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segunda-feira, 23 de junho de 2008

EM OUTUBRO ELEGEREMOS O CRATO

Luiz Carlos Salatiel estes dias estive com a Iracema. Quando um diálogo entre vocês dois houver, dê-lhe meu e-mail para que não a perca nesta diversidade carioca. Enquanto tentei anotar meus telefones para ela nos cumprimentos finais da missa de sétimo dia pela Violeta, faltou-me completar o que pretendia. Agora você sabe que muito mais a seu respeito conheço.


Um muito mais que acrescenta, porém eu tinha concluído que o Crato precisa tê-lo na política do mundo real. Chamo de mundo real esta vocação subterrânea dos parlamentos (e das Câmaras) traindo o voto popular na pequena troca que troça da democracia ao sujeitar-se ao executivo em crise de epilepsia. Se os conselhos populares, se os conselhos de políticas públicas, se o controle social e se as câmaras promovessem a democracia o executivo teria uma governança maravilhosa da vida da cidade. A sociedade poderia sentir o em que se encontra, ter a certeza que o irrealizado não é a corrupção de sua vontade e nem o destino cruel que determina sua insatisfação permanente. O irrealizado é apenas a expressão do que pretendia mas não conseguiu os meios necessários para tal. No passo que segue outros meios construirá e mais realizados terá, reduzindo o déficit que é apenas o histórico da própria usurpação da democracia.


O complexo de estabelecer-se a democracia é que nela tem que haver o povo e povo é toda as gentes, do Romualdo, da Cruz, da Batateira, do Seminário, do Alto de São Francisco, todas as gentes sem adjetivos. O simples é que não existe outra forma de realizar a democracia. Apenas com o parlamento, a contínua manifestação dos conselhos, do controle social e da territorialidade dos desejos é possível a democracia. Um executivo idiota pensa que democracia é aplicar modelos de gestão empresarial à vida política e social de uma cidade. Isso faz a burocracia permanente, bem treinada a servir à sociedade e a gerir o interesse e a coisa pública. O executivo cursa diuturnamente as políticas públicas que a vontade expressa no parlamento e nos conselhos determinar.


A verdade meu caro Salatiel é que os executivos ainda estão viciados nos arranjos de fornecedores, nas prioridades dos setores mais privilegiados, na humilhação dos vereadores através de uma espécie de otorrinolaringologia que os torna afônicos. Não deixa de ser uma mácula imunda o que os deputados e senadores (estaduais e federais) fazem com as verbas públicas. Negociam adrede, fora da região e em detrimento das necessidades gerais, comissões para seu próprio esquema de perpetuar-se como indigno representante do povo. Jamais isso pode ser aceito. Ao final estes indignos se tornam profissionais burocratizados e negocistas da iniqüidade geral, acoimando aqueles de quem dependem. Não merecem o povo que representam, costumam comprar casa fora e fugir com a família para o litoral onde os filhos se tornam cracas iguais aos pais.


Quando traço tais caricaturas não falo de tudo e de todos. Se assim fosse não teria sentido falar do que se fala. Justamente por este desvio não ser universal é que espero que você esteja no mundo real da política. Que a democracia seja exercício de hábito, que a vida seja compreendida naquele espaço e naquele tempo em que tudo afinal acontece. Por isso a cultura é um conceito tão importante para este caminho. É um conceito que junta expressão e comunicação, ou seja o povo como coletivo que pensa no indivíduo e seu reconhecimento do outro. Então Salatiel, a Fundação J. Figueiredo desde é um patrimônio da democracia. E como tal uma instituição desejosa de rumos que a sociedade lhes e apropriada à execução das ações que lhes forem confiadas. Isso tudo transparente, com contratos de gestão e com um conselho do tamanho do nosso povo.

domingo, 22 de junho de 2008

UM VENTO COM SAUDADE DO PÉ DA SERRA DO CRATO

"Eu sou...sou...eu sou um matuto...sou um matuto do da serra do Crato". E num ritmo discursivo, com pausas centenárias, completou sua homenagem concentrada, composta por três períodos apenas: "Ela foi quem me ensinou. O vento que circula no da serra do Crato é um vento com saudade do mar". Em seguida com a voz tolhida pelo choro retornou ao assento em que se encontrava. Alemberg, com a cabeça baixa e suas lágrimas formando um pequeno lago sobre as lentes dos óculos. Era uma saudade que não dispersava, sobretudo recolhia volume.

Na porta da pequena capela do Memorial do Carmo, o Rio de Janeiro era contemporâneo como o é. Por trás um grande vai e vem de policiais militares, helicópteros sobrevoando a área, a Avenida Brasil caudalosa, contraditória entre um Mercedes Benz conversível e as favelas de suas laterais. Na porta, enquanto esperávamos, o professor Cândido Mendes se espantava: eu não tinha consciência do quanto Violeta era conhecida no Rio de Janeiro. Cândido era um amigo da militância da juventude universitária católica dos idos dos anos cinqüenta de Maria Violeta Arraes de Alencar Gervaiseau.

Um destaque para Bia Lessa. Desde os momentos críticos do CTI como uma mini deusa, sabendo que poderes não tinha para mudar o curso mortal, mas querendo para a amiga um final de dignidade. E que dignidade era essa? A humanidade de Violeta. Naqueles dias mesmo a pequenina, miudinha, quase nada, Bia tinha dado um valor estético inusitado para a campanha da moda no Fashion Rio. Mas no dia seguinte ela dizia: com um país feito o nosso aquilo não é nada. Era Bia e você esteve na altura de quem a conhece, de quem vai muito longe, pois sabe que o horizonte que esconde não é fim em si, é apenas a curvatura do cosmo.

Entre os depoimentos, ouviram-se os dos filhos. São depoimentos, em quaisquer circunstâncias, muito especiais. Lendo texto de São Francisco de Assis, Eça de Queiroz pela voz de um deles ou o mais jovem reconhecendo que o abandono que a militância da mãe lhe parecera era apenas o processo do encontro dele mesmo com a humanidade. Maria Benigna, Henri e Jean Paul, ao lado de um sofrido Pierre Gervaiseau. Pierre é um europeu muito disciplinado, sabe bem das dificuldades terceiro mundistas, mas por vezes quer uma resposta mais direta deste povo, quem o conhece pode imaginá-lo irritado naqueles embates. Não é bem assim e neste momento tem uma grandeza de compreensão e paciência própria de quem as possui.

Quando a família abriu os depoimentos aos amigos, Turíbio Santos trouxe o depoimento pela interpretação de Villa Lobos. Uma arte apropriada àquela brasileira que pertence a um povo que tantos violonistas teve e entre eles este que tem nome ruidoso, inquieto mesmo. Mas este nome grego, Turíbio, recebeu a bênção de um candomblé sincrético, aquele de todos os Santos.

Almino, um intelectual de peso, escritor sólido, com a difícil missão de conduzir a Casa Ruy Barbosa do Ministério da Cultura, enfim uma pessoa importante. Sai do seu assento em que se encontrava e andou como um humílimo camponês. Posou com a leveza de uma ave sertaneja e do galho em que estava, extraiu a síntese da relação com a tia, repetindo a oração do anjo da guarda, verso a verso, enquanto o professor Cândido Mendes lhe fazia eco. Nisso veio pela capela, como se fazia naqueles terreiros de cantadores, um homem e seu violão. Sentou-se num banco que às pressas lhe deram e tocou uma linda canção, música de seu filho e letra dele, que falava do sertão, do nordeste, destas eternidades que entram como categoria do todo. Caetano Velloso ainda retornou e repetiu, ao final da cerimônia e abriu a voz com: no meu cariri quando a chuva não vem/ Não fica ninguém somente Deus ajuda/ Se não vier do céu/ Chuva que nos acuda/ Macambira morre, Xique-xique seca, Juriti se muda. ...E em seguida Caetano cantou: apenas a matéria vida era tão fina.

A política nacional, da qual Violeta é matéria, não esteve como mera presença. Apenas oportunidade de mostrar-se. O governo de São Paulo deslocou membros seus, entre aqueles de maior expressão nacional, mas todos com um vínculo pessoal com Violeta: Aloísio Nunes Ferreira e Alberto Goldman. Carlos Augusto e Guel Arraes com suas esposas desde sempre ao lado da tia, estiveram como lembrança do grande amor que ela lhes tinha, sei que sabem, mas fica mais evidente quando dito por um terceiro que sozinho com ela tomou conhecimento de tal. Cacá Digues trouxe duas faces, aquela do nordestino universal igual Violeta e a outra de Nara que se tornou uma espécie de anjo sublime dos dias após em que Violeta ficou sem a amiga. E tantas pessoas fortes do universo estelar de Violeta entre elas, nestas falhas memórias, a Maria Elisa e a Cristina. E o Amir Haddad que entrou silencioso, como um personagem do seu teatro de rua, quase sem falar com ninguém, veio até a amiga, a fixou por algum tempo e, terminada a cerimônia, foi-se.

O texto central da cerimônia foi a narrativa do contexto histórico de Violeta na visão do professor de filosofia, diretor do museu de arte moderna, ex-dominicano, humanista e pensador Blanquart. Um ser como a humanidade de vez em quando extrai de seu movimento. Um francês que filosofa com o corpo, aliás isso é bem francês, poderia ser de quem da filosofia extraiu uma imensa revolução social, política e econômica e desta resulta o seu modo de capturar a vida nos séculos XIX e XX. Lendo em francês enquanto Cândido Mendes relia em português, aquele texto deveria retornar para o nosso silêncio reflexivo quando os fatos podem se alongar mais do que momentos.

Para completar Violeta o padre que realizava a cerimônia. Era um homem vindo dos sertões de Pernambuco, largado na periferia do Rio de Janeiro, junto ao ministério de capelas esquecidas. Recebeu a incumbência do ofício assim como uma rotina de sua vida. Por todo o tempo em que oficiava sua rotina se mantinha. Mas a partir de um certo momento, parece ter reconhecido Cândido Mendes, Alberto Goldman e Caetano Velloso e como ele mesmo humildemente repetiu: a ficha lhe tinha caído. Oficiava uma cerimônia para alguém muito importante.

Mas de todas as importâncias que pude extrair, uma que todos sentimos, mas talvez algumas pessoas do Crato não saibam. O quanto Violeta levou o nome desta cidade para a cultura brasileira. Talvez na cidade "tenha caído a ficha" do quê ela representou para si. E falo deste "" por saber que não é incomum que pessoas se alienem da sua própria realidade, cultivando um individualismo utilitarista que as reduz ao invés de ampliá-las.



sábado, 21 de junho de 2008

José Bezerra, pacificador - por José Jezer de Oliveira

A crônica abaixo – sobre José Bezerra de Menezes – foi publicada no jornal “Ceará em Brasília” nº. 191, maio de 2008. Focaliza a figura de um honrado cidadão nascido em Crato: o patriarca da família Bezerra de Menezes, de Juazeiro do Norte, José Bezerra de Menezes. Sobre ele, assim escreveu, também, o jornalista Temístocles de Castro e Silva: “A família Bezerra de Menezes deve sua projeção e seu prestígio, no século XX, ao seu patriarca José Bezerra de Menezes, que conquistou o respeito e a admiração de sua gente pelo acendrado amor ao próximo e profundo sentimento de solidariedade humana”.

José Bezerra, pacificador
por José Jezer de Oliveira (*)

José Bezerra de Menezes foi figura emblemática na vida social, política e empresarial da cidade de Juazeiro do Norte, encravada no coração do Cariri. À exceção do Padre Cícero, ninguém ali o excedia em respeito, prestígio e admiração conquistados perante os seus concidadãos, mercê das virtudes morais de que era titular e de qualidades outras que o distinguiam como cidadão.
Dotado de extraordinário espírito de solidariedade humana, era sempre solicitado a intervir em conflitos dada a maneira serena com que administrava os ânimos das pessoas em desavença. E as suas ponderações e conselhos eram comumente acatados. No Juazeiro, só não foi o que não quis ser ou o que, por impedimento legal, não pôde ser: Juiz, por exemplo. Mesmo assim, muitas de suas atitudes assemelhavam-se, de fato, às de um “juiz da paz”, tanto é que, carinhosamente, lhe atribuíram o titulo de “Pacificador”.
Pecuarista, agricultor, empresário, banqueiro, foi, também, prefeito, vereador e delegado de polícia, bem sucedido em todas essas atividades, mercê da invejável visão prática que tinha das coisas, o que, sem dúvida, deu-lhe o necessário suporte psicológico para o exercício de cada uma delas da maneira mais justa e equilibrada possível. Com respeitável paciência que lhe era peculiar, soube encaminhar os filhos nos negócios, preparando-os, ao mesmo tempo, para ingresso na política. Tanto em uma quanto em outra atividade se houveram com extraordinário êxito.
Na política, Leandro, o mais velho dos filhos homens, foi o primeiro a disputar cargo eletivo. Foi vereador. Morreu cedo, antes de alçar vôos mais altos. Em seguida, os gêmeos Adauto e Humberto, oficiais do Exército, seguidos por Orlando e Alacoque, estendendo-se à geração dos netos, um deles atualmente deputado federal, José Arnon. Todos conquistaram os mais expressivos postos na vida política: Orlando, prefeito, deputado estadual, deputado federal; Humberto: prefeito, deputado federal, Secretário de Estado, vice-governador; Adauto: deputado estadual, vice-governador, governador, deputado federal; Alacoque: Senadora da República.
Em José Bezerra de Menezes a prudência se sobressaía como um dos traços mais marcantes da sua personalidade.
Um só episódio é o bastante para evidenciar essa qualidade nele reconhecida pela gente do Juazeiro. Era ele delegado quando chegou a informação de que um bêbado estava armando a maior confusão em um bar da cidade. Chamou dois soldados da polícia e ordenou-lhes que conduzissem o homem à sua presença, recomendando-lhes, porém:
Vão lá e tragam o homem. Mas tragam com jeito. – E se ele não quiser vir? – indagou um dos policiais.
Com mais jeito ainda – respondeu José Bezerra.
Em seguida, virando-se para um amigo que estava ao seu lado:
Se eu dissesse: de qualquer jeito, eles iam trazer o homem morto.
Em uma de suas idas ao Crato, a negócio ou em visita a parentes, encontrou-se com Moacir Mota, gerente da agência do Banco do Brasil, a única da região do Cariri, e que o abordou com a notícia de que já existiam recursos disponíveis para empréstimo na Carteira Agrícola do banco.
Seu Moacir, isto é um namoro! – observou José Bezerra, acrescentando:
Na hora de assinar o contrato é o casamento. No momento da quitação do empréstimo é o parto. Sou eu que estarei sentindo as dores e não o gerente do banco! Muito obrigado por sua informação.

(*) José Jezer de Oliveira é cratense. Jornalista, ex-presidente da Casa do Ceará, em Brasília e membro do Instituto Cultural do Cariri onde ocupa a Cadeira Ministro Colombo de Sousa.

NOTÍCIAS DO DOMINGO


244 ANOS DA CIDADE DE FREI CARLOS
Crato foi fundado em 1740 por um capuchinho, nascido na Itália – Frei Carlos Maria de Ferrara – com o nome de Missão do Miranda, local de aldeamento dos índios Cariris. Em 21 de junho de 1764, a Missão do Miranda foi elevada à categoria de Vila, tendo seu nome mudado para Vila Real do Crato, em homenagem à vila homônima da Região do Alentejo, em Portugal. Ontem – 21 de junho – Crato comemorou 244 anos de sua elevação à categoria de vila. A foto acima mostra Crato no primeiro quartel do século passado.

CRATO E OSNABRÜCK
A cidade de Osnabrück – onde está sendo realizada a 3ª Conferência Mundial de Geoparks – guarda algumas semelhanças com Crato. Osnabrück tem 160 mil habitantes, e é a terceira maior cidade do Estado da Baixa-Saxônia. É uma cidade universitária, sede de diocese e sede da Fundação Federal Alemã para o Meio Ambiente. Já o Crato tem a Chapada do Araripe e a reserva ecológica do Fundão. Se um dia tiver força política poderá alcançar o atual estágio de Osnabrück...

PADRE ÁGIO
Já chegaram os exemplares do último livro escrito por Monsenhor Ágio Augusto Moreira, com o título “Preciosismo Sangue de Cristo”. A obra foi editada graças ao apoio de Dom Fernando Panico. Mons. Ágio criou e mantém a Sociedade Lírica do Belmonte (Solibel), onde 200 alunos – filhos de agricultores do sopé da Chapada do Araripe, município de Crato – aprendem técnicas e teorias musicais. Nas horas vagas Mons. Ágio escreve livros. Já publicou: “O cajueiro”,Memória da Solibel” (dois volumes) e “Padre Davi Moreira, vida e obra”. O próximo já está pronto: “Tratado das almas do purgatório”.

BASÍLICA CARIRIENSE
Padre Paulo Lemos ultima os preparativos para a cerimônia de sagração da Basílica de Nossa Senhora das Dores de Juazeiro do Norte, a ocorrer no próximo dia 15 de setembro. Já está pronto o brasão das armas do Vaticano, confeccionado em bronze, que será colocado na fachada do templo. No interior da igreja serão colocados os desenhos dos escudos do Papa Bento XVI e de Dom Fernando Panico, conforme o cerimonial das basílicas menores. A pintura geral do templo só será iniciada no próximo mês de agosto.

GEOPARKS
André Herzog – ex-reitor da URCA e atualmente assessor da Secretaria da Ciência, Tecnologia e Educação Superior do Ceará (SECITECE) – encontra-se em Osnabrück, na Alemanha, participando da 3ª Conferência Mundial de Geoparks. O evento começa hoje, 22, e será encerrado no próximo dia 26. Herzog é membro do Conselho Científico dessa 3ª Conferência. O Estado do Ceará enviou uma proposta (que será analisada durante a conferência) reivindicando a Região do Cariri como sede da 4ª Conferência Mundial de Geoparks, a ser realizada em 2010. Abaixo, dois tópicos da bem elaborada proposta do governo do Ceará:

TÓPICO 1
“O Cariri possui a maior reserva fossilífera do mundo. Uma prova concreta de que essa vocação abriga importantes riquezas que vem de milhões de anos. E não são somente
tesouros arqueológicos que o Sul do Ceará guarda. A região também se destaca pela diversidade cultural e artística; pela exuberância da natureza e o crescente desenvolvimento econômico. Com uma população que já ultrapassa um milhão e duzentos mil habitantes, ocupando um território de 27% do Estado, o Cariri está localizado em uma posição bastante privilegiada, fazendo divisa com os Estados de Pernambuco, Paraíba e Piauí, estando, praticamente, eqüidistante às principais capitais nordestinas”.

TÓPICO 2
“A riqueza cultural é uma marca do Cariri. A pluralidade artística faz dessa região um pólo produtor de diversos tipos de manifestações: os versos do cordel, os desenhos
talhados na matriz das xilogravuras, as esculturas em madeira, argila. Em Juazeiro do Norte, o Centro Cultural Mestre Noza abriga artesãos de vários municípios, além de promover a exposição permanente dessas obras. Em Nova Olinda, o Museu do Homem Kariri, integrado à Fundação Casa Grande, expõe peças que resgatam a história dos primeiros habitantes da região.
Em Barbalha, acontece uma das mais tradicionais manifestações populares do Nordeste: a Festa de Santo Antônio ou, como é popularmente conhecida, a “Festa do Pau da Bandeira”. Milhares de fiéis vão às ruas para homenagear o padroeiro da cidade e também para acompanhar o desfile de um grande tronco de madeira, medindo mais de 20 metros, que é carregado por centenas de devotos. Sem falar na devoção do seu povo ao Padre Cícero Romão Batista, líder religioso tido como santo, que transformou Juazeiro do Norte no terceiro centro de peregrinação do Brasil”.

CURTAS

– O suplente de deputado Victorio Galli, que é pastor Evangélico da Assembléia de Deus, tão logo assumiu o cargo apresentou um projeto de lei (ora tramitando na Comissão de Educação e Cultura da Câmara Federal) com a finalidade de retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. Quem quiser protestar contra essa insanidade é só entrar no site: www.familia.org.br

– O próximo dia 29 assinalará o 7º aniversário da posse de Dom Fernando Panico como bispo da diocese de Crato. Figura simpática, elegante, simples e atencioso, desde 2001 ele vem interagindo com os seus diocesanos, ao tempo que promove significativas iniciativas na diocese.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Houve mudanças em Cuba? - por Armando Rafael

"Embarcaram na conquista de um sonho, mas só encontraram o pesadelo" - Alina Revuelta, filha de Fidel Castro


A nota a seguir foi publicada no site da revista “Veja”, nesta 6ª feira,dia 20:

“Os ministros de Relações Exteriores dos 27 países membros da União Européia decidiram nesta quinta-feira retirar as sanções diplomáticas que impõem a Cuba. A intenção manifestada pelas autoridades européias é de abrir o diálogo, depois das reformas políticas e econômicas implantadas pelo novo governante cubano, Raúl Castro. Entre as condições que os ministros europeus impuseram ao regime cubano em troca do fim das sanções estão a libertação de todos os prisioneiros políticos, o acesso à internet para todos os cubanos e a permissão da viagem de todas as delegações européias à ilha, reunindo-se tanto com a oposição quanto com os membros do governo. A UE se comprometeu ainda a "destacar perante o governo cubano seu ponto de vista sobre a democracia, os direitos humanos universais e as liberdades fundamentais", e a pedir que se respeite a liberdade de expressão e de informação. República Checa e Suécia foram relutantes em aprovar a medida, argumentando que Cuba deveria melhorar a situação dos direitos humanos antes do fim das restrições”.

Meu comentário:

O Reino da Suécia e a República Checa têm razão. Com muito estardalhaço, divulga-se que Raul, o novo ditador cubano – oriundo da dinastia Castro – promoveu três medidas de impacto em benefício da miserável população da ilha-cárcere. Quais seriam essas mudanças? O povo poderá ter livre acesso aos hotéis de Cuba (antes restrito aos turistas) e poderá comprar, a partir de agora, computadores e telefones celulares. Afinal, Cuba – o ícone das esquerdas jurássicas – deixará de ser o único país das Américas a não dispor desses benefícios.
Entretanto, dói dize-lo, a ilha-prisão continua, no mais, como dantes. Os cubanos – mesmo a minoria que recebe dólares de parentes residentes nos EUA (e, com isso, terá oportunidade de adquirir computador ou celular) continuarão submetidos ao um sistema político autoritário que suprimiu a liberdade de expressão e de imprensa. Continuarão vivendo numa ilha onde é proibida a livre organização política e o direito de ir e vir.
Os avanços excepcionais da social democracia na Europa, nos últimos 50 anos, provam que a democracia é o melhor regime político para promover mudanças sociais que levam à redução das desigualdades.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

VIOLETA ARRAES GERVAISEAU

No Crato a minha família tinha laços estreitos com Maria Benigna Arraes de Alencar e seus filhos. Almina, uma das filhas de Benigna, casou-se com um irmão da minha mãe. Não foram laços formais, foram laços tipicamente de uma época além de festivamente nordestino. Diria, também, que foram lanços construídos além do ambiente familiar. Foram laços humanísticos: laços que se enraízam na vida pessoal, se nutre no dia-a-dia como dinâmica familiar e se põe em perspectiva como um valor geral de um profundo humanitarismo.

Todos os filhos de Maria Benigna praticavam um catolicismo progressista. Tinham o senso medular da solidariedade pessoal e social. Foram e ainda são livres para pensar de modo diferente das arcaicas elites nordestinas. Sempre, historicamente, associados aos movimentos libertários da sociedade e de um projeto de nação para o Brasil. A veiculação desta visão de mundo se fez com um mito político nordestino, o filho único de Maria Benigna: Miguel Arraes de Alencar.

O Crato, uma cidade profunda nos sertões do Brasil, no centro de toda a caatinga nordestina, ao mesmo tempo em que um oásis favorecido pela Bacia Sedimentar do Araripe, é um pólo de contradições. Nele vive um povo radical entre o mais profundo conservadorismo, quase colonial, e a mais dolorosa mensagem de ruptura com tudo aquilo. O Padre Cícero em que pese ter sido um fenômeno que dialogou com o "coronelismo" local, foi a expressão popular de camponeses em busca de um mundo melhor. E não foi o outro mundo que construíram: construíram uma cidade ousada, muito assimétrica, mas dinâmica em experimentos, terceiro mundista por certo, mas ao mesmo tempo em que afeita ao passado religioso, também experimental em comércio.

A casa de Maria Benigna, no início da Rua João Pessoa, certamente era um símbolo do humanismo católico. Ao mesmo tempo um pólo da influência pernambucana, especialmente recifense, na cultura local. Foi, durante a ditadura militar, certamente um dos endereços nacionais com maior sobrevivência como símbolo da resistência democrática. No Brasil moderno poucos endereços e nenhum igual no Ceará, tiveram este papel. Não foi a toa que a volta de Miguel foi rebatizada naquela casa, os principais personagens progressistas das décadas de 60 a 80 estiveram . O atual presidente Lula, que nada viveu dos sacrifícios político imediatos de 64, era ainda jovem, teve naquele endereço um de seus batismos simbólicos.

Quando a minha geração chegou à adolescência, era ali um dos endereços em que nos reuníamos. Igualmente a de outros um pouco mais velhos que por se concentraram. Ontem quando estive no velório de Violeta Arraes, pelo menos umas dez pessoas, entre mais novos e mais velhos, mas todos chegados no tempo, foram ligados ao endereço de Maria Benigna. E na verdade este texto é para falar de Violeta, seu contexto e seu mundo.

Violeta, como testemunho pessoal, sempre fez parte do meu universo afetivo. Era tia dos meus primos, freqüentou a minha casa no sítio Batateira, conheci seus filhos ainda muito pequenos, seus sogros, seu marido e tinha aquele especial sabor de conhecer-se um estrangeiro. Nós nordestinos, especialmente daquelas épocas isoladas, tínhamos verdadeiro interesse por pessoas de outros países, falando outra língua. Pierre Gervaiseau, marido de Violeta, ele francês, contou-me que ficou com dor de cabeça de tanto que as crianças gritavam com ele na ocasião em que fora ao Crato para visitar a sogra. As crianças gritavam achando que era surdo pois não as entendia.

Ontem, conversando com Guel Arraes, ele muito tocado pela perda da sua "mãe espiritual", lamentava-se da redução de referências que a morte dela lhe promovia. Em que pese a história pessoal dele, no exílio, cultivando o ambiente da casa se sua tia, onde tantos brasileiros se reuniam, na verdade se refere a algo maior. A algo que de modo resumido e certamente falho seria isso: a grande conquista, mesmo que no ambiente de conflito, dos trabalhadores e dos camponeses do século XX; as novas idéias de solidariedade social e econômica; finalmente um projeto de país a partir da revolução de 30 e todo ambiente de progresso que se viveu depois disso.

Foi assim que uma geração de brasileiros, extremamente preparada, com uma aguda visão estratégica do Brasil e seu povo em relação ao plano da economia mundial conflitou-se nas décadas de 30 e 40. E mais importante de tudo, esta geração deixou herdeiros em muitas gerações depois dela. Uma herança de pessoas que compreendiam a condição humana, a situação de ser brasileiro, seu povo e seu território. Uma herança capaz de pensar as coisas complexas, enfrentar o debate de modo elegante, brigar com paixão por sua visão de mundo e, essencialmente, tinham uma. Hoje mesmo o Saulo Ramo, com quem não tenho simpatia ideológica, disse uma frase que os mais jovens devem refletir: É um equívoco mesmo. É falta de estudo. Eles assistem a muita televisão e lêem poucos livros.

O que ganhamos com Violeta não perderemos com o fim da vida dela. Ontem, por volta das 8 horas, num hospital em frente da Quinta da Boa Vista, antiga residência da família imperial. Por exemplo, o espírito presente, sem concessões fáceis a falsas realidades. Violeta Arraes Gervaiseau aliava percepção com ação. Não ficava desculpando-se sobre a realidade, queria agir sobre ela. Fosse isso uma questão ambiental, econômica, social ou cultural. Assim como se fosse uma pessoa com alguma necessidade. Tinha o princípio de servir ao próximo, tão forte no cristianismo ao mesmo tempo de revolucionar a ordem injusta tão comum das visões generosas do futuro.

Quando alguns se preparam para um dolci farniente, Violeta Arraes, depois de ter sido secretária de Cultura do Ceará, de ter a amizade com importantes personagens da vida nacional, foi enfrentar a dificuldade de uma pequena Universidade regional. Tudo por amor a sua terra, a seu território, à sua Chapada do Araripe. Aliás, Violeta Arraes não nasceu no Crato, era de Araripe e fazia questão de frisar tal origem, mas poucos cratenses tiveram a coragem de retornar a sua terra para enfrentar adversidades. Não foi fácil. As novas gerações ignoravam aquela mulher e seu papel. A academia é um local de conflitos intra corporis; tende a murar-se em relação à realidade externa. E Violeta queria uma universidade voltada para o Desenvolvimento Sustentável do Araripe. Tudo isso num estado pobre, numa instituição com poucos professores, pouca formação acadêmica e imensas necessidades. Ninguém das gerações mais novas toparia, naquela altura de sua vida, tendo a visibilidade conquistada, se perder no interior do Brasil, enfrentando incompreensões, conservadorismo, paroquialismos e, principalmente, a necessidade de fazer acontecer o que os governos até então não conseguira.

O Crato hoje perdeu uma filha, mas ganhou a mensagem de um futuro. Como transformar isso em caminho é o que se deve continuar. Não tenhamos dúvida, além da elevação do nível de vida dos mais pobres em todos os sentidos, a outra perna do projeto nacional passa pelo acordar do interior. É deste Brasil profundo e distante do litoral que a nação terá o seu renascimento. Com ele vigoroso, o senso de humanidade ficará mais equilibrado e de mais fácil compreensão. Assim é possível que especialistas tenham a visão inequívoca da humanidade e do país e que valores que contribuem para o pensar e agir sejam estabelecidos como uma realidade universal. Comum a todos os brasileiros.

"Diário do Nordeste": Perda - Luto na cultura cearense

O cenário cultural cearense fica mais pobre, com a partida de Violeta Arraes Gervaiseau. A intelectual que dirigiu a Secult e a URCA faleceu ontem, no Rio de Janeiro, aos 82 anosInternada desde 8 de maio, dia de seu 82º aniversário, Violeta Arraes se despediu ontem, às 7h55. Portadora de câncer de pulmão, faleceu, segundo familiares, vítima de pneumonia e de infecção, no Hospital Copa D´Or, no bairro da Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro, contando com o acompanhamento de amigos e parentes. Entre eles os filhos Maria Benigna, Henry e Jean-Paul, e o marido, o francês Pierre Maurice Gervaiseau, 83 anos.
Uma perda difícil de mensurar, não apenas pela extensão do legado de Violeta na direção da Secretaria de Cultura do Governo do Estado e da Universidade Regional do Cariri, cargos pelos quais costuma ser mais recorrentemente lembrada. Mas principalmente pelo sem-número de causas abraçadas, brigas compradas, projetos realizados e amigos cativados. Da juventude no Cariri aos tempos de militância em Pernambuco, chegando à Europa, onde sua casa, de hospitalidade bem à cearense, era refúgio para brasileiros exilados, como ela, na capital francesa em que Violeta conviveu com intelectuais como Celso Furtado e Jean Paul Sartre.
Secult e URCA

Convidada para assumir a Secretaria de Cultura do Governo do Estado em 1988, no primeiro governo de Tasso Jereissati, Violeta Arraes manteve um discurso de procurar ir além da produção de obras e eventos, desenvolvendo um conceito mais amplo de cultura - para além dos produtos culturais. Já em 1997 assumiu a Reitoria da Universidade Regional do Cariri (URCA), para a qual já contribuíra em bandeiras como a defesa do reconhecimento da Chapada do Araripe como área de proteção ambiental. Ali permaneceu até 2003, mantendo a ênfase em uma atuação que, transcendendo a academia, reforçasse a cultura cearense. A mesma que agora se vê entristecida com sua adeus.

PENSAMENTOS DE VIOLETA:


'Sou a última irmã de sete filhos. Tive todas as vantagens e desvantagens de ser a última´


'Meu irmão Miguel Arraes teve uma grande influência na minha formação´


'Meu grande choque cultural não foi a Europa, mas sim o Rio. Sair do interior para morar numa capital daquele tamanho me chocou muito´


'Uma das catástrofes do Brasil foi o esvaziamento do interior, por uma visão de desenvolvimento desvirtuada e pela falta da reforma agrária´


'Não tenho nada contra os Estados Unidos, um grande país, mas esta macaquiação, nas praias, nos bares, é de um mau inglês. Nossa língua é desvalorizada´


'Ninguém sabe o que é estar na sua casa, na sua terra, e ser colocada para fora. É um trauma muito violento´


'Sair teve seu lado positivo porque me fez ter consciência da formação que tive em casa e na universidade, sentindo-me, além de sertaneja, cidadã do mundo´
O CEARÁ DE VIOLETA ARRAES
A ex-secretária de cultura teve uma administração criticada, mas foi firme nos seus projetos, principalmente na reforma do TJAComeçava o primeiro governo Tasso. A cultura cearense, ainda, vivia sobre a mentalidade construída durante anos pelos militares. Tudo para os amigos do rei. Para os inimigos, nada. Depois de uma rápida passagem de Barros Pinho pela Secretaria da Cultura, Tasso convidou um peso-pesado nacional: Violeta Arraes Gervasieu. Sua posse na Secult foi festejada mais por artistas nacionais, que locais. Revistas e jornais de todo o País cobriram a sua posse.Violeta Arraes tomou posse na Secretaria de Cultura em julho de 1988.
Foi uma das posses mais concorridas já vistas no Ceará. Além de artistas como Gilberto Gil - que, na época, afirmou que Violeta era uma “companheira de reflexão” e do cineasta Luís Carlos Barreto - a posse de Violeta - foi prestigiada por três governadores: Waldir Pires, da Bahia; Miguel Arraes (seu irmão), de Pernambuco e José Aparecido, do Distrito Federal.Depois da festa, a luta.
Violeta desgostou muitos artistas locais. Desconstruiu eventos - um deles o Festival de Cinema de Fortaleza, tendo à frente Euzélio Oliveira e Francis Vale. Pensou em transformar o Ceará, juntamente com Marcondes Rosa, num pólo de cinema. Juntou-se a cineastas de porte nacional tendo à frente Luís Carlos Barreto. Recebeu severas críticas dos artistas locais, descontentes com os rumos da cultura. Críticas amenizadas pelo seu fiel escudeiro, o jornalista Blanchard Girão, sub-secretário de Cultura. Ela sempre dizia que tinha um cheque em branco do governador e colocaria em prática suas idéias sobre cultura.Agiu de forma livre. Foi a primeira a pensar sobre a revitalização do centro da cidade. Fez uma grande reforma do TJA. Trouxe grande nomes do teatro e do cinema. Pela primeira vez, o elenco do Theatre du Soleil pisou no Ceará, especialmente em Fortaleza. Em meio a muitos planos, algumas questões políticas quase a tiraram da Secult.
O então apoio de Tasso ao governo Collor de Melo desgostou Violeta. Ela pensou em abandonar o barco. Mas com o desenlace político da questão - Tasso voltou atrás - o nó político foi desfeito e ela continuou a dar soberanamente as cartas da cultura no Ceará.CríticasNão ligava para as demandas dos artistas locais, nem para as críticas da imprensa - justas ou não. Pulso forte, Violeta nunca deu bolas para críticas. Sempre argumentava: “Tenho um cheque em branco do governador”. Não apenas o “cheque em branco” a fazia agir sem amarras na Secult, mas o seu passado.Irmã de Miguel Arraes, carregava um passado também de luta contra os militares. Militou na Juventude Católica em Pernambuco. Era conhecida como Viola - e foi expulsa do Brasil no rastro do irmão governador.
Foi amiga de intelectuais e artistas. A lista é grande. Só para citar alguns: Jean Paul Sartre, Almino Afonso, Celso Furtado, Samuel Wainer, Juscelino Kubitscheck. Hospedava os exilados em sua casa, na França.Quando secretária de Cultura do Estado, Violeta, cearense de Araripe, criada no Crato, morava no Hotel Esplanada. O seu apartamento no hotel marcava uma mulher sempre presa às raízes cearenses. Era cercada de objetos da cultura popular cearense. Além, é claro, de livros, muitos livros. Política, romances e folclore. As obras de Drummond e a Bíblia eram seus livros de cabeceira.
Numa longa entrevista ao Diário, em setembro de 1990, Violeta sempre tinha um pensamento recorrente: o Nordeste e a sua rica cultura. Quando perguntada sobre o seu maior desafio à frente da pasta respondeu:— O que enfrentei foi um tipo de mentalidade ou de concepção em relação a cultura que do meu ponto de vista é redutor, com ranços acadêmicos. Para mim, a cultura é o chão que pisamos. Por isso, lançamos a proposta de revitalização do centro da cidade, o que pareceu para muita gente, uma aberração.Sempre com um olhar no futuro, ela nunca esquecia do passado. Mesmo quando patrocinou em Fortaleza o extinto FestRio, um festival de cinema que reuniu estrelas nacionais e internacionais em Fortaleza.
Por isso, enfrentou um turbilhão de críticas. Mas parecia nunca se incomodar. “ Eu fui, sou e sempre serei criticada. A posição que tomei foi, sobretudo, fortificar às instituições culturais - para mim a melhor maneira de servir a cultura. Mesmo quando o Theatro José de Alencar foi interditado para reformas houve muitas críticas. Afirmavam que eu ia fechar o teatro por razões políticas e não pelo risco real do desabamento do teto do foyer”.Respondia, ainda, as críticas de forma bem humorada - “o fato é que encontramos uma secretaria em estado lastimável. Sempre pensei que viesse fazer animação cultural, mas na verdade acabei por me transformar num vigia de obras“. Dizia isso porque enfrentou a ´reconstrução´ do TJA, da Biblioteca Pública e da Assembléia Provincial e parte do Palácio da Abolição.Pólo de cinema.
O principal projeto de Violeta não vingou: a transformação do Ceará num pólo de cinema. Foram intermináveis reuniões com os maiores cineastas do pais sobre o assunto - Luís Carlos Barreto, Hermano Penna, Walter Lima Junior, Nelson Pereira dos Santos, entre muitos outros.O pólo foi um fracasso. Um sonho quixotesco. Nunca tivemos, aqui, como pensava Violeta Arraes, nossa Los Angeles. Sua administração não foi de pequenos eventos, mas de grandes eventos. Para muitos, uma estratégia de marketing do governo. Eventos como o FestRio, afinal, geraram uma grande exposição do governo cearense na mídia nacional.Violeta não veio para agradar. Nem a gregos, nem a troianos. Enfrentou crises. Choques culturais e políticos na sua trajetória. Não só como Secretária do Estado do Ceará. Mas na sua trajetória de vida.
Foi marcada por dois pólos - o cristão e o marxista. “Do ponto de vista cristão fui influenciada pela ação católica”.E o marxismo? “Eu diria que é preciso refletir, estudar muito. As transformações são imensas. O que há é uma crise total das ideologias. O pensamento de Marx, transformado em estrutura de Estado, está claro, que foi um desastre. Agora, o pensamento de Marx em si é uma aquisição que não se põe um traço em cima”.
Tinha orgulho do Ceará. Disse, aliás, que se emocionou com uma frase do governador Tasso Jereissati durante sua posse na Secult. “Ele afirmou na ocasião que, quando esteve na França, nunca viu uma casa tão cearense , nem mesmo no Ceará. Era a rede, os objetos de arte popular, os livros sobre o Ceará”. O Ceará tão caro a Violeta Arraes...
José Anderson Sandes
Editor

VIOLETA ARRAES: UM RAIO DE LUZ QUE SE FOI, MAS QUE SE FEZ CARNE E ESPÍRITO ENTRE NÓS

Bernardo Melgaço da Silva

Acabei de ler o texto do meu querido amigo André Herzog (que foi cruel e impiedosamente demonizado pelos seus adversários na URCA) a quem respeito e considero muito. Fiquei comovido com suas palavras de esclarecimento sobre o raio de luz feminino chamado Violeta Arraes.
Confesso que nada sabia de sua bela trajetória humana. E por isso reconheço o quanto ela fez de monumental para todos nós brasileiros. Cada ser humano é como uma lanterna, se fechada em si nada ilumina, entretanto, se aberta em si mesma ilumina a todos. O mérito é de cada um em abrir ou fechar a lanterna interior. E com certeza sinto que ela foi uma luz brilhante que com maestria iluminou a escuridão de muitas almas desejosas de guerra, conflito e sangue. Ela não radicalizou, não magoou, não desrespeitou e não humilhou ninguém. Foi guerreira sem ser radical e desrespeitosa. Foi mais do que humana – foi Luz!Eu admiro a natureza humana que sendo guerreira, não violenta e não desrespeita a natureza alheia, mas acolhe quem se aproxima.
Eu aprendi a reconhecer a luz que sai de quem viu em si mesmo o poder de se superar e confiar nos seus passos, apesar das críticas e dos ataques covardes que são feitos por aqueles que obcecados pela natureza pequena do ego, passa por cima dos valores nobres espirituais. O pouco que convivi com esta senhora pude perceber que ela se mantinha fiel aos princípios humanos transcendentais.
Ainda me lembro uma vez que ela me procurou para solicitar que reescrevesse com letras maiores um texto que fiz. Ela havia se tocado com minhas palavras – a sua humildade mostrou para mim quanto era diferente daqueles que se aproveitavam de sua imagem e cargo para tirar proveito político e acadêmico.É lindo ver a trajetória de homens e mulheres que decidiram não passar pela vida em brancas nuvens. São verdadeiras jóias preciosas que Deus colocou no mundo para que possamos tomar como referência do caminho espiritual. Mas, infelizmente muitos ainda não perceberam que a grande vitória da existência humana não é vencer ou humilhar o outro semelhante inimigo ou adversário.
Buda já dizia há milhares de anos: “Não existe conflito entre o bem e o mal, mas entre a sabedoria e a ignorância...é mais fácil vencer um ou mais inimigos numa batalha ou em várias delas do que vencer a si mesmo”.Parabéns Violeta Arraes, seus amigos irão sentir saudades e seus adversários reconhecerão em ti a guerreira de luz que com certeza fostes. Eu sei por vivência própria que a vida criadora tem um propósito maior do que apenas ser humano, temos que ser mais – muito mais! – e deixar uma semente de amor, fé, perdão e compaixão nesse deserto humano. Mas, Dom Hélder Câmara escrevia em seu livro: “O Deserto é Fértil”. Um verdadeiro paradoxo! Recebemos a semente quando estamos abertos para o milagre divino que se manifesta em cada ser humano.

E em ti, minha querida senhora, posso reconhecer nas palavras de HERZOG que sua semente será cultivada por todos aqueles que se abriram para sua luz sabedoria – criadora!Um dia quem sabe do outro lado da existência todos nós possamos celebrar juntos a vida transcendental de Deus. A senhora não morreu – apenas voltou o seu foco de luz para o outro lado da vida. Obrigado!
Prof. Bernardo Melgaço da Silva – (88) 9201-9234