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quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

O 1º de janeiro de 2009 pelo mundo...

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Cuba tem festa discreta no 50º aniversário da revolução

Comemorações são marcados por filas para comprar carne e para obter cidadania espanhola
Lourival Sant'Anna, HAVANA O Estadao de S.Paulo
Fustigados pelas dificuldades econômicas, agravadas pela passagem de três furacões este
ano, os cubanos se preparam sobriamente para as celebrações do ano-novo e do 50º aniversário da revolução socialista. As duas maiores novidades são o aparecimento de carne bovina nos açougues estatais e a concessão de nacionalidade espanhola aos filhos e netos de exilados da ditadura franquista.O governo argentino fez a Cuba uma doação de carne, que foi moída e distribuída aos açougues. Como os demais produtos subsidiados, a venda da carne é marcada na caderneta da família. Cada pessoa tem direito a meio quilo, a 5,25 pesos (US$ 0,26).
Segundo os cubanos, há pelo menos duas décadas não se via carne de boi nos açougues estatais. Tradicionalmente, os cubanos comem pernil na ceia de fim de ano. Mas aqueles que ainda não tinham comprado sua cota de carne bovina faziam filas ontem nos açougues. "Ninguém sabe quando vai ter carne de novo", disse o funcionário de um açougue em Havana Velha. E a durabilidade da carne é ameaçada porque, segundo o açougueiro, em 60% dos açougues a câmara de refrigeração não funciona, por falta de manutenção do governo.
O açougueiro disse que ele mesmo consertou a do açougue em que trabalha, da marca americana Fresco, anterior à revolução. Para poupá-la, ele a mantém ligada apenas das 13h às 16h, quando o calor aperta, e durante a noite. Nos supermercados estatais de moeda forte, 1 quilo de carne é vendido a proibitivos 9,50 CUCs, ou US$ 11,87.Muito maior que a dos açougues foi a fila em frente ao consulado espanhol, depois da aprovação da Lei de Memória. O Ministério das Relações Exteriores da Espanha estima que 100 mil cubanos tenham direito à nacionalidade espanhola, por essa nova lei.
Cerca de 3 milhões de cubanos vivem no exterior, e são a principal fonte de divisas do país. Com exceção dessas pequenas alegrias, as celebrações são marcadas pelo tom circunspecto do discurso do presidente Raúl Castro no encerramento dos trabalhos do Parlamento, no sábado. Raúl, que dirige o país desde julho de 2006 - quando seu irmão, Fidel, ficou doente, foi formalizado no cargo em fevereiro, e anunciou mais rigor no cumprimento das leis.Os cubanos comuns interpretam a mensagem prevendo mais repressão à economia informal, que irriga os orçamentos domésticos com CUCs, a moeda forte, que equivale a US$ 1,25 e a 25 pesos. Só com CUCs podem comprar o que não encontram nos armazéns estatais de moeda nacional.
Raúl anunciou ainda a eliminação dos estímulos dados aos trabalhadores em moeda forte - entre 10 e 20 CUCs (US$ 8 e US$ 16) - que alguns deles recebem além dos salários, que giram entre 200 e 600 pesos (US$ 10 e US$ 30).
Por causa do prejuízo causado pelo furacão, de US$ 10 bilhões, ou 20% do PIB cubano, não haverá desfile militar nem festa para lembrar o aniversário da Revolução. A data será lembrada com um discurso de Raúl, no dia 1º, em Santiago de Cuba, a leste da ilha, na sacada da prefeitura da cidade, de onde seu irmão Fidel anunciou a vitória da revolução, em 1959.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Meio século de ditadura da dinastia Castro



Che Guevara: uma máquina fria de matar

A fama de assassino de Che não começa em La Cabana: inicia-se na Sierra Maestra, onde ele fuzilou dezenas de cidadãos, considerados desafetos dele

Mesquinho, rancoroso, arrogante, tirânico, vingativo, ardiloso, maquiavélico, violento, fanático, sanguinário. Estas são as lembranças de alguns dos companheiros mais próximos de guerrilha atribuídos a Che Guevara e que foram traídos por ele. Che é outro mito criado pela revolução cubana e que é propaganda de grife dos comunistas latino-americanos e do mundo em geral. É uma espécie de culto religioso.
O retrato de Korda, quase o idolatrando como uma espécie de Cristo revolucionário não combina com a realidade do que foi Che Guevara: um paladino da violência ilimitada, do radicalismo primário, do terror em massa da população. Nas palavras de Régis Debray, “partidário de um autoritarismo implacável”, era notório admirador de Lênin, Stálin e, posteriormente, Mao Tse Tung. Em uma carta de 1957 a um amigo, dizia: “Pertenço, pela minha formação ideológica, àqueles que acreditam que a solução dos problemas desse mundo se encontra por detrás da cortina de ferro”(...). Ou seja, Che Guevara era apologético do regime soviético, que esmagava os ventos de liberdade política com os tanques soviéticos na Hungria e em outros lugares do Leste Europeu.
A fama de assassino de Che não começa em La Cabana: inicia-se na Sierra Maestra, onde ele fuzilou dezenas de cidadãos, considerados desafetos dele. Um caso em particular até hoje é controverso: um camponês chamado Eumidio Guerra, que lutava com os guerrilheiros em Sierra Maestra, tornou-se suspeito de ser espião de Batista. Todavia, uma boa parte dos companheiros de guerrilha não tinha certeza do caso e achavam que o indivíduo era inocente. Discordando de todo o resto, Che executou sumariamente o camponês. E ainda disse: “em caso de dúvida, matem”. Outros crimes também são atribuídos a Che: o de que ele também teria matado pessoalmente um de seus comandados que havia roubado um prato de comida.
A maneira como Che tratava tanto seus subordinados, como seus inimigos era mal vista por muitos guerrilheiros da campanha, entre os quais, Jesus Carreras e Huber Matos. Quando ele tomou a cidade de Santa Clara, abriu novos pelotões de fuzilamentos sumários de soldados e oficiais capturados na cidade.Em janeiro de 1959, Che Guevara foi escolhido como promotor geral da “comissão depuradora” de crimes do regime de Batista, na fortaleza de La Cabaña.
Na prática, porém, o que se viu foi um verdadeiro expurgo do exército e da guarda de Cuba, prendendo e fuzilando aleatoriamente por vingança supostos desafetos. Entre a maioria dos indivíduos fuzilados em La Cabana não havia nenhuma prova de que fossem torturadores ou assassinos do exército de Batista.
Na verdade, o critério de julgamento sumário de Che e mesmo a avaliação dos réus tinham como única culpa o simples fato de alguém ter pertencido ao exército cubano antes de 1959 ou, no mínimo, mostrar qualquer sinal de dissidência ao processo revolucionário em pauta.
Essa sina de assassino não poupou posteriormente, nem mesmo os antigos amigos de farda que discordavam da revolução comunista que grassava em Cuba. Dois casos são escandalosos, dentre muitos: o primeiro, foi a execução do tenente Castaño, membro do serviço de inteligência do exército cubano. Preso, o oficial foi executado sem ter cometido crime algum. Outro caso foi de um jovem adolescente que pichou um muro com críticas a Fidel Castro. Uma mulher procurou Guevara pedindo que libertasse o rapaz, porque em alguns dias, ele seria executado. O guerrilheiro simplesmente abreviou a situação: mandou executar sumariamente o rapaz e ainda disse que queria poupar a mulher da espera de tanto sofrimento.
Essa sina de assassino não poupou posteriormente, nem mesmo os antigos amigos de farda que discordavam da revolução comunista que grassava em Cuba. Os expurgos contra o exército e a sociedade civil, atingiram até os velhos camaradas de Sierra Maestra, a maioria presa, exilada ou fuzilada. Atribui-se a Che a criação de campos de concentração de prisioneiros políticos, imitação típica dos campos de reeducação ideológicos chineses e vietnamitas.
Milhares de pessoas foram presas e torturadas nestes campos. Como ministro da economia de Cuba, mostrou-se inepto: subjugando a economia às suas utopias desastrosas, conseguiu arruinar as finanças do país e quebrar o Banco Nacional de Cuba. Para buscar eficiência, impôs à população um regime de trabalhos compulsórios, inclusive, abolindo o domingo para descanso. Qualquer negativa a esse tipo de ação arbitrária poderia causar a infeliz a pecha de contra-revolucionário e ser preso ou morto. Sedento de violência, vai para a África e apóia Laurent Kabila, um homem que anos depois, causou verdadeiros massacres no Zaire e rebatizou o pobre país como República Democrática do Congo, sem antes impor uma sanguinária ditadura.
Ao arriscar um foco de guerrilha na Bolívia, é capturado pelo exército boliviano e assassinado, em 1967.

1º de janeiro de 2009


Meio século da mais antiga e sanguinária ditadura do continente americano

Dedicado aos dois pugilistas cubanos que, nos últimos Jogos Pan-americanos, pediram asilo ao Brasil – mas foram covardemente devolvidos à ditadura da dinastia Castro pelo atual governo
brasileiro – e aos milhares de presos políticos que padecem,neste momento, nas masmorras do sanguinário regime


O genocídio físico e espiritual de um povo diante da indiferença, quando não da cumplicidade, de muitos dirigentes ocidentais

O Gulag de Fidel

O dia 1o de janeiro de 2009 assinala o 50o aniversário do nefasto regime comunista de Cuba, a ilha-cárcere do Caribe. Quando Castro tomou o poder, em 1959, Cuba era uma ilha caribenha governada por um ditador e com a economia movida pelos dólares do turismo, do mercado negro, da prostituição e da exportação de cana-de-açúcar. Meio século depois, Cuba continua sendo uma ilha caribenha governada por um ditador e com a economia movida pelos dólares do turismo, do mercado negro, da prostituição e da cana.
O saldo da revolução cubana não podia ser mais desolador: 15 mil fuzilados no "paredón". Mais de 1 milhão de cubanos exilados nos Estados Unidos, no que é considerada a maior diáspora dos tempos modernos. 400 mil cubanos passaram pelos cárceres e campos de concentração como prisioneiros políticos. Dezenas de milhares afogados no mar ao tentar fugir do comunismo em direção a Florida-EUA. . Em Miami em fevereiro, foi inaugurado por exilados cubanos, um Memorial para 30 mil vítimas da ditadura de Fidel Castro. Tem mais: Cuba detém os mais altos índices de suicídios e abortos do Hemisfério. Miséria material, devido à ineficiência do regime socialista. Não existe liberdade de imprensa. Para se deslocar para outra cidade com mais de 10 Km o cubano tem de obter um visto da polícia dos irmãos Castros.
Durante décadas, Fidel Castro patrocinou – com dinheiro da União Soviética – a exportação do modelo da fracassada e sangrenta revolução cubana para a América Latina e África, que, aliás, redundou em grande fracasso...
Economicamente, o saldo da ditadura cubano também é negativo. Sob outra ditadura, a de Fulgencio Batista, Cuba era conhecida como "o bordel dos Estados Unidos", por causa dos cassinos e das prostitutas. A economia do país vivia disso e da monocultura da cana-de-açúcar. A Cuba de Batista detinha o quarto maior produto interno bruto da América Latina. No último dado disponível, de 1998, Cuba havia caído para o 15° lugar. Apesar do pesado subsídio da União Soviética, que chegou ao auge a 8 bilhões de dólares por ano, Fidel falhou em criar uma economia tutelada pelo Estado.

Quem paga a conta somos nós



Você – que me lê – já teve curiosidade de saber quanto sai do dinheiro do imposto que a população paga para sustentar um presidente da República?
Pois o imposto que você paga também é destinado a esta finalidade. E, falando em impostos, não adianta chiar que não temos segurança, que a educação e a saúde pública ofertadas são de péssima qualidade, etc. Não. O imposto é enfiado de goela abaixo. Compulsoriamente.
Mas, não era disso que eu queria falar. Você sabe quanto custa para a população a manutenção dos Palácios da Alvorada e Palácio do Planalto (e a partir de fevereiro do CCBB – Centro Cultural Banco do Brasil – e do Palácio do Buriti, nos quais o presidente Lula vai despachar em face da “ligeira reforma” do Palácio do Planalto, que vai custar R$ 88 milhões e só ficará pronto em abril de 2010)?
E sabe quanto custa a manutenção do avião presidencial – o AeroLula – adquirido por R$ 56 milhões, mas já recentemente reformado. Uma curiosidade: Entre tantos itens instalaram, no AeroLula, um bar para servir “caipirinhas” que custou 300 mil reais...
Mas, voltemos ao custo da Família Presidencial. Dados fornecidos pela Organização das Nações Unidas e pelo Unesco mostram que os gastos com a manutenção do presidente da república, no Brasil, custam cerca de U$ 12,00 (doze dólares) a cada um dos 180 milhões de brasileiros.
Isto é pouco ou muito?
Comparemos com outros países. A monarquia norueguesa custa U$ 1,58 (um dólar e cinqüenta e oito centavos) a cada súdito daquele país. Com ligeiras oscilações é isso que custa a cada espanhol, sueco, japonês, belga ou holandês para manter a Família Real naquelas nações. No Mônaco e Liechtenstein, a despesa para cada súdito é de 1 dólar/ano. A monarquia mais cara do mundo é a inglesa.Custa U$ 1,82 a cada inglês. Entretanto, atraídos pela tradição da realeza os turistas deixam por ano, na Inglaterra, trezentos milhões de dólares.
Mas voltemos ao Brasil. Você sabe que os cofres do governo sustentam algumas mordomias para os ex-presidentes Sarney, Collor, Itamar e FHC? Eles custam – cada um, é bom que fique claro – 64 mil reais por mês. Isto porque cada ex-presidente do Brasil tem direito aos serviços de quatro servidores para atividades de segurança e apoio pessoal, a dois veículos de luxo com motoristas e ao assessoramento de mais dois servidores.
Ô pais rico este nosso Brasil!
PS – Antes que m’esqueça: você sabe quanto custa uma eleição presidencial aos cofres públicos? Segundo o jornal “Estado de S.Paulo”, a cada quatro anos são torrados 1 bilhão e 200 mil reais para colocarmos um novo presidente no Palácio do Planalto. Mas,note bem, aí não estão incluídas as doações para as campanhas, com os inevitáveis “Caixa Dois”, nos quais o publicitário Duda Mendonça é PHD.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Apresentando o livro "Joaseiro Celeste", do prof. Francisco Salatiel



por Armando Lopes Rafael



Na abertura do “III Simpósio Internacional sobre o Padre Cícero do Juazeiro: E... quem é ele” – no dia 18 de julho de 2004 – evento promovido pela Diocese de Crato e Universidade Regional do Cariri, o ex-reitor da URCA, Prof. André Herzog, daqui mesmo deste lugar onde agora me encontro, pronunciou em seu discurso esta frase:
“Difícil dizer algo sobre o Padre Cícero que não tenha sido dito antes”
Pois este livro do professor Francisco Salatiel de Alencar Barbosa – O Joaseiro Celeste, tempo e paisagem na devoção ao Padre Cícero – traz algo que ainda não foi escrito sobre este sacerdote, mais particularmente sobre seus devotos, estes constituídos – na maioria – por pessoas simples, excluídas nas definições das políticas que traçam os rumos de importantes segmentos da população sertaneja.
O professor Francisco Salatiel é graduado em Filosofia pela Universidade Católica de Salvador. Possui dois mestrados: um em Teologia, feito na Universidade Gregoriana de Roma e outro em Exegese Bíblica, cursado no Instituto Bíblico dos Jesuítas, também na capital da Itália. Seu doutorado foi conquistado com a tese apresentada neste livro, defendida no Departamento de Antropologia da Universidade de Brasília. Além do currículo acadêmico, merece ser salientado que Francisco Salatiel trabalhou no Senado Federal, na função de Consultor Legislativo, da qual se encontra aposentado.
Lendo este seu livro, descobrimos uma faceta na personalidade do Padre Cícero: a de um hábil e envolvente orador que, numa linguagem simples, compreensível, usando figuras comuns e acessíveis às pessoas da sua época, conseguiu atingir o coração das pessoas, desde o abastado proprietário rural ao paupérrimo agricultor do trabalho alugado; desde os que haviam cometido crimes e outros delitos, aos detentores de uma vida correta dentro dos parâmetros cristãos...
Quem ousaria, nos dias de hoje, negar a influência que Padre Cícero exerceu junto a um público heterogêneo, a quem orientou com mensagens singelas, verdadeiras poesias, mais fortes que os cordéis recitados nas feiras da então acanhada vila do Joaseiro do final do século XIX e as duas décadas iniciais do século XX:

“Quem matou não mate mais;
ninguém tem o direito de ofender o seu semelhante.
Só Deus tem o poder de tirar a vida de suas
criaturas.
Quem roubou não roube mais;
quem rouba vai para o inferno.
Quem mentiu não minta mais;
a mentira é filha do diabo e o mentiroso seu
encarregado”
Sem nunca ter escrito um único livro, deixou o Padre Cícero para a posteridade uma herança espiritual, cujo exemplo é uma oração, rezada nos dias de hoje, por milhões de pessoas que habitam as vastidões do semi-árido nordestino:



“Mãe de Deus
Mãe Soberana
Mãe das Dores
De hoje para sempre eu me entrego
a vós como vosso filho e servo;
consagro ao vosso serviço a minh’alma
o meu corpo e tudo que me pertence.
Abençoai a minha família, os meus trabalhos,
os meus haveres; sede minha protetora na vida
e conduzi-me ao céu para viver feliz, por toda
eternidade. Amém”.
O livro do professor Francisco Salatiel transporta-nos ao imaginário dos peregrinos que vêm ao Joaseiro Celeste, numa comovente demonstração da fé popular, fazendo da Terra do Padre Cícero uma cidade-santuário. Este fenômeno tem um nome: romaria. E as romarias ao Padre Cícero – feitas por populações sertanejas que acorrem a Juazeiro do Norte – hoje se constituem num forte componente da cultura regional, estando em vias de serem reconhecidas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional–IPHAN, como um dos patrimônios imateriais do Nordeste brasileiro.
E imaginar que tudo isso surgiu, a partir do episódio da hóstia ensangüentada, acontecimento esse que a hierarquia eclesiástica católica da época empreendeu um grande esforço no sentido de desautorizar. O que efetivamente conseguiu. Mas, a partir dessa desautorização, surgiu a figura do “Santo Padrinho”, e as levas de romeiros passaram a vir ao Joaseiro, incorporando-se à vida e a paisagem da cidade.
Tudo dentro de uma resistência pacífica, humilde e respeitosa que perdurou e perdura até os dias de hoje. Entretanto, um fato veio coroar este silêncio dos romeiros: a correspondência enviada, em 2001, pelo então Cardeal Joseph Ratzinger, Prefeito da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, ao recém-chegado Bispo Diocesano de Crato, Dom Fernando Panico, na qual sondava a conveniência de se proceder a uma releitura dos documentos e textos produzidos sobre o Padre Cícero e as romarias de Juazeiro do Norte.
A solicitação do então Cardeal Joseph Ratzinger, hoje Papa Bento XVI, foi feita para atender às várias solicitações chegadas à Santa Sé sobre esta questão. O novo bispo de Crato, ao chegar a esta diocese, já demonstrava nítida simpatia para com as multidões de romeiros, que acorrem, todos os anos, a Juazeiro, em busca do lenitivo da fé. O pedido do Cardeal Ratzinger foi prontamente atendido.
Dom Fernando Panico promoveu, com a devida prudência e sem açodamento, pesquisas e levantamentos, tendo à frente estudiosos de várias ciências, com vistas a possibilitar uma reconciliação da Igreja Católica com a herança espiritual do Padre Cícero, cuja parte mais visível são as romarias feitas a Juazeiro do Norte. O resultado desse processo encontra-se na Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, no Vaticano, na fase de análise.
Essas romarias começaram a acontecer no final do século XIX, por conta da fama de santidade e de “milagreiro” atribuída ao Padre Cícero. Ao longo do seu processo evolutivo, elas incorporaram e conservam até hoje alguns rituais, praticados nas três fases da peregrinação: a viagem, a chegada e o retorno do romeiro. O principal componente é de caráter religioso: participação nas missas e procissões; confissão dos pecados e a comunhão reparadora; visita aos lugares considerados sagrados pelo romeiro: a Capela de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, o Santuário Diocesano da Mãe das Dores, as igrejas de São Francisco e do Sagrado Coração de Jesus e local considerado emblemático pelos romeiros: a Serra do Horto (onde ficam a grande estátua do Padim e a pedra do “Santo Sepulcro”).
Por outro lado, no desejo de alcançar a salvação eterna na Cidade Santa, o sagrado convive com o profano. Os romeiros executam uma coreografia, não ensaiada, com chapéus de palha na cabeça e rosários no pescoço. Cantam benditos. Soltam fogos. Assistem às exibições das rabecas na Dança de São Gonçalo. Compram, no comércio e nas feiras ao ar livre, imagens de santos, peças artesanais, remédios fitoterápicos e produtos alimentícios, típicos do Cariri, como a “batida” e a rapadura (ambas subprodutos da cana-de-açúcar), doces de buriti, Bálsamo da Vida, dentre outros.
Como bem definiu o escritor Gilmar de Carvalho: “Diante de tanta fé e de tanta festa, que diferença faz que ele (Padre Cícero) seja ou não santo oficial? Poderá haver maior homenagem do que essa canonização espontânea, essa devoção que cresce, cada vez mais, essa cidade que transborda alegria, bodejando salmos, esperando sinais, na atualização desse momento maior que é epifânico, encontro do homem com o divino?”
O livro Joaseiro Celeste analisa com profundidade a conduta do devoto peregrino; sua visão da Cidade Santa, cuja fama foi criada e sustentada pela nação romeira, e tem respaldo numa terra que recebe de coração aberto todos os romeiros do padrinho Cícero.
Ele é fruto das observações e do encantamento do professor Salatiel pelo Joaseiro místico. Retrata a admiração do autor pelos sertanejos – homens, mulheres, jovens e crianças – herdeiros da espiritualidade do Padre Cícero. O Joaseiro Celeste passa a ocupar lugar de destaque na bibliografia, já tão vasta, escrita ao longo dos anos sobre o Padre-Conselheiro.
Oportuna, pois, a divulgação da tese de doutorado do professor Francisco Salatiel. Ela parece lembrar aos céticos e aos críticos do fenômeno das romarias, felizmente hoje em pequeno número, as sábias palavras de Santo Agostinho:
Se não podes entender, crê para que entendas; a fé precede, o intelecto segue.

domingo, 28 de dezembro de 2008

A bandeira do Ceará


Das atuais bandeiras dos estados brasileiros, a única a lembrar a Bandeira da Monarquia é o do Ceará.
Ela surgiu assim: o comerciante fortalezense João Tibúrcio Albano tinha por hábito – no início do século passado – hastear, nas datas importantes, a bandeira do Maranhão, terra da sua esposa. Como cearense João Tibúrcio Albano ficava frustrado, pois seu torrão natal ainda não possuía um pavilhão. Um dia teve a idéia de adaptar às armas do Ceará numa bandeira brasileira. Para isso, mudou a cor da esfera. Saiu a azul com estrelas substituída pela esfera de cor branca. Consta no Anuário do Ceará: “por muito tempo a bandeira idealizada por João Tibúrcio Albano serviu de modelo a muitas outras que tremularam nas sacadas dos nossos educandários.
Só em 1922 o Presidente Justiniano de Serpa assinava decreto instituindo o pavilhão cearense, determinando fosse este formado do retângulo verde e o losango amarelo da bandeira nacional, tendo ao centro um circulo branco em meio do qual deveria situar-se o escudo do Ceará”.
Em 1967 o Governador Plácido Castelo assinou a Lei 8.889 que definia a composição da bandeira do Ceará.

Saudando Padre Rocildo

Saudação ao Padre Rocildo Alves Lima Filho quando de seu ingresso no Instituto Cultural do Cariri
Por: Armando Lopes Rafael


Sinto-me duplamente feliz, ao fazer esta saudação ao Padre Rocildo Alves Lima Filho, no momento do seu ingresso no Instituto Cultural do Cariri. Primeiro, pelo fato de a cadeira que ele ocupará ter como patrono Monsenhor Francisco de Holanda Montenegro, de cuja memória sou devedor dos mais profundos sentimentos de admiração, gratidão e respeito.

Segundo, porque o primeiro ocupante desta cadeira, ou seja, o Padre Rocildo, é reconhecido por todos como um dos bons valores da nova geração de intelectuais do Cariri. Coincidentemente, Padre Rocildo também substitui Monsenhor Montenegro, na direção do tradicional Colégio Diocesano de Crato. Um digno substituto, diga-se de passagem.

Conheci bem o saudoso Monsenhor Francisco Holanda Montenegro. E isto me autoriza a dar um depoimento presencial sobre ele. Fui seu aluno. A ele devo os meus estudos, relativamente aos antigos cursos de Humanidades (ou Ginasial) e Científico, como se chamavam, àquela época. Explico. Oriundo de família pobre, meu pai não possuía condições de pagar um colégio particular para o filho mais velho, pois tinha mais nove filhos para sustentar, com o pequeno salário de funcionário público. Mesmo assim, fui matriculado no Colégio Diocesano de Crato, para fazer o antigo Exame de Admissão ao Ginásio. Concluído este, estavam em curso as providências de minha transferência para uma escola pública, quando, certo dia, Mons. Montenegro me encontrou num intervalo de aula, e disse-me:

– “Vou conseguir uma bolsa de estudo para você. Só espero que, no futuro, você não me atire pedras, como têm feito muitos a quem tenho ajudado...”

E foi graças a essa “bolsa de estudo” que me eduquei, no melhor colégio da cidade... E graças ao que ali aprendi consegui aprovação em concurso público do Banco do Nordeste, no qual trabalhei, por 36 anos, chegando a galgar, naquela instituição, elevadas posições, além de ter, posteriormente, a oportunidade de obter graduação na Universidade Regional do Cariri.

Como disse, guardo imorredouras recordações de Monsenhor Montenegro. Ele era austero, sério, mas sempre comunicativo! Em algumas ocasiões, tinha rasgos de generosidade que causavam admiração. Tendo dedicado quase toda a sua vida à educação, principalmente na direção do Colégio Diocesano de Crato, esta atividade lhe proporcionou conviver com pessoas de diversas categorias sociais. Nesse mister, conseguiu fazer dezenas de centenas de amigos. Foi padrinho de batismo de bom número de crianças, com cujos pais cultivou laços de amizade.

Nos últimos anos de sua vida, já na ancianidade, Monsenhor Montenegro – um Arauto do Evangelho e da Educação – exerceu atividades pastorais na Capela de Nossa Senhora da Conceição, no Bairro Granjeiro, por ele construída e onde repousam seus restos mortais, à espera da ressurreição final. Foi ali, na sua residência, ao lado dessa capela, onde, já aposentado e com o tempo disponível, ele escreveu sua produção intelectual que é de grande valor.
À sua heróica memória a nossa devoção, as nossas orações pelo amor que nos legou e de que não somos merecedores; o nosso agradecimento por todo o bem que fez, na sua profícua existência.

Ilustríssimo e Reverendíssimo Padre Rocildo:

Esta casa o recebe com alegria. Atributos para compor este sodalício, V. Reverendíssima os tem de sobra. Possuidor de dois bacharelados: o de Filosofia, feito no Instituto de Ciências Religiosas, de Fortaleza e concluído em 1983; e o de Teologia, cursado no Instituto Teológico Pastoral do Ceará e concluído em 1987.

Ressalte-se que constam no seu currículo: o curso de especialização em Comunicação Social e Pastoral, feito na Universidade Popular Autônoma de Puebla, no México, em 1994; e a Licenciatura em Filosofia, cursado na Universidade Estadual do Ceará, concluída em 1998.

Merece ainda ser citado o seu Mestrado em Filosofia, feito na Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, Itália, e concluído em 2001. Sua experiência pastoral registra o exercício da função de Pároco nas Paróquias: São José de Crato (1988-1992); Santo Antônio da cidade de Jardim (1992-1999); São Vicente Ferrer, de Crato (em 1999); São João Bosco de Juazeiro do Norte (2001-2002); Sagrado Coração de Jesus, do Bairro do Seminário, em 2003.

Entre os anos 1990 a 1992, Padre Rocildo exerceu o cargo de Reitor do Seminário Diocesano São José. No magistério, registre-se sua passagem nos Colégios Pequeno Príncipe e Santa Teresa de Jesus, ambos de Crato (nos anos 1990-1991); no Instituto Diocesano de Filosofia de Crato (nos anos 1986-2003).

A partir de 2002, passou a ser professor concursado da Universidade Regional do Cariri; e desde 2003 assumiu o cargo de Diretor do Colégio Diocesano de Crato.

Some-se a todas essas atividades, que acabei de mencionar, o fato de Rocildo Alves Lima Filho ter optado por exercer o ministério sacerdotal. Ser Padre – nos difíceis tempos de hoje – é, sobretudo, saber ser rosto de Deus Pai, num mundo órfão de paternidade e ávido do verdadeiro sentido de maternidade...
E se todo padre já carrega em si a missão de um educador, mais ainda é exigido dele, quando é dirigente de um estabelecimento de ensino, tendo como missão preparar a juventude para os embates da vida. Um padre-diretor de um educandário católico – e essa tem sido a missão do Padre Rocildo, nos últimos tempos – deve dar uma dimensão social a cada profissão; deve fazer o papel de um sociólogo que não se abstém de comentar a sociedade, à luz de princípios humanistas, em vez de relatar apenas os fenômenos sociológicos.
Continua bem atual o que escreveu São Paulo – na Carta aos Filipenses – sobre os que optaram por pregar a palavra de Cristo: “Em meio a uma geração depravada e corrompida, vós brilhais como tochas no mundo, pregando-lhe a palavra de Vida”.
Não sendo obrigado a conhecer todas as experiências de vida – coisa que, aliás, nenhum ser humano possui na plenitude - o sacerdote católico deve saber dar uma visão evangélica, sempre que confrontado com temas que interessam ou preocupam os adolescentes, os jovens e até pessoas maduras, nos dias atuais. Por isso, todo o padre é orientador. Muito mais que um orientador, deve ser uma pessoa que ajuda a pensar, a abrir horizontes e a garantir – para quem o procura – um conselho para as decisões da vida.
E tudo isso, pela graça de Deus, Padre Rocildo vem cumprindo a contento.
O Instituto Cultural do Cariri, repito, sente-se honrado em acolher tão ilustre sócio. Portanto, não é ao Padre Rocildo que devemos dar os parabéns, nesta noite. Os parabéns devem ser dados ao Instituto Cultural do Cariri, por abrigar no seu meio uma pessoa com as características do Padre Rocildo...

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Ainda sobre a história da imagem da Mãe do Belo Amor


Alguns leitores do Blog do Crato telefonaram-me dizendo que eu esqueci de incluir a história da imagem da Mãe do Belo Amor na postagem final sobre o Geopark Araripe. Na verdade, não esqueci. É que, anteriormente, tinha escrito algo sobre esta importante imagem do imaginário e da história religiosa do Cariri. Por isso, posto novamente o artigo .

Foto de Jackson Bantim
A Mãe do Belo Amor

Armando Lopes Rafael

A história da imagem venerada em Crato A imagem da Mãe do Belo Amor, pequena escultura de madeira, medindo cerca de 40 centímetros, é venerada, desde os primórdios da Missão do Miranda – origem da cidade de Crato – que data do segundo quartel do século XVIII. Esta estátua sempre foi aureolada por muitos fatos pitorescos e lendários. Monsenhor Rubens Gondim Lóssio, escrevendo sobre esta representação da Virgem Maria, em trabalho publicado na revista Itaytera, afirmou: “Herdada dos ancestrais indígenas, existia uma pequena imagem da assim chamada Nossa Senhora do Belo Amor, de todos venerada”. Não nos foi possível apurar as razões que levaram Monsenhor Rubens a concluir que a imagenzinha da Mãe do Belo Amor fora herdada dos indígenas, primeiros habitantes do Vale do Cariri. Entretanto, no artigo já citado, ele menciona um fato que merece transcrição. Na segunda metade do século XX, um conhecido e respeitado ancião cratense, o Sr. José da Silva Pereira, secretário do Apostolado da Oração de Crato, escreveu ao então vigário da Catedral, Monsenhor Francisco de Assis Feitosa, um documento, do qual extraímos o texto a seguir transcrito:

Há na nossa Catedral três imagens que representam nossa padroeira, Nossa Senhora da Penha. O que vou narrar nestas linhas se refere somente à primeira, que é a menor das 3, esculpida em madeira, como as duas últimas. Trata-se de uma bela imagem que honra a arte antiga e a habilidade de quem a preparou. Segundo dizem os antigos, ela tem para mais de duzentos anos, mas nada deixa a desejar às que se fazem atualmente. Pertencendo ao número das imagens aparecidas, ela tem também a sua lenda bastante retocada de suave poesia. Conta-se que fora encontrada em poder dos índios (sem dúvida os Cariris), passando às mãos de pessoa civilizada. Aqui toma vulto a lenda que gira em torno do seu nome, pois afirmava que, repetidas vezes, ela voltara ao cimo de pedra onde os indígenas a veneravam. Este fato miraculoso deu lugar à fundação da Capela, onde hoje é a nossa Catedral, naquele mesmo sítio, tão profundamente respeitado. Quanto à idade que lhe atribuem, provam-na os documentos referentes à fundação da povoação, hoje transformada nesta importante Cidade de Crato. Para mais corroborar o misticismo que a tradição empresta à nossa querida santa, ocorre que esta desapareceu de nossa igreja há mais de cinqüenta anos, voltando agora aos seus penates, onde está sendo venerada por grande numero de fiéis. Os antigos deram-lhe o nome de “Belo Amor”, o que prova a piedade filial dos nossos antepassados. Respeitemos o passado, sua história, suas tradições e suas lendas, que nos falam sempre daqueles que abriram caminho a nossa vida. (LÓSSIO, 1961: 47).

Quanto ao desaparecimento da imagem da “Mãe do Belo Amor”, mencionado acima, o historiador Irineu Pinheiro esclareceu o episódio:

Lá alguns anos, desapareceu (a imagem da Mãe do Belo Amor), mas, a 29 de abril de 1951, restituiu-a ao culto o velho sacristão Zacarias Luís Arnaud, que a retirara da Igreja, durante os anos de reconstrução, e a guardara em casa, carinhosamente. Acolheu-a o povo com entusiasmo e devoção, a beijar-lhe os pés, a rogar-lhe felicidades. Vimo-la na Sé de Crato, de madeira, de uns dois palmos de altura, de olhos azuis, segurando com o braço e a mão direita o Menino Deus, de olhos também azuis, a agarrar com as duas mãos a gola do casaco de Nossa Senhora, puxando-a para si”. (PINHEIRO, 1955: 22).

Não existem documentos sobre a origem da imagem da Mãe do Belo Amor. Também não se sabe, ao certo, se essa pequena escultura já se encontrava no Sul do Ceará, antes de 1740, ano da chegada de Frei Carlos Maria de Ferrara, para catequizar os índios Cariris, quando fundou a Missão do Miranda, embrião da cidade de Crato. Ressalte-se que, antes da chegada do frade, já tinha o Vale do Cariri certa densidade demográfica, embora não possuísse ainda nenhum aldeamento ou povoado considerável, o que só veio a se formar após 1740. Daí ser possível que a imagem da Mãe do Belo Amor já se encontrasse no Vale do Cariri, antes da vinda do fundador de Crato. Presume-se, pois, que até 1745 esta pequena imagem foi venerada na humilde capela de taipa, coberta de palha, construída por Frei Carlos, isto é, até a chegada da segunda imagem que seria venerada como Padroeira de Crato.

Fontes de consulta para o artigo acima:

LÓSSIO, Rubens Gondim. Artigo “Nossa Senhora da Penha de França, Padroeira do Crato” Revista “Itaytera”, ano VI, nº VI, órgão do Instituto Cultural do Cariri. Tipografia A Ação, Crato (CE) 1961.

PINHEIRO, Irineu. Cidade do Crato. Ministério da Educação e Cultura. Rio de Janeiro, 1955.

Relíquias de Santa Margarida Maria Alacoque chegam à diocese de Crato

A diocese de Crato recepcionará, logo mais às 17:00h, na Sé Catedral de Nossa Senhora da Penha, as relíquias de Santa Margarida Maria Alacoque, ora percorrendo as dioceses brasileiras em peregrinação. Essas relíquias, compostas de um ossário que contém vários fragmentos de ossos e uma parte do tecido cerebral, conservam-se incorruptas há mais de 300 anos.
A peregrinação que vem percorrendo diversos países partiu da França, onde Jesus apareceu à Santa, no século XVII. Conforme Dom Fernando Panico, bispo de Crato, “O objetivo da peregrinação das relíquias da santa é despertar no povo essa devoção e preparar o Brasil para ser consagrado ao Coração de Jesus”. No Cariri, segundo Dom Fernando, essa devoção já está bem arraigada e faz parte da cultura católica nos 32 municípios que formam a diocese de Crato, todos possuidores da associação de fiéis do Apostolado da Oração.
Para o Cura da Sé Catedral, Padre Edmilson Neves, “As peregrinações contribuem para fazer conhecer a mensagem do Coração de Jesus no mundo, que é uma mensagem de paz, amor e reconciliação, além de reavivar a fé dos cristãos no profundo Amor do Divino Coração pela humanidade”.
Quem foi a Santa
Santa Margaria Maria Alacoque era francesa, nasceu em 1647 e acreditava que sua missão era dar impulso à devoção ao Sagrado Coração. Ela morreu no dia 17 de outubro de 1690, aos 43 anos de idade. Foi beatificada no dia 18 de setembro de 1864 e canonizada no dia 13 de maio de 1920.

Sábias palavras


(trecho de uma das leituras, da missa de hoje, celebrada na Sé Catedral de Nossa Senhora da Penha, de Crato):


Se calarem a voz dos profetas, as pedras falarão
Se fecharem uns poucos caminhos, mil trilhas nascerão.
Muito tempo não dura a verdade, nestas margens estreitas demais.
Deus criou o infinito para a vida ser sempre mais.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Considerações sobre o Geopark Araripe (final)

GEOPARK: encontro da ciência com os ritos, mitos e lendas do Homem-Cariri
por Armando Lopes Rafael (*)

A tradição oral do Cariri

Existe na cidade de Nova Olinda uma ONG denominada Fundação Casa Grande-Memorial Homem-Cariri. Criada em 1992, a partir da restauração da Casa Grande da Fazenda Tapera, que foi construída em 1717 no lugar da aldeia dos índios Cariús-Cariris – onde hoje está Nova Olinda – esta ONG faz um trabalho de preservação das lendas e mitos que contam a história do Homem-Cariri.
A Fundação Casa Grande tornou-se uma escola de gestão cultural que tem como missão educar crianças e jovens através dos programas de Memória, Comunicação, Artes e Turismo. Ela divulga fatos guardados e transmitidos oralmente, através dos tempos, pelas populações nativas. São narrações onde se misturam fatos reais e históricos, formando acontecimentos enriquecidos pela fantasia. Essas lendas procuram dar explicação a acontecimentos misteriosos ou sobrenaturais.
Os mitos, segundo o diretor da Fundação Casa Grande, Alembergue Quindins, são narrativas que possuem um forte componente simbólico. Persiste, no imaginário das camadas mais simples da população caririense, o que acontecia com os povos da antigüidade. Aqueles não conseguiam explicar os fenômenos da natureza, através de definições científicas.
Por isso criavam mitos, com o objetivo de dar sentido às coisas do mundo. Os mitos também serviam como uma forma de passar conhecimentos e alertar as pessoas sobre perigos, defeitos e qualidades do ser humano. Deuses, heróis e personagens sobrenaturais se misturavam com fatos da realidade, para dar sentido à vida e ao mundo.O Cariri é pródigo dessas narrativas, conservadas no imaginário de sua gente. Abaixo falaremos de duas tradições caririenses: uma imaginária (A Pedra da Batateira), outra real (A imagem da Mãe do Belo Amor), ambas entrelaçadas, constituindo-se, ao mesmo tempo, imaginárias e reais.

A lenda da Pedra da Batateira


Rosemberg Cariri (*) "A Mãe do Belo Amor", foto de Jackson Bantim
((*) Cineasta. O texto acima foi extraído do livro “Eu Sou a Mãe do Belo Amor”, do Padre Antônio Vieira, publicado pela IOCE, Imprensa Oficial do Ceará. Fortaleza, 1988.)

Não é grande a distância que vai da lenda à História, do mito à realidade. Ambos se mesclam na confluência dos mesmos fatos e circunstâncias, apenas com as variantes definidoras da rotas trilhadas. O mito completa a História, e esta explicita aquele.Lendo os originais do livro do Padre Antônio Vieira, “Eu Sou a Mãe do Belo Amor”, acudiu-me à lembrança as estórias ouvidas, ainda na infância, sobre a lenda da Pedra da Batateira, e mais tarde se me aguçou a curiosidade de realizar pesquisas para aprofundamento da temática, por ser, sem dúvida, de alta relevância histórica e sociológica.
Através de muitas crônicas históricas, sabe-se que os índios da chamada, Nação Cariri (Kariri ou Quiriri), os primitivos habitantes do Vale do Cariri e dos sertões nordestinos, do Rio São Francisco à Serra da Borborema, segundo versão de Capistrano de Abreu, provieram de “um lago encantado”, provavelmente do Amazonas ou Tocantins, sendo expulsos dessa região como do litoral pelos Tupinambás e Tupiniquins.
Como se vê, a água era predominante na cultura desses silvícolas. Era tradição serem de uma bravura e ferocidade estupenda, e como símbolo e troféu dos seus feitos épicos e homéricos, se ornamentavam com dentes de tubarão, jacaré e onça.Os colonizadores, na sua gana predatória de domínio dos campos de criação de gado, tentaram eliminá-los nas chamadas “guerras justas”, cujos embates se alongaram de 1683 a 1713, nos cruentos e desumanos combates, conhecidos historicamente como “Confederação dos Cariris” ou a “Guerra dos Bárbaros”. E os conquistadores só conseguiram dominá-los e massacrá-los, graças ao esforço ponderável dos bandeirantes paulistas, em gente, armas e municiamento.
Foi uma guerra de extermínio, autêntico genocídio, como se costumava realizar à revelia da lei e dos princípios éticos e humanitários, nas novas terras descobertas.Os remanescentes da tribo dos índios Cariris, alocados no Vale Caririense, trouxeram codificada, na sua sensibilidade, intuição e memória, a evocação da imensa Bacia Amazônica, das suas enchentes devastadoras, e não foi difícil à sua fértil imaginação idealizar que todo o Vale Caririense fosse um mar subterrâneo, com imenso caudal represado pela Pedra da Batateira; e precisamente onde hoje está situada a Matriz de Crato fosse a cama da baleia ou “Iara”, a Mãe das Águas, e que, um dia, a Pedra da Batateira rolaria, e todo o Vale Caririense seria inundado, e ninguém conseguiria sobreviver.
Os primeiros missionários que catequizaram os índios Cariris, no primeiro quartel do século XVIII, deixaram como lembrança uma imagem de Nossa Senhora, esculpida em madeira, com 40 centímetros de altura, tendo o Menino Jesus nos braços, a quem deram o nome de “Mãe do Belo Amor”, para atenuar os temores fatídicos da lenda e substituir os maus presságios da “Mãe das Águas” pela proteção carinhosa e afetiva da “Mãe do Belo Amor”.
E a imagem foi colocada exatamente sobre uma pedra do Rio Granjeiro, debaixo de um nicho de palha. Quando da instalação da Paróquia, mais tarde, a imagem passou a ser venerada com a invocação de Nossa Senhora da Penha, por duas circunstâncias históricas: o fato de ela ter sido colocada sobre uma rocha, e de que os capuchinhos que construíram a capela de palha, onde se encontra a Igreja-Catedral, eram de origem francesa, donde a singularidade da denominação de “Nossa Senhora da Penha de França”.
Outra versão lendária é a de que os índios vencidos, em lutas anteriores, haviam “encantado” (tampado) a grande nascente da Chapada do Araripe com a Pedra da Batateira, e que as águas acumuladas, no subsolo, acolhiam uma serpente sagrada, que faria deslocar a pedra, e todo o Vale do Cariri seria inundado, e que os índios Cariris voltariam a ser uma nação livre, senhores do mar, viveriam na paz e tranqüilidade de um Paraíso.
A lenda ultrapassou as fronteiras do Cariri, e o cineasta Hermano Penna sustenta a tese de que Antônio Conselheiro, quando se separou de Joana Imaginária, vagava pelos sertões cearenses, tendo trabalhado nos engenhos de rapadura do Cariri, onde certamente colheu os elementos lendários da Pedra da Batateira. Tempos depois, o Conselheiro, seguido pelo grupo de camponeses espoliados dos latifúndios, pregava em pleno sertão adusto da Bahia “que o sertão ia virar mar”. E a profecia se cumpriu.
Canudos hoje está coberto pelas águas, e a barragem de Sobradinho e Itaparica cobriram meio mundo.Fato curioso é que os índios Cariris de Mirandela e Saco do Morcego, catequizados pelos capuchinhos, contribuíram com 300 caboclos flecheiros na defesa da cidadela do Império do Belo-Monte: Canudos.O mito ainda hoje persiste na memória e imaginação do povo, mesclando-se com outras variantes, de tal forma que muita gente adventícia da Paraíba e Pernambuco, de descendência dos índios Cariris, residente em Juazeiro, recusa-se a morar em Crato, temendo a vingança da Pedra da Batateira.
Padre Cícero Romão Batista, filho de Crato, certamente, na infância, deve ter guardado estórias ouvidas que o induziram a desenvolver, mais tarde, como sacerdote, o culto a Nossa Senhora com a invocação de Mãe das Dores.Por isso é que o poeta João Cristo-Rei, com ares de profeta, anuncia que, quando se sucederem esses fatos lendários:“Juazeiro fica trancado e seguroCercado de muro sem contradição,Seu grande mistério se estende e cresceE nisto aparece o Rio Jordão”Sempre a força mítica da lenda das águas.
E este novo tempo, preconizado pelo poeta, tem a mesma visão do profeta Isaías “com uma nova era de mel e fartura, quando pedra será pão, e o mundo viverá do Belo Amor entre os homens”.É certo o que diz a sabedoria multissecular da gente simples: “Deus fala pela boca do povo”.Pesquisas científicas atestam, que há milhões de anos, todo o Ceará, que é murado pelos contrafortes das serras, já foi mar, e um cataclismo telúrico determinou a depressão geológica de que temos o documento sedimentário dos fósseis encontrados no sopé da Chapada do Araripe, e as marcas da erosão nas rochas graníticas e faldas das montanhas, ao embate das ondas revoltas do mar.Podemos concluir parafraseando Shakespeare: “O povo sabe muito mais do que a nossa vã filosofia”.
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(*) Armando Lopes Rafael é historiador. Sócio do Instituto Cultural do Cariri e Membro-Correspondente da Academia de Letras e Artes “Mater Salvatoris” de Salvador (BA).

Considerações sobre o Geopark Araripe (2ª parte)




GEOPARK: encontro da ciência com os ritos, mitos e lendas do Homem-Cariri
por Armando Lopes Rafael (*)

As romarias ao Padre Cícero (um santo não-oficial da Igreja Católica), feitas por populações sertanejas que acorrem, em certas datas do ano, a Juazeiro do Norte são outro forte componente da cultura regional. (Na foto ao lado a Procissão da Romaria das Candeias) Essas romarias começaram a acontecer no final do século XIX, por conta da fama de santidade e de “milagreiro” atribuída ao Padre Cícero. Ao longo do seu processo evolutivo, elas incorporaram e conservam até hoje alguns rituais, praticados nas três fases da peregrinação: a viagem, a chegada e o retorno do romeiro.
O principal componente é de caráter religioso: participação nas missas e procissões; confissão dos pecados e a comunhão reparadora; visita aos lugares considerados sagrados pelo romeiro– Capela de N.Sra. do Perpétuo Socorro (onde está sepultado o Padre Cícero), Santuário da Mãe das Dores, igrejas de São Francisco e do Sagrado Coração de Jesus. Também é considerado um local sagrado pelos romeiros a colina do Horto (onde ficam a grande estátua do Padre Cícero e a pedra do “Santo Sepulcro”), visita obrigatória aos que vêm renovar sua fé na cidade-santuário. Por outro lado, o sagrado convive com o profano. Os romeiros executam uma coreografia, não ensaiada, com chapéus de palha na cabeça e rosários no pescoço. Soltam fogos. Assistem ás exibições das rabecas na Dança de São Gonçalo. Compram, no comércio e nas feiras ao ar livre, imagens de santos, peças artesanais, remédios fitoterápicos e produtos alimentícios, típicos do Cariri, como a rapadura e a “batida” (ambas subprodutos da cana-de-açúcar), doces de buriti, dentre outros.
Como bem definiu o escritor Gilmar de Carvalho: Diante de tanta fé e de tanta festa, que diferença faz que ele (Padre Cícero) seja ou não santo oficial? Poderá haver maior homenagem do que essa canonização espontânea, essa devoção que cresce, cada vez mais, essa cidade que transborda alegria, bodejando salmos, esperando sinais, na atualização desse momento maior que é epifânico, encontro do homem com o divino?
A URCA, ao longo dos seus 20 anos de existência, não se manteve estanque ou isolada das comunidades localizadas no território da sua atuação. A Universidade sempre procurou compartilhar com a sociedade os conhecimentos produzidos na Academia. Para tanto, promoveu simpósios, seminários e palestras. Firmou convênios e realizou pesquisas.
E até mesmo quando seu Conselho Universitário outorgou a alguma personalidade o título de Professor Honoris Causa, fê-lo sempre em reconhecimento à contribuição que o homenageado deu para o conhecimento e divulgação do homem e do meio nordestino. No caso específico do Geopark Nacional do Araripe, uma das preocupações da URCA tem sido o resgate da herança e o redescobrimento do elemento nativo, oriundo da etnia Cariri. Sabe-se que a contribuição indígena foi – e continua sendo – importantíssima para a variegada composição das ricas manifestações populares da região.
O homem da Chapada do Araripe (foto abaixo à direita ) é vinculado umbilicalmente a sua terra, semelhante a uma árvore, cujas raízes sugam do chão os nutrientes para viver.
É obrigação de a Universidade divulgar essa profunda ligação homem-terra, o que, aliás, já vem sendo feito. Urge difundir os saberes e fazeres do Homem-Cariri. Aprender seu conhecimento sobre a flora, o processo da escolha da melhor fibra para a produção de peças artesanais – como a peneira e a urupema – e conhecer o barro utilizado para produzir o melhor pote. Resgatar as atividades das Casas de Farinha, locais onde os operários entoam canções plangentes, em meio ao trabalho das “raspadeiras” e dos “puxadores” de roda. Outras atividades do homem caririense estão a merecer esse resgate, como o vaqueiro da Chapada, os cortadores da pedra laminada de calcário, os produtores do carvão da serra...

Ritos, mitos e lendas
Na história primeva do Vale do Cariri, ganhou destaque uma cachoeira – localizada no município de Missão Velha – que era apresentada como um lugar misterioso e sagrado para os primeiros habitantes do Vale: os índios Cariris. Estes, naquele aprazível sítio, interagiam com a natureza. Na cachoeira existe a Pedra da Glória, donde, ainda hoje, a voz humana é projetada com sons metálicos. Dizem que essa pedra era o local escolhido pelos silvícolas para suas cerimônias místicas.
O imaginário popular conservou muitas lendas, a partir da Cachoeira de Missão Velha (foto abaixo à direita) Falava-se na existência de passagens subterrâneas que, partindo do local, levariam a castelos encantados, cheios de tesouros. Traços da cultura da Península Ibérica? Na realidade, um contraste com o estado de penúria de parte da população que vivia e vive marginalizada do exercício da cidadania.
Nos dias atuais, esta Cachoeira virou local para encontros dos adeptos do Candomblé, religião introduzida no Brasil pelos escravos negros, e que vem crescendo, ultimamente, até nas pequenas cidades do interior brasileiro. Esta outra realidade do presente, da qual o Cariri não pode fugir. Quem sabe, vem daí esta interação – que perdura até os dias de hoje – entre o Homem-Cariri e a terra que lhe serve de habitat.

Dotada de belas paisagens – emolduradas pela Serra do Araripe – a Região do Cariri é muito mais do que um vale fértil, privilegiado de águas abundantes, onde predomina o verde das matas e dos canaviais. Aqui foi plasmada uma cultura sui generis, formada por duas correntes. A primeira é remanescente das manifestações culturais dos índios Cariris. A segunda, que se fundiu com a primeira, teve origem na Península Ibérica e foi trazida pelo colonizador branco. Desta última conservamos as festas do Pau da Bandeira, que abrem as novenas dos padroeiros das cidades do Cariri. Uma coisa uniu essas duas correntes: a simbiose com a terra, que influenciou e modificou os costumes importados.
(continua)
(*) Armando Lopes Rafael é historiador. Sócio do Instituto Cultural do Cariri e Membro-Correspondente da Academia de Letras e Artes “Mater Salvatoris” de Salvador (BA).

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Considerações sobre o Geopark Araripe (1ª parte)

Dedicado ao Prof. André Herzog,
implantador do Geopar Araripe
GEOPARK: encontro da ciência com os ritos, mitos e lendas do Homem-Cariri
por Armando Lopes Rafael (*)

“Poucas regiões do Brasil têm, como o Cariri, uma natureza tão pródiga, uma história tão rica e uma cultura popular tão diversificada. Festas, folguedos, ritos, mitos, lendas, narrativas orais, artesanatos, mestres brincantes e de ofício, santuários e sítios sagrados, marcos históricos e conjuntos arquitetônicos, sítios naturais e redutos ecológicos, tradições culinárias, passeios e belas paisagens, feiras e mercados, enfim, um número infinito de possibilidades e atrações a serem exploradas. Junte-se a isto uma vida intelectual e acadêmica em pleno crescimento, com sólidas instituições públicas, universidades, artistas, escritores e um plantel de profissionais técnicos e liberais da melhor qualidade”. (Oswald Barroso)
Resgatar o passado, reinventar o presente
Incentivar as mudanças tecnológicas e, simultaneamente, investigar e preservar as tradições populares, eis o desafio da Universidade Regional do Cariri. O Geopark Nacional do Araripe, que a URCA planejou, insere-se neste desafio. A sua concepção não contempla apenas o desenvolvimento auto-sustentável da Chapada do Araripe. Vai mais além. Inclui a manutenção do potencial ecológico, geológico, histórico e das tradições de uma região considerada das mais ricas do Brasil, no que diz respeito à cultura popular. Apesar do processo de modernização por que vem passando a sociedade do Cariri, insuflado pelos ventos da globalização que atinge todos os setores da vida, as tradições populares do Sul do Ceará, e seu entorno, não desapareceram no modo de ser e de viver dos seus habitantes. O povo, de forma inconsciente, vem atendendo ao apelo da UNESCO, no sentido da preservação do patrimônio imaterial, este, infelizmente, muitas vezes, relegado em relação à evolução tecnológica. Nossas tradições continuam presentes no cotidiano dessas populações, num processo em transformação, é verdade, mas ainda latentes. Exemplos dessas presenças são as xilogravuras e as poesias narrativas, populares, impressas, mais conhecidas como Literatura de Cordel. Ambas constituem-se em forte componente das tradições populares do Cariri. Um dos grandes divulgadores da xilogravura e da Literatura de Cordel, no passado, foi Tipografia e Editora Lira Nordestina, localizada em Juazeiro do Norte, que exerceu influente papel de comunicação, tanto no meio citadino como no rural, de vasta área nordestina. Lamentavelmente, ao longo dos últimos anos, a Lira Nordestina foi perdendo sua importância para outros modernos meios de comunicação.
A Universidade Regional do Cariri tomou a si a tarefa de revitalizar essa tipografia, resgatando-a como o maior pólo difusor de literatura popular de folhetos de cordel e xilogravura do Brasil. A Lira Nordestina, fundada em 1926, estava praticamente abandonada, quando foi incorporada à URCA. Após o retorno do acervo, dos equipamentos e dos artesãos da Lira e dentro da sua política de valorizar a cultura popular, a Universidade Regional do Cariri reinstalou a Tipografia-Gráfica no Campus do Pirajá, em Juazeiro do Norte. Em seguida, procurou ajuda financeira da Caixa Econômica para reativá-la. Depois de conseguir este apoio financeiro, através de concorrência pública, nacional, a Lira Nordestina foi selecionada, recentemente, pelo Ministério da Cultura, como um dos “Pontos de Cultura do Brasil”.No Vale do Cariri, a tradição popular mantém-se também através da dança e da música. As bandas cabaçais, herança da musicalidade dos índios Cariris, perduram até os dias atuais. A referência mais antiga às bandas cabaçais pode ser encontrada no livro do naturalista escocês George Gardner (“Viagem ao Interior do Brasil”. São Paulo: Cia. Ed. Nacional, 1942. 468 páginas). Ele esteve no Sul do Ceará, em 1838. Na sua passagem pela Vila Real do Crato (localidade nascida de um aldeamento dos índios Cariris), Gardner registrou: “toda a população da vila chega a dois mil habitantes, na maior parte índios ou mestiços dele descendentes”. Ainda em Crato, Gardner teve oportunidade de assistir aos festejos de Nossa Senhora da Penha, Padroeira da cidade, citada por ele erroneamente como Nossa Senhora da Conceição. As manifestações da cultura popular, presentes nos festejos religiosos, não agradaram ao escocês. Foi o caso da banda cabaçal, assim descrita pelo naturalista: “(...) uma banda de música, com dois pífanos e dois tambores, mas a música era desgraçada...” Antigamente, a banda cabaçal era composta por dois pífanos e dois tambores (zabumbas). Hoje, geralmente, ela é formada por dois pífanos, uma zabumba, tarol e pratos. A mais famosa banda cabaçal do Cariri é a dos Irmãos Anicetos. Seus componentes, residentes num subúrbio de Crato, mantêm a tradição transmitida pelo pai, que a aprendeu com descendentes dos índios Cariris. A terceira geração dos Anicetos já começa a incursionar nesse ofício.
(continua)
(*)Armando Lopes Rafael é historiador. Sócio do Instituto Cultural do Cariri e Membro-Correspondente da Academia de Letras e Artes "Mater Salvatoris" de Salvador (BA).

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

É Natal,tempo de comemorar o nascimento do Rei dos Reis




REI DOS REIS
Por Otávio Luiz Rodrigues Júnior (*)

É Natal, tempo de comemorar o nascimento do Rei dos Reis. E recordo dessas peculiaridades da língua para comentar um episódio que faz refletir sobre o que é ser cristão. O Grão-Ducado de Luxemburgo é governado por um monarca católico, Henrique de Nassau – parente do nosso Maurício de Nassau – governador holandês de Pernambuco. O Parlamento luxemburguês aprovou há poucos dias a lei que permite a morte de pacientes em estado terminal, a chamada eutanásia. Tida como uma morte misericordiosa,porque evita o sofrimento do doente irrecuperável, a eutanásia é fortemente objetada pela Igreja. Independentemente disso, o simples fato de ter sido uma prática comum dos nazistas já deveria inspirar toda a repulsa,assim como o aborto,a eugenia e outras barbaridades cometidas contra nossos irmãos judeus.
Pois bem, Henrique de Nassau (na foto ao lado,juntamente com sua esposa), um príncipe, aristocrata poderoso, acima dos comuns, resolveu colocar em risco seu trono e decidiu não sancionar a lei. Tal como no Brasil, em relação ao presidente da República, uma lei só vale se contiver a assinatura do soberano de Luxemburgo. Por objeções de consciência, o grão-duque, católico fervoroso,preferiu ser um humilde servo do Rei dos Reis e, em nome da fé, ameaça seu trono na terra.Ele seguiu o preceito bíblico e abandonou o cálculo político.O monarca optou em servir o carpinteiro da Galiléia e renunciar às glórias deste mundo.
A crise política em seu país é imensa. Os deputados que aprovaram a lei,muitos dos quais ditos cristãos,pretendem agora retirar os poderes do grão-duque e impedi-lo de participar do processo legislativo.Há movimentos pela proclamação da República.O episódio deixa três lições.
A primeira está na necessidade de que, até mesmo nas democracias, existam limites contra os abusos da maioria. Hitler chegou ao poder e aprovou todas as leis contra a Humanidade dentro da Constituição alemã e com voto popular. O grão-duque,ao agir como agiu,postou-se corajosamente contra a maioria.Um Chefe de Estado,por sua simples autoridade moral,pode transformar a realidade política.
A segunda é que torna perceptível o quanto “descristianizada” está a Europa, antigo farol do mundo na propagação da fé. A terceira lição é voltada para nossos corações. Quantas vezes renunciamos à verdade, à defesa de nossos amigos, quando caluniados em sua ausência, ou à ética,quando podemos enriquecer?
Quantas vezes escolhemos o caminho fácil da covardia e do não-enfrentamento, quando valores humanos são sacrificados em nome da comodidade de nossas vidas?A lição do humilde servidor de Deus, Henrique de Nassau, deve ser recordada. Ele como um rei, preferiu ser fiel ao Rei dos Reis. Quem de nós faria semelhante coisa?

(*) Otávio Luiz Rodrigues Júnior é Doutor em Direito Civil (USP), professor universitário (IDP, IESB, FA7), advogado da União e membro da Associación Iberoamericana de Derecho Romano-Oviedo.

O NATAL E AS EDIFICAÇÕES PERENES

O mito do natal é um dos mais curiosos deste mundo. Não se pode dizer que seja o mito fundador do cristianismo, mas com certeza é o do nascimento de quem o funda. E quem funda algo, fundamenta, constrói fundações, ergue um edifício permanente sobre tais alicerces. E o edifício, mesmo que um dia se vislumbre como arqueologia, não se desapega da humanidade errante, sob as intempéries do céu que recobre sua paisagem. Não se desapega, pois são arqueologia e símbolos gráficos prolongados além dos milênios.

A verdade é que somos eventos precários no reboliço do mundo. Tão precários que alguns minutos sem oxigênio é fatal, dias sem água e comida interrompe toda uma fisiologia que já existe há milhares de anos. Como indivíduos somos precários. Mas tal precariedade não reduz toda a ventura humana. É que a humanidade e suspeito que parte da vida no planeta terra, além de evento como ser, também guarda uma dimensão de estar no mundo. E quando falamos em mundo já estamos numa dimensão cósmica, muito além de tudo que sabemos como estoque, mas muito aquém do que não sabemos como possibilidade. Muito existe de futuro no cosmo.

Agora ao nascimento. É que no início chamei o natal de curioso, mas não expliquei. O natal como fundamento do cristianismo, portanto de uma teologia e de uma religião, é muito mais que princípios ou edificações da paz humana. A irmandade entre todos. Na verdade o nascimento é, em sua raiz, a dinâmica do movimento geral do planeta e de toda natureza de energia e matéria no cosmo. A edificação é um momento de sustentação, como um instantâneo da significância geral. Não se descola do movimento, mas tem uma estática que tenta representar todo ele.

Não concluo se consegue de fato representar todo ele. Esta dúvida não tem importância. Pois o que o natal mais quer dizer não são os presentes, as comidas, as imagens do norte em neve, é o que todas as pessoas sabem, num determinado dia, pelo menos, das possibilidades do futuro. O mundo é muito mais amplo e vasto do que as regras de uma sociedade ou de uma economia, desde que a simbologia do natal ofereça a visão além da bruma. Quando se nasce, é que o sopro agita a calmaria da superfície. Quando todos nascem, rochas intrusivas afloram à superfície.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Museu de Arte de Crato

Dedicado ao Prof.
João Pierre que
publicou um livro
sobre este museu
O Museu de Arte do Crato Vicente Leite foi criado no governo do prefeito Pedro Felício Cavalcanti, em 1974. Seu idealizador foi o artista R.Pedrosa. Leva o nome de Vicente Leite, pintor de grande talento, figura de renome nacional na vida artística, nascido em Crato e falecido no Rio de Janeiro em 1941.
Ali, estão expostos obras de arte de incalculável valor, a exemplo da escultura em gesso de Celita Vaccani denominada “Venite ad me omnes”, uma imagem de Jesus Cristo de grande beleza. Pertencem ao acervo deste museu 22 telas da pintora Sinhá D’Amora, alta e marcante expressão entre os artistas de sua geração.
Merecem destaque, dentre as valiosas obras de arte do Museu Vicente Leite, as seguintes:
- Aquarela “Vista Panorâmica do Crato em 1865”, feita por José Reis de Carvalho, integrante da “Commissão Scientífica de Exploração” – conforme grafia da época – criada pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro-IHGB, com a finalidade de explorar o interior de algumas Províncias, devendo fazer coleções de produtos naturais para o Museu Nacional e para os das Províncias” (ver abaixo) - Dois desenhos a lápis de Pedro Américo um dos maiores e mais famosos pintores do Brasil, que se notabilizou por pintar cenas históricas e épicas, incluindo a do Grito do Ipiranga, que ilustra a cena da Independência do Brasil;
- Óleos sobre tela Pino Della Selva, Mazza Francesco, Vicente Leite, Jair Picado, dentre outros.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

História de Crato (final)

Por
Armando Lopes Rafael

A Praça da Sé, no primeiro quartel do século XX, numa solenidade cívico-religiosa
O pioneirismo do Crato
A
s brigas fratricidas ficam para trás. Em 1855, a 7 de julho, é fundado no Crato o primeiro jornal do interior do Ceará. Trata-se do semanário “O Araripe”, cujo proprietário é o jornalista João Brígido dos Santos, ligado ao Partido Liberal. No último quartel do século XIX, a população do Crato já não se ocupa das brigas políticas. A sociedade cratense volta suas vistas para conquistas no campo da educação que perduram até os dias atuais.
Em 1874, o primeiro bispo do Ceará, Dom Luiz Antônio dos Santos, atendendo à sugestão de um filho do Crato, Padre Cícero Romão Batista, fixa residência temporária nesta cidade, com o objetivo de construir um Seminário, a funcionar como um suplementar do Seminário Episcopal, existente na sede da diocese, Fortaleza, distante cerca de 600 Km do Cariri. Em 1º de março de 1875, ainda de forma precária, o Seminário São José do Crato é colocado em funcionamento.Em 8 de dezembro de 1908, o vigário Pe. Quintino Rodrigues de Oliveira e Silva, convoca as autoridades e lideranças da cidade, com o objetivo de solicitar ao Bispo do Ceará encaminhar a Santa Sé o pedido de criação da diocese do Crato. É formada uma comissão com as lideranças e os notáveis da terra para os trabalhos preparatórios da nova diocese.
Em 20 de outubro de 1914, o Papa Bento XV, através da Bula “Catholicae Ecclesiae”, cria a diocese do Crato, a primeira do interior do Ceará. Em 10 de março de 1915, o vigário Quintino é preconizado primeiro bispo da nova igreja particular. A partir de então, diversas iniciativas da Diocese do Crato são responsáveis pelo surto de progresso sentido na cidade. Uma delas a criação, em 1921, da primeira instituição de crédito do Sul do Ceará, o Banco do Cariri, que presta grandes benefícios ao comércio e à lavoura da região.
Em 1922, Dom Quintino torna-se o pioneiro do ensino superior, no interior do Ceará, porquanto dota o Seminário São José de Curso Teológico. Este, sub-dividido em Curso de Filosofia, feito em dois anos, e Curso de Teologia, em quatro anos, proporciona ao novo presbítero receber no Crato a licenciatura plena. Dom Quintino planta, assim, a semente germinativa da Faculdade de Filosofia do Crato (criada em 1959) que foi, por sua vez, o embrião da atual Universidade Regional do Cariri (URCA), criada em 1986. Esta universidade leva a instrução superior in loco à vasta área do Estado do Ceará. E recebe no Crato alunos residentes nos Estados do Piauí, Paraíba e Pernambuco. Hoje, o Crato é um dos mais importantes pólos do ensino universitário, no Nordeste brasileiro.
Encerremos com mais dois registros. Primeiro, em 1946, há quase sessenta anos, quando não se fala em ecologia ou biodiversidade, o Crato é palco de nova ação pioneira. Através do Decreto n° 9.226 de 02 de maio de 1946, o Governo Federal cria a primeira reserva florestal do Brasil. Trata-se da Floresta Nacional do Araripe, que tem boa parte da sua reserva encravada no Município do Crato. Constituída por mata primária, clima ameno, além de possuir boa variedade de fauna e flora nativas, fontes naturais, pequenas grutas e fósseis, a Floresta Nacional do Araripe vem permitindo a pesquisa científica, recreação e lazer, educação ambiental, manejo florestal sustentável e turismo.
Segundo, em 2005, por iniciativa do Governador Lúcio Alcântara, foi criado o Geopark Araripe (foto abaixo, à direita, canion da Cachoeira de Missão Velha) sob a coordenação da Universidade Regional do Cariri – URCA, na gestão do Reitor André Herzog. A sede do Geopark Araripe fica na cidade de Crato. Criado com o objetivo preservar a história geológica da Chapada do Araripe, este Geopark envolve uma área de 10 mil Km2 sem equivalente no mundo na presença da fauna e da flora em fósseis de 70 a 120 milhões de anos em abundância, diversidade e estado de preservação. Em dezembro de 2005, o Governo do Estado do Ceará apresentou postulação, junto à Divisão de Ciências da Terra da UNESCO, que reconheceu em setembro de 2006 o Geopark Araripe comoo primeiro Geopark do continente americano e do Hemisfério Sul.
É o Crato pioneiro. Sempre à frente dos acontecimentos futuros...

Referências bibliográficas:
-ALBUM HISTÓRICO DO SEMINÁRIO EPISCOPAL DO CRATO. Rio de Janeiro: Typografia Revista dos Tribunaes,1925. 245 p.
-ALCÂNTARA, José Denizard Macedo de. Notas Preliminaresin Vida do Brigadeiro Leandro Bezerra Monteiro, autoria de J. Dias da Rocha Filho. 2 ed. Fortaleza: Secretaria da Cultura, Desporto e Promoção Social do Ceará, 1978. 170 p.
-ARAÚJO, Padre Antônio Gomes. A Cidade de Frei Carlos. Crato (CE): Faculdade de Filosofia do Crato, 1971. 165 p.
-FIGUEIREDO FILHO, J. Engenhos de Rapadurado Cariri.Rio de Janeiro: Ministério da Agricultura, 1958. 74 p.
-LÓSSIO, Rubens Gondim. Artigo “Nossa Senhora da Penha de França, Padroeira do Crato” in revista “Itaytera”, ano VI, nº VI, órgão do Instituto Cultural do Cariri, Crato (CE), 1961. Tipografia A Ação.
-NEVES, Napoleão Tavares. Cadernos do IPESC 1. Juazeiro do Norte: Edições IPESC-URCA, 1997. 24 p.
-PINHEIRO, Irineu. Joaquim Pinto Madeira. Fortaleza: Imprensa Oficial do Ceará, 1946. 55 p.
-PINHEIRO, Irineu.O Cariri.Fortaleza: Edição do Autor, 1950. 272 p.
-PINHEIRO, Irineu. Efemérides do Cariri. Fortaleza: Imprensa Universitária do Ceará, 1963. 555 p.
-RAFAEL, Armando Lopes. Brigadeiro Leandro Bezerra Monteiro: o contra-revolucionário do Cariri de 1817.Crato: Tipografia do Cariri, 2000. 28 p.
-ROCHA FILHO, J. Dias da. Vida do Brigadeiro Leandro Bezerra Monteiro(1740-1831) Notas Preliminares de José Denizard Macedo de Alcântara. 2 ed. Fortaleza: Secretaria da Cultura, Desporto e Promoção Social do Ceará, 1978. 170 p.
-SOBREIRA, Padre Azarias. O primeiro Bispo do Crato (Dom Quintino).Rio de Janeiro: Empresa Editora ABC Limitada, 1938. 183 p.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

História de Crato (3)

Por
Armando Lopes Rafael
Vista da Cidade de Crato", aquarela de José Reis de Carvalho pintada em 1859, pertencente ao Museu de Artes de Crato. Assim era Crato àquela época. A atual Sé Catedral só tinha, à época, uma torre, a do lado Sul. José Reis integrava a Comissão Científica de Exploração das Províncias do Norte e Nordeste, apoiada pelo Imperador Dom Pedro II.

O mártir da monarquia
(Abaixo, à direita, a bandeira do Brasil Império 1822-1889)
O Cariri continuou, durante algum tempo, dividido entre simpatizantes da ideologia republicana e adeptos da Monarquia. O confronto dessas idéias foi motivo de contendas as mais variadas. Joaquim Pinto Madeira era o que poderíamos chamar de “caudilho”. Rico proprietário rural e chefe político da Vila de Jardim, era por índole um afeiçoado às coisas da Monarquia. Foi fundador da sociedade secreta “Trono do Altar”, que defendia a monarquia absoluta. Lutou ele, ativamente, contra os promotores dos movimentos libertário-republicanos da Revolução Pernambucana de 1817 e da Confederação do Equador de 1824. Após a derrota da família Alencar, em 1817, coube a Pinto Madeira, à época ocupando o posto de Capitão de Ordenança, conduzir até a cidade de Icó os 20 malogrados presos políticos. Provavelmente, durante o percurso, esses prisioneiros sofreram humilhações por parte do caudilho. O que era esperado, face ao temperamento belicoso de Pinto Madeira.Em 1831 o imperador Dom Pedro I abdica do trono brasileiro e volta para Portugal, onde toma o nome de Dom Pedro IV.
Os adversários de Pinto Madeira aproveitaram esse acontecimento para dele se vingar. Acuado, o caudilho, com a ajuda do vigário de Jardim, Padre Antônio Manuel de Sousa, armou cerca de dois mil homens, a maioria com rudimentares espingardas, e invadiu o Crato, em 1832, para dar caça aos seus inimigos liberais. Dizem que de tanto abençoar as espingardas dos jagunços e, na falta destas, dar bênçãos a cacetes (pequenos bastões de madeira) o Padre Antônio Manuel de Sousa ficou conhecido como "Padre Benze-Cacetes". Pinto Madeira e o Vigário Manuel foram vitoriosos no Crato, mas logo começaram a sofrer reveses.
Terminaram por se render ao General Pedro Labatut, um mercenário francês que atuava no Brasil, desde as lutas pela independência. Presos, ambos foram enviados para Recife e depois para o Maranhão. Pinto Madeira retornou preso ao Crato, em 1834, onde, num júri parcial - composto por antigos inimigos seus - foi condenado à forca, sentença posteriormente comutada para fuzilamento, em face do réu ter alegado sua patente militar de Coronel.
“Morreu virilmente Pinto Madeira. Conta a tradição, ouvida por mim desde menino, que momentos antes do fuzilamento, ofereceu-lhe um lenço, para que vedasse os olhos, um dos seus mais implacáveis inimigos. Recusou o condenado a oferta (...) Durante anos a fio, fez-lhe promessas o rude povo do sertão, considerando-o um mártir, isto é um santo”.
(cfe. Irineu Pinheiro, “Joaquim Pinto Madeira” Imprensa Oficial do Ceará.Fortaleza, 1946, página 21).

Um sonho não concretizado: Crato capital do Cariri
(Abaixo, à esquerda) o mapa do Império do Brasil, em 1822)
Já em 1828, a Câmara de Vereadores do Crato encaminhava representação ao Governo mostrando a oportunidade de criação da Província do Cariri Novo. Não foi atendida nessa pretensão. A idéia voltou à tona, em 14 de agosto de 1839, quando o senador José Martiniano de Alencar, do Partido Liberal, apresentava no Senado do Império do Brasil projeto de lei cujo artigo 1º dizia textualmente: “Fica criada uma nova província que se denominará Província do Cariri Novo, cuja capital será a Vila do Crato”.
Os demais artigos desse projeto de lei tratavam sobre os limites geográficos da nova unidade do Império do Brasil que incluíam municípios do sul do Ceará e os limítrofes das Províncias da Paraíba, Pernambuco e Piauí. Com a ascensão do Partido Conservador ao poder, o projeto de lei não prosperou. Anos depois, através do jornal “Diário do Rio de Janeiro”, voltava o senador Martiniano de Alencar a defender sua idéia de criação da Província do Cariri.
Tudo ficou só num sonho.

História de crato (2)

Por
Armando Lopes Rafael
Bandeira da Revolução Pernambucana de 1817
Anseios libertários
No primeiro quartel do século XIX, a Vila do Crato já se sobressaía entre as congêneres interioranas do Nordeste brasileiro. Residiam na vila, ou nas suas adjacências, famílias abastadas, possuidoras de patrimônio amealhado quase sempre, à custa das fainas agrícolas. (Na foto abaixo, lado direito, a residência de Dona Bárbara de Alencar, na Praça da Sé, que foi demolida para dar lugar à atual Coletoria Estadual). Alguns jovens dessas famílias tinham o privilégio de aperfeiçoar seus conhecimentos em escolas da longínqua capital da Província de Pernambuco.
Para lá se deslocavam, em longas e penosas viagens que duravam semanas. Sempre feitas em lombo de animais. Alguns desses estudantes retornavam ao torrão natal impregnados de idéias libertárias, assimiladas nas sociedades secretas, existentes em Olinda e Recife. Sonhavam esses jovens com um Brasil independente da metrópole portuguesa. Alguns iam mais longe. Acalentavam o sonho de mudar a forma de governo, substituindo - num eventual Brasil soberano - a monarquia pela experiência republicana já testada nos Estados Unidos da América e França.Esses sonhos libertários resultaram no primeiro confronto ideológico ocorrido no Cariri. Os liberais eram liderados pelo subdiácono José Martiniano de Alencar, estudante do Seminário de Olinda e adepto dos princípios republicanos e laicos da Revolução Francesa de 1789. Foi este jovem enviado pelos líderes da Revolução Pernambucana de 1817, para deflagrar o processo revolucionário no conservador Vale do Cariri.
Num gesto audaz e corajoso, no dia 3 de maio de 1817, José Martiniano de Alencar (foto ao lado) proclamou do púlpito da Matriz do Crato a independência do Brasil, sob o regime republicano. A contra-revolução veio rápida. Oito dias depois, Leandro Bezerra Monteiro, o mais importante proprietário rural do Cariri, dotado de profundas e arraigadas convicções católicas e monarquistas, pôs termo ao sonho do jovem José Martiniano de Alencar. Os revolucionários foram presos e enviados para as masmorras de Fortaleza e posteriormente para as de Salvador, na Bahia. Entre os prisioneiros estavam Tristão Gonçalves de Alencar Araripe e Dona Bárbara de Alencar, irmão e mãe de José Martiniano. Após sofrerem as agruras das prisões, por cerca de quatro anos, os revolucionários cratenses foram anistiados pela autoridade real. Por sua lealdade à Monarquia, Leandro Bezerra Monteiro, foi agraciado, pelo Imperador Dom Pedro I, com o posto de Brigadeiro, o primeiro a ser concedido no Brasil.
Um herói chamado Tristão
Em 1824, eclode nova revolução republicana em Pernambuco denominada “Confederação do Equador”. (Na foto ao lado, a Bandeira da Confederação)Este movimento uniu algumas lideranças das províncias de Pernambuco, Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte, descontentes com a Constituição outorgada pelo primeiro imperador brasileiro, Dom Pedro I. O movimento repercute intensamente no Crato. Tristão Gonçalves de Alencar Araripe aderiu, com todo entusiasmo e idealismo, à Confederação do Equador. Em 26 de agosto daquele ano, foi ele aclamado pelos rebeldes republicanos como Presidente do Ceará. Entretanto a reação do Governo Imperial foi implacável. As instruções para debelar o movimento eram assim sintetizadas: “(...) não admitir concessão ou capitulação, pois a rebeldes não se deve dar quartel”. Debelado o movimento restou a Tristão Araripe duas alternativas: exilar-se no exterior ou morrer lutando. Escolheu a última opção.Nas suas pelejas, Tristão colecionou vários inimigos. Dentre eles um rancoroso proprietário rural, José Leão da Cunha Pereira. Este utilizou um seu capanga, Venceslau Alves de Almeida, para pôr fim à vida do herói da Confederação do Equador no Ceará. Tristão Araripe faleceu, em 31 de outubro de 1825, combatendo o grupo armado de José Leão, na localidade de Santa Rosa, hoje inundada pelas águas do Açude Castanhão.
Morreu como queria: pelejando, graças a Deus!