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sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Qual a idade que vocês me dão? – Por Carlos Eduardo Esmeraldo

Semana Santa de um ano muito bom de inverno. As chuvas caiam copiosamente tornando fértil o solo antes esturricado pela inclemência da seca. A fartura reinava naquele sertão, agora renascido. A paisagem de longe lembrava esse nosso Nordeste tão escaldante. A jovem médica Marília Cruz, da Secretária Estadual de Saúde, convidara um grupo de colegas médicos, todos eles professores da Faculdade de Medicina, para passar os feriados em sua fazenda. Todos os convidados aceitaram aquela oportunidade de um excelente repouso e compareceram acompanhados das respectivas famílias.

Quinta-feira Santa, após o almoço, os convidados repousavam no alpendre em redes ricamente bordadas. De longe, a doutora Marília avistou um vulto, alguém, ainda não identificado se movendo entre a mata verde do baixio. Aos poucos a silhueta ganhava contornos definidos e ela então identificou o seu querido tio Diógenes. Não obstante a idade avançada, ele cavalgava firme sobre o dorso de seu alazão marchando a passos largos em direção à casa grande. A sobrinha nada disse sobre a idade do tio, esperando ver a provocação que ele poderia fazer aos médicos.

Ao chegar, cumprimentou a sobrinha e seu marido, um conhecido deputado estadual, saudou o grupo de doutores, sentou-se no para-peito do alpendre e começou a conversar com os médicos. A principio a palestra versou sobre o bom inverno e a fartura que ele representava para o sertão.

Depois de aproximadamente meia hora, o tio Diógenes conduzia a conversa para o rumo que desejava. Os médicos se deliciavam com a palestra do sertanejo, cheia de sabedoria aprendida com os mais antigos, linguajar um tanto quanto arcaico, herdado dos antepassados, herança de um tempo colonial. A certa altura da conversação o tio Diógenes perguntou:
– Doutores, qual a idade que vocês me dão?
– Oitenta anos – responderam uns.
– Setenta e cinco anos – diziam outros.
Depois de muitos palpites, todos eles errados, o velho Diógenes falou com a sinceridade própria do nosso sertanejo:
– Senhores doutores, vocês precisam estudar mais! Eu tenho 98 anos e ainda trabalha na roça!
Diante da admiração geral, o velho emendou outra pergunta:
– Agora doutores, eu quero que vocês me expliquem por que é que uns morrem tão cedo e outros vivem tanto, assim como eu?
– É por causa de uma vida saudável aqui no campo. Alimentação regrada, sem preocupações. O senhor naturalmente dorme cedo, acorda cedo, nunca bebeu e nem fumou! – exclamaram os médicos a uma só voz.
– Num já falei que vocês precisam voltar à escola? Vão estudar mais! Eu só me alimento de comida forte, buchada, sarapatel, panelada, rabada e mucunzá com torresmo. Fui o maior farrista dessa ribeira. Era o maior namorador que por aqui existia. Bebia e ainda hoje eu bebo e fumo e, não dispenso um bom forró todo fim de semana!
Com essa resposta, os médicos concluíram que o tio Diógenes era uma rara exceção à regra, além de um mau exemplo para se alcançar a longevidade.

Por Carlos Eduardo Esmeraldo
Nota do autor: Esse fato aconteceu e me foi contado pela sobrinha do sertanejo. As identidades dos personagens são fictícias.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Sem palavrões! – Por Carlos Eduardo Esmeraldo

Na última visita que eu e Magali fizemos ao Crato, sentimos falta da Movelaria Irmãos Rola na Rua Ratisbona, bem próximo da Estação do Trem. Depois soubemos que o seu proprietário havia falecido. Os móveis ali fabricados eram de excelente qualidade.

A propósito dessa ótima movelaria que o Crato perdeu, juntamente com seu honesto proprietário, lembrei-me de uma pequena história que ouvi sobre os móveis fabricados por essa tradicional oficina da nossa terra.

Robertinho ia cursar o terceiro científico, atual “ensino médio” e, teve de ir estudar em Recife para tentar o vestibular no curso de engenharia. Rapaz de inteligência privilegiada, possuidor de extraordinária presença de espírito, bem valia o esforço que seus pais empreenderiam para que ele seguisse adiante nos estudos. Robertinho se reuniu com mais dois colegas de turma e juntos alugaram um apartamento confortável na Boa Vista, local onde o cratense que visita a capital pernambucana pode encontrar na certa, com vários universitários do Crato que por lá estudam.

Decorridos cerca de três meses de moradia em comum, a camaradagem dos três colegas cratenses aumentava cada vez mais de intensidade. E Robertinho era o mais brincalhão dos três, recitando a cada observação que fazia um sonoro palavrão. Mas isto até o dia em que dona Lurdinha, mãe de um colega do Robertinho foi visitar o filho, para saber como ele estava instalado, enfim, verificar se tudo ia bem, como ia de estudo, e mais uma porção de coisas que toda mãe se preocupa quando se trata do “bem estar” dos filhos.

A presença daquela senhora entre os três estudantes não inibiu Robertinho de pronunciar seus sonoros palavrões. Até que, dona Lurdinha, sentindo-se incomodada em ouvir tantos nomes feios, muito dos quais ela nem imaginava que existissem falou sério com ele: “Robertinho, você vai me fazer um grande favor! Vai me respeitar e enquanto eu estiver aqui não quero ouvir nenhum nome feio saindo da sua boca imunda!”

Claro que Robertinho se melindrou. Sempre que a dona Lurdinha estava em casa, ele se recolhia ao seu quarto, deixando para fazer suas refeições em outros horários ou quando não, se privando de algumas delas. E isto dona Lurdinha percebeu claramente.

Certo dia, ao atravessar o corredor do apartamento, dona Lurdinha viu a porta do quarto de Robertinho aberta e, ele estudando, apoiado numa bonita escrivaninha. Tentando quebrar o gelo, ela puxou conversa: “Que móveis lindos os seus, Robertinho! Onde você os comprou?” “No Crato!” Respondeu Robertinho. E dona Lurdinha quis saber mais: “No Crato? Em que lugar?” E encerrando a conversa, Robertinho acrescentou: “Naquela Movelaria cujo nome é um grande palavrão! E a senhora me proibiu de falar palavrão!”

Por Carlos Eduardo Esmeraldo
A história é verídica e os nomes dos personagens fictícios para preservar suas identidades.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Penas ao vento – Por Carlos Eduardo Esmeraldo

Por estes dias, não sem motivo algum, lembrei-me de uma pequena história que minha mãe me contou há muitos anos, quando eu era ainda uma criança.

Um mestre, que era muito sábio, possuía muitos discípulos. Certo dia, encontrou um dos seus discípulos numa animada roda de conversa com os amigos. Aproximou-se dele sem se fazer notar e sem querer, escutou que ele falava mal de um dos seus amigos, fazendo injúrias e o desqualificando com atributos dos quais aquele amigo não era possuidor. O mestre se aproximou do discípulo e lhe disse que estava na hora de receber a lição daquele dia.

Os dois andaram durante algum tempo em silêncio até chegarem defronte a uma torre muito alta. O mestre convidou o discípulo para juntos subirem até o mais alto daquela torre. Quando chegaram ao topo, havia alguns sacos desses que se colocam feijão para o transporte. Então o mestre ordenou ao discípulo que pegasse um daqueles sacos e jogasse todo seu conteúdo pela janela da torre ao chão. Este obedeceu, levantou o saco com as duas mãos, estranhando que seu peso fosse incrivelmente tão leve. Abriu o saco e viu que estava cheio de penas. Obedeceu à ordem do mestre e atirou fora todo o seu conteúdo. Ficou alguns minutos observando as penas voarem para longe, espalhando-se por toda a parte, ao sabor dos ventos. Depois que as penas voaram para os mais distantes lugares, sujando várias ruas e praças, o mestre ordenou: “Agora, meu filho, você vai descer e recolher todas aquelas penas e recolocá-las nesse saco.” “Mas mestre é impossível fazer isso! Não posso recolher todas aquelas penas, pois muitas voaram para longe.” E o mestre lhe disse: “Assim são as injúrias e calúnias que se faz contra um ser humano. Jamais poderão ser reparadas.”

Por Carlos Eduardo Esmeraldo

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

A Força da Fé! – por Carlos Eduardo Esmeraldo

A história que se segue, é mais uma das tantas que ficaram gravadas na minha memória. Eu a li há cerca de oito anos numa revistinha portuguesa deste novo milênio, porém escrita num estilo e grafia que, para nós brasileiros, eram parecidos com o que se escrevia por aqui cem anos atrás. Entretanto, ela nos revela a firmeza de caráter e a força do homem que tudo confia na providencia divina. E deste modo, encontra alento para superar os acontecimentos negativos que a vida nos reserva.

Há muitos e muitos anos, havia num certo país, um rei despótico que tinha um secretário muito temente a Deus. Para todo e qualquer acontecimento bom ou mal que sucedesse a esse secretário, ele sempre dizia:
– Se Deus permitiu isso, é porque foi para o meu bem!

O Rei já não agüentava esse seu secretário repetir essa cantilena o tempo todo, com tudo que acontecesse não somente a ele, mas aos outros também.

Num lindo dia de verão, o rei e seus serviçais, incluindo o seu fiel secretário, foram a uma caçada. No meio da mata, surge de repente, um leão feroz que atacou o rei num local onde ele ficara sozinho. Quando os guardas ouviram o barulho, correram para salvar seu soberano, mas o leão já havia decepado um dos dedos da mão do rei.

O soberano ficou muito triste e revoltado com o que lhe sucedera. Blasfemava a todo instante por ter perdido um dedo. Do mais alto do seu orgulho, não aceitava reinar mutilado, como havia ficado. Então o seu bondoso secretário, desejando reanimá-lo, lhe disse:
– Senhor rei, se Deus permitiu isso é porque foi para o vosso bem!

O rei ficou muito indignado com esse seu servo e ordenou aos guardas que o colocassem na masmorra. E lá foi o leal secretário amargar resignado toda a humilhação que uma prisão reserva para qualquer ser humano.

Algum tempo depois, o rei que era viciado em caçadas e aventuras foi com um séquito de guardas a uma expedição numa região inexplorada. Como tinha por hábito afastar-se dos que lhe seguiam, caiu numa armadilha montada por canibais selvagens.

A tribo toda foi reunida para o ritual do sacrifício a que seria submetido aquele forasteiro, que se tornaria alimento, após a cerimônia. De nada valeu ele implorar que o soltassem, pois era um rei muito rico e poderoso. A tribo queria em poucos instantes deliciar-se com aquele manjar que os deuses mandaram de presente. O rei foi colocado num caldeirão de água, sobre quatro grandes pedras a lhe servirem de trempes. O fogo foi aceso e a água já amornada, iniciava a soltar pequenas bolhas. Homens e mulheres daquela tribo dançavam com grande euforia em volta do caldeirão, enquanto aguardavam o momento preciso da carne daquela vítima ficar pronta para o grande banquete. De repente o chefe da tribo ordenou:
– Parem o ritual! Este homem não pode ser sacrificado, pois está incompleto. Falta-lhe um dedo.
E assim o rei foi posto em liberdade, escapando por pouco de ser devorado.

Ao retornar ao seu palácio, o rei mandou trazer à sua presença, aquele secretário que mandara prender. Diante do servo, pediu-lhe mil desculpas. O secretário humildemente respondeu:
– Senhor rei, se Deus permitiu que eu ficasse preso foi para o meu bem!

Ao escutar essas palavras, o rei com muita surpresa, perguntou:
– Como ousas dizer isso? Fui muito injusto com você, um amigo de verdade, e você não ficou revoltado pelo que lhe fiz?
– Se Vossa Majestade não me tivesse mandado para a prisão, eu estaria ao lado do meu Senhor naquela caçada e, os canibais ao notar que eu estava inteiro, iriam me sacrificar, colocando-me no caldeirão de água fervendo para saborearem minha carne.

Por Carlos Eduardo Esmeraldo

domingo, 13 de dezembro de 2009

Premonição? - Por Carlos Eduardo Esmeraldo

Naquela noite, inicio de dezembro de 1965, eu fui dormir pensando na viagem que faria ao Crato no dia seguinte. Um pouco de ansiedade me envolvia por completo. Primeiro pelas férias há tantos dias aguardadas. Depois pela viagem aérea que sempre me deixava um pouco tenso. Embalado por essa ânsia, adormeci e tive um sonho tão nítido quanto preocupante. Estávamos na nossa casa do São José e na sala de visitas havia um caixão de defunto. Um velório era acompanhado por muita gente do lugar. Cheio de curiosidade, olhei para ver quem era o morto. O velho Mamundo estava dentro do caixão completamente inerte. Uma tristeza invadiu minha alma, pois Mamundo era um personagem da minha infância. Ele era nosso vizinho de sítio, no São José e há muitos anos morava na nossa casa. Foi casado com uma prima de meus pais. Quando ele ficou viúvo, entrou num desespero de fazer pena, totalmente sem planos para enfrentar tamanha solidão. Meus pais convidaram Mamundo para passar alguns dias na nossa casa. E ele por lá ficou mais de trinta anos. Agora, num sonho estranho, ele jazia inerte naquele caixão. De repente uma das minhas irmãs disse: “Finalmente essa praga morreu!” Fiquei tão chocado com essa frase e mais ainda quando vi Mamundo levantar-se bruscamente do caixão e apontando o dedo para minha irmã disse: “Você está pensando que eu morri? Pois eu não morri, não! Quem vai morrer é seu pai!”

Acordei sobressaltado, olhei o relógio, três horas da madrugada. Não consegui mais dormir no restante daquela noite. Aquele sonho me deixou completamente preocupado, pois temia muito que meus pais morressem antes que eu concluísse meus estudos. A cada passagem do trem suburbano do outro lado da Ribeira, sentia-me no São José, com o tão familiar apito e o barulho dos rolantes dos trens. E um medo muito grande me encheu por completo. Aquele sonho mexeu comigo.

Durante o vôo não conseguia me livrar da preocupação que o sonho me trouxera. Bobagens, sonhos são apenas sonhos, talvez apenas projeções inconscientes dos nossos medos. Tentava desse modo me livrar daquele mau estar.
Quando o velho DC-3 pousou no Aeroporto de Fátima, de longe se avistava a pequena estação de passageiros. Tomei um susto porque não vi meu pai, que sempre costumava me esperar nessas viagens. Em seu lugar estavam dois irmãos. Mal desci do avião, perguntei a eles: “Por que papai não veio?” “Papai está doente. Apareceu um derrame abaixo das duas axilas.” Responderam. Novamente o sonho da noite anterior voltou a me incomodar.

Uma semana depois da minha chegada, um primo médico foi com meu pai ao Recife, onde na véspera do Natal daquele ano ele foi submetido a uma cirurgia para retirada dos gânglios sob suas axilas, tendo a biopsia constada que se tratava de melanoma, um dos tipos de câncer mais mortal. A previsão dos médicos era a de que ele teria no máximo três meses de sobrevida.

Meu pai viveu ainda seis meses. Durante esse tempo, ele tinha consciência do seu estado e enfrentou aqueles dias com muita serenidade e confiança, que somente a certeza dos que crêem na imortalidade da nossa alma podem ter. Nos seus últimos dias, nossa casa ficou repleta de familiares e de uma multidão de amigos, que a gente não imaginava que meu pai fosse tão querido.

Percebendo que suas forças estavam acabando, ele chamou os filhos para uma última conversa. Por ser o filho caçula, fui o último a ouvir suas palavras, quase num sussurro. Foi muita emoção! De imediato, eu não compreendi porque ele me agradeceu as alegrias que eu lhe havia proporcionado. Depois entendi que ele estava dizendo o que esperava de mim no futuro. E durante toda a minha vida, eu procurei norteá-la pelo exemplo de vida que meu pai deixou. Um homem honesto, correto, amigo de todos sem distinção e de uma postura moral irretocável. Agora, depois de quarenta e três anos daquela despedida, espero haver correspondido àquele agradecimento que, para mim foi um direcionamento para o futuro.

Por Carlos Eduardo Esmeraldo

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

De Crato a Assaré no início do Século Vinte - por Magali de Figueiredo Esmeraldo.


Hoje com estradas asfaltadas, com muita facilidade, saindo de Crato, chegaremos a Assaré com aproximadamente hora e meia de viagem. Entretanto, não foi assim no relato do meu tio José Alves de Figueiredo Filho. No seu segundo livro, “Meu Mundo é uma Farmácia” ele narra à aventura de uma viagem dele e de sua família aos sertões de Assaré, que tinham fama de clima saudável e abundância de leite. O objetivo dessa viagem era visitar a farmácia do seu tio Paulo Viana, em Assaré. Ele explica que esse seu tio, que era irmão da sua mãe Emília, minha avó, em plena adolescência teve que procurar lugares mais pobres para estabelecer-se com a sua farmácia.

Nessa viagem, além do tio José e do seu tio Paulo, participaram também os seus pais José Alves de Figueiredo e Emília Viana de Figueiredo, meus avós e Elisa Viana, irmã de sua mãe. Viajava junto também seu irmão Mário, que como ele, era ainda muito criança, um pouco mais velho. Esse irmão dele viria a falecer mais tarde, aos dezoito anos, de diabetes. Naquela época ainda não havia a insulina.

Além das pessoas citadas acima, acompanhavam essa viagem alguns trabalhadores da família, como arrieiros. Era época de inverno e as muitas chuvas contribuíram para que houvesse muitos atoleiros. Freqüentemente graças à perícia dos arrieiros os burros eram arrancados dos atoleiros.

Em conseqüência das chuvas torrenciais, ficaram acampados dois dias nas Guaribas, distante seis quilômetros do Crato. Somente depois que cessaram as chuvas eles seguiam viagem. As terras muito alagadas e com muita chuvas caindo obrigavam a caravana a parar de vez em quando.

O tio José narra com muito sentimento, o desconforto que ele e seu irmão sofreram durante a viagem, pois eles viajavam sentados em dois caixões, um de cada lado do burro. Além do mais, iam juntos com os jumentos que levavam a bagagem e os mantimentos e, por isso se sentiam muito humilhados. Esses caixões foram construídos pelo seu pai e eram cobertos por um toldo de lona para protegê-los do sol e da chuva. No meu entender, o meu avô teve a boa intenção de proteger os filhos que, por serem pequenos, não podiam viajar em cavalos. Só quem viajava a cavalo eram seus pais, o tio e a tia. No entanto, o meu tio José não justificava essa iniciativa de seu pai de construir tal caixão. Reclamava muito das dificuldades: sacolejos, atoleiros, unhas de gatos, galhos e espinhos que entravam pelas caçambas e os feriam, além dos chuviscos e orvalho que os ensopavam. E ainda se envergonhavam da maneira como viajavam, pois despertava a curiosidade da meninada.

Ao contar a história dessa aventura, tio José descreve a maneira como as mulheres montavam a cavalo. Sentavam de lado e não escanchadas, como os homens. A mãe dele tinha medo e, para vencer as dificuldades rezava com muita fé todas as jaculatórias que aprendera na adoração, sempre que o cavalo dava solavancos. Já a tia Elisa tinha muita coragem, mesmo sentada de banda, cavalgava bem, corria galopava e marchava no cavalo.

Ao meio dia era hora do descanso. A caravana se arranchava em velhas casas sertanejas alpendradas. Os arrieiros tiravam as cargas e selas e os animais iam pastar livres do peso. Os mantimentos eram tirados dos animais. Quem se encarregava de temperar os alimentos eram as mulheres e, quem cozinhava eram os arrieiros.
As redes eram armadas nos alpendres. Depois do almoço, todos descansavam e somente às duas horas da tarde davam prosseguimento à viagem. Depois de enfrentar todas as adversidades no percurso, sol quente e chuvas, ao entardecer paravam novamente em outra casa alpendrada. Era costume na época, qualquer viajante ter direito de abrigar-se à sombra da casa amiga e acolhedora. Tanto ricos como pobres eram bem recebidos. Ao construir casas alpendradas, o objetivo do sertanejo, além de se abrigar dos raios solares nordestino, era também acolher o transeunte.

A memória prodigiosa de José de Figueiredo Filho, o fez lembrar-se de toda essa aventura, incluindo os balanços na rede, cantando as cantigas da cultura cearense, na noite em que pernoitaram em Nova Olinda.

Aprendeu tais modinhas com Maria Carimbé que trabalhava para sua família. Anos depois ele recordava esses momentos, ouvindo nos programas radiofônicos a “Hora da Saudade” que tocava todas as cantigas daquela época.

Finalmente chegaram a Assaré em uma manhã nublada. Para entrarem naquela localidade, tiveram que passar por uma estreita parede de um açude. Quando entraram nas primeiras ruas, a garotada os seguiu com a curiosidade ainda mais aguçada, por ver os meninos viajando como se fossem carga. Não foram vaiados porque procediam de um local mais adiantado do que aquele, segundo conta tio José. Todos os atropelos e canseiras foram compensados pelas maravilhosas férias em Assaré.

Adaptado Por Magali de Figueiredo Esmeraldo de “Meu Mundo é uma Farmácia” de J. de Figueiredo Filho – Coleção Alagadiço Novo – UFC, 1996 - páginas 35-38

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

A Avidez humana! – Por Carlos Eduardo Esmeraldo

Desculpem-me. Sei que muitos dos leitores por aqui não gostam de futebol. Mas o assunto que pretendo repartir com os amigos é sobre o desejo insaciável por lucros, vitórias e glória. Para isso, ignoram-se os sentimentos de afetividades que nutre e engrandece as relações de amor. Chega-se ao extremo de escravizar o homem, se possível. Que tem o futebol a ver com tudo isso?

Apesar das relações de trabalho de um jogador de futebol profissional terem evoluído para melhor nos últimos dez anos, houve época em que o atleta era um verdadeiro escravo. Preso definitivamente ao clube, não lhe era facultado o direito de livre transferência ou escolha da equipe em que gostaria de jogar. Submetia-se a dias seguidos de confinamento, sem contatos com a família e o mundo exterior, numa ociosidade a que ainda hoje os dirigentes de futebol teimam denominar de concentração.

Em 1946, D’Ávila era um esforçado jogador de meio de campo de uma das quatro grandes equipes de futebol do Rio de Janeiro. Não chegou a integrar a seleção brasileira, mas era muito importante para o esquema de jogo do seu time. Era um desses jogadores que desarmam os ataques da equipe adversária e ajudam a empurrar o seu time para frente. Geralmente esse tipo de jogador passa despercebido aos olhos da torcida.

O time de D’Ávila estava concentrado desde a segunda-feira à noite num casarão da zona sul da cidade do Rio de Janeiro, preparando-se para um jogo decisivo do campeonato. A mulher de D’Ávila fora hospitalizada naquele mesmo dia, com uma estranha doença. Mas os dirigentes do clube não consideraram esse fato um motivo justo para dispensá-lo da concentração. Não podiam prescindir daquele jogador na equipe.

Semana inteira de treinos à tarde e o restante do dia na mais completa ociosidade. Naquele confinamento desumano, a nenhum atleta era dado o direito de sair à rua, visitar a família, ou ao menos usar o telefone.

No domingo pela manhã, dia do jogo decisivo, uma freira que trabalhava no hospital onde estava internada a mulher de D’Ávila, telefonou para a concentração procurando falar com o jogador. Disseram-lhe que ele não podia atender. “Por favor, digam a ele que o estado de saúde de sua esposa se agravou e ela pede desesperadamente para falar com ele.” Insistia a irmãzinha reforçando a urgência da presença do jogador.

Os dirigentes da equipe acharam por bem nada comunicar ao seu atleta para que nenhuma preocupação viesse prejudicar seu rendimento no jogo. Afinal, iriam enfrentar um dos mais fortes rivais.

Na tarde daquele ensolarado domingo, D’Ávila se esforçou como sempre era seu costume, contribuindo para vitória do seu time num jogo decisivo.

Somente quando a partida terminou, entre tapinhas nas costas, os dirigentes comunicaram a D’Ávila para ir ao hospital com urgência, pois o estado de saúde da sua mulher havia se agravado. Ele imediatamente enxugou o suor do corpo com uma toalha, trocou de roupa, sem ao menos tomar banho e foi de taxi, o mais depressa possível, ao hospital.

Lá chegando, a irmãzinha lhe disse: “O senhor não tem coração? Telefonei várias vezes desde a manhã de hoje. Sua mulher passou o tempo todo querendo lhe falar e somente agora o senhor chega aqui?” “Mas eu vim assim que me disseram. Estava no jogo e vim o mais rápido possível.” Disse-lhe D’Ávila preocupado. “Agora é tarde! Sua mulher faleceu às três horas da tarde.” Respondeu a freira. Ao saber dessa notícia, D’Ávila desmaiou, voltando a si, somente algum tempo depois.

O desespero tomou conta de D’Ávila. Voltou ao casarão da concentração e não encontrou mais ninguém do clube, somente o caseiro e sua mulher. Então, munido de uma barra de ferro destruiu tudo que havia pela sua frente, não sobrando nem portas, nem janelas.

No dia seguinte, durante o enterro, diante de dirigentes do seu clube e dos colegas jogadores, D’Ávila desabafava, acariciando o rosto frio da sua amada: “Não me deixaram te dar um último beijo, mas você está vingada.”

Por Carlos Eduardo Esmeraldo
(Adaptado de "Os subterrâneos do futebol" de João Saldanha, Editora José Olympio, Rio de Janeiro, 1980)

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Mas que mancada!... Por Carlos Eduardo Esmeraldo

Magali, minha mulher, costuma dizer que quando eu era criança bebi muito “água de chocalho”. Isto porque gosto de conversar com os amigos, contar os mais novos “causos”, enfim, jogar conversa fora. Principalmente quando ela deseja voltar para casa, após alguma reunião, ou mesmo na Igreja, terminada a missa. Com isto não me livro de pronunciar algumas besteiras, cometer algumas “gafes”, como diriam os mais grã-finos.

Há alguns dias, fomos convidados para jantar na casa do sogro de um dos meus filhos, que é caririense de Barbalha. A certa altura da conversa, o assunto enveredou sobre o famoso poeta cratense Zé de Matos, que no final do século XIX e inicio do século passado perambulava pelos pés de serra do Crato até Barbalha, bebendo cachaça e nos intervalos da bebedeira, trabalhando em tudo que era engenho de rapadura, pois era um dos melhores mestres do Cariri. Lembrei que meu pai, quando criança, conheceu Zé de Matos e sabia de cor muitos dos seus famosos diálogos versejados, como o que ele travou com o Quintiliano, acredito que no engenho de seu avô, o “Papai Zeco” dos Currais. Entre um verso e outro, referi-me a um diálogo entre o famoso historiador cratense José Carvalho e Zé de Matos, contido em “O Matuto Cearense e Caboclo do Pará”. Quando passavam à cavalo pelo Sítio Brito, em Barbalha, o historiador era acompanhado por Zé de Matos. Ao avistarem uma bela casa na encosta da serra, o professor José Carvalho indagou: “De quem é aquela casa, tão bonita?” Então, eu declamei com voz um tanto quanto empostada, a resposta de Zé de Matos:

Você conhece os Coeios,
Proprietários do Brito,
Homens que são muito rico,
Mas são danados de feio?”

Essa casa é de um Coeio;
É do Coeio Vicente.
Que é de todos o mais feio
E tem um pézim doente!

Quando concluí, olhei para o meu anfitrião, e ele com muita serenidade, me respondeu: “Vicente Coelho era o meu avô.” Que mancada, havia esquecido que o homem era Coelho... Mordi a língua, como aconselhava minha mãe: “Quem muito abre a boca, termina mordendo a língua”

Por Carlos Eduardo Esmeraldo