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sábado, 8 de agosto de 2009

Ninguém pode dizer: CORONEL DE MERDA

Esta é velha que só a Serra do Araripe. Ninguém na rua Dr. João Pessoa teria coragem de soltar um palavrão com todos os decibéis possíveis em cordas vocais humanas. Ninguém mesmo. Nem o mais valente dos valentes. Mas driblavam. A sociedade é cínica e corajosa ao mesmo tempo. Leva-se a sério a ponto de matar, mas nem vira a página e já está na esculhambação.

Quem se lembra de Antônio Corninho (Cornin)? Era escalado pela sociedade séria do Crato para soltar palavrões na João Pessoa. Então qual era o motivo de quem o enfurecia. Ouvir os palavrões de todos os tamanhos e qualidade. As mulheres de família, as meninas virgens, os irmão de São Vicente ouviam tudo num silêncio de aceitação da loucura. Afinal todos eram simultaneamente e não eram. O quê? Loucos e Machado de Assis tinha dito. O Alienista.

Agora veja vocês aquela porcariada toda no plenário do Senado e alguém chamou o outro de CORONEL DE MERDA e pronto a república vai cair. Os jornais tiveram a desculpa para repetir a expressão por todos os lugares da notícia. Já chamaram o caminhão de secar fossa para levar o material fecal até a mesa da Comissão de Ética.

Mas chamar o homem de CORONEL pode, não pode é adjetivar: excremento, fezes. Quem iria rebaixar o coronel com tantos serviços na folha corrida em favor da humanidade? Especialmente em prol daquele povinho para o qual costumam usar a derivação de sentido do vocábulo em julgamento ético: acúmulo de lixo; sujeira, imundícia, porcaria, sujidade?

Mas a defesa do agressor pode recorrer ao dicionário. Vá lá que no calor da discussão ele apenas quis dizer que aquela postura e argumento eram do coronel dizendo: coisa desprezível, sem valor, porcaria. E então a defesa do Coronel pode na mesma tábua dos significados repetir que o agressor usou o termo no sentido de caracterizar o coronel como “coisa insignificantes, que não presta para coisa alguma”. E isso o coronel não aceitará, pois ela já nasceu melhor que os outros, tem até jatinho para ficar mais perto do céu.

Mas como o cinismo é a substância desta melopéia fétida, o que diz a defesa: aquilo foi apenas uma “expressão de raiva, desprezo, impaciência, irritação, decepção, indignação, desespero”. Agora os agressores e agredidos permanecem no melhor compartimento da nave brasileira. Afinal, lembra a defesa, tudo aqui é teatral. Tudo recorda o palco, no momento em que os atores vão para a difícil cena da vida e para exprimirem desejo de boa sorte a todos gritam: MERDA. MERDA.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

O "guerreiro" Sarney no "picadeiro do circo" político



Por Carlos Rafael Dias

Visivelmente nervoso e, consequentemente, pouco à vontade, o senador José Sarney começou o seu discurso fazendo um relato de sua longa vida política. Disse que, ainda no início da Ditadura, a despeito de a ela ter aderido na ante-hora, ele foi contra a cassação de deputados. Mostrou e leu, inclusive, uma manchete de um jornal da época atestando seu comportamento politicamente correto. Alegou que foi ameaçado de morte muitas vezes por essa sua postura combativa. Nos estertores desta mesma ditadura, no entanto, ele abandonou a “moribunda” e, faça-lhe justiça, apoiou decisivamente a candidatura de Tancredo Neves à Presidência da República no Colégio Eleitoral. Foi escolhido para ser o seu vice, e como tal assumiu a magistratura suprema da nação por conta da morte de Tancredo.

Em seguida, Sarney enumerou os seus feitos como presidente, dentre outros, o fracassado Plano Cruzado, a moratória junto ao FMI e a Lei de Incentivo à Cultura. Não citou, por exemplo, que foi o principal interessado na emenda constitucional que prorrogou o seu mandato para cinco anos, usando de algumas moedas que não foram cunhadas na oficina pública da política.

Sarney usou o tempo todo do papel da vítima. Segundo ele, não fez nada que pudesse provocar a atual crise política. Foram simplesmente perseguições políticas, maldosas e cruéis, que não lhe pouparam ao menos a intimidade do lar. Pigarreou, embargou a voz, fez menção de que as lágrimas rolariam a face sofrida de uma vida política que só lhe trouxe agruras e nenhuma vantagem. Tentou explicar o que eram os atos secretos. Admitiu que somente cerca de 500 atos não tramitaram na Rede Intranet do Senado. Disse que anulou todos os atos neste ano, com anuência da Mesa Diretora da Casa (pois não teria a autoridade para anulá-los sozinho). Disse , também, e é importante citar, que não foi o responsável por todos os atos. Dividiu a culpa com os demais ex-presidentes da Casa: Jader Barbalho, ACM, Ramez Tebez, Edison Lobão, Renan Calheiros, Garibaldi Alves, Tião Viana.

Esclareceu que as nomeações sem concurso público foram pedidos de Senadores. Assumiu o nepotismo na nomeação de um parente, estendendo o pecado a outros senadores (disse que é uma ação privativa de cada senador). Gaguejou quando, usando o data-show, tentou lembrar de Vera Portela (foi nomeada pela sua filha Roseana) e, lembrando quem era, disse que não aceitaria que uma culpa passasse da filha para o pai.

O seu Estado é o Amapá, portanto não assumirá erros cometidos por políticos do Maranhão, mesmo que seja sua filha, ex-senadora. Continuou gaguejando e titubeou quando passou a limpo o restante da lista, onde abundou o sobrenome Zoghby (de quem se trata?. Uma busca no Google poderá ser bastante esclarecedora). E Ivan Sarney... Ele não tem nada haver com sua nomeação, nem com o namorado da neta nem com outras em que fortes indícios as associam ao seu nome.

Fez um longo silêncio....

E como não poderia deixa de ser, culpou a mídia, ou, como quer Paulo César Amorim, o PIG (Partido da Imprensa Golpista), denunciando, inclusive, o uso de montagem, onde sua voz foi imitada (ou substituída), em casos em que o associava ao escândalo Satiagraha .

Disse, empunhando um DVD, que poderia divulgar algo escabroso, mas por questão de ética, não iria divulgar, ameaçando que assim faria se alguém pusesse a acusação na sua boca (tem bode na sala? Ou é mais uma bravata?).

Suas palavras derradeiras foram: “Austero, sem arrogância, com respeito por todos e pela boa convivência”.

Disse ser a favor de combater a injustiça pelo silêncio, e a favor que a paz seja restaurada no Senado, sem ódio e sem paixão política.”

Pediu justiça para sair da crise e que a Casa retorne ao ambiente tranquilo.

Foi o seu último apelo.

Poeta Wilson Bernardo é expulso do PT – Partido dos Trabalhadores


O poeta, escritor, fotógrafo e desenhista Wilson Bernardo, um dos mais ilustres artistas da cidade do Crato acaba de telefonar para o Blog do Crato e comunica que ontem recebeu uma carta de expulsão do Partido a que ele pertenceu por muitos anos. A alegação é a mesma da colega de partido, Alessandra Bandeira: - Pelo fato de Wilson Bernardo trabalhar para a administração Samuel Araripe, que é do PSDB, e portanto, estaria a "apoiar governo que contraria os princípios programáticos do partido".

Wilson disse ao telefone que deseja conceder uma entrevista completa sobre o assunto, ao Blog do Crato, e se diz perseguido pelo seu partido. Acrescenta:

"Trabalhar nunca foi crime! Desde quando trabalhar é crime ? Então só o Sr. Amadeu de Freitas tem seu emprego garantido no INCRA porque foi convidado por uma pessoa do seu partido, porque que eu não posso ter direito a ter um único trabalho, apenas por ter sido convidado por uma pessoa que é de outro partido mas que acredita e conhece o meu trabalho ? Porque que o PT nunca pôde dar trabalho a ninguém, só a 3 pessoas dentro do partido ?"

Wilson acrescenta ainda que "foi pêgo de surprêsa" com a notícia, e que está sendo covardemente atacado por pessoas em que ele jamais imaginou serem capazes:

É uma covardia, o que o PT está fazendo comigo!" - Acrescenta.


Reportagem: Dihelson Mendonça
Fonte: Cariricult

PT do Crato pune membro do partido por este trabalhar para Samuel Araripe, que é do PSDB



Membro do Partido dos Trabalhadores está sendo intimada por "apoiar governo que contraria os princípios programáticos do partido".

Crato. A militante do Partido dos trabalhadores, Alessandra Bandeira, que é considerada pelo público, uma das grandes representantes dos movimentos de reivindicação feminina e luta na cidade do Crato, e do próprio partido, recebeu no dia de ontem ( 04 ), uma intimação no mínimo, sui generis: A de apresentar defêsa para não ser expulsa do PT, o Partido dos Trabalhadores, apenas pelo fato de a mesma haver sido contratada como profissional e historiadora para a Fundação J. de Figueiredo Filho ( Museus do Crato ), na administração cratense de Samuel Araripe ( PSDB ).

Em recentes entrevistas ao Blog do Crato, Alessandra já havia relatado que estava se sentindo ameaçada e perseguida por alguns integrantes do seu próprio partido, e que a qualquer momento, poderia até ser expulsa. O clima de aparente perseguição política ( segundo a mesma ), já vem sendo orquestrado desde que ela foi contratada por sua especialidade ( História ), para a Fundação J. de Figueiredo Filho, que dentre outras atividades, mantém o Museu Histórico do Crato, e o Museu de Arte Vicente Leite. Em nota postada na tarde de ontem no site Blog do Crato, diz Alessandra:

"Venho aqui em público para deixar claro que não entregarei defesa nenhuma, mas que isso, para mim, e para muitos, a certeza de que isso é uma perseguição clara é nitida. Alegar que aceitei trabalhar para o prefeito Samuel, quando estava desempregada e precisava colocar comida no prato de meu filho, e que me sinto satisfeita é motivo de desfiliação?"

Há vários dias o também militante do Partido dos Trabalhadores Wilson Bernardo, que também faz parte do quadro de funcionários da Prefeitura do Crato se sentiu ameaçado pelo seu partido, sob alegativas de trabalhar para outra administração diferente do PT. Entretanto, assim confidenciou Wilson:

"...Eu quero é que eles tentem me tirar do PT ! - Que Eu irei dar nomes aos verdadeiros Bois..."

O posicionamento do Partido

Em resposta à nota de Alessandra Bandeira, de que não apresentará nenhuma defêsa sobre a intimação, o integrante do Partido dos Trabalhadores, Amadeu de Freitas, um dos grandes do partido, também publicou uma nota dirigida à Alessandra:

"A Comissão Executiva Municipal do PT está cumprindo o Estatuto ao notificá-la para que se defenda da acusação de “apoiar governo que contraria os princípios programáticos do partido. ...”

E ainda:

"A questão não é de ser contra você trabalhar e ganhar dinheiro para criar sua família. Como você mesma faz questão de divulgar, está trabalhando para Samuel e não para a Prefeitura Municipal do Crato. Claro, você não foi aprovada em concurso público. Por isso mesmo exerce cargo a convite do Prefeito."

Amadeu de Freitas

Alessandra ainda se defende, afirmando que isso é certamente, um absurdo, pois entende que o trabalho honesto em qualquer local e a convite de quem quer que seja, para exercer uma função da sua especialidade, é sempre motivo de dignidade e sensatez.

Diferentes posturas

Há alguns dias, o Blog do Crato consultou o Prefeito Samuel Araripe para saber qual a sua postura em relação a trabalhar com pessoas de diferentes partidos e ideologias políticas, marca da sua administração, em que se constitue de pessoas de inúmeros partidos contrastantes. Samuel assim falou à nossa reportagem:

"Meu caro Dihelson, quando eu procuro um profissional, um trabalhador, eu não estou interessado se aquela pessoa pertence a partido A, B ou C. Eu procuro pessoas pela competência delas. Pela sua especialidade. Passadas as eleições, eu entendo que numa cidade como o Crato, todos nós temos que tratar de trabalhar pela cidade, e não pensando em politicagens. O Crato já sofreu muito por causa disso. Portanto, eu tenho o maior carinho por todas as pessoas que trabalham nos nossos quadros e ESPECIALMENTE, quero frisar, pelas pessoas que são dos outros partidos. Aqui, o nosso partido é o Crato. Não quero de forma nenhuma que as pessoas mudem de partido não! Pelo contrário, eu vejo como muito benéfica a participação de outras idéias e atitudes que venham somar ao nosso município. Eu tenho o meu partido, mas eu defendo que cada um acredite naquilo que seu coração lhe orienta...contanto que veja no trabalho a mais clara integração do ser humano, pois o trabalho reúne todos as crenças. O ser humano precisa ser valorizado independentemente de onde ele se encontre. Bom, isso é o que eu penso. É por isso que aí você vê que nós trabalhamos com gente de todo tipo. A única coisa que se pede, é que as pessoas exerçam suas especialidades porque foram contratadas. Repito mais uma vez: O Crato é o nosso maior partido. É isso que precisamos entender e defender."

Samuel Araripe.

Reportagem: Dihelson Mendonça

terça-feira, 4 de agosto de 2009

DEM e PT mantêm pedidos de afastamento de Sarney


Marcela Rocha

Em reunião da bancada nesta terça-feira, 4, o DEM decidiu não fazer novas representações contra o presidente do Senado José Sarney (PMDB-AP) e manter seu pedido de afastamento do cargo. Um dos líderes do DEM, Antônio Carlos Magalhães Jr. (BA) deixa claro que esta é "uma posição partidária" e que votou contra.

Diferentemente do DEM, o PT "não precisou se reunir". Segundo explica o senador Eduardo Suplicy (PT-SP), a posição do partido já estava definida: "Recomendaremos ao presidente José Sarney que se licencie, se afaste, para que ele possa exercer o seu direito de defesa".

O senador petista conta que "não há maiores preocupações em relação aos posicionamentos do presidente Lula: "Ele respeita a decisão da bancada do PT no Senado, não há problemas quanto a isto".

A Terra Magazine, ACM Jr. detalha deliberações da reunião do DEM:

- Nós não apresentaremos nenhuma representação no Conselho de Ética e queremos a apuração de todas as denúncias e representações feitas contra o presidente da Casa. Se alguma for arquivada o partido recorrerá.

"Não vamos aceitar qualquer tipo de ameaça que seja feita", diz o senador do DEM em referência à "ameaça" feita pelo PMDB no plenário desta segunda-feira última. Na sessão, os aliados do presidente Sarney revelaram que preparam dossiês sobre senadores da oposição.

Nesta manhã, os líderes das bancadas do DEM, PSDB, PDT, PSB e PT se reuniram no gabinete do senador Sérgio Guerra (PSDB-PE) para discutir a crise no Senado.

O partido de ACM Jr. foi a única sigla da oposição que não entrou com representação ou denúncia contra o peemedebista, acuado por denúncias de envolvimento com atos secretos e nepotismo.

Fonte: Terra Magazine

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

COMISSÃO DISCUTE CENTENÁRIO DE JUAZEIRO DO NORTE

Quarta-Feira, dia 5, a comissão organizadora responsável pelo planejamento do Centenário de Juazeiro do Norte deve se reunir mais uma vez para tratar de assuntos ligados as comemorações dos 100 anos de emancipação política da cidade.

Em pauta vão ser discutidos os detalhes de um encontro na capital com os membros da AFAJ(Associação dos Filhos e Afilhados de Juazeiro do Norte ) e a avaliação do lançamento da festa do centenário. O Coordenador Executivo e Secretário de Turismo e Romarias de Juazeiro, José Carlos dos Santos, pede aos juazeirenses que tiverem alguma sugestão para apresentar nos festejos do centenário podem enviar sua mensagem para centenáriojuazeiro@gmail.com.

A discussão vai ser coordenada pelo presidente da Comissão Geraldo Menezes Barbosa no Memorial padre Cícero às 19 horas.

Fonte: http://www.jornaldocariri.com.br/

terça-feira, 28 de julho de 2009

Raízes históricas da rivalidade entre Crato e Juazeiro

Por Carlos Rafael Dias*

Os antagonismos entre as duas principais cidades caririenses parecem ter no processo de emancipação política de Juazeiro e na Sedição de 1914 os seus momentos de maior tensão. Isso sem ignorar a posição contrária do clero cratense aos supostos milagres de Juazeiro, um antecedente que veio a fermentar esta rivalidade. Da mesma forma, deve se considerar, como um importante fator dessa tradicional rivalidade, a ascensão econômica de Juazeiro, já no início do século xx, fruto das crescentes romarias. Por sinal, este foi o argumento das lideranças juazeirenses para motivar a campanha pela autonomia daquele que na época era um mero distrito do Crato. No entanto, a maior motivação pró-emancipacionista foi a insatisfação decorrente dos impostos cobrados, em benefício do Crato, sobre as receitas do comércio de Juazeiro.

Se havia toda uma matéria-prima pré-fermentada para o confronto, faltava quem se dispusesse a instigar a massa para a causa emancipacionista. Esse papel foi exercido pelos editores do jornal O Rebate, semanário que circulou entre julho de 1909 e agosto de 1911. O principal objetivo do órgão era divulgar a causa Juazeirense contra as acusações desferidas pela imprensa do Crato que qualificava o Juazeiro como antro de fanatismo e banditismo. Como um desdobramento da propaganda anticratense, a população, mobilizada, boicotou o pagamento de impostos recolhidos ao Crato.

Juazeiro foi elevado a município em 4 de outubro de 1911, quando Padre Cícero foi empossado como prefeito, fato que o iniciou oficialmente na vida política. Neste mesmo dia, foi assinado em Juazeiro o famoso Pacto dos Coronéis, uma tentativa de pacificar a região, bastante tumultuada pelas violentas deposições de coronéis por outros coronéis, com uso de milícias particulares formadas, notadamente, por jagunços e capangas.

No final de 1913, um senador cearense enviou, através do então deputado federal Floro Bartolomeu, uma carta ao Padre Cícero onde era tramada a deposição do coronel Marcos Rabelo, eleito presidente do Estado do Ceará ao derrotar o grupo do oligarca Nogueira Acióli, que governou com mão de ferro a província por longo tempo. Um ano antes, Padre Cícero tinha iniciada uma longa troca de telegramas com Franco Rabelo. Nos primeiros contatos, Padre Cícero refutava a informação de que ele estaria preparando um levante contra o governo do Estado. A denúncia, que o padre considerava uma intriga de políticos adversários, poderia resultar numa intervenção armada em Juazeiro por parte do governo estadual.

A sedição para depor Franco Rabelo irrompeu, como assim já se anunciava, no dia 8 de dezembro de 1913, com o desarmamento, em Juazeiro, de um destacamento da polícia do Estado que teria a incumbência de prender ou matar Floro Bartolomeu. No dia seguinte, vários políticos juazeirenses, como o prefeito João Bezerra de Menezes, sucessor do Padre Cícero, refugiaram-se no Crato. E o Crato virou alvo da milícia que Floro Bartolomeu recrutou entre famosos e temidos celerados vindos de várias partes do Nordeste.

Os cratenses, logicamente, sentiram-se ofendidos com a invasão. Testemunhos dão conta que os sediciosos, sob o comando de Floro Bartolomeu, teriam invadidos e saqueados residências e estabelecimentos comerciais, mesmo contrariando a ordem do Padre Cícero de que não houvesse violência e que deixassem livres algumas estradas que permitissem a fuga daqueles que não quisessem lutar.

Esses episódios conjugados são os principais vetores da rivalidade que vez por outra é requentada, principalmente, na ocorrência de polêmicas que envolvem a destinação de investimentos públicos dos governos federal e estadual para a região. Quando os grandes investimentos são alocados em benefício do Juazeiro, os cratenses se queixam da intervenção de um “conciliábulo do mal” formado pelos adversários da cidade.

Há quem diagnostique que toda essa problemática deriva de duas doenças adquiridas e que teimam parecer congênitas. Enquanto os cratenses são vítimas de uma letal “juazeirite”, os juazeirenses foram acometidos de uma incurável “cratite”. O mal é, pois, intrínseco ao antídoto: rivalidade só se cura com união de interesses que venham igualmente beneficiar as populações das duas cidades. Sem inveja, sem mesquinhez, sem retrocesso.

Um remédio? A recém-criada Região Metropolitana do Cariri, que deve ser prescrita sem contra-indicações, apesar dos possíveis efeitos colaterais que podem causar em pessoas de espírito bairrista.

* Professor do Departamento de História da Universidade Regional do Cariri – URCA.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Sarney se apequenou diz Tasso em entrevista à Época




“O Sarney se apequenou”. Esse é o título da entrevista publicada na edição desta semana da Revista Época (circulação nacional), com o senador Tasso Jereissati. Nela, o ex-governador cearense fala da crise no Senado e dos fatos envolvendo o presidente da Casa, José Sarney.
Amigo no passado, o senador diz que o presidente do Congresso representa hoje uma “coisa inaceitável”

A entrevista na íntegra


O senador Tasso Jereissati e o senador José Sarney já tiveram relações muito próximas – inclusive familiares. O sogro de Tasso, o empresário cearense Edson Queiroz, era amigo de Sarney. Foi sob o incentivo de Sarney que Tasso, então uma jovem liderança empresarial, entrou na política na década de 80 e virou governador do Ceará, pela primeira vez, em 1986. Quando Sarney era presidente da República, Tasso só não virou ministro da Fazenda por causa de um veto de Ulysses Guimarães. Mas a crise do Senado afastou os dois. Na eleição para a presidência da Casa, em fevereiro, Tasso votou contra Sarney. “Disse ao Sarney que ele estava representando uma coisa inaceitável”, afirma Tasso. “Ele está representando a pequenez da vida pública brasileira.”


ÉPOCA – O senhor teve relações muito próximas com o presidente do Congresso, senador José Sarney (PMDB-AP). Hoje, Sarney diz que o senhor é motivo de grande decepção para ele. Por que a relação do senhor com Sarney mudou?


Tasso Jereissati – Um dos grandes constrangimentos políticos de minha vida foi votar no Tião Viana (PT-AC, candidato à presidência do Senado em fevereiro) contra o Sarney. O Sarney tem um papel extraordinário na política brasileira. Ele levou o país a sair da agudeza do regime autoritário de uma maneira suave, que dificilmente outro político conseguiria, por causa de seu temperamento democrático. Antes da eleição para a presidência do Senado, ele me disse que não era candidato, que era uma loucura, que não tinha nem idade. Depois, mudou de ideia. Eu me preocupei com ele por estar colocando a história dele a serviço de um grupo dentro do Senado claramente deteriorado. Disse isso a ele, com enorme constrangimento, pessoalmente e na tribuna do Senado no dia da eleição. No discurso, disse a ele que enaltecia os seus aspectos posit ivos, mas que ele estava cometendo um grande erro e representando, naquele momento, uma coisa inaceitável.


ÉPOCA – O que representa o senador Sarney hoje? Tasso – A imprensa se concentrou nele, e isso é injusto, porque tem gente pior. Mas ele está concentrando todos os defeitos do nepotismo, do fisiologismo, da acomodação pessoal, do aproveitamento da vida pública para vantagens específicas. Ele está representando a pequenez da vida pública, em vez de representar o lado grande do homem público, que ele representou na Presidência da República. O Sarney se apequenou.


ÉPOCA – O senhor foi um dos amigos mais próximos do senador Antônio Carlos Magalhães nos últimos anos da vida dele. Sarney e ACM são homens da mesma geração. ACM teve de renunciar ao mandato de senador por causa de um escândalo. A presidência do Senado representa uma maldição para certos políticos? Tasso – Há uma diferença importante entre Sarney e o Antônio Carlos. Eu costumava dizer o seguinte: se você pegasse o temperamento do Sarney e juntasse a ele os homens públicos que cercavam o Antônio Carlos, você teria um dos melhores políticos do país. Mas, se você juntasse o temperamento do Antônio Carlos com os homens que cercam o Sarney, você teria um dos piores políticos do país. Apesar de serem da mesma geração, o ACM era um formador de líderes. Suas administrações sempre eram da melhor qualidade. Já o Sarney sempre se cercou muito mal.


ÉPOCA – O líder do PMDB, senador Renan Calheiros (AL), é uma dessas influências nefastas junto a Sarney? Tasso – O senador Renan Calheiros hoje controla uma boa parte do PMDB, que dá o tom no Senado. Ele é o homem forte da Casa. Essa boa parte do PMDB é um partido estranho. É um partido que não propõe chegar diretamente ao poder. Mas indiretamente, por meio de uma barulhenta maioria congressual, e assim mandar no governo independentemente da cor que ele tenha. É um partido que não faz meu gosto.


ÉPOCA – Por que o Senado chegou a essa crise tão profunda?

Tasso – O grande erro do Senado foi a perpetuação do poder do (ex-diretor-geral) Agaciel Maia por 15 anos. Concentrada na mão de um homem só, que gerenciava tudo – fazia cargos, contratos de compras, licitações, lidava com verbas enormes e secretas –, a prática de fisiologismo e concessão de favores cresceu, e o Senado virou esse monstro de 8 mil funcionários, que ninguém controla e sabe o que faz. Na campanha pela presidência do Senado, o Tião Viana trouxe uma proposta de rompimento com isso aí. O PSDB saiu da linha de oposição ao PT para apoiar o Tião Viana, porque percebemos que estava em jogo a instituição do Senado. Mas o Tião foi abandonado pelo Lula. Por isso, eu digo que o Lula está na gênese e no agravamento da crise do Senado.


ÉPOCA – Por que o presidente estaria na gênese de uma crise no Legislativo?

Tasso – O Lula adotou um sistema de poder na relação com o Congresso na base da cooptação. Ele não tem uma política de convencimento ou de doutrinação. Ele parte do princípio, que ele já manifestou uma vez, de que o Congresso é cheio de picaretas e sai cooptando, com cargos, obrinhas, emendas. Assim, ele constrói uma maioria tranquila. Uma ruptura com isso significaria se chocar com esse grupo político que lhe dá sustentação na base da cooptação. Ele fez uma opção que já tinha feito lá atrás, com o mensalão, e agora consolidou ao abandonar seu correligionário, que queria romper com isso. Recentemente, quando o próprio PT tentou dar um grito de independência, ele deixou claro: quem manda aqui sou eu, e meu sistema é esse. O Lula institucionalizou o que está acontecendo hoje no Senado.


ÉPOCA – Mas a barganha entre o Legislativo e o Executivo existia no governo Fernando Henrique Cardoso. O senador Renan Calheiros foi ministro da Justiça de FHC.

Tasso – O (então governador de São Paulo Mário) Covas chiou, e o Renan não ficou muito tempo. Essa barganha existia em seus nichos e era feita com certa discrição, uma certa vergonha. Agora, foi banalizado. Tornou-se a regra. O jogo de repartição de verbas, emendas entre prefeitos e deputados está institucionalizado. São exceções os deputados que não participam do jogo de emendas e serão capazes de voltar ao Congresso.


ÉPOCA – O senhor já teve ótimas relações com o presidente Lula. Chegou a cogitar a formar uma chapa presidencial com ele em 1994. Por que suas críticas a ele hoje são tão duras?

Tasso – Pessoalmente, eu gosto muito do Lula. Lá atrás, nós achávamos que formávamos um casal perfeito. Eles tinham a base social, e nós tínhamos os quadros para fazer um projeto para o país. Isso não foi possível. A eleição do Lula foi um avanço para o país, e o Brasil, depois do Lula, é outro. Mas, de um determinado ponto em diante, eu tive uma grande desilusão ao ver a maneira que o presidente considerava correta de se consolidar no poder. Não estou fazendo nenhuma acusação moral a ele. Mas, em cima de sua enorme popularidade, ele chancelou a canalhice, a corrupção e o fisiologismo no Brasil. Hoje, o Brasil vive uma crise moral enorme por causa disso e as instituições estão apodrecidas.


ÉPOCA – Essa crítica moral ao governo e a seus aliados não perde eco por causa de situações como a do líder do PSDB, o senador Arthur Virgílio (AM), que pediu dinheiro emprestado ao Agaciel Maia?

Tasso – Acho que foi tudo explicado pelo senador Arthur Virgílio. Diante de uma situação de sufoco, ele fez a primeira coisa que lhe veio à cabeça. Na época, não mediu as consequências disso e assumiu agora o erro. Para mostrar sua independência, ele é talvez hoje o mais agressivo entre todos os senadores na cobrança do próprio Agaciel.


ÉPOCA – O senhor usou a cota de passagens aéreas do Senado para fretar aviões. Isso não é uma vantagem indevida?


Tasso – Como não usava as passagens, acumulava um crédito a cada mês para mim. Como eu tinha esses créditos, fiz uma consulta se poderia usá-los quando precisasse fretar avião para me deslocar dentro do país. Foi-me dito que sim. O Agaciel disse que estava permitido e vários outros senadores fizeram o mesmo. Eu então usei essa verba de passagens para fretar avião. Mas, como eu tinha sido do grupo que atacava o Agaciel, eles tentaram usar essa informação para me atacar e dizer que eu usava a cota de passagens para pagar combustível de meu avião, o que não era verdade. Não tenho a menor dúvida de que agi corretamente, tanto é que quem deu às notas ao jornal Folha de S.Paulo fui eu. Mas reconheço que aquilo era uma prática que hoje a opinião pública não aceita mais. Se essa era uma mordomia indevida, então que se proíba. E agora eu não faço mais.


ÉPOCA – Qual é a solução para o Senado?

Tasso – Na primeira semana de agosto, o presidente Sarney vai ter de fazer uma proposta profunda de reforma. Não é só mudança administrativa. É mudança de hábitos e de cultura dentro do Senado. Tem de reverter toda uma cultura de mordomias e apadrinhamentos. Isso passa por uma reforma política e do orçamento. A principal arma de cooptação do governo é feita em cima da liberação das emendas parlamentares. Mudar isso não é uma coisa simples, mas tem de ter um líder que seja capaz de fazer.


ÉPOCA – Sarney tem condições de liderar essa reforma?

Tasso – Acho muito difícil. Ele vai ter de fazer um esforço pessoal gigantesco para entender a dimensão do papel que ele tem a partir do mês que vem.


ÉPOCA – Um ano atrás, a oposição era favorita na sucessão presidencial, com os governadores José Serra e Aécio Neves. Hoje, o cenário é diferente, com a ascensão da candidatura da ministra Dilma Rousseff. Qual é a chance de vitória da oposição em 2010?


Tasso – Eu nunca achei que seria fácil. O PT e o presidente Lula têm provado que sabem usar de maneira muito hábil o poder do ponto de vista político e eleitoral. O crescimento da ministra Dilma era esperado. Se você fizer uma análise, o nível de exposição da ministra Dilma na mídia nos últimos 12 meses deve ser maior que a da Xuxa, da Ivete Sangalo e do Roberto Carlos juntos.
ÉPOCA – O que o PSDB tem de fazer?


Tasso – Nós temos de ter uma definição do candidato nos próximos quatro, cinco meses. O partido tem essa obrigação. Nós não podemos ficar esperando a definição de um ou de outro candidato, conforme as circunstâncias. Nós temos de ter nosso candidato para ele mostrar que o Brasil está sem projeto.


ÉPOCA – O governador Serra lidera as pesquisas. Ele deve ser o candidato?

Tasso – O governador Serra tem grande experiência, já foi testado em nível nacional e tem o recall (memória do eleitor) de uma eleição presidencial. Está na liderança, mas não está crescendo, porque está muito recolhido. O Aécio virou uma referência de administração pública em um dos maiores Estados, tem carisma pessoal e um potencial muito grande. Com qualquer um dos dois, estaremos bem.


ÉPOCA – Uma chapa presidencial com os dois é possível?

Tasso – Uma chapa puro-sangue é possível, mas é uma hipótese remota. O problema é saber quem é o vice (risos).


ÉPOCA – O que o senhor acha da ideia de Ciro Gomes, seu aliado no Ceará, de ser candidato a governador em São Paulo?

Tasso – O Ciro tem condições de ser candidato a governador em qualquer Estado, principalmente em São Paulo. Mas minha sensação é que o Lula está doido para se ver livre dele como candidato à Presidência. O PT quer fazer uma campanha plebiscitária. Qualquer outro candidato aliado atrapalha essa estratégia.


ÉPOCA – O que o senhor fará em 2010?

Tasso – Não sou candidato ao governo do Ceará. Já fui governador três vezes. Se for candidato, serei candidato à reeleição.


ÉPOCA – O senhor não coloca isso como uma certeza?

Tasso – Acho difícil colocar. Com todas as coisas que estão acontecendo no Senado, podemos todos sair desmoralizados dessa história. Você olha a composição do Conselho de Ética e vê que aquilo está montado para virar um circo e uma farsa grotesca. Como fica nossa imagem? Eu estou muito deprimido com o que está acontecendo no Senado. Às vezes, eu sinto vergonha de ser senador.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

HONDURAS HOJE

Honduras continua uma pedra no sapato da chamada democracia Latino Americana. O golpe militar põe em dúvida este tipo de regime, em que os governos são eleitos pelo voto direto. Se não forem utilizados os argumentos que justificam um lado e outro temos o seguinte:

a) O governo Zelaya ampliou o conflito com grupos empresariais através de leis trabalhistas e do aumento do salário básico.

b) Acontece que a economia de Honduras se encontra inserida num balaio de frutas plantadas no território de diversos países cujos preços são ditados pelas grandes empresas americanas que se abastecem na agricultura local.

c) O aumento de impostos, normas trabalhistas e aumento do salário quebram a política regional das grandes empresas e Honduras passa a ter a pretensão de formar preços e condicionar custos.

d) Membros do staff de Bush Jr, em Honduras através do Embaixador Americano e da base militar com 500 militares e nos EUA com John Maccain (derrotado por Obama) e com Dick Cheney dão musculatura para a ruptura golpista.

e) Quando nos surpreendemos com a vigorosa resistência dos golpistas apesar de todas as condenações internacionais não se busque isto apenas internamente, mas na associação do valor das plantações com os remanescentes do antigo governo americano junto a um Obama afogado em problemas e muito cauteloso sobre o assunto.

f) Não foi sem razão que outro dia Obama elogiou Lula por ser um esquerdista que não provoca rupturas. Na verdade ele parecia apenas em diálogo consigo.

g) A solução do conflito hoje se encontra entre uma guerra civil (ZELAYA ANUNCIA QUE SE ENCONTRA DEFENITIVAMENTE EM HONDURAS) e uma intervenção armada externa no estilo do Haiti de Aristides.

h) A Zelaya a primeira solução é a que mais lhe interessa. Aos EUA a segunda opção é melhor, pois exclui os contendores num futuro próximo, mas Obama perdeu muito tempo e as convicções na OEA se firmaram contra o golpe.

i) Se Zelaya retomar o poder presidencial o fará na ponta de uma guerra civil, com muitos mortos e rupturas. O futuro imediato seria a formação de contras no velho estilo centro-americano.

j) O estabelecimento de um governo de ruptura em Honduras favorecerá a formação de uma política centro-americana com a Nicarágua e El Salvador. Nisso se encontra a maior motivação para a reação dos autores do golpe.

k) Neste momento também se testa a política internacional de Venezuela, Bolívia e Equador. A ruptura Hondurenha tem tudo de provocação com a atual política destes países.

l) O Brasil, Argentina e Chile têm muita importância, tanto em relação aos três países citados quanto em relação à Colômbia e Peru. O fator moderador em que um avanço em renda ocorra na América Central ocorra e se mantenha relativa cordialidade com Washington é do Mercosul.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Parque de Exposições, Xodó dos Cratenses


Dias atrás li, neste mesmo Jornal, uma matéria que falava da intenção do Governo do Estado em mudar o local do Parque de Exposições do Crato. Sem dúvida, para quem é do Crato, mora no Crato, ou pelo menos conhece o Crato, recebeu esta notícia com surpresa e certa dose de desconfiança. A proposta já amplamente divulgada e debatida pelos meios de comunicação e sociedade, base da discussão, trata da construção de um novo Parque, em local a ser definido, e a construção de um novo Campus da URCA no terreno onde hoje está o Parque. A repercussão foi imediata. Todos perguntam e opinam sobre: Quais seriam as conseqüências da possível retirada do maior referencial econômico, cultural e histórico da cidade para outro lugar? Quem garante que esse novo Parque teria a aprovação popular e dos turistas? Seu novo local não anularia a tradição do Parque atual? Caso o novo Parque fosse um fiasco quais seriam as conseqüências irreversíveis e os prejuízos irreparáveis à cidade e sua gente?

Para a população do Crato, e das cidades circunvizinhas, esta é a sua maior festa! Julho é a época do ano em que todos ressurgem para rever parentes e amigos e, sem dúvida, a “Exposição” é o grande motivo! O local é marcado pela tradição de 58 anos de romarias ao ponto de encontro de todos os cratenses, espalhados pelo mundo. É a época do ano onde os filhos do Crato se reencontram em solo conhecido, envoltos em boas lembranças, que faz com que nos reconheçamos a partir da festa que atravessou todas as fases de nossas vidas. O Parque de Exposições é um ícone da cidade que, hoje, se confunde ou forma a própria identidade do Cratense. O que aconteceria se retirássemos a Praça do Ferreira, em Fortaleza, do local onde está e a transferíssemos para o Bairro Aerolândia? Ou o Carnaval de Olinda, de Olinda? Que tal se a Torre Eiffel, em Paris, de uma hora pra outra não estivesse mais lá? É da imagem, da tradição, que nós estamos falando!

O que se há de concreto hoje é um evento, sucesso de público, acontecendo no mesmo local, ano após ano, há mais de meio século. É fato também que administrações públicas anteriores não investiram na ampliação da instalação existente no Parque, que pouco difere da inaugurada na distante década de 50. Vale salientar que a atual estrutura não equivale nem à metade do tamanho total do terreno disponível. Que a URCA precisa de um Campus maior e melhores instalações é verdade, mas isso depende muito mais de dinheiro do que de espaço. O ginásio poliesportivo que seria construído em um terreno que abriga um estacionamento improvisado durante a exposição, nunca saiu do papel. Bem como a reforma do galpão (almoxarifado da URCA), vizinho ao mesmo estacionamento, que abrigaria os gabinetes de professores do Campus Pimenta. Que a cidade precisa destes 25 milhões isto pode ter certeza! Estou certo de que todos louvam a atitude do governador de direcionar este montante do orçamento estadual para o desenvolvimento do Crato. O que precisa ser estudado é de que maneira este dinheiro será melhor aproveitado em prol da cidade.

Sugiro que as obras citadas, previstas em Planejamentos Estratégicos da URCA, sejam executadas. Sugiro ainda um estudo arquitetônico, que utilize toda a área ociosa do terreno existente, que resulte num projeto que ofereça mais conforto a demanda crescente de expositores e visitantes. E claro, não se esquecer de reservar verba para melhoria do atual Campus Pimenta - URCA. Acredito que a melhor proposta sempre será aquela que represente o atendimento dos desejos da população da cidade, maior interessada e beneficiada dos melhoramentos. Sugiro ouví-la!

Dimas de Castro e Silva Neto

Engenheiro Civil, Mestre em Gerenciamento da Construção
pela University of Birmingham e Professor do Curso de Engenharia Civil da UFC Cariri

Foto: gentilmente cedida Jornal do Cariri

sábado, 4 de julho de 2009

A beata do milagre – por Nilze Costa e Silva

Da janela da casa nº 239 da antiga Rua do Arame, hoje Padre Cícero, uma senhora me atendeu com cara de espanto, quando perguntei se lá morou a beata Maria de Araújo. Também eu me assustei, pois parecia estar vendo a própria beata, tal a semelhança entre as duas, segundo descrição que colhera nos livros: magra, pele negra, cabelos crespos. Acordei dessa fugaz viagem e antes que a “sósia” me fechasse a janela na cara tratei de explicar-lhe que estava a escrever um romance sobre a protagonista do milagre de Juazeiro e queria saber se naquela casa haveria algo sobre ela: algum escrito, uma foto, uma placa... Dirimidas as dúvidas, ela colocou os cotovelos na janela e respondeu: “Nada! Não tem nada dela aqui não”.

Esta mulher tem, talvez, a mesma idade que teria a beata antes de falecer nesta mesma casa, em 1914. Em torno de 51 anos – de novo viajei. A moradora falou ser freira, que a casa é da diocese, e que mora com outras naquele local há poucos anos. “Mas irmã, em todas as casas onde Padre Cícero morou tem lá suas marcas, seus objetos pessoais, sua história.” Animou-se e disse que sentia muito, mas que realmente não havia nada mesmo na casa, que identificasse a beata. Acrescentou saber de toda a história.
Que admirava Maria de Araújo, mas a Igreja apagou todos os vestígios para que ninguém soubesse que ela um dia tivesse existido. Proibiram até que se falasse em seu nome. No entanto, estava havendo um movimento na igreja para reabilitá-la. Que eu podia ir à Capela do Socorro e ver que existe um lindo vitral em sua homenagem, na parte de cima, junto com Padre Cícero e alguns santos. Que na entrada do cemitério acoplado à capela, há uma placa fazendo menção à morte da beata. E só, pois seu corpo desapareceu desde 1930.

Dia 28, passado, abri o jornal O POVO na página sobre o Cariri e fiquei feliz: no local onde nasceu a injustiçada beata vai ser fixada uma placa em sua memória.


Nilze Costa e Silva - Escritora

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Notinhas sobre o Cariri

50 ANOS DE ENSINO UNIVERSITÁRIO

Este ano, comemora-se o jubileu de ouro da instalação da primeira escola de ensino superior do Cariri: a Faculdade de Filosofia de Crato. Deve-se esta instituição ao idealismo do eterno reitor Martins Filho, que contou com o decidido apoio do professor José Newton Alves de Sousa. Este último reside atualmente em Salvador (BA) onde, depois de aposentado pelas universidades baianas, fundou e dirige a Academia de Letras e Artes "Mater Salvatoris". Trata-se de ilustre cratense que teve seu nome cogitado, em 2000, na relação prévia para a escolha do “Cearense do Século”. As urnas, no entanto, deram vitória a outro cratense: Padre Cícero.

MARCO ZERO DE JUAZEIRO

Juazeiro do Norte vai ter o seu marco zero, a exemplo de Recife, Curitiba e Porto Alegre. Trata-se de um obelisco que será erguido no exato local onde surgiu a cidade, fato ocorrido em 1827, a partir da construção da capelinha de Nossa Senhora das Dores, pelo Brigadeiro Leandro Bezerra Monteiro. O marco zero ficará próximo à cúpula da Praça dos Romeiros, em frente à Basílica Menor de Nossa Senhora das Dores. Naquelas imediações surgirá, também, a Rua do Centenário – localizada entre o Centro de Apoio ao Romeiro e os arcos da Basílica Menor – possibilitando o contorno para quem desce pela Rua São Pedro e retorna pela Avenida Padre Cícero.

ENQUANTO ISSO...

O obelisco do centenário de Crato, localizado na Praça Juazez Távora (popularmente conhecida como Praça de São Vicente) encontra-se deteriorado, carente de pintura, e escondido e espremido entre duas mal localizadas mangueiras, cujas raízes já prejudicaram os alicerces do monumento. O obelisco de Crato precisa urgentemente de estauração, juntamente com a praça. Esta, construída há 56 anos, até hoje, nunca recebeu nenhum melhormento ou conservação.

CARIRI SERVE DE MODELO

A Unesco vem incentivando o surgimento de novos geoparks no Brasil. Para tanto, o Geopark Araripe vem sendo mostrado como um modelo exitoso de geopark. Dias atrás, o governo do Mato Grosso do Sul e o Ipahn promoveram um evento para criação do Geopark na Serra da Bodoquena, que englobará parte da área do Pantanal matrogrossense. Para proferir palestras sobre o êxito da implantação do Geopark Araripe estiveram em Campo Grande (MS) os professores André Herzog e Alexandre Feitosa Sales, considerados os maiores conhecedores, no Brasil, nessa nova modalidade de preservação ambiental.

BOA INICIATIVA

Um escritório de arquitetura de Fortaleza está ultimando o projeto de revitalização das praças centrais de Crato, cujas obras terão início no segundo semestre deste ano. O projeto inclui a sinalização dessas praças, bem como de edifícios históricos da Cidade de Frei Carlos. As ruas centrais de Crato serão dotadas de placas indicativas onde constarão também os nomes antigos dessas vias urbanas. Aguarda-se, dentro da restauração das praças cratenses, a construção de um monumento ao fundador da cidade, Frei Carlos Maria de Ferrara.

TROCA, TROCA

Vem de longe, segundo Armando Rafael, o costume de mudanças nas denominações tradicionais de Crato. O cemitério público, construído em 1853, tinha o nome de Bom Jesus dos Pecadores. Nos dias atuais é chamado de Nossa Senhora da Piedade. Já a capela desse cemitério foi dedicada, inicialmente, a Nossa Senhora dos Remédios. Hoje no seu altar pontifica uma imagem de Nossa Senhora Rainha dos Corações. É Armando ainda quem lembra: no final do século 19, Crato possuía 11 ruas principais, denominadas de Rua de Santo Amaro, da Pedra Lavrada, das Laranjeiras, do Pisa, Formosa, Grande, do Fogo, da Vala, da Boa Vista, Nova e do Matadouro. Já as travessas possuíam os seguintes nomes: Travessa do Cafundó, da Caridade, do Candéia, da Matriz, do Sucupira, de São Vicente, do Charuteiro, do Cemitério, da Ribeira Velha, do Barro Vermelho, da Califórnia, do Pequizeiro, da Taboqueira, das Olarias, da Cadeia e do Pimenta. Tudo trocado por nomes de pessoas cujas biografias são desconhecidas da população...

PENSE NUMA BURAQUEIRA

No próximo dia 12 de julho começa mais uma ExpoCrato. Milhares de visitantes virão à Princesa do Cariri e vão se defrontar com um Crato de ruas esburacadas o que causa péssima impressão. Dentre elas: a Avenida Maildes de Siqueira, proximidades do Parque de Exposição, onde as pedras toscas dividem espaço com o que restou do asfalto. Muitos buracos existem também na Rua Ratisbona e Avenida Padre Cícero, saída para Juazeiro. Idem na Avenida São Sebastião, que dá acesso ao bairro Grangeiro. A pergunta que se impõe: ainda dá tempo a Operação Tapa Buraco visitar essas ruas?

CURTAS

– Juazeiro do Norte resgata seu passado histórico. A humilde casa de taipa onde nasceu a beata Maria de Araújo era exatamente onde hoje fica o prédio dos Correios. A Prefeitura de Juazeiro, em parceria com o governo federal vai afixar uma placa em memória da Beata (...)

– Desde a última quarta-feira, 24, está circulando no Cariri o nº. 27 da revista “A Província”, publicada graças aos esforços e idealismo do jornalista Jurandy Temóteo. A nova edição bateu o recorde em número de paginas: mais de duzentas (...)

– Perguntar não ofende: como anda o cronograma de construção do Metrô do Cariri, de apenas 13 quilômetros de via férrea, interligando os municípios de Crato e Juazeiro que o Governo do Ceará anunciava para entrar em operação em 2009? (...)

– Serão abertas no próximo dia 18 de julho as comemorações do centenário de Juazeiro do Norte. A data marca os cem anos de lançamento do do jornal “O Rebate”, criado pelo sacerdote cratense padre Alencar Peixoto para lutar pela independência política de Juazeiro, à época distrito de Crato (...)


As viaturas do Programa “Ronda do Quarteirão” já estão no pátio do 2º Batalhão Policial Militar, em Juazeiro do Norte, onde será implantado nesta segunda-feira, em solenidade com a participação do governador Cid Gomes e do prefeito Manoel Santana.


JUAFORRÓ

Com certeza o Juaforró deste ano bateu todas as expectativas. Para agitar ainda mais aqueles que gostam da festa, o prefeito Manoel Santana anunciou que em 2010 que Juaforró terá 30 dias. Vale registrar nesta coluna que Elba Ramalho disse durante show que realizou no Juaforró deste ano, que o evento de Juazeiro não deve nada ao São João de Caruaru.


A URCA sediou um evento fundamental par ao atual momento do Cariri. O anúncio, por parte do presidente da Agência Nacional de Petróleo, Haroldo Lima, do início das pesquisas geológicas para saber se há ou não petróleo no Cariri. O evento contou com a participação de prefeitos caririenses, deputados, e com a presença do senador Inácio Arruda (PC do B), um dos políticos que mais lutou para que as pesquisas acontecessem.




O secretário Camilo Santana, do desenvolvimento agrário, vem trabalhando fortemente para o sucesso da Expocrato 2009, que deve alcançar em termos de negócios mais movimentação financeira do que a Expocrato do ano passado.

Coletivo Camaradas vai se transformar em ONG

O Coletivo Camaradas tem feito um trabalho de resgate da atividade de artistas plásticos, abrindo espaço para intervenções artísticas em vários espaços urbanos e discutindo a importância da arte engajada.

Esse esforço levou à formação do blog do coletivo, tendo como colaboradores artistas plásticos, músicos, poetas, escritos, jornalistas e cronistas. Para aprofundar o debate sobre a importância do resgate da cultura regional, o coletivo vai agora se transformar em uma Organização Não-Governamental (ONG).

Para Alexandre Lucas, coordenador do coletivo, esse é um processo de amadurecimento natural do coletivo, que precisa avançar na formatação de projetos e ações de incentivo a uma intervenção cultural que privilegie o regional. A assembléia de fundação da ONG se dará no próximo sábado, 4 de julho, ao ar livre, no bairro Gesso, em Crato.

Esse bairro, aliás, é o mote do filme “Cabaré – Memórias de uma Vida”, produzido por integrantes do Coletivo Camaradas. Após a fundação da ONG o filme será exibido “no meio da rua” como definem os integrantes do coletivo, para que toda a comunidade acompanhe a película.

Concurso público em Juazeiro do Norte

Estão abertas as inscrições para o Concurso Público de Juazeiro do Norte. O período para as inscrições começa hoje (29/06) e se encerrará no dia 17 de julho de 2009.
A Prefeitura de Juazeiro do Norte está ofertando 766 vagas distribuídas em 12 secretarias do município, com salários de até R$ 4.500 Reais. As inscrições devem ser feitas, exclusivamente, pela internet, no endereço eletrônico: www.cev.urca.br.

A taxa de inscrição é de R$ 40 Reais para ensino médio e R$ 80 reais para ensino superior. Estão isentos da taxa de inscrição, Doadores de Sangue conforme Lei Estadual 12.559/95, e todos os servidores que comprovem que possui algum tipo de vínculo funcional com o Município de Juazeiro do Norte, conforme Lei 2.193, de 23 de maio de 1997.

O cartão de identificação do candidato, deverá ser entregue de 02 a 09 de agosto, e as provas serão aplicadas no dia 16 de agosto.
O Edital do Concurso com todas as correções já está disponível para downloads no site da Prefeitura de Juazeiro do Norte: www.juazeiro.ce.gov.br

Tipos populares do Crato (5)

Capela

O Crato sempre foi uma terra de contrastes. A elite convive (até certo ponto) com os seus subprodutos: bêbados, homossexuais, prostitutas, mendigos e loucos.

Dentre esses subprodutos, um homossexual impôs respeito tanto pela dignidade como pela valentia. Era Capela, um espécime alto, corpulento e de cor branca. Não tenho certeza, mas parece que ele trabalhava nos inúmeros cabarés existentes além da linha férrea, que era um verdadeiro divisor entre a boa sociedade cratense e a aquela que era taxada como a pior das escórias.

Em 1983, estávamos eu, Jackson Bola Bantim e Leonel Araripe, fazendo a pré-produção de um filme que pretendíamos realizar na bitola super-8. O filme já tinha um roteiro escrito (de autoria de Leonel Araripe) e até um título, que fazia jus ao seu enredo vanguardista: Um lance de dados, numa alusão ao poema de Mallarmé. O filme só não foi concluído por falta de verba.

Mas, num dos estudos de iluminação e locação, feito ao amanhecer, nos trilhos próximos da Estação da Rffsa, encontramos Capela, que não sabíamos se vinha chegando ou se ia indo embora, pois havia cabarés nas duas direções. Mas, fizemos algo temerário: pedimos para Capela posar para uma fotografia.

Ele, amavelmente, consentiu e até fez pose.

domingo, 28 de junho de 2009

Os governos das Américas e o Golpe Militar de Honduras

Hoje um grande teste para o momento original que vivem as Américas. Com Barack Obama nos EUA, os presidentes de Esquerda pela América Latina. Além do mais eleições para alternância de poder, derrotas e vitórias. As Américas vivem de fato um novo tempo?

Então vem o golpe de Honduras. Irá se sustentar? Sabemos que nenhum golpe de Estado se sustenta sem apoio de Nações Estrageiras fortes. Durante a noite vamos observar as falas dos presidentes das repúblicas nos três continentes. Amahã vamos sentir as medidas práticas.

O grande teste é o seguinte: se de fato os golpistas mantiverem o poder e ele não for restaurado ao presidente eleito, tudo o mais se reverte. Em saltos da história não é possível conviver simultaneamente com a afirmativa e a negativa na mesma frase.

sábado, 27 de junho de 2009

Desastre de um transgênico ou um crime ambiental? - por José do Vale Pinheiro Feitosa

O mundo, seja no reino mineral, animal ou vegetal, é um dispersor de diversidades. Especialmente nos reinos animal e vegetal. O papel do homo sapiens sobre a natureza é inquestionável pela global capacidade de modificação que teve e mantém. Uma das mais evidentes é a agricultura e a pecuária.

Ao se tornar sedentário, aquele homem de caça e colheita, foi de encontro à natureza: funcionou como um redutor de diversidades. A monocultura, como a soja, a cana, a laranja, a uva entre tantas, é o exemplo mais acabado e que se encontra na raiz da extinção de espécies e, portanto, da diversidade na terra.

Não é por acaso que os estudos se voltaram para um elo perdido da humanidade, para a pré-história, quando outros alimentos, mais ricos que os atuais, eram utilizados. Um caso clássico é o do Amaranto a grãos.

O Amaranto a grãos foi cultivado há cinco mil anos pelos povos primitivos do México, junto com a abóbora e a pimenta. Na cultura Asteca o Amaranto se destaca como uma grande fonte de nutrientes, de qualidade terapêutica e ritualística. Eram aproveitados os grãos até como farinha para diversos alimentos como os tamales e das folhas se faziam molhos deliciosos.

Como rito a farinha do Amaranto era oferecida no panteão dos deuses astecas e simultaneamente comidas pelos fiéis como se faz com o pão na comunhão com o cristo. Desta mesma farinha se fazia uma pasta com qual se elaboravam artesanatos para as crianças recém-nascidas, com motivos de flechas, arcos etc.

Segundo pesquisadores, o rito com o Amaranto e o abandono do seu cultivo decorreu da perseguição cristã e da imposição seletiva pelas escolhas dos conquistadores europeus. O Amaranto virou uma erva daninha da monocultura do século XX em todas as Américas, especialmente nas grandes extensões de soja.

Mais do que uma vingança vinda da pré-história o que passo a relatar é uma comprovação daquilo que a soberba e a ganância monopolista do capital faz. Falo da questão da agricultura e da criação de animais geneticamente modificados (TRANSGÊNICOS). Como sabemos objeto de grandes discussões científicas, por vezes até mesmo extremadas.

Qual o núcleo duro e racional da cautela com a manipulação e dispersão destes organismos geneticamente modificados? A primeira delas era o monopólio que as empresas de manipulação genética passariam a ter na produção dos alimentos da humanidade. Com isso tornando a iniciativa privada o cárcere dos países e dos povos. Tudo pelo lucro e a humanidade como suserana.

A segunda tinha por base a possível hibridização entre os seres geneticamente modificados e os demais. Em outras palavras, genes modificados poderiam migrar para outros seres vivos, inclusive de espécie diferente. Os grandes manipuladores negaram isso e “compraram consciências”, pois este era, inegavelmente, um fenômeno evidente na natureza: a transferência contínua de genes intra e entre espécies.

A terceira era a seleção natural. Desde muitos séculos (não apenas com Darwin que sistematizou o conceito) que se conhece o poder da seleção natural. Como também se conhece o poder ainda maior num território de monocultura, já que a seleção além de ocorrer velozmente, termina por ser substituída por uma ou poucas espécies.

Mesmo assim grandes Multinacionais como a MONSANTO, velha conhecida das lutas pelo Meio Ambiente, foi em frente e as plantas geneticamente modificadas se espalham pelo mundo todo. No Brasil a estratégia destas empresas foi corroendo por dentro das instituições e dos plantadores até que por força violenta do fato consumado, se estabeleceu.

Agora nos EUA se comprovou a migração de um gene da soja geneticamente modificada, chamada Roundup Ready para o Amaranto. Aquele mesmo que alimentava os Astecas e se tornaram a erva daninha incontrolável da cultura de soja. Como funciona a estratégia da Monsanto?

A Monsanto descobriu e produziu o Roundup, um herbicida que destrói qualquer erva daninha, inclusive a soja. É o que se chama um herbicida total. Num segundo passo a Monsanto manipula geneticamente a soja, introduzindo um gene que resiste ao Roundup. Um negócio das arábias: ganha no grão para plantio e torna cativo o plantador ao seu herbicida.

Aí aconteceu o que negavam, agora se pode afirmar e a Monsanto tem de responder por isso nos tribunais: houve hibridação entre a soja e o Amaranto. Agora só dar Amaranto, muito mais “competente” que a soja no processo de seleção natural. Os campos que antes eram de soja, agora são de Amaranto. Já se identificaram nos EUA cinco mil hectares e outros cinqüenta mil estão sob ameaça.

Tem uma saída. Sem a Monsanto por ganância, a civilização que renegou o Amaranto nos seus primórdios, agora o terá no prato. Modificado geneticamente, mas certamente livre do herbicida e da concorrência com outras espécies.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Tipos populares do Crato(4)

Tandor

Não tenho a mínima idéia da origem ou do porquê do nome Tandor. Também, os vocabularistas mais recentes não o citam. Só resta, pois, a lembrança dos que o ouviram e que o associam a um velhinho de cor negra, de cerca de um metro e meio de altura e que percorria, serelepe, as ruas do Crato, vestindo um traje exótico que lembrava um cangaceiro extemporâneo. Usava um chapéu de couro, uma espécie de farda de brim azul, de onde pendiam um sem-número de enfeites, como medalhas e fitilhos, calçava uma sandália “currulepe” e, no peito e ao redor da cintura, entrelaçavam-lhe cartucheiras que, em vez de balas, acondicionavam vidrinhos com líquidos de diversas cores. Nestes vidrinhos estavam o meio de vida de Tandor, que ele batizou como “mijo de moça”, e os vendia como se fosse uma panacéia para espinhela caída, mau olhado, dor nas juntas, coceira, pereba etc.

Dizia-se que Tandor, quando jovem, tinha sido cangaceiro ou jagunço. Essa informação pode ser um mito, construído a partir da representação que ele assumiu a partir de suas veste. Ou pode ser verdade.

Na década de 1970, Emerson Monteiro dirigiu um filme em Super-8, intitulado Terra Ardente, no qual Tandor foi um figurante, fazendo justamente o papel de um jagunço.

terça-feira, 23 de junho de 2009

Tipos populares do Crato (3)

O Brigadeiro

Com a simples menção deste nome - O Brigadeiro -, nós, crianças do bairro Buenos Aires, tremíamos de medo. Isso por conta das histórias (ou seriam estórias?) que se propalavam ao seu respeito. Eram histórias que o pintavam como um homem duro, implacável, violento e, por conseguinte, bastante temido.

O Brigadeiro José Macedo ou simplesmente O Brigadeiro, como era comumente conhecido no Crato, já era um militar reformado quando eu era criança. Talvez, tenha sido o único cratense a atingir a mais alta patente da Aeronáutica Brasileira Enveredou-se na política, candidatando-se, em 1972, a vice-prefeito, na chapa encabeçada por Walter Peixoto, que depois seria prefeito do Crato por duas vezes. Era também proprietário de terra e de um engenho de cachaça. Sua casa ficava a poucos metros da minha, na Rua da Cruz, cercada por muros altos e portões sempre fechados.

Por trás da sua casa, havia (e ainda há) um belo e extenso palmeiral, conhecido ainda hoje como o Palmeiral do Brigadeiro; formado por centenas de babaçus nativos e constituindo-se numa preciosa reserva ecológica. Se esse palmeiral ainda existe, o mérito é do Brigadeiro, que além de preservá-lo, legou esta missão aos herdeiros.

Durante o período da minha infância, quando era vizinho do Brigadeiro, não me lembro de tê-lo conhecido pessoalmente. Só vim conhecê-lo no fim da adolescência, quando o Brigadeiro já estava no ocaso da vida e era um assíduo frequentador da Praça Siqueira Campos.

Uma única vez, eu conversei com ele. Foi na Loja Bolart, de propriedade de Jackson “Bola” Bantim, no início da década de 1980. A Bolart era uma loja especializada em artigos culturais (discos, livros, pôsteres, cordel, jornais, revistas, camisetas temáticas) e plantas e peixes ornamentais. A loja, situada na Rua Mons. Feitosa, próximo à Praça Siqueira Campos, era ponto de encontro de artistas, que naquele tempo, estavam órfãos de espaços aglutinadores dos amantes da arte e da cultura.

Um dia estava tomando conta da loja, a pedido de Jackson Bantim, que teve que dar uma saidinha, e eis que chega o Brigadeiro. A despeito de sua idade avançada, era um homem forte, esbelto, ereto e elegante. Depois de olhar as mercadorias expostas nas prateleiras, deteve-se em frente a um pôster de Che Guevara, com aquela clássica foto de Alberto Korda e a famosa frase “hay que endurecer, pero sin perder la ternura jamás”. Chamou-me e me disse: burro, este rapaz! Deixou um futuro promissor como médico para ser guerrilheiro em Cuba.

Na época, este comentário seria uma afronta à minha pessoa e às minhas crenças políticas, calcadas que eram na ideologia de esquerda. No entanto, apenas achei graça daquela observação.

Do lendário Brigadeiro José Macedo, não se poderia ouvir outra coisa.

O Irã não pode ser examinado com imbecilidades

Não por acaso lembrei-me do substantivo “maniqueísmo”. Um dualismo religioso, citando a luta cósmica entre o bem e o mal. Nasceu na Pérsia e se espalhou pelo Império Romano entre os séculos III e IV DC. O Irã atual é descendente do fabuloso império Persa, bem que igual se diz que a Itália descende de Roma, mas guardada a diferença história estamos falando do possível. E o maniqueísmo é como a imprensa ou a mídia Ocidental trata os valores dos quais, em parte, é responsável e que depois se espalhou pelo mundo.

Esta mídia que aparenta um zelo pelos fatos, mas escorrega no próprio umbigo quando tenta olhar seus valores transpostos para outros povos. Mas não apenas escorrega, levanta um olhar maniqueísta em que o bem é sempre o ocidente e o mal os outros. De fato a ética ocidental nunca superou o problema da alteridade e procura transpor “cirurgicamente” suas instituições para terceiros.

Neste dias as lágrimas de crocodilo se derramaram a sorrelfa pelos monitores de televisão. O filho do antigo Xá do Irã expôs copiosas lágrimas nas páginas chorosas do Ocidente. Ontem mesmo no Jornal Nacional, tão neutro que transmite as notícias de Israel como se sabe inimigo do Irã, entrevistava um Israelita de origem Iraniana e este chorava lágrimas “amargas” pelo povo do Irã. Parece ironia, mas não é, pois os Palestinos são vítimas de Israel e lágrimas pelo vizinho não existem.

A Inglaterra que não tem nenhum perdão da história pelo massacre de culturas pelo mundo todo, que mandou soldados destruir o Iraque recentemente, é o núcleo de tenebrosas visões. Deseja o domínio do Islã, melhor dizendo dos lagos subterrâneo daquele líquido preto e viscoso que se formam em imensa região. Ninguém efetivamente pensa no povo do Irã, apenas nas vantagens do seu território, por isso mesmo o corpo ensangüentado da jovem baleada é o símbolo do sacrifício tão útil para justificar ações que mutilam.

Será que alguém em sã consciência imagina que o discurso inusitado do Presidente Francês no Parlamento, condenando a burca e levantando a liberdade das mulheres não tem nada com esta jovem iraniana? É a mesma coisa, a velha propaganda maniqueísta ocidental, que se constitui numa peça única em todas as agências de notícias do mundo e por isso mesmo uma peça urdida e aplicada em benefício da surrada democracia européia.

Mesmo quem nasceu após a segunda guerra mundial desconfia que os Europeus pouco tenham a ensinar de globalização ou sistema mundial de paz e democracia. Destruíram suas florestas, arrasaram seus ecossistemas, esgotaram seus recursos, se expandiram agressivamente por todos os continentes e realizaram as guerras mais terríveis que resultaram em carnificinas sem igual em qualquer continente. Os norte-americanos apenas acrescentaram a eficácia da tecnologia e a eficiência de suas instituições a este mesmo modelo.

Sem dúvida que o Irã passa por grandes transformações. Que ela nasceu seguramente da revolução que derrubou o Xá. Ou nos tornamos todos imbecis ao não observar que os bons níveis de educação alcançados naquele país foi justamente uma política deliberada de anos e anos da revolução? Apenas a título de exemplificação, hoje mesmo a Miriam Leitão no Bom Dia Brasil, falava na conquista da mulher iraniana. Claro que o resultado de apenas 4% de mulheres analfabetas naquele país, em que 55% das vagas universitárias sejam ocupadas por elas faz parte de uma política de anos de incentivo à educação feminina. Ou estamos obnubilados e imaginamos que a morte daquela jovem significa que o regime persegue as mulheres. Entendemos o maniqueísmo?

É importante que se entenda o seguinte: o Irã há anos tem um projeto de nação. Já foi agredido pelo Iraque por financiamento do EUA, é ameaçado pela potência nuclear de Israel e desde alguns anos para cá é ameaçado pela Europa e os EUA por desenvolver energia nuclear. E sabem o motivo? É que tudo no Irã tem projeto de longo prazo, para cinqüenta anos adiante. Conheci quadros dos organismos internacionais que se admiravam da visão estratégica de todas as instituições iranianas.

Mais ainda, o Irã tem milionários (Rafsajani, aquele que já mandou por lá é um burguesão clássico e se opõe ao atual presidente), tem um capitalismo em ebulição e tem pobres e trabalhadores explorados. Nada diferente do resto do mundo “globalizado”. Mas o Irã tem plano estratégico e tem muitos viés que unem seu projeto, inclusive atraindo esta classe média que aparentemente se rebela. Um outro fato inegável é que o Ocidente em crise pouco oferece a quem tem problema. O Irã já se junta ao esquema de aliança da Ásia, se aproximará dos BRICs e portanto da América Latina e da África.