto de matar, roubar, destruir, no impulso desesperado de alimentar aquelas necessidades artificiais surgidas no afã da dominação dos objetivos planejados.
A fome doentia dos desejos errados existe na história desde que o homem é homem, pela ganância das guerras, dos saques, perseguições, negócios escusos, invejas e ambições desmedidas. Tudo pó e poeira da matéria em desintegração. O apetite avassalador do favorecimento a qualquer custo mostra a face melancólica dessa humanidade, o lado sem luz da epopéia das criaturas rumo aos afagos da ilusão, que só produzem miséria e respostas trágicas, nas caminhadas pelo mundo.
A traça e a ferrugem, no entanto, destroem, numa velocidade impressionante, tais equívocos, sob o comando de uma lei estudada sob o nome de ação e reação, tanto na física, quanto nas escolas religiosas. Nada fica impune fora dos ditames originais e eternos da natureza, que conduz os acontecimentos. Dia de muito é véspera de pouco. Dia de tudo é véspera de nada.
Quem quiser contrariar as normas desta sabedoria, guardada no decorrer dos séculos e milênios, que experimente, pois, mais cedo ou mais tarde, provará do desencanto. Há um tanto de exemplos de que o crime não compensa, em todo tempo e lugar. Mesmo assim, ainda impera o desejo ganancioso, que demonstra o atraso da raça teimosa e inconsequente, quando se sabe que o desengano da vista é furar os olhos, no dizer do povo.
No entanto, a dor ensina a gemer, e inúmeros escolhem estradas tortuosas do vício e do crime invés dos valores equilibrados e justos da paz e da coerência. Esse impasse nas decisões vale a todo minuto, conquanto vive-se decidindo qual dos dois caminhos escolher a fim de realizar os sonhos. Ouvi, certa vez, alguém afirmar que “o castigo do vício é o próprio vício; e o mérito da virtude é a própria virtude”. A consciência refletirá como praticar esta vida. O itinerário aonde nos leva ninguém desconhece. A estação final do processo vida espera a todos, equivocados ou prudentes. Portanto, o teorema traz consigo a solução do mistério de todas as intenções pessoais.

Pensamento para o Dia 16/12/2010



“Desenvolver fé no Princípio Atma e amá-Lo sinceramente é a verdadeira adoração. Há apenas um Ser Divino. Sinta que isso é mais digno de amor que qualquer objeto aqui ou no futuro — essa é a verdadeira adoração que você pode oferecer a Deus. Isso é o que os Vedas ensinam. Os Vedas não ensinam a aceitação de um conjunto de regras e restrições terrivelmente difíceis. Eles não constroem diante de você uma prisão onde o homem está encerrado pelas barras de causa e efeito. Eles nos ensinam que existe Um que é o Soberano por trás de todas essas regras e restrições, Um que é o âmago de cada objeto, cada unidade de energia, cada partícula ou átomo e Um que somente sob Suas ordens os cinco elementos —éter, ar, água, fogo e terra– operam. Ame-O, adore-O, venere-O — essa é a grande filosofia do Amor, elaborada nos Vedas.”

Sathya Sai Baba

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Programa COMPOSITORES DO BRASIL - Rádio Educadora do Cariri

HERIVELTO MARTINS

Por Zé Nilton

Para Stela Brito

O excelente Célio Silva, o mais perfeito imitador de Francisco Alves nestes cariris, e dizem até que o superava em graves, agudos e na maviosidade da voz, teve um filho chamado Geraldo. Voz de soronidade perfeita. Fossem baixos, agudos, sopranos, contraltos. Em todas as tonalidades ele chegava à música. O garoto também tinha um jeitão arredio, humor de altos e baixos, nunca era do mesmo jeito da cambada de meninos que fazia parte dos músicos fundadores dos primeiros projetos de Pe. Ágio, recém saído do Seminário S. José, em 1962, para criar um núcleo religioso-musical na comunidade da Vila Santa Terezinha, no caminho do Lameiro.

No seu livro, “Um sonho Realizado”, o sacerdote narra um episódio de possessão em que o personagem principal seria o nosso inocente Geraldo. Interessante a narrativa do Padre.

Lembro-me demais do primo Geraldo cantando “Ave Maria no Morro”, fazendo a primeira voz em uma dupla fantástica. Afinadíssimo. Nunca me esqueço da sua voz que sumiu para sempre. Foi com ele pra bem longe desse Brasil.

Caros amigos sei que não vem ao caso, mas deixem me revelar umas lembranças.

Ficava morto de vergonha quando o mons. Pedro Rocha, que todo o ano oferecia um concerto de natal para a comunidade do Hospital São Francisco de Assis, anunciava, erguendo a mão para cima do estreito palco:

- E vamos nos deleitar neste momento, ouvindo a Orquestra do Pe. Ágio! A cortina se abria. Um pequeno conjunto de músicos aparecia, sob a batuta do velho mestre, que também tocava flauta ou acordeom.

O amado Monsenhor não se esquecia dos tempos em que Pe. Ágio criou, manteve elevou a musicalidade caririense com a Orquestra de Música do Seminário S. José, chegando a uma composição de 53 músicos. E ali, às vezes um quarteto, um quinteto, um sexteto estava sempre presentes no natal do Hospital.

Não esqueço de uma vez, em 1966. Num show de natal no Hospital foi anunciada a próxima sequencia:

- Vamos ouvir, bradou o feliz Monsenhor, embandeirando o seu inseparável lenço, com a “orquestra do Pe. Ágio”, (pra nós era o Sexteto Villa-Lobos), a música “ Olê, Olá”! Aplausos gerais. A platéia esperava a bela música de Chico Buarque, que tocava todos os dias nas rádios. Eu gelei, pois já andava me enxerindo pras músicas de Chico. Não era. Acompanhamos a dupla de ouro Geraldo/Heládio na famosa toada de um músico paulista que dizia:

"Olá, olê, deixa o meu pinho gemer
Olê, olá, deixa o pinho soluçar"...

O nome de Herivelto Martins está comigo desde há muito. Fiquei maravilhado quando João Gilberto gravou Izaura, com Miúcha, no seu disco capa branca, produzido no México, recebido de presente de uma grande paixão, lá no meu Rio de outrora.

As histórias desse mestre da Música Popular Brasileira estão por aí nas blogesferas. Sua trajetória amorosa, agonística e musical pode ser lida. Um excelente compositor, dono de uma versatilidade no infindável universo da sonoridade, com mais de 500 músicas gravadas. Graças ao milagre da parafernália tecnológica elas nos chegam até hoje através de gravações e regravações, que por certo farão presenças ad seculam, seculorum, enquanto espaço houver para a música que nossos e os futuros ouvidos hão de captar.

Herivelto Martins. Parte de sua história e discografia será apresentada e comentada no Programa Compositores do Brasil, desta quinta-feira, na Rádio Educadora do Cariri, a partir das 14 horas.

Na sequencia:

DOIS CORAÇÕES, de Herivelto Martins e Waldemar Gomes com Dalva De Oliveira e Francisco Alves
CAMISOLA DO DIA, de Herivelto Martins e David Nasser com Maria Betânia
MAIS UMA LÁGRIMA, de Herivelto Martins, com o Trio De Ouro
TEU ERRO, de Herivelto Martians com Nelson Gonçalves
SEGREDO, de Herivelto Martins e Marino Pinto, com Dalva De Oliveira e Pery Ribeiro
PENSANDO EM TI, de Herivelto Martins e David Nasser com Edith Veiga
NEGRO TELEFONE, de Herivelto Martins e David Nasser com Pery Ribeiro
ATIRASTE UMA PEDRA, de Herivelto Martins e David Nasser, com Ney Matogrosso
NEGA MANHOSA, de Herivelto Martins com Zeca Pagodinho
CABELOS BRANCOS, de Herivelto Martins e Marino Pinto com Oswaldo Montenegro
AVE MARIA NO MORRO, de Herivelto Martins, com Helena de Lima
ISAURA, de Herivelton Martins e Roberto Roberti, com João Gilberto e Miúcha

Quem ouvir verá!

Programa: Compositores do Brasil
Rádio Educadora do Cariri (www.radioeducaroradocariri.com)
Telefone: (88)3523-2705
Todas as quintas de 14 as 15 horas
Pesquisa, produção e apresentação de Zé Nilton
Operador high tech: Iderval Dias
Direção Geral: Dr. Geraldo Correia Braga

ANDAR

Foto de Diogo Stálin Araújo
O problema sugere a solução,
a catástrofe o nada mais.

O vento sopra,
o rio viceja,
a flor se espalma e se revolta...

Todos
buscam a dianteira
e grande é o cortejo:
terço,
rosário,
bendidos e malditos,
cânticos e sacrifícios.

E tudo se redesenha
numa grotesca imagem de incertezas,
retrato da nossa existência...

Cacá Araújo
Crato-Cariri-Ceará-Brasil

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

NOSSA IDENTIDADE PULSA

Catirina e Mateus do Reisado Decolores Dedé de Luna do Muriti (Crato-CE) / Foto de Cacá Araújo

O Folclore nordestino é a expressão máxima da fusão de mundos que se deu no doloroso processo de colonização em terras brasileiras. Neste contexto, o Cariri cearense é uma das maiores vitrines da cultura tradicional popular, mostrando raízes profundas e demonstrando resistência e teimosia quando se trata da manifestação de folguedos, brincadeiras e festas tradicionais que nos remetem à nossa ancestralidade.

Às novas gerações deve ser ofertado o banquete das matrizes culturais que podem explicar o passado, consolidar a identidade e fortalecer o espírito de soberania, sentimento de pertença e auto-estima. Os folguedos populares, patrimônios imateriais, são peças fundamentais da antropologia, posto que contam sobre costumes, crenças, comportamento, organização social.

Cientes da importância estratégica da cultura no desenvolvimento da nação, a sociedade e os poderes públicos devem atuar mais vigorosamente na organização e defesa das manifestações tradicionais populares, procurando, neste sentido, resgatar, preservar, desenvolver e difundir o Folclore e a Cultura Popular como referências na construção da alma nordestina e brasileira.

Nós somos um povo plural, como todos os outros, em todos os aspectos, o que não significa dizer que tenhamos que ser depositários do lixo cultural produzido pela humanidade. Ser plural é possuir variadas dimensões numa mesma existência; é contemplar no indivíduo a multiplicidade do espírito e do imaginário formadores da alma do povo, sacralizada e profanada pela mesma mão. Tudo obrado não pelo acaso, mas fruto do amalgamar que os séculos anteriores ofertaram em festa, em guerras, em tempos de bom e de mau humor dos ritos da natureza, dos animais, dos homens, das coisas.  

Precisamos fortalecer o movimento em defesa da cultura tradicional popular como forma de resgatar as mais profundas raízes dos povos do sertão nordestino, tomando-as pela universalidade, evidenciando as manifestações que traduzem a variedade de influências que marcaram a alma do nosso povo: o canto, a dança, o verso, a religiosidade, a história.

Nestes tempos de neo-imperialismo, devemos construir um caminho original e naturalmente legítimo de autodeterminação cultural, sem negar as raízes formadoras e afirmando uma cultura própria, resultante desse caldeamento que se insere no contexto histórico e não cessa, ganhando e perdendo novos elementos, seguindo o curso dialético da transformação cotidiana de homens e povos.

Fortaleçamos as trincheiras de combate à agressão cultural perpetrada pelo império dos potentados da economia mundial, que contam com a complacência de muitos agentes da mídia e da política nacional a serviço de interesses estranhos à Nação brasileira.

Cacá Araújo
Professor, Dramaturgo, Folclorista
cacaraujo66@yahoo.com.br
Crato-Cariri-Ceará-Brasil

PACTO PELA CULTURA NO ESTADO DO CEARÁ

Segue abaixo-assinado à sociedade em geral a respeito do PACTO PELA CULTURA NO ESTADO DO CEARÁ. O Documento é resultado de dois Fóruns Gerais das Linguagens Artísticas do Ceará, que contou com artistas e representantes das suas entidades mais diversas. Nele, há a posição de um consenso da classe artística cearense a respeito das políticas culturais a serem produzidas pelo Governo do Estado em seu próximo mandato, prestes a iniciar.

Busca-se o mais amplo apoio ao documento, a fim de que ele seja discutido em audiência pública com o governador reeleito, Cid Gomes, a classe artística do Ceará e a sociedade civil.

Leiam o manifesto dos artistas cearenses, apoiem com suas assinaturas e divulguem!

O Pacto será entregue ao governador próximo dia 15 de dezembro.

VAMOS JUNTOS E FORTES EM FAVOR DE UMA GUINADA NA CULTURA DE NOSSO ESTADO!

SEGUE LINK DO ABAIXO ASSINADO:


Ilmo. Governador reeleito, Cid Ferreira Gomes,

Nós, artistas do Ceará, integrantes das diversas linguagens artísticas e de suas entidades representativas, viemos, por meio deste documento público, convocá-lo para o diálogo cultural. Neste momento de transição de mandatos, capitaneados por seu governo, ensejam-se novas oportunidades de políticas públicas. O que, essencialmente, inclui a cultura.

Após uma série de encontros entre representantes das entidades artísticas, resultando em dois grandes Fóruns Gerais das Linguagens, os artistas do Ceará, em histórica mobilização, posicionam-se por um lugar central da cultura nas políticas de desenvolvimento social.

Está claro que uma visão progressista de governo não será completa sem considerar a atividade artístico-cultural como um bem público, um direito de todos e um agente de transformação social. Sabe-se hoje, em todo o mundo, que o progresso material, isoladamente, não assegura o bem estar coletivo, quando acossado pela violência, o preconceito, o individualismo, a insensibilidade, em suma, pela carência de novas idéias, práticas e percepções humanas. Indícios de um panorama futuro pouco animador.

Por outro lado, e o fato é também notório, nestes tempos de hiper informação e de ascensão do trabalho imaterial, fica a certeza de que a atividade cultural humana tende a contagiar todos os segmentos da vida social – do político ao econômico -, dando-lhes, enfim, uma dimensão mais afetiva e inteligente. Nem só de máquinas e pão vive o homem, afinal.

Cientes, portanto, desse caráter revolucionário da cultura, que não se pode limitar num “luxo” social, um supérfluo, sendo, ao contrário, um fator transformador, propomos, neste documento, uma mudança substancial na política cultural do novo governo - que, afinal, é de todos nós. Política esta que, a rigor, é social, transdisciplinar, de interesse geral. A afetar diferentes aspectos da realidade cearense.

Seguem abaixo as principais propostas da classe artística do Ceará para a política cultural do Estado, apoiadas, em abaixo-assinado por todo o espectro da sociedade.

Em conjunto a essas propostas, solicitamos seu debate em audiência pública com o Sr. Governador Cid Gomes, realizada em caráter de urgência, entre dezembro de 2010 e janeiro de 2011, período fundamental de implantação do seu novo governo.

Desejamos que Estado e sociedade civil organizada firmem um verdadeiro pacto pela cultura do Ceará, visando o seu mais amplo desenvolvimento!

Em defesa do comprometimento público com:

1- Uma política cultural transversal: criação de Núcleos Culturais nas secretarias de educação, turismo e segurança pública, que trabalhem de modo integrado com a secretaria de cultura.

2- A reestruturação da Secretaria de Cultura: ampliação de quadro de funcionários a partir de concurso público. Criação de departamentos de linguagens artísticas, a fim de atender suas demandas específicas, dirigidos por profissionais da área, eleitos em seus respectivos fóruns. Princípio aplicado à gestão dos equipamentos culturais do Estado: exigência de qualificação profissional e legitimidade artística para os seus gestores, sobretudo para o próximo secretário de cultura.

3- Uma política de difusão da atividade artística cearense: estratégias integradas de acesso da população aos bens culturais e divulgação da produção cultural do Ceará por todo o país, através de mostras, feiras, festivais, lançamentos, eventos em geral. Valorização da TV Ceará (TVC) e outros canais públicos de mídia como importante divulgador da cultura e da produção cultural cearense.

4- O apoio a mudanças na legislação cultural: aumentar a participação da cultura para 2% do orçamento do Estado. Duplicar o percentual de renúncia fiscal destinada ao Fundo Estadual de Cultura (FEC), não estabelecendo nenhum tipo de teto orçamentário para ele. Converter o Conselho Estadual de Cultura, hoje apenas consultivo, para o caráter deliberativo, autônomo à decisão sobre os investimentos do FEC, atendendo de modo equilibrado às diferentes linguagens artísticas.

Para além de reivindicações, propostas concretas e viáveis. Todas de interesse geral dos cearenses, e por isso apoiadas no abaixo-assinado que se segue, em defesa do Pacto pela Cultura no Estado Ceará:

Os signatários

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

A FORÇA DO GESTO COLETIVO

Foto de Cacá Araújo
 

O movimento comunitário já traz em sua denominação a ideia de coletivo, de ação, de comunidade. No contexto da luta política evoca a tarefa reivindicatória das entidades representativas dos moradores de um bairro, de uma vila, de um distrito, junto aos poderes constituídos, especialmente o executivo. Isso é o usual e beira a mesmice, chegando, em muitos casos, a ser instrumento de negócio eleitoreiro engendrado por lideranças hipócritas e avessas aos verdadeiros interesses do povo.

Entretanto, há outro percurso a ser trilhado: a organização das massas populares em defesa do anseio comum. O movimento comunitário tem que assumir sua função revolucionária de educar permanentemente o povo na prática das lutas transformadoras. É a busca incansável do necessário gesto coletivo: a fusão de atitudes a partir da tomada de consciência de que é preciso mudar. E a mudança primeira é no campo das idéias, na compreensão das injustiças e mazelas sociais como resultantes do capitalismo, este monstro que dilacera a alma e escraviza o corpo. E na esperança de que um novo modo de viver é possível.  Daí nascerá a revolta e a insurreição. E nada nem ninguém poderá deter a força do gesto coletivo.

Bertolt Brecht (1898-1956), dramaturgo, poeta e encenador alemão, faz uma séria advertência através de seu poema “Nada é impossível de mudar”:

"Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito
como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta,
de confusão organizada, de arbitrariedade consciente,
de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural,
nada deve parecer impossível de mudar.”

O povo, esta é uma verdade absoluta, já acumulou, ao longo da história, todos os dissabores da exploração, da miséria, da opressão, da violência, do preconceito, da tirania, da ira de deuses de barro e papel...

Que tudo isso, portanto, provoque a combustão ativadora da consciência popular e sacuda do movimento comunitário a poeira da subserviência, do lugar-comum, do oportunismo, da inércia. Assim, creio, se forjará como peça fundamental na edificação da justiça social.

Cacá Araújo
Professor, Dramaturgo, Folclorista, Cidadão

O FIM DOS PRESSUPOSTOS por VERISSIMO

(CADERNO OPINIÃO, JORNAL O GLOBO, Domingo 12 de dezembro de 2010, p.7)

"Em poucos dias, duas certezas científicas tiveram que ser abandonadas. Pesquisadores da Nasa descobriram que pode haver vida sem os componentes químicos até hoje considerados indispensáveis para a sua formação, e astrônomos descobriram que há muito mais estrelas além da Via Láctea do que se imaginava. Ou seja: aumentou a possibilidade de haver formas de vida desconhecidas em outros planetas e aumentou (triplicou, dizem os astrônomos) a quantidade de planetas em que elas podem existir.

Os novos cálculos sobre a quantidade de estrelas, se entendi bem, o que eu duvido, partem da constatação de que muitas das outras galáxias são elípticas, e não espirais como a Via Láctea, e que a proporção de estrelas-anãs para estrelas grandes, sóis, que é de cem anãs para cada sol na nossa galáxia, e de 2 ou 3 mil para cada sol nas galáxias elípticas. As estrelas-anãs de galáxias distantes não são vistas , são inferidas, mas calculam que haveria pelo menos um trilhão de estrelas a mais do que se supunha no Universo. O que significa mais alguns trilhões de planetas em volta dos sóis e quatrilhões de satélites em volta dos planetas. Isso sem levar em conta – para não enlouquecer – que o Universo visível talvez seja só uma fração do Universo real, cuja luz ainda não chegou até aqui.

O que as duas revelações significam é que pressupostos básicos, como o de que só a nossa composição química permitia a vida e que todas as galáxias se comportavam como a Via Láctea, não eram mais do que presunção. Sua desmoralização é mais um capítulo no lento afastamento da Humanidade das suas certezas, que começou com Copérnico e a prova de que a Terra circundava o Sol, e não o contrário. O que virá agora? Quando descobriram o comportamento esquizofrênico das partículas subatômicas, há alguns anos, foi um aviso para desconfiar de todos os pressupostos até aqui, das bactérias ao cosmo. Aguardam-se novas surpresas.

Quanto á vida em outros planetas é cedo para imaginar a Fifa organizando o primeiro campeonato interplanetário. Mas já dá para prever problemas como o antidoping: o que é tóxico para um time pode ser vital para a seleção da lua de Saturno, por exemplo".

O simples vive da fé - Emerson Monteiro

Invés de sair às cegas catando mistérios e trombando caixas vazias largadas em estradas distantes, a gente simples se alimenta na fé com um propósito superior que lhe indica os passos de seres vivos pelas entranhas dos rochedos tortuosos dessa humanidade, livre de outras perguntas inventadas, braços abertos ao trabalho e aos deveres que a vida impõe.
Houvesse outro jeito de tocar o barco, os milhões de criaturas seguiriam nessa respiração bem sua, constante, ao ritmo dos elementos, nas tiradas dos mundos inevitáveis. Santos do povo falam disso, de uma força descomunal que move e agarra com persistência o seguir das criaturas aos lugares desconhecidos do universo, única alternativa do processo vida.
Os seres anônimos, heróis desconhecidos, agem assim, movidos na ânsia de manter sua respiração sob valores trazidos brutos nas cheias do presente às margens do amanhã, máquinas históricas de uma tradição que se mexe de dentro do peito da certeza, que tem de ser desse modo, e pronto. A religiosidade monumental das pessoas cala fundo o íntimo da alma dessa multidão silenciosa, produzindo certezas a todo instante, matéria prima do futuro, no fluir sem parar das eras e tradições inesquecíveis e satisfatórias da existência comum dos dias delas.
O bater do coração alimenta essa energia original que gira as engrenagens, por cima de pedra e pau, e, com isso, permite acontecer histórias pessoais a todo o momento, dadas dimensões maravilhosas e segredos de continuar a qualquer preço bom a experiência de se conduzir em frente e estabelecer as bases dos novos continentes, nas horas de toda sobrevivência, do menorzinho ao maior de todos nós. Uma ação se soma às outras ações, linha após linha, fio condutor de nomes, pessoas e objetos, fora e dentro das aparências, peças de um xadrez de luta e parto dos momentos que se sucedem.
Caminha a sociedade dos seres humanos como formigueiro de gente e produção, necessário ao calendário e aos relógios, estômago do tempo e dos lugares, luzes nessa escuridão que clareia as famílias e os destinos, até serem felizes para sempre. Santuários de orações fervorosas, eles alimentam o desejo de seguir os passos, na convicção de que existe um sentido maior que abre as portas do amor, nas intenções de quem deseja o bem para seu valor absoluto.
Desse modo, os simples vivem da fé, de olhos voltados à mesma Eternidade que os contempla e os criou, e lhes deixa soltos no ar, perante a estrada que abraça com os pés e rasga a cada passo. Um saber mais que perfeito da melhor sabedoria os orienta, pois conhecem o tecido com que tecem o manto da Eternidade. E só isso os torna suficientes ao justo querer de Deus.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Desenvolvimento regional do Cariri: em quê pé se encontra a questão da região metropolitana? - José do Vale Pinheiro Feitosa

Uma questão que temos de refletir muito no Cariri se deve a aspectos de ensino e pesquisa, especialmente das atividades de extensão das universidades que operam na região. E quando digo isso não falo tão somente dos que aqui no blog escrevem. Mesmo que reflitamos coisas importantes, nossa força política se resume a trazer a reflexão para a luz de vários leitores.

Quando falo em refletir, penso na Associação Comercial, nas Associações de Classe, nos Sindicatos e claro numa matriz organizada que possa conduzir a demanda até às universidades. Vejamos a questão do poder de alavancar desenvolvimento econômico e social que estas universidades têm.
Antes um reconhecimento: a simples existência delas, trazendo alunos, estimulando professores estudarem mais, já tem um fator de estimulo ao desenvolvimento muito grande. A questão é que pode ir além, especialmente através das atividades de extensão e com o grande potencial que possuem para maturar investimento e promover melhorias.

Além do mais pensemos em grandes linhas estratégicas para a região e em seguida um esforço coordenado de tudo que tem vocação para desenvolver estas linhas: Universidades, SEBRAE, SESC, SENAI, Escolas Técnicas, etc. Não precisamos usurpar as hierarquias internadas das instituições, querendo criar apenas um ente burocrático regional para controlá-las. É possível criar um Plano Estratégico e criar uma comissão geral de acompanhamento do plano.

Existem muitas possibilidades, mas as Associações e as Organizações Sociais, Econômica e Políticas precisam criar um “fórum” para levantar as necessidades e criar planos de superação. É preciso dar conhecimento do que se precisa antes de tudo.

Não vale apenas o termo escrito dos resultados do Fórum é preciso criar uma instância permanente em que todos os agentes estejam presentes, durante todo o ano e de modo independente das forças externas à região. Não é preciso que venha nada de fora a não ser aquilo que for consenso regional que venha.

Uma coisa que não temos notícia é sobre a implementação da questão da Região Metropolitana. Se ela não vier com a capacidade de articular a realidade, criar um plano estratégico integrador e acompanhar este plano, ela se torna apenas uma letra morta. Alguém aqui no blog poderia dar notícia sobre o assunto?

POEMA DO LUGAR NENHUM

Foto de Cacá Araújo

a caravana
ruma remando ruminando
rimando sem sal
salvando as pedras paradas
pois elas com elas
sem elas
não são mais que elas
cansadas
ao dispor
paralelas
sem velas

plantas tantas ouvindo
sorrindo bradando grunhindo
cantando chorando calando se indo...

e o nada se instala
e a vala se cava e as almas se deitam
e as folhas se caem se ralam e se espalham
se perdem se queimam se voam...

e a caravana se esgana se dana estremece
não volta nem vai nem fica
padece
a vida entardece
anoitece
fenece

e o mundo imundo sem fundo
se cai
se afunda
se vai

se morre
se nasce
se morre...


Cacá Araújo
Crato-Cariri-Ceará-Brasil 

sábado, 11 de dezembro de 2010

ESPETÁCULO DE DANÇA

Aos Cuidados - Espaços Públicos

Luiz Domingos de Luna*

Desde o período do pleistoceno, na era cenozóica, que o homem rasteja no tapete de seu substrato - o solo terrestre. Esta vertente existencial tem sido o palco dos acontecimentos históricos e base para as intempéries negativistas que sujam as páginas do pulsar vivo nesta bolinha, livre e desprotegida, a vagar num infinito misterioso até o umbral de um pensamento construído ou a construir.
“Os aptos sobrevivem” tiveram os não aptos, a missão de ficar a disposição como coadjuvantes, no teatro da existência, a esperar a sua própria extinção, fatalidade esta, dito pelo homem e comprovada pelo testemunho da história. Portanto, independente da comprovação da teoria, os fatos, por si só – já denunciam esta realidade imutável.
São incontáveis os filósofos debruçados sobre este aro –Solo- a permutar debates sobre a existência ou não, do tempo real, pois, o imbróglio sempre a incomodar a inteligência em projeção, visto a curvatura de um universo móvel – Um organismo vivo a planar em matéria, ou mesmo na ausência desta, como uma força desafiadora a mente humana, seja em tempo ido, ou a ir ?
A grandeza temporal, como um plasma abstrato, tem seu poder de impacto sobre a vida, que no Planeta Terra é luz motriz, logo, ponto de questionamento sempre, vez os seres vivos passarem por escalas bem delimitadas ao seu tempo no carrossel existencial.
Todo ser humano precisa do campo geográfico para desafiar o seu tempo, sua história, seu marco, sua presença, seus passos, seu mural de convívio interativo, com os demais; portanto, cuidar, zelar, dar brilho a este piso, é na verdade, preservar a extensão humana no espaço tempo; assim, fazer isto, não é nenhum mérito, ou vitória ou qualquer adjetivo, mas sim, uma prova a mais, de que os aptos somente são aptos, por terem buscado o caminho da civilidade, na construção da Civilização Humana.
(*) Procurar na web

A Lei da Ficha Limpa persegue João e Janete Capibaribe - José do Vale Pinheiro Feitosa

Uma pessoa furiosa com instrumento cortante por arma mata o agredido. Um cirurgião de posse de um bisturi, racional, com passos controlados, salva a vida. Ambos são o mesmo instrumento cortante com sentidos diametralmente opostos.

Estamos falando de instrumentos e uma lei em que pese o seu fundo cultural, social e econômico, não deixa de ter a mesma natureza. A justiça opera o instrumento usando técnicas tal qual o cirurgião ou a pessoa furiosa em relação ao instrumento cortante.

Esse é o caso da Lei da Ficha Limpa que parece ter “lavado a alma” de certos segmentos da classe média brasileira. Foi colocando um instrumento cortante em mãos da justiça e que será utilizada por furiosos e racionais.

O caso mais emblemático ocorre com o casal João e Janete Capibaribe do Amapá. Ele eleito senador e ela deputada federal. Ambos foram cassados por supostas compras de votos, fato negado por eles e entendido como verdadeiro pelos operadores da Justiça Eleitoral.

A condenação dos dois ocorreu em setembro de 2002 e a Ministra Carmem Lúcia do Tribunal Superior Eleitoral mandou retirar o nome de ambos no instituto da recente diplomação. Estamos diante do preciosismo entre datas: se valerá a data do registro da candidatura ou a data das eleições como regra para completar os oito anos facultados pela Lei da Ficha Limpa.

Como foram condenados em setembro de 2002, em outubro, dia das eleições, estariam fora das regras da Lei, mas não foi assim que a Ministra entendeu. Têm que arcar com novas despesas para se defenderem no STF num processo misto de assassinato e cirurgia, do qual não se consegue registrar os limites.

Por isso a Lei da Ficha Limpa faz parte daquelas instituições apropriadas ao controle popular, visando instrumentalizar as elites no poder. A Justiça efetivamente não protege o grande coletivo social de um país como o Brasil. Ela é cara, os operadores têm face de classe social e as decisões são elásticas numa margem em que a sutileza faz toda a diferença em favor dos mais ricos e mais entrosados na “classe”.

O que é uma cratera na vida real das pessoas, decide-se por uma “exegese” de partículas de uma frase legal. Os longos textos que têm um linguajar técnico absurdo, fazendo a hermenêutica que embasará a decisão da Corte, tem por finalidade tornar a norma um toldo esotérico até para cidadãos letrados e pós-doutorados em assunto diverso.

A Lei da Ficha Limpa é um instrumento para assassinar carreiras políticas em favor da largada e chegada de muitos. Quem viver verá. Os exemplos chamados emblemáticos como de Jáder Barbalho e Joaquim Roriz são o picadeiro para esconder as “palhaçadas” da lâmina de Brutus em César.

Não afirmo que isso seja o caso da Ministra, é possível que seja a cirurgiã em face de detalhes da operação. Mas fica evidente que o jogo de datas para aplicar a lei, mesmo sendo uma lei nova, tem um rumo certo e histórico na perseguição ao casal Capibaribe.

CANTIGA DO SORRISO ETERNO

ETERNIDADE

Um belo canto exala toda flor.
Seu olhar, seu sorriso, é poesia
Que se mostra e se esconde todo dia
Espalhando a semente do amor!

Encanta-nos silente o seu fulgor...
Como deusa nos prende em sua magia,
Alegrando quem antes só sofria,
Transformando em prazer o que era dor!

Quem lhe beija partilha a grande sorte
De viver feito luz na natureza
Mesmo tendo em carne visto a morte.

Desta forma ninguém há de sumir,  
Pois herdando da flor sua pureza     
Fica eterno o presente no porvir!


Cacá Araújo
Crato-Cariri-Ceará-Brasil

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Vida a dois - Emerson Monteiro

Das estatísticas recentes, e estatísticas viraram instrumentos que norteiam muitas ações desses tempos complexos, alguns números sacolejam as sólidas bases de qualquer cidadão pacato e desinformado, a exemplo do que ouvi na semana que passou, que, minuto a minuto, quatro senhoras casadas são espancadas por seus esposos em um dos lares deste País continental. Isto é, de 15 em 15 segundos se comente um delito, agressões brutais, estúpidas e inconcebíveis em qualquer mundo dito civilizado.
Ainda se ouvia, de épocas românticas, que em mulher não se bate nem com uma flor, para, noutras palavras, dizer que ninguém é saco de pancada, muito menos as representantes do belo sexo, quando, de supetão, rasgaram-se as empanadas da hipocrisia machista e a realidade fria dos números explodiu qual ferida interna de um corpo doente, desse mundo social cheio de aleijões e atrasos.
O desrespeito para com os semelhantes caracteriza fases lastimáveis da vida em grupo, impondo atitudes agressivas e a repressão do próprio sistema, contudo tratar os sintomas sem curar as origens do mal apenas mascara os conflitos, escondendo causas e multiplicando riscos posteriores.
Por isso, há mesmo que se buscar, no íntimo das pessoas, as razões virulentas de tanta perversidade, que constrangem os padrões da normalidade. Não dá mais para fingir que o problema pertence aos outros. Os pactos ora existentes reclamam doses maiores de sinceridade e mudança nas práticas contínuas que parecem longe de acabar.
As ausências de comunicação entre os que se casam demonstram quase nenhum compromisso de amizade e companheirismo, talvez, quem sabe?, só interesse material, sexual; daí, carências de religiosidade e vulgarização da maldade sujeitam a levar ao seio da família, porto seguro das tradições culturais e educativas dos filhos, durante todo tempo. Viver em comunidade começa no âmbito familiar, célula-mãe das sociedades, conceito repetido e pouco exercitado.
Quando um homem e uma mulher resolvem firmar os laços puros do matrimônio, deve haver responsabilidade, existir valores mínimos para formar o lar, sonhos de paz, apoio mútuo, trabalho, satisfação pessoal, experiências profissionais somadas, união de princípios; fora disso inexistiriam justas condições de constituir um casal no sentido pleno.
Assim, face aos acontecimentos desta hora crítica, apenas persistirá a esperança de transformar este chão comum onde vivemos e trazer de volta paz aos lares, mediante o carinho autêntico e valioso de quem acredita nas bênçãos que nascem dos laços sagrados da justa felicidade entre os casais.

CANÇÃO DO AMOR DECIDIDO


                                                          Andei na rua, na chuva

                                                          Assim
                                                          Sem pudor, sem temor, com amor
                                                          Serei sempre tua mulher

                                                          Andei descalça, andei molhada
                                                          Inda chorei pela estrada
                                                          Pulei muro, andei no escuro
                                                          Só para ser tua mulher

                                                          Virei o carro em contramão
                                                          A mil fulanos disse não
                                                          Só para ser tua mulher

                                                          Estou te esperando na rede
                                                          Vem que eu estou com sede
                                                          De ser tua mulher

                                                          Estou te esperando com sede
                                                          Vem que eu estou na rede
                                                          Só para ser tua mulher

                                                          Sempre serei tua mulher

                                                          Cacá Araújo
                                                                              Crato-Cariri-Ceará-Brasil
                                                                              cacaraujo66@yahoo.com.br

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

COMPOSITORES DO BRASIL

Amanhã se der o carneiro
O carneiro
Vou m'imbora daqui pro Rio de Janeiro
....................................
As coisas vem de lá
Eu mesmo vou buscar
E vou voltar em vídeo tapes
E revistas supercoloridas
Pra menina meio distraída
Repetir a minha voz
Que Deus salve todos nós
E Deus guarde todos vós
( Carneiro, 1974)


EDNARDO


Por Zé Nilton

O ilustre professor Marcondes Rosa, inteligência brilhante desse nosso Siará Grande, louco por música, conhecedor profundo do movimento renovador da Música Popular Brasileira made in lá de nós, o chamado “Pessoal do Ceará”, traduzia muito bem os versos de “Carneiro”, de Ednardo e Augusto Pontes. Dizia haver chegado novos tempos no Ceará, e doravante cessava ali o nosso secular destino de “ave de arribação”, não raro sob o humilhante rito de passagem: primeiro tentar a sorte no bicho pra garantir tentar a sorte no Sul.

Ainda não havia chegado os novos tempos cridos por Marcondes por isso, e foi só por isso ? fui “m´imbora daqui pro Rio de Janeiro”. Pra variar houve sorte pelo meio! Não joguei no bicho, mas o bicho homem fez a minha fezinha. E que homem! O inesquecível e educado empresário Waldir Silva, que administrava suas empresas com o coração, disse pro rapazinho:

- Já que o Sr. (tratava todo mundo por Sr.) quer ir, que vá. Mas taqui, duas passagens, uma de ida e outra de volta, caso não dê certo...

Fui. Deu certo seu Waldir, minha eterna gratidão.

O assunto aqui é música ou melhor, a música do conterrâneo Ednardo. Então eu tenho pra mim que musicalmente falando, foi preciso estar lá na cidade maravilhosa, precisamente naqueles ainda românticos anos 70, para encher-me de orgulho da música cearense embalando os dias e as noites do Rio. Nas ambiências em que circulei, descendo e subindo a velha Matacavalos (celebrizada por Machado de Assis) a rua Riachuelo, idem a Mem de Sá, rua de Ataúlfo Alves, depois a Bambina, a Dois de Dezembro, a Correia Dutra, eu pisava distraído ( ainda se podia) e me distraía ao som de Belchior, Fagner, Ednardo e o Pessoal do Ceará, no radinho de pilha que ainda hoje mora comigo.

Em 1976, quando retornava, à noite, da universidade, desde o Maracanã, ouvia, de dentro do coletivo, ao longo de suas paradas, o “Pavão Mysteriozo”, cujo som saltava dalguma janela, a música de abertura da novela “Saramandaia”, da Rede Globo.

O Ceará ajudou a criar a via de mão dupla com o centro cultural do Brasil em termos musicais a partir daqueles idos. As coisas vinham mas também saiam daqui pra lá.

E a música cearense que sai hoje nas mídias ? Bom, que “Deus salve todos nós”!

Nesta quinta-feira, a voz penitente e a música denunciadora e cheia de encanto de nosso Ednardo, no programa Compositores do Brasil, de 14 as 15 horas, na Rádio Educadora do Cariri.

E para os infelizes que não crem na música de qualidade e não permitem que ela chegue também às massas deste país, rogo-lhes uma praga pegando carona no brado do excelente Belchior: “eu quero é que este canto torto feito faca corte a carne de vocês”!

E para a resistência dos crentes, com a palavra, Ednardo à sua moda: merci bocu, merci bocu não há de quê.

Uma sequencia da música de e com Ednardo:

01.TERRAL
02. AVIÃO DE PAPEL
03. ARTIGO 26
04. TREM DO INTERIOR, em parceria com Belchior
05. PASTORIL, participação de Amelinha e Belchior
06. A MANGA ROSA
07. SOMOS UNS COMPOSITORES BRASILEIROS
08. VAILA, em parceria com Brandão
09. CARNEIRO, em parceria com Augusto Pontes
10. BEIRA MAR
11. INGAZEIRAS
12. ENQUANTO ENGOMO A CALÇA, em parceria com Climério
13. PAVÃO MYSTERIOZO.

Quem ouvir verá.

Programa: Compositores do Brasil
Rádio Educadora do Cariri (www.radioeducaroradocariri.com)
Telefone: (88)3523-2705
Todas as quintas de 14 as 15 horas
Pesquisa, produção e apresentação de Zé Nilton
Operador high tech: Iderval Dias
Direção Geral: Dr. Geraldo Correia Braga

Neste domingo no Sesc Crato Dia 12/12